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Os relatórios efetuados pelos formadores e o relatório monográfico dos apoiadores permite-nos perceber que a proposta do curso, seu desenho e modo de funcionamento viabilizaram não apenas a apropriação de princípios, diretrizes e dispositivos da PNH. Foram constituídas 14

UPs, que abarcaram: UP Norte, UP Nordeste 1, UP Nordeste 2, UP Nordeste 3, UP Espírito Santo, UP

Minas Gerais, UP São Paulo, UP Rio Grande do Sul, UP Paraná, UP

Santa Catarina, UP Rio de Janeiro, UP RJ/

Metropolitana, UP

Centro-Oeste, UP Distrito Federal.

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Tão importante quanto o estudo dos princípios teórico-metodológicos da PNH foram os movimentos disparados pelas intervenções dos apoiadores nos sistemas/serviços. Os processos de intervenção possibilitaram criar estratégias para enfrentar desafios, tais como: articulação de iniciativas de humanização do SUS, até então isoladas; mapeamento do processo de trabalho nos serviços de saúde, identificando pontos críticos e elaborando estratégias de superação; criação de rodas de conversa incluindo trabalhadores, gestores e usuários para reflexão acerca do processo de trabalho e da assistência nos serviços de saúde; organização de fluxos de atendimento, melhorando acessibilidade e identificando ações a serem implementadas, no sentido de possibilitar atendimento em saúde com resolutividade; fortalecimento de uma política de formação permanente dos trabalhadores do campo da Saúde. Os planos de intervenção dispararam rodas de conversa nos serviços, interferindo nos modos de gestão e atenção instituídos. Os apoiadores indicam que o curso lhes permitiu ampliar suas caixas de ferramentas, qualificando ações já disparadas, ampliando a capacidade de análise dos profissionais da saúde.

Por fim, podemos dizer, a partir das avaliações efetuadas pelos participantes do curso, que essa ação se constituiu como oportunidade de problematização da experiência de trabalho vivenciada pelos profissionais da saúde, uma vez que privilegiou o compartilhamento de experiências entre esses atores, e destes com os profissionais de saúde atuantes nos sistemas/ serviços em que as intervenções se deram, e os usuários do SUS.

Desse modo, o curso foi um dispositivo que provocou agregação, fomentou grupalidade, aqueceu redes esfriadas em função de isolamentos das ações no campo da Saúde, permitiu construção de redes novas e colocou a humanização das ações de saúde em pauta.

Formação como intervir “entre”

Iniciamos este artigo trazendo um diálogo com pesquisadores que vêm discutindo e problematizando os processos de formação dos profissionais de saúde. Boa parte da produção acadêmica preocupada com o fortalecimento dos princípios do SUS, portanto, tem acentuado o caráter fragmentador das ações de formação instituídas. A oposição teoria-prática, estudo-intervenção, sujeito-objeto, pesquisa-ação, tem contribuído na perpetuação de processos de formação divorciados dos processos de trabalho, ou seja, da experiência concreta dos sujeitos. Ao trazer a experiência do Curso de Formadores e Apoiadores da PNH, não buscamos acenar com um novo modelo de formação, mas compartilhar experiências de apostas em práticas de formação conectadas ao processo de trabalho. Entre práticas apaziguadoras, que não vêem perspectivas de interferência nos dilemas que vivemos no presente, e práticas de desassossego que indagam as evidências que nos constituem (FOUCAULT, 1985) se forjam os processos de formação.

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Formação

A formação se constitui no entre, no embate do plano de forças e das formas já constituídas. Como afetar? Como produzir movimentos nos serviços de saúde permeados por práticas de invenção e, também, por processos de banalização da iniqüidade, pelo sucateamento da existência? Como fazer da formação um processo de escrita nômade que reinventa caminhos ao caminhar? Como produzir redes quentes?

