A casa no sec. XIX

A casa no sec. XIX

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Em Tempo de Histórias - Publicação do Programa de Pós-Graduação em História

PPG-HIS/UnB, n.12, Brasília, 2008 151

A casa, o jardim e a rua no Brasil do século XIX

Solange de Aragão*

Resumo: Este trabalho tem como ponto de partida a obra Sobrados e mucambos de Gilberto Freyre, como fonte documental os relatos dos viajantes, e como objeto de estudo a casa, o jardim brasileiro e a rua do século XIX. Trata das transformações pelas quais passaram a arquitetura e esses espaços livres ao longo do oitocentismo, contrapondo os sobrados de dois, três e quatro pavimentos, erguidos no alinhamento dos lotes, sem recuo frontal ou lateral, com seu “jardim-horta-pomar” situado no recuo posterior, aos sobrados de fins do século, projetados sob clara influência européia, com jardins ornamentais dissociados das hortas e pomares, dispostos no recuo frontal ou lateral. Trata, ainda, das alterações da rua: o processo de calçamento do leito carroçável e dos passeios junto às construções, o início da iluminação pública e os primórdios da arborização urbana no Brasil, ressaltando a inter-relação entre as mudanças internas e externas ao lote urbano, que iriam contribuir significativamente para a transformação da paisagem da cidade brasileira do período. Palavras-chave: casa, rua, jardim.

Abstract: This paper has as its starting point the work The mansions and the shanties, by Gilberto Freyre, as its source material some voyager’s writings, and as its object of study the house, the Brazilian garden, and the street of the 19th century. It deals with some transformation by which architecture and open spaces passed throughout this century, and compares those two, three and four-storey houses, built up in the alignment of the lot and in its lateral limits – their “orchard-ornamental-vegetable garden” in the backyard – with those two-storey houses from the last decades of the 19th century, under European influence, with their ornamental garden separeted from orchard and vegetable gardens, situated then in the front yard and beside the house. It also deals with some transformation of urban streets: their being paved, the creation of sidewalks, the beginnig of street lighting, and the planting of trees along the streets, emphasizing the relation between internal and external changes of the urban lot, which would contribute significantly to transformation of Brazilian urban landscape at the 19th century. Key-words: house, street, garden.

A residência urbana e semi-urbana do Brasil no início do século XIX parecia simples e rudimentar ao olhar europeu. Na cidade, era a casa térrea, de porta e janela, com sala, alcovas e varanda, ou o sobrado, de dois, três, quatro pavimentos, com loja, armazém ou depósito no térreo, escritório, salas, alcovas e cozinha nos andares superiores. Era a casa de taipa de pilão, a casa de pedra e cal, a casa de “granito miúdo”, construída sempre com os materiais

* Arquiteta, Urbanista, Mestre e Doutora pela FAUUSP. Pós-doutoranda pela Faculdade de Filosofia, Letras e

Ciências Humanas da USP. Departamento de História. Orientadora: Profa. Dra. Raquel Glezer. Apoio: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

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PPG-HIS/UnB, n.12, Brasília, 2008 152 disponíveis no entorno; a casa com telhados de duas ou de quatro águas, com telhas do tipo capa-canal e beirais a proteger as paredes das águas da chuva; a casa dos muxarabis ou gelosias, que foram banidos da fachada principal das residências logo após a chegada da Corte ao Rio de Janeiro. Era a casa erguida no alinhamento, sem recuo frontal ou lateral, a conformar ruas estreitas e tortuosas; a casa do “jardim-horta-pomar”, onde plantas ornamentais apareciam misturadas a hortaliças e árvores frutíferas – um jardim que ficava no recuo posterior, atrás dos muros, longe do olhar dos transeuntes.

A meio caminho do campo, a residência semi-urbana era quase sempre térrea (ou assobradada) e construída, da mesma forma, com os materiais disponíveis no entorno. Contava com horta, pomar e jardim, situando-se na maioria das vezes nas proximidades de um rio, riacho ou córrego d’água. Com frutas, verduras, água e capim para os animais, a residência semi-urbana compunha uma estrutura mais auto-suficiente que a urbana. Os cômodos internos eram melhor ventilados e iluminados, uma vez que a construção estava isolada no terreno. Essas casas compunham uma paisagem mais horizontal, com as construções esparsas, cercadas pelo verde.

Com a chegada da Corte ao Rio de Janeiro e a difusão do neoclássico pela Missão

Artística Francesa, a residência urbana e semi-urbana do Brasil começa a se transformar. Muda a casa, altera-se o jardim, acompanhando as modificações do gosto, dos hábitos e dos costumes dos brasileiros em um processo que Gilberto Freyre denominou de “re- europeização”1 .

