Cartilha recomposição florestal de matas ciliares

Cartilha recomposição florestal de matas ciliares

(Parte 2 de 3)

3º Passo: Coleta e beneficiamento de sementes

Após selecionar as espécies que serão plantadas, deve-se coletar as sementes com atenção especial aos seguintes itens:

• Identificar áreas próximas ao local de plantio, se possível, com condições de clima, solo e altitude semelhantes, onde a mata for mais bonita e desenvolvida para a coleta das sementes; • Selecionar as árvores matrizes, ou seja, aquelas mais sadias (sem deformações,

pragas ou doenças), para servir de fonte de coleta de sementes; • Marcar a posição das árvores matrizes e identificá-las com uma fita colorida ou plaqueta para facilitar sua localização em coletas posteriores; • Acompanhar o período de produção de flores e frutos das árvores matrizes;

• Coletar frutos ou sementes em várias árvores do mesmo tipo, evitando coletá-las apenas de uma única árvore e de uma única área; • Fazer a coleta dos frutos, quando derem sinal de amadurecimento, de preferência ainda nas árvores ou diretamente no chão (em alguns casos), tendo o cuidado para não misturar os provenientes de um lugar com os de outro; • Retirar as sementes dos frutos com cuidado para não estragar a semente. Deve-se retirar as impurezas, como asas, polpa, sementes quebradas, brocadas etc. Se necessário, dependendo do tipo do fruto, devem ser lavadas. • Sempre que possível, deve-se programar para, menor tempo, preparar as sementes para a semeadura. • As sementes não plantadas devem ser guardadas, sendo respeitadas suas limitações (vida longa ou vida curta) Devem ser armazenadas em sacos plásticos bem fechados e guardadas na geladeira. A forma de guardar depende do tipo de árvore, mas muitas delas, são pouco ou não tolerantes ao sol e costumam não resistir muito tempo após a colheita.

4º Passo: Produção de mudas

Existem algumas técnicas para produção de mudas, sendo as mais comuns: produção por sementes ou através da coleta de plântulas (pequenas mudas encontradas naturalmente de debaixo das árvores na mata). A forma mais prática e econômica de produção de mudas é por semeadura direta nos saquinhos plásticos, com furos nas laterais. O tamanho dos sacos depende do tamanho das sementes e do desenvolvimento das mudas. Deve-se de 2 a 3 sementes por saquinho, sendo feito o desbaste após a germinação das mudas, deixando apenas uma muda por saquinho. O substrato (terra com adubo) usado no saquinho pode ser composto por 2 partes de terra de subsolo mais uma de material orgânico (composto orgânico, esterco bovino ou de galinha etc.). Todo mês as mudas devem ser mudadas de lugar para que as raízes não saiam pelos furos e penetrem no solo. Se ocorrerem doenças ou pragas, devem ser corrigidas ainda

nessa etapa da produção, antes de irem a campo. Ao atingir o tamanho mínimo para serem plantadas, (30 a 40 cm), as mudas devem ser aclimatadas ou rusticizadas, ou seja, deixadas por um período, geralmente o último mês, sob as condições que terão em campo. Para isso deve-se reduzir as regas, o adubo e expô-las ao sol. Recomenda-se produzir mudas a pleno sol, simulando as condições que encontrarão no campo, principalmente no caso de mudas de espécies pioneiras. No caso de espécies pouco ou não tolerantes ao sol, a produção deve ser em local sombreado, com sombrite ou cobertura de palha.

