41MECATRÔNICA ATUAL Nº 2 - FEVEREIRO/2002

Paulo Eduardo Pansiera Siemens

Restauração

Talvez este seja o conceito imediatamente mais absorvido pelo leitor, pois é praticamente impossível encontrar alguém que nunca observou uma reforma num apartamento ou casa, ou mesmo naquela mobília danificada pelo tempo. Aí está o elemento chave causador da deterioração natural do equipamento: o tempo. Em máquinas operatrizes, adicione o ambiente agressivo, com névoa ácida ou saturação de óleo de corte no ar, como um segundo agente natural de deterioração.

A verdade é que não podemos parar o tempo e nem retirar os equipamentos desses ambientes, onde os mesmos estão locados para produzir. Então, o que fazer? Como amenizar sua deterioração ?

A resposta chama-se “manutenção”. Algumas plantas dispõem de equipes de manutenção as quais suportam as necessidades das máquinas, garantindo sua performance original em um número expressivo de anos e turnos.

A freqüência da manutenção é diretamente proporcional à vida útil do equipamento, porém o custo acumulado não. Diversos casos provam que uma única intervenção a cada 2 anos é muito mais custosa do que o número equivalente de intervenções trimestrais. Quando a manutenção ocorre em freqüência trimestral ou inferior, ela é considerada como contínua.

Contudo, se a freqüência de intervenção for muito baixa, ou praticamente só existir em casos de emergência, daí o equipamento corre o risco de sofrer parada geral, obrigando então a proceder com sua completa restaur ação.

Este conceito deve, pois, ser entendido como uma simples recuperação das condições originais da máquina, que foram afetadas pelo ambiente e tempo.

Reforma

Além do fator ambiente e tempo, o equipamento “envelhece” pelo desgaste devido ao atrito de suas partes. Na ampla aplicação de máquinas operatrizes, os deslocamentos dos carros se dão com contato e deslizamento de uma parte metálica contra a outra.

Muito foi feito na busca do deslizamento ideal, aquele onde o coeficiente de atrito é nulo. Existe um grande desenvolvimento no campo de rebolos especiais para retífica que, em união com lubrificantes adequados, formam os requisitos necessários para a construção de um par de superfícies deslizantes onde o coeficiente de atrito relativo é bem baixo, ou residual. O resíduo do coeficiente de atrito é responsável pelo que chamamos de zona de interferência. Com o movimento relativo de uma parte sobre a outra, as lâminas de metal de ambos os materiais que pertencem à zona de interferência sofrem um

A Ciência do

Retrofitting Conceitos Básicos

Tenho visto uma série de anúncios e revistas especializadas onde se oferecem serviços de

Reforma, Retrofitting, Atualização e Restauração, algumas vezes combinados, outras misturando conceitos. Em suma, procurando a definição desses conceitos em diferentes fontes, certamente haverá cruzamento e superposição de informações.

Como tema aqui, seguem definições para esses quatro conceitos e uma esquematização de como todos se relacionam.

MECATRÔNICA ATUAL Nº 2 - FEVEREIRO/200242 desgaste simultâneo, porém proporcional à sua dureza para cada parte, reproduzindo um efeito ampliado semelhante ao de uma lixa d’água sobre madeira.

Conforme já mencionado, devido ao baixo coeficiente de atrito neste caso e à dureza elevada dos materiais, o desgaste combinado acumulado em anos fica na casa do milímetro, o que é muito para este tipo de equipamento de precisão. Infelizmente, mesmo com uma manutenção rigorosa em termos de limpeza de guias e sua lubrificação, é impossível evitar o desgaste por atrito, o que compromete a performance da máquina. Nessa situação, nada melhor do que parar imediatamente a máquina para uma desmontagem e reforma com correção da geometria e remoção de folgas.

Veja que quando se pára a máquina para uma reforma, deve-se então aproveitar o tempo parado para também executar toda a restauração. O custo e tempo total para uma reforma é superior ao consumido para uma restauração.

Para uma definição mais direta, o conceito reforma deve ser aplicado sempre que se apresentarem problemas de desgaste de partes por atrito, causadas pelo uso prolongado do equipamento.

Em linhas gerais, Reforma é um conjunto de atividades que contém todos os elementos praticados na Restauração, adicionados a atividades de recuperação geométrica.

Atualização

Considere que o seu equipamento acabou de passar por uma reforma completa. Assim, a capacidade produtiva original da máquina foi recuperada, no entanto, pense também que ao final da reforma, a demanda da planta está para um tipo de aplicação que a máquina mesmo reformada, não pode atender.

Veja o caso de uma família pequena, de apenas um filho, onde um carro pequeno é suficiente para o transporte diário. Quando a família cresce, aquele carro pequeno já não é mais adequado e o primeiro pensamento é a troca do bem.

Dependendo do porte e valor da máquina, o mesmo raciocínio pode ser aplicado aqui. Uma situação clássica é a da necessidade do aumento de produção com o mesmo equipamento. Uma máquina de operação manual, como o próprio nome induz, produz literalmente no ritmo de seu operador.

Se o operador é habilidoso então, seguramente, o volume produzido será maior no mesmo intervalo de tempo. Na otimização, o que se tem é uma máquina automática e dedicada à aplicação.

