A Arte do Rococó

A Arte do Rococó

A arte do Rococó

Contexto histórico-cultural.

«O que é verdadeiramente significativa na explicação da arte de um determinado momento histórico não é determinada obra ou autor, mas o conjunto de circunstâncias que a tornam possível.»

Rebull (Rosa) e Triadó (Juan-Ramón): Deuses, Reis e Burgueses – Tesouros Artisticos do Mundo, vol. VΙΙ, Ediclube, 1992, p.17

O estilo a que chamamos de Rococó teve a sua origem e desenvolvimento na Europa ocidental, entre 1720 e 1760. Foi um estilo alegre e elegante que nasceu na continuidade e em oposição ao Barroco. Correspondeu aos gostos frívolos, mas requintados, da alta sociedade aristocrática e burguesa.

A escultura Rococó

Próxima da estética Barroca pela expressão plástica, mas igualmente oposta a ela pelas formas, Conteúdos e objectivos, a escultura rococó trouxe-nos um conjunto de características novas que cumpre analisar:

  1. Novos cânones estéticos. Continuando a apreciar e a acentuar as linhas curvas e contracurvas os escultores do Rococó tornavam-nas, todavia, mas delicadas e fluidas, organizadas em estilizados esses (s), em expressivos ces (c), ou ainda em contracurvados duplos.

Na figura humana, utilizaram o cânone anatómico maneirista, de corpos alongados e silhuetas caprichosas, e procuraram conferir-lhes leveza e graciosidade nos gestos, nas atitudes e nas posições em tudo galantes, “cortesãs” ou lânguidas.

Nos grupos escultóricos, as composições possuíam movimento e ritmo (algumas personagens parecem quase “dançar”) e um elevado sentido cénico, fazendo o enquadramento perfeito da escultura com o cenário a ela destinado.

  1. Novos géneros escultóricos. As características plásticas e estéticas que acabamos de definir provam que a escultura rococó teve, fundamentalmente uma vocação e um sentido ornamental. Isto explica que a grande escultura monumental – como a estatuária independente e os grandes monumentos comemorativos ou alegóricos – não tivesse sido uma modalidade muito praticada por este estilo que preferiu, sem dúvida, os seguintes géneros:

  • a escultura comemorativa, parte integrante da arquitectura, pois cobria quase todas as estruturas e superfícies construídas com rebuscados e movimentados relevos de inspiração naturalista.

  • e a estatuária de pequeno porte , destinada sobretudo a interiores e também com funções decorativas e/ou de entretenimento as quais podemos remontar a tradição do bibelot. A pequena dimensão foi praticada, inclusive em modalidade como o retrato (bustos, geralmente), a estatuária religiosa e as composições mitológicas e alegóricas tão ao uso da época.

  1. Novos materiais. O predomínio da escultura de pequenas dimensões fés com que o escultor do Rococó recuperasse materiais normalmente ignorados pelos seus antecessores, remetendo a pedra o bronze ou chumbopara grande escultura de exterior. Tal foi o caso da madeira, da argila, do estuque e do gesso (estes dois últimos muito mais utilizados na decoração de mural dos exteriores, principalmente em Itália – e de uma porcelana especial a que os francês deram o nome de biscuit. Esta foi o material mais usado na produção das pequenas esculturas, ornamentais e divertidas.

  1. Novos temas. A grande novidade nas temáticas da escultura deste período é o abandono dos temas sérios e “nobres”, de grande simbolismo e significado, e a preferência sistemática por temas “menores”, irónicos, jocosos, sensuais – e até levemente eróticos – ou galantes. Esta tendência manifestou-se principalmente na pequena escultura, enquanto a estatuária monumental se manteve presa aos tradicionais temas comemorativos, alegóricos e/ou honoríficos, ou ainda ao retrato de reis e outra figuras publicas, em modalidades como a estatua – equestre.

No entanto mesmo nesta, a frivolidade dos temas acentuou-se porque:

  • na temática mitológica, preferiam os deuses “menores”, até ai secundarizados , como Pan, o deus dos pastores, Vénus, a deusa do amor e da graça e os pequenos cupidos alados

  • nos temas profanos, valorizaram-se os aspectos pitorescos ou frívolos e íntimos do quotidiano, em gestos galantes e requintados e atitudes de rebuscada graciosidade;

  • na estatuária religiosa, restrita, neste estilo, quase só a Alemanha, sublinha-se o contraste entre o tema, de natureza sagrada (figuras de santos), e a forma, em requebros sinuosos, com roupagens luxuosas e maneirismos elegantes . Veja a obra São Korbiniano, do escultor alemão Ignaz Gunther.

A arte do Rococó reflecte, pois, uma nova maneira de sentir e viver a arte – a da “Arte pela Arte” – que jamais deixaria de substituir até aos dias de hoje.