5º Passo: Locais de plantio

O plantio deve ser feito nas áreas degradadas, principalmente nas nascentes, margem de rio e laçais inclinados:

Nascente Margem do Rio Locais Inclinados 6º Passo: Modelos de plantio

DDe acordo com as características do ambiente e do terreno, e a depender do uso que se dará à área, o plantio pode ser feito de formas diferenciadas. Sugerimos os seguintes modelos:

a) Sistema florestal ambiental: plantio do maior número de espécies de árvores da região, com objetivo principal de recuperar as funções ecológicas da mata;

b) Sistema agroflorestal (SAF): introdução de espécies de árvores nativas e outras de interesse econômico e não-madeiráveis (frutíferas, meléferas, medicinais etc.) em uma mesma área, visando o uso econômico futuro da área sem retirada da cobertura vegetal.

c) Enriquecimento e nucleação: introdução de algumas árvores nos espaços vazios da mata já em recuperação. As espécies escolhidas devem ter crescimento rápido e, também, atrair animais vertebrados (principalmente aves) através de seus frutos, para que sirvam como poleiros naturais e como fonte de troca de sementes trazidas de outras áreas. Assim, em pouco tempo, os espaços vazios serão repovoados por espécies diferentes. Uma variação desse modelo, é o plantio de núcleos de árvores de crescimento rápido com a mesma função do enriquecimento, como alternativa para redução de custos no projeto.

d) Isolamento: consiste em isolar com cerca, uma área com grande quantidade de mata próxima, e vegetação se recuperando naturalmente. A medida visa restringir o acesso a animais domésticos da atividade pecuária, deixando que o movimento natural dos animais e o vento leve as sementes e resulte na recuperação natural da área. Vale ressaltar que esse método, apesar de seguro e natural, é mais lento quando comparado aos demais.

7º Passo: Distribuição das mudas no local de plantio

Para entendermos como funciona a recuperação da mata ciliar destruída é necessário entender como as florestas se recuperam naturalmente. Se uma floresta for derrubada e se essa área for abandonada, as árvores voltam a crescer aos poucos, por etapas. Se houver uma mata próxima, o vento, os insetos, os pássaros e a água vão levar as sementes dessa mata para a área desmatada, permitindo que uma nova mata cresça no local.

Área com floresta

Área sem floresta

Inicialmente germinam as sementes das árvores chamadas de pioneiras, que possuem tolerância ao Sol e se desenvolvem bem em solos com baixa fertilidade. São árvores de crescimento de crescimento rápido, que sombreiam o solo e, à medida que suas folhas caem, vão adubando e melhorando a fertilidade do solo que estava apodrecido. Também frutificam mais rápido que as outras e seus frutos atraem animais (pássaros, roedores, insetos e outros), que trazem mais sementes de outras áreas, promovendo o repovoamento vegetal.

O sombreamento das árvores pioneiras (P) permite que as árvores não pioneiras (NP), pouco ou não tolerantes ao sol, se desenvolvam em sua fase inicial, mas de maneira um pouco mais lenta que as primeiras.

Com o passar do tempo, as árvores não pioneiras vão crescendo e se tornando as mais altas da floresta. As árvores pioneiras morrem com o tempo. Nesta fase, a floresta se torna adulta e bem desenvolvida. É o que chamamos de sucessão ecológica em florestas.

Distribuição das árvores pioneiras / não pioneiras.

Floresta recuperada e desenvolvida.

Todas as etapas são importantes no processo de recuperação das florestas. Por isso, a melhor maneira de replantar uma mata é imitar todas as fases de crescimento da floresta. Existem muitas formas de se distribuir as mudas em campo para recuperação de áreas degradadas. As pesquisas indicam que uma boa maneira de se distribuir as mudas é seguinte: • Plantar-se em linhas alternadas, de preferência em curvas de nível;

• Uma linha com árvores pioneiras e outra com árvores não pioneiras;

Distribuição das mudas de Pioneiras e Não Pioneiras nos locais de plantio 8º Passo: Época de plantio

Para o sucesso do plantio, o ideal é que seja feito no início do período chuvoso, após as primeiras chuvas, quando o solo já se encontra molhado o suficiente para receber as mudas. Deve-se observar se na área onde serão plantadas as mudas ocorrem enchentes ou trombas d’água pois, se as mudas não estiverem bastante enraizadas, poderão se perder completamente. Da mesma forma, não se deve plantar nessas áreas, espécies com baixa resistência ao encharcamento. Recomenda-se que, imediatamente após o plantio, seja feita uma irrigação para facilitar que as mudas brotem, deixando o restante por conta das chuvas.