Como nossa aposta não é nos processos de formação modelares e modeladores, algumas questões, do nosso ponto de vista, merecem uma discussão entre aqueles que têm como matéria de trabalho o campo da formação. Se a aposta da formação tem como princípio a problematização das práticas em saúde, é importante refletir como vimos lidando com os processos de aprendizagem. A concepção que postula a aprendizagem como ação que se dá entre um sujeito e um objeto já dado a priori, acaba por reificar aquelas noções que postulam, de um lado, emissores, e de outro, receptores (ainda que estes sejam tomados como sujeitos ativos do processo de conhecimento). Entender a formação deste modo tem significado a anulação do protagonismo dos sujeitos, bem como práticas de formação descoladas dos contextos sociais, geopolíticos e culturais. Tem redundado também em ações de formação homogenizadoras que acabam por separar técnica e política, formação e ação. As especificidades dos serviços/sistemas de saúde requerem torção nos modos de fazer formação, a fim de que seja possível acolher essas diferentes realidades não como um já dado, mas como movimento de desestabilização do próprio processo de formação.

Um dos desafios cruciais para aquelas propostas de formação que têm como princípio a indissociabilidade entre formar, cuidar e gerir é que as políticas que têm como princípio a construção/potencialização do protagonismo dos profissionais e usuários são contrahegemônicas aos modos hegemônicos com que muitas políticas de governo se fazem. Estas últimas se alimentam da produção de práticas tutelares que visam à perpetuação de redes de dependência e isolamento.

Entre os interesses das corporações, a precarização do trabalho, a desqualificação dos usuários e das redes sociais, as práticas privatistas e patrimonialistas, as experiências de reencantamento do SUS, constituem-se modos de cuidar e de gerir. Assim, modos de saber se forjam no cotidiano de trabalho, desviando-se de prescrições reificadas. Partir desses modos de saber-fazer é fundamental, se desejamos efetuar processos de formação que funcionem como dispositivos de intervenção nas práticas de produção de saúde.

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Referências

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Formação

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29 Artigo

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Saúde e humanização na região Norte:

perspectivas e desafios do processo de formação no Estado do Pará

Luiz Guilherme Nascimento Martins3 Terezinha Francisca Moreira4

Formação

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Resumo

O Estado do Pará vem implementando nos três últimos anos importantes ações de humanização, que têm como um de seus focos a sensibilização e formação dos trabalhadores para a difusão e capilarização da Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do SUS (PNH) nos municípios paraenses. Em 2008, considerando a inseparabilidade entre formação-intervenção, teve início o Curso de Educação Permanente para Formação de Apoiadores da PNH no SUS – Pará, atividade pioneira na região e direcionada a 30 trabalhadores estaduais e municipais. O curso previa como produto a elaboração de análises de cenário com identificação das linhas de ação, construídas no coletivo dos espaços de trabalho, funcionando também como uma oportunidade para identificação de apoiadores institucionais com potencial para atuar como formadores em ações disparadas no âmbito estadual. Os resultados desta experiência demonstraram que ainda é necessária a apropriação dos referenciais da PNH como política pública de saúde, aumentando o protagonismo e responsabilização dos trabalhadores do SUS-Pará na concretização de mudanças na atenção e gestão e na sustentação dos coletivos e do trabalho em rede.

Palavras-chave: humanização, sensibilização, formação, coletivos, rede.Psicóloga e membro da

Coordenação Estadual de Humanização da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Diretoria Técnica/SESPA). Professora Adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade do Estado do Pará. Coordenadora do Curso de Formação de Apoiadores no SUS-Pará.

acsalgado@uepa.br.Enfermeira psicóloga, consultora da PNH e coordenadora do processo de trabalho da Política Nacional de Humanização na Região Norte. teresinhamoreira@terra.com.brPsicóloga, consultora da

PNH e co-coordenadora da Câmara Técnica de Formação da PNH até 2009.

raquel_pedroso@uol.comPsicólogo e terapeuta familiar, coordenador estadual de humanização

(SESPA). lgnmartins@gmail.com

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Formação

Introdução

O fortalecimento do processo de humanização no Estado do Pará tem sido intensificado nos últimos três anos através das iniciativas disparadas pela Coordenação Estadual de Humanização, setor vinculado à Secretaria de Estado de Saúde, com o apoio institucional da Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do SUS (PNH) no sentido do acompanhamento, monitoramento e avaliação das frentes de trabalho.