A Pintura do Rococó

Pintura sobre tela do Rococó

A pintura Rococó foi o reflexo de uma sociedade galante e festiva cheias de contradições entre as quais a estética, onde se digladiavam os defensores do classicismo, por um lado, e os defensores do Barroco, por outro. Foi a velha querela entre “os Antigos e os Modernos”, ou seja, os seguidores de Rubens e os de Poussin. No entanto, esta disputa não definiu princípios estéticos claros, mas foi modelando e transformando a arte Barroca, pesada e dramática, numa arte idílica, aristocrática e festiva onde abundaram as cenas pastoris e as “festas galantes”.

Mas continuou-se a tradição do retrato que pode ser histórico, sereno e burguês, sensível ou psicológico, ou ainda, colorista, delicado e de tons suaves e sensíveis, onde as gradações cromáticas fazem lembrar o sfumato renascentista. Todos estes temas foram tratados de forma mais ligeira e superficial com referências mitológicas a deuses. As composições são rítmicas, exuberantes e de tendência decorativa.

Foi na França o país impulsionador deste estilo, possuindo os sedutores mais significativos desta arte cortesã. De entre eles destacamos:

  • Jean Antoine Watteau (1684-1721) que trabalhou os temas das festas galantes, cenas de género e mitológicas com uma afectação e uma teatralidade própria deste estilo mas as quais esta subjacente um certa ansiedade e tristeza próprias, também, do Barroco;

  • François Boucher (1703-17070) que possui uma pintura mais robusta e sólida revelando, apesar disso, todo o decorativismo do Rococó. Para além de pintor foi, igualmente, gravador de nomeada, assim como autor de cartões de tapeçaria e ilustrador;

  • Jean-Honoré Frangonard (1732-1806), de pincelada rápida e espontânea, que pintou o amor, o virtuosismo e a alegria de viver em representações onde aparecem, frequentemente, figura femininas. A sua sensibilidade apurada é revelada, também, na forma dinâmica emotiva como aplica a cor, revela-nos uma sensibilidade moderna e uma expressão técnico- formal “avant la lettre”.

  • Jean- Batiste-Siméon Chardin (1699-1779), que se insere nas características de racionalidade, mas cujos temas foram, basicamente, cenas de género e naturezas-mortas reveladoras da vida quotidiana.

Na Itália, são sobretudo os paisagistas venezianos, Canaletto e Francesco guardi, os grandes inovadores da pintura sobre tela. Canaletto (1697-1768) foi um pintor minucioso da realidade e um dos maiores expoentes do classicismo, subtil e minuciosa, onde sobressai o rigor construtivo, de grande pureza e sobriedade, destacando-se o tratamento da luminosidade. Francesco guardi (1712-1793) é conhecido pelos seus cappricios líricos, paisagens imaginárias onde se misturam o real e o surreal. A arquitectura e fantasista e a cor e a luminosidade que a envolvem são delicadamente etéreas e impressionistas.

A Inglaterra aproximou-se, nesta época. Da arte do Rococó com pinturas onde o retrato, a representação de animais e crianças, a caricatura e a pintura social e a paisagem são temas mais destacados.

  • Willam Hogarte (1697-1764) que cultivou a beleza típica do Rococó, quer na forma harmoniosa como desenvo0lveu as figuras, nas suas curvas em S, quer na valorização daquilo que é mutável e transitório. As caricaturas abundam, também, no seu espólio pictórico;

  • Joshua Reynolds (1723-1792) foi sobretudo um retratista de estilo delicado, com uma pintura que combina a mitologia com elegância clássica o retrato colectivo;

  • Thomas Gainsborough (c. 1727-1788), retratista e paisagista de delicado colorido e elegância sensível. Uma das suas obras mais importantes, pela sua inovação, é A Carroça do Mercado, que inicia a inovação paisagística inglesa que terminará em Constable e Turner.

A Pintura Mural do Rococó.

A pintura mural foi pintada em trome-l´oeil nas paredes e tectos de igrejas e palácios.

No Rococó a decoração mural sofreu algumas alterações formais e estilísticas, sobretudo na França. Neste país a pintura mural ficou reduzida a pequenos painéis em tela que eram colocados sobre os painéis decorativos fixos. Estes emolduravam a pintura e possuíam formas docemente curvilíneas para se moldarem aos sofitos.

  • Giambattista Tiepolo (1696-1770) em cuja pintura a composição é decorativa, com cores claras e límpidas, e o brilho do colorido é de tradição veneziana. A exuberância e alegria da composição aliam-se a uma imaginação rica e a um talento particular na expressão visual, típica de uma arte palaciana como foi o Rococó. Este artista trabalhou na Alemanha onde deixou marcas assinaláveis nos fresquistas deste país

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