º Passo: Preparo do local para o plantio a) Isolamento da área – Se existirem em animais no local, para que haja sucesso do plantio, o primeiro passo é isolar o local para evitar invasão pelos animais e pisoteio das mudas.

Isolamento da área com cerca b) Controle de formigas cortadeiras - deve ser feito em três períodos:

– Antes do preparo do solo (controle inicial), em toda área do plantio e numa faixa 50 a 200 metros ao redor dela; – Antes do plantio (repasse);

– Após o plantio (ronda) – deverá ser feito durante o desenvolvimento da muda em campo e também durante o período de crescimento, até as mudas atingem 1 metro de altura.

Atenção! – Para o uso de formicidas é preciso consultar um técnico da área.

– Para evitar o desperdício de formicida e de tempo, o importante é acompanhar o crescimento das mudas observando se está ocorrendo ataque de formigas. Em caso positivo, deve-se localizar o formigueiro para fazer o controle diretamente nele.

– A embalagem vazia do formicida deve ser encaminhada a postos de entrega ou aos fornecedores do produto.

c) Marcação das covas / espaçamento entre as mudas – marcar as covas de acordo com o modelo de plantio escolhido. A depender das espécies escolhidas, o espaçamento entre as mudas pode variar. Recomenda-se espaçamento de 2X2 m, para que as copas das árvores fechem rapidamente e protejam o solo. Para esse espaçamento, teremos um total um total de 2.500 mudas por hectare (1.087 mudas por tarefa).

Obs.: Na marcação das covas, é importante atentar para as orientações contidas no 7º Passo – Distribuição das mudas no plantio.

d) Limpeza do solo – Antes de planar, é preciso preparar a terra para receber as mudas.

O ideal é que o solo não fique completamente desprotegido, ou seja, não é preciso tirar todo o “mato”, e sim fazer uma limpeza do local onde será feita a cova, o coroamento, num círculo com mais ou menos 1 m de largura. É importante colocar a cobertura morta da capina sobre o círculo, para proteger o solo, segurar a unidade, evitando que a planta perca água.

Limpe apenas ao redor das covas.

Limpeza do local de plantio

e) Abertura de covas – As covas deverão ter de 40 a 60 cm de largura, por 60 cm de profundidade.

f) Preparo do solo – deve ser feito pelo menos 2 meses antes do plantio.

• No caso de um solo muito degradado e empobrecido: – Deve-se iniciar com a calagem (uso de calcário para diminuir a acidez do solo, o que prejudica a absorção de nutrientes pelas plantas), na produção de 350 a 400 gramas de calcário por cova. Se for uma área uniforme a ser plantada, deve-se aplicar a lanço, na proporção de 800Kg por hectare;

– A adubação também deverá ser feita na cova, com 100 a 200 g de adubo químico

(NPK) por cova;

– Sempre que possível, deve-se adicionar 2 litros de adubo orgânico (húmus ou esterco curtido de curral ou de galinha) por cova, para melhorar as condições de pegamento da muda.

• Se o solo não foi muito degradado, pode-se utilizar somente adubação orgânica, com 3 litros de esterco de curral ou 2 litros de esterco galinha por cova.

10º Passo: Como plantar a muda

a) Cortar com cuidado as raízes que estão de fora do saquinho, usando somente tesoura ou faca, evitando, assim, a entrada e desenvolvimento de doenças e pragas.

b) Cortar o saquinho pela lateral e fundo, retirar a muda com cuidado para não desfazer o torrão de terra , e jogar o saquinho no lixo.

c) Colocar a muda no centro da cova, bem reta tendo cuidado para que ela não fique muito no fundo da cova e seja enterrada.

d) Deixar a muda em nível mais baixo que o terreno (entre 10 a 20 cm).