Localizado em um território marcado pela exuberante riqueza natural, o Pará enfrenta expressivos desafios que incluem sobretudo a regionalização da saúde, o aumento da participação social e a ordenação e fortalecimento da rede primária de atenção, considerando sua posição como segundo maior território geográfico da Região Norte, com uma população superior a sete milhões de habitantes (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2007) composta por etnias indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Com 143 municípios, o Pará concentra locais de difícil acesso, o que se reflete em especificidades que desafiam o planejamento regional e as políticas públicas no que se refere à alocação de recursos e à consolidação do SUS no caminho da superação das desigualdades intra e inter-regionais (OLIVEIRA, 2008).

O contexto histórico das ações de formação de apoiadores no estado do Pará

Em fevereiro de 2008, durante a reunião do Coletivo Nacional que incluiu representantes dos estados do norte do País, foi concretizado um plano de formação de apoiadores para a região, considerando a escassez em investimentos e prioridades das políticas públicas naquele território. Tal demanda surgiu em função das características e especificidades desta área geográfica que, apesar do avanço técnico e político, ainda se mantém distanciada no seu desenvolvimento social e econômico, reforçando uma posição de desigualdade em relação às outras regiões brasileiras. Um dos encaminhamentos derivados daquele encontro ressaltava a necessidade de priorizar a Região Norte nos investimentos e apoio federais, de modo a facilitar a capilarização da Política Nacional de Humanização, superando as fronteiras e peculiaridades locorregionais, o que representava uma aposta mas também um desafio importante no cenário nacional das ações da PNH.5

As ações de formação da PNH no Pará se iniciaram no primeiro semestre de 2008, como uma primeira etapa de “Oficinas de Sensibilização Humanizasus-Pará”, realizadas nos meses de maio, junho e agosto do mesmo ano, num total de quatro oficinas, como atividades iniciais do Plano de Formação da Região Norte, o qual previa a formação de apoiadores institucionais (CAMPOS, 2005b) para sustentar processos de mudanças da gestão e atenção do SUS estadual. O objetivo desta iniciativa estava relacionado à necessidade de instrumentalizar os trabalhadores da saúde para intervenção nos processos de trabalho (CAMPOS, 2005a), considerando as peculiaridades locais e regionais, com o objetivo de fomentar mudanças nos Em 2006, dois trabalhadores foram escolhidos para participar do primeiro Curso

Nacional de Formação de Apoiadores da PNH e os resultados apontaram para a necessidade de uma ampliação da articulação em rede para sustentar a implementação da PNH, bem como a ampliação do coletivo responsável por essa frente. Esta experiência funcionou como um indicador que revelou que a inserção em processos de formação não implica necessariamente no engajamento em ações concretas de transformação, o que, na realidade estadual, talvez seja reforçado pela pouca existência de coletivos fortalecidos em torno desta proposta. Há que se considerar também que, diferentemente de outros estados brasileiros, a saúde pública ainda é um tema pouco problematizado nos cursos de graduação em saúde, o que dificulta a muitos trabalhadores apropriarem-se de sua condição de cogestores do processo.

Cadernos HumanizaSUS modos de operar e produzir saúde (AYRES, 2004), a partir dos princípios e diretrizes propostos pela PNH. Como afirmam Benevides e Passos (2005b), esta ação implicava no enfrentamento do desafio conceitual e metodológico concernente à Política Nacional de Humanização, ao mesmo tempo em que demandava a análise de um território ainda pouco explorado em relação à implementação da PNH.

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