No interior do lote, para que os dormitórios recebessem iluminação e fossem melhor ventilados, estabeleceu-se o recuo de um ou de ambos os lados da construção; para garantir maior privacidade aos moradores, a casa afastou-se da rua, por meio do estabelecimento do recuo frontal – ideal para a implantação do jardim em frente à residência como elemento de valorização da arquitetura. A passagem do jardim dos fundos para o jardim lateral ou frontal levou também a alterações na concepção desse espaço livre, que deixou de estar misturado às hortas e pomares, tornando-se fundamentalmente ornamental.

Na fachada das novas residências ficou evidente a influência européia, em um primeiro momento, com os detalhes neoclássicos, em seguida, por meio do ecletismo e da propagação de estilos variados. A planta da casa brasileira urbana, que até o início do século XIX repetia freqüentemente o mesmo programa, levando o engenheiro Vauthier2 a afirmar que aquele que viu uma residência urbana do Brasil viu todas, passou a apresentar uma maior

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PPG-HIS/UnB, n.12, Brasília, 2008 153 variação de cômodos, sendo introduzidas áreas como o hall de distribuição ou o vestíbulo – até então não empregados na arquitetura urbana de uso residencial.

O jardim ganhou cada vez mais importância no lote urbano ao se aproximar o fim do século, chegando em alguns casos a circundar a residência, apresentando um traçado de influência inglesa ou francesa e muitas vezes a mistura de plantas de origem européia com plantas nativas. O palacete ajardinado apresentava, contraditoriamente, algumas características das antigas chácaras – como hortas e pomares –, situando-se, contudo, na área urbana.

A essas transformações na concepção da arquitetura e das áreas ajardinadas, corresponderam mudanças no espaço urbano. Nas cidades mais importantes do país, observou-se o processo de calçamento das ruas e criação de passeios junto às construções3 .

Ainda no século XIX, surgiram lampiões e postes de iluminação nesses espaços públicos e os primeiros exemplares arbóreos alinhados ao longo do calçamento. A rua ganhava status.

Em apenas um século, transformou-se a casa, alterou-se o jardim, modificou-se a rua. Em todos os casos, construções e espaços livres submeteram-se à influência européia.

Transformações na casa e no jardim: do sobrado erguido no alinhamento ao palacete ajardinado Em São Paulo, nas primeiras décadas do século XIX, havia casas térreas e sobrados

recuo posterior

erguidos no alinhamento de ruas estreitas e tortuosas. Eram implantados lado a lado, sem recuo lateral. O lote era estreito e comprido – o “jardim-horta-pomar” ficava ao fundo, no

Saint-Hilaire, como John Mawe4 e outros viajantes europeus, deixou registrada uma descrição minuciosa da casa paulistana das primeiras décadas do século XIX em seus relatos de viagem. Escreveu sobre as casas de taipa, caiadas e cobertas de telhas, que lhe pareceram sem opulência alguma, mas de aspecto vistoso e limpo, com seus beirais a proteger as paredes das águas da chuva5 .

Daniel Kidder referiu-se à forma de distribuição interna dos cômodos dessas residências – muito semelhante à das casas urbanas de outras regiões do país:

Nas cidades, o andar inferior raramente é ocupado para moradia; serve às vezes para casas de comércio, outras vezes para cocheira ou estábulo. As dependências mais comuns, em cima, são: a sala de visitas e a de jantar, entre as quais existem, invariavelmente, alcovas que servem de dormitórios.6

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O interior das casas térreas e sobrados do Rio de Janeiro foi descrito por Robert

Burford, em 1823, que estabeleceu uma diferenciação social entre essas construções – as casas térreas pertencendo às pessoas mais simples, o sobrado sendo destinado às camadas mais ricas da sociedade:

(...) The houses of a single story consist of one good room, floored with boards, with alcoves for sleeping, a kitchen, and an enclosed yard, with stable, &c. the only passage to which is through the best apartment. The houses of two or three stories for the higher classes, have usually an open space in front, with large folding gates; a broad flight of steps leads to the upper story, consisting of the sala or drawing room, gorgeously painted and gilt, with folding doors leading to the sleeping alcoves, beyond which is the varanda, in which the family generaly take their meals, and receive visits during the day, the lower parts are occupied by the slaves, cattle, and for domestic purposes.7

As casas térreas eram compostas, portanto, por sala, alcovas e cozinha; os sobrados seguiam o mesmo esquema no pavimento superior, ficando o térreo para os escravos, animais ou outros propósitos domésticos.

Debret também caracterizou as casas da cidade do Rio de Janeiro em seus escritos, afirmando serem, em geral, estreitas e profundas, com sala de visitas dando para a rua, quartos de dormir situados depois da sala, e um corredor que conduzia à sala de jantar (ou varanda), à cozinha e aos aposentos dos escravos8 .