11º Passo: Replantio

Algumas mudas morrem depois de algum tempo de plantio por não se adaptarem às condições do campo ou por outros problemas. Por isso, geralmente, 30 a 50 dias após o plantio, é necessário fazer o replantio. Se houver necessidade de outro replantio, deve ser feito um ano depois, na estação chuvosa seguinte.

Replantio de mudas

12º Passo: Manutenção do plantio

Para que não sejam desperdiçados esforços humanos e recursos financeiros investidos, após o plantio é importante que se faça a manutenção da área plantada até que a mata esteja formada e se desenvolva sozinha. As seguintes atividades devem ser constantemente realizadas sempre que for verificada a sua necessidade:

• Coroamento: retirada do “mato” que cresce próximo às mudas, ou capina/roçada ao longo das linhas. Geralmente o coroamento é feito no início das chuvas e no início da estiagem, cuidando para deixar o mato capinado como cobertura para proteger o solo.

• Eliminação de trepadeiras: caso estas estejam tomando conta das mudas e prejudicando seu crescimento; • Controle de trepadeiras;

• Irrigação na época de seca: caso haja um período de estiagem prolongado, prejudicando o desenvolvimento das mudas, principalmente das espécies frutíferas e não pioneiras.

Manutenção do plantio

Vale lembrar!

De todas as etapas da recomposição florestal, a manutenção é a garantia da recuperação da área.

as matas ciliares

7. Sugestões de espécies para recompor

Cada espécie ou tipo de planta apresenta características que a diferem de outras, podendo haver ou não adaptação a um determinado tipo de ambiente. Por isso, ao escolhermos as espécies que serão utilizadas para recuperar ou enriquecer uma mata ciliar, devemos ter o cuidado de saber se ela ocorre ou já ocorreu próximo ao local de plantio ou em sua região.

Nos quadros que seguem, temos os nomes de algumas espécies de árvores que podem ser utilizadas para a recuperação de matas ciliares, contendo:

• Grupo ecológico – se pertencem ao grupo das plantas pioneiras, que resistem ao Sol, ou ao das não pioneiras, que possuem baixa resistência ao Sol.

• Nome popular – nome pelo qual a maioria das pessoas conhece as plantas, podendo mudar a depender da região. Muitas vezes é dado o mesmo nome a plantas bastante diferentes.

• Nome científico – nome dado pelos pesquisadores às plantas. É muito importante pois é o mesmo em qualquer região.

• Ambiente – local em que se pode encontrar a árvore.

• Adaptação – se em locais úmidos e/ou próximos á água.

Todos sabem que a Bahia é um estado muito grande e com muitos ambientes diferentes. Em qualquer projeto de recomposição floresta de mata ciliar, para que se aumente as chances de sucesso, deve-se utilizar as espécies de árvores nativas, ou seja, de ocorrência natural na região que se pretende recuperar.

Somente na falta de locais de locais de coleta de sementes pode-se fazer o plantio com determinadas espécies vindas de outras localidades, porém adaptadas ao tipo de ambiente em que ela será plantada, a fim de se fazer a cobertura imediata do solo. Nos casos de pequenas propriedades rurais, onde a área agricultável é muito reduzida, podem-se plantar algumas espécies de uso econômico (como frutíferas, melíferas, me-

Sugestão de espécies para recomposição de matas ciliares Grupo Ecológico: Pioneiras

Nome Comum

Açoita-cavalo Aroeirinha Aroeirinha-brava, bugreiro Canafístula Capixingui, sangrad’água,velame Capororoca, pororoca Copiã Crabeira

Embaúba Fidalgo Guaçatunga Gurindiba, candiúva Ingazeira, ingá-do-brejo, ingá-banana Ipê-branco, pau d’arco Jurema Mucugê Mulungu, corticeira-da-serra Mundururu Murici Pata-de-vaca, unha-de-vaca Pau-pombo, peito-de-pombo

Pindaíba Quaresmeira Sabiá

(Parte 2 de 3)

Comentários