Neste ponto surge uma pergunta imediata: Partindo de uma máquina cuja performance não atende a demanda necessária, qual atitude tomar ?

De pronto, a idéia de aquisição de um novo equipamento, mais adequado, parece a mais certa. Entretanto, pelo investimento que essa compra representa, uma alternativa é agregar recursos a essa máquina de forma a capacitá-la para atender a demanda. Este é o conceito da Atualização: agregar recursos a um equipamento de forma que ele se adeqüe à nova demanda. A figura 1 representa os conceitos abordados de forma bem direta.

Retrofitting

A indústria automobilística norte-americana, fornecedores e sub-fornecedores de autopeças, formam um grupo extremamente conservador na seleção de equipamentos para suas linhas.

Marcas de sucesso, tradicionais nas plantas, são o melhor cartão de visita e argumento de seleção de compra de um novo equipamento. É necessário um grande esforço de publicidade para convencer o comprador a substituir aquela “conhecida” marca de equipamento por um novo produto. Sem dúvida, uma das características mais fortes do consumidor norteamericano é sua aderência a essas marcas.

Por outro lado, algumas fábricas de máquinas de sucesso nas plantas norte-americanas já não estão mais em atividade, e isso fez surgir um segmento de prestação de serviços de recuperação e adequação de “velhas” máquinas à nova realidade da indústria.

Como resultado da prestação desse serviço, começaram a aparecer máquinas modernizadas, que possuem marcas de companhias que estão fora do mercado há anos.

Como extensão, realmente, não houve uma preocupação com o funcionamento ou não dessas companhias para a execução dos serviços de recupera- ção e adequação. Figura 1 – Conceitos.

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Sem citar fabricantes, há um exemplo conhecido e até publicado pela AMT, sobre um torno vertical, cujo trabalho executado por uma empresa local de engenharia gerou um produto final de performance muito superior a qualquer modelo de linha.

Daí, em parceria com o fabricante, a empresa de engenharia foi contratada para administrar e participar do lançamento e estratégia de manutenção desse novo equipamento.

Na prática, este trabalho sempre consiste de uma combinação de reforma com atualização, e foi batizado no mercado americano como “Retrofitting” – que literalmente significa – “readequar”.

Por se tratarem de equipamentos de uso freqüente, normalmente é de se esperar que além da atualização, que é o propósito principal, seja necessário também executar uma reforma.

Na década de 80 este conceito, com todas as suas justificativas para investimento, foi importado dos Estados Unidos, inicialmente aplicado dentro das plantas automobilísticas e posteriormente nos seus fornecedores locais de partes.

Essa foi também a época da disseminação da política de terceirização.

A terceirização trouxe mercado para o Retrofitting, não enxergando limites na dimensão da planta do usuário e nem a idade ou modelo/marca do equipamento.

Em linhas gerais e como definição, Retrofitting é uma atividade combinada de atualização com reforma, esquematizada conforme ilustra a figura 2.

Por ser uma prática e não uma ciência, o Retrofitting não possui postulados e normas. O que se tem até hoje são, no máximo, observações extraídas do campo e estudos de casos para comprovar a viabilidade da decisão ou não pela execução da atividade.

Em alguns anos de prática, formulei um conceito pessoal, adequado à realidade de oferta de prestadores de serviço nacionais, para elaborar propostas e auxiliar na administração de projetos, do desenho, passando pela construção, chegando à aprovação do equipamento.

O conceito é suportado pelo trinômio: Qualidade – Prazo – Custo.

Elaboração de uma Proposta de Retrofitting

Sábio é o ditado popular que diz que o “negócio é bom quando é bom para os dois lados”.

Ao final do Retrofitting, ambas, empresa usuária da máquina e prestadora contratada devem estar satisfeitas com o negócio acordado.

Como a emissão da proposta de serviço é de responsabilidade da prestadora, é extremamente recomendado que se observe que é impossível nesse ramo se obter um resultado final que contemple: baixo custo, prazo curto e boa qualidade.

Como já foi mencionado: Qualidade, Custo e Prazo são as bases deste serviço e, infelizmente, sempre teremos que sacrificar uma base para o êxito das demais.

Todo cliente gostaria de receber um orçamento com uma promessa de ótima qualidade final do produto, executado em um prazo recorde e a um custo baixíssimo.

Esqueça, isso é UTOPIA ! Como orientação: comprometa-se com a QUALI-

DADE e PRAZO DE ENTREGA, emitindo uma proposta onde essas duas bases estejam garantidas.

Caso contrário, fatalmente este será seu último serviço nesse cliente. Seria melhor não fazê-lo a sujeitarse ao descrédito.

Bons profissionais, equipamentos de usinagem e acessórios no Brasil realmente são escassos e por isso tornam-se caros.

Não existe um Retrofitting melhor que o outro. O bom é aquele que cumpre a proposta inicial.

mento do leitor.?l

Em próximas edições desta Revista, estaremos introduzindo um serviço completo, da proposta à entrega técnica do equipamento, em formato passo-a-passo, para um melhor entendi- Figura 2 – Retrofitting.

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