Segundo Johann Emmanuel Pohl, eram poucas as casas do Rio de Janeiro que possuíam mais de um andar9. O estilo dessas construções era uniforme e, da mesma forma que as casas do subúrbio, as residências urbanas eram construídas de pedra e cobertas de telhas. Para Pohl, essas residências eram “mesquinhas”, dando abrigo a dez ou doze pessoas que viviam em pequenas dependências e alcovas10 .

Spix e Martius observaram que a maioria das casas era feita “com granito miúdo, ou madeira nos pavimentos superiores, e cobertas de telhas”. As sacadas, “fechadas e sombrias, à moda oriental”, haviam sido “rasgadas em balcões abertos diante das janelas”, por ordem superior11 .

George Gardner, que esteve no Rio de Janeiro em 1837 (mais de dez anos depois da visita de Johann Emmanuel Pohl), fala de “casas edificadas solidamente e na maior parte de pedra”, em geral de dois ou três pavimentos12. Maria Graham, da mesma forma, fala de “casas de três ou quatro pavimentos, com tetos salientes, toleravelmente belas” 13 .

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Nas residências urbanas do Recife, Vauthier observou a mesma forma de distribuição interna dos cômodos das casas do Rio de Janeiro e de São Paulo: sala na frente, uma ou duas alcovas e varanda nos fundos – com um corredor ligando a sala à varanda14 .

Maria Graham, da mesma forma que Vauthier, deixou registradas as características da arquitetura mais antiga do Recife:

(...) As casas são de três ou quatro andares, feitas de pedra clara e são todas caiadas, com as molduras das portas e janelas de pedra parda. O andar térreo consiste em lojas ou alojamentos para negros ou cavalariças, o andar de cima é geralmente adequado para escritórios e armazéns. Os apartamentos para residência são mais acima, ficando a cozinha geralmente no alto. Por este meio a parte inferior da casa conserva-se fresca.15

No bairro do Recife, as casas eram “de tijolos, com três, quatro e mesmo cinco andares” – as mais antigas possuindo apenas um andar, ou apenas o térreo16. Em Santo Antônio, as ruas eram largas e os edifícios, “muito altos para sua largura”, com lojas, armazéns, oficinas e cocheiras no térreo17. Os sobrados do Recife eram, em geral, mais altos que os do Rio de Janeiro e São Paulo. Concorriam com eles, em altura, alguns sobrados da Bahia.

Em Salvador, nas proximidades da alfândega e do cais de desembarque, havia sobrados com “três, quatro e mesmo cinco andares”, mas não comportavam mais que três ou quatro janelas na fachada18. Na cidade baixa, dos altos sobrados, habitavam os comerciantes; os mais ricos possuíam “casas de campo ou chácaras nas colinas, fora do centro da cidade” 19 .

Spix e Martius escreveram sobre o material construtivo das construções da cidade alta de Salvador, afirmando serem predominantemente de pedra. Parte desses edifícios também apresentava de três a cinco pavimentos20 .

Desse modo, observa-se que a casa brasileira do século XIX era térrea ou assobradada, com dois, três, quatro e até cinco pavimentos em algumas cidades, configurando por vezes uma paisagem mais vertical que horizontal. A importância do sobrado na paisagem urbana do Brasil foi ressaltada por Gilberto Freyre – quem primeiro elaborou a síntese desse tipo habitacional do início do século XIX: “os do Recife parecendo ter sido os mais altos, e quase sempre, como os da Bahia e do Rio de Janeiro, de pedra ou tijolo; os de São Paulo, de taipa e, na média, de dois pavimentos, os do Rio, de dois e três andares.” 21 Mas sempre a mesma divisão interna dos cômodos: sala na frente, alcova e corredores sombrios, e cozinha nos

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Nas áreas semi-urbanas, a casa de chácara (ou de campo) era, por sua vez, mais casa de fazenda que de cidade; mais horizontal do que vertical; mais assobradada do que sobrado23 .

E, quase sempre, ajardinada.

Nos arredores de São Paulo, Saint-Hilaire avistou “bonitas casas espalhadas pelo campo”24 e numerosas chácaras embelezando a paisagem – muitas delas situadas em amplos terrenos cercados, com plantações de cafeeiros, laranjeiras, jabuticabeiras e outras árvores de fruto25 .

Cabe aqui ressaltar o papel do jardim na qualificação das casas de campo e de chácara.

Enquanto as residências urbanas eram erguidas umas ao lado das outras, sem recuo lateral, no alinhamento das ruas, com um “jardim-horta-pomar” atrás dos muros, no recuo posterior, as residências semi-urbanas estavam isoladas no lote e cercadas por áreas ajardinadas. As árvores e flores dessas áreas ajardinadas qualificavam a paisagem e a arquitetura, em consonância com a natureza em derredor.

Assim como em São Paulo, no Rio de Janeiro havia casas de chácara nos bairros mais afastados do centro, com as construções mais amplas, cercadas por jardins: “(...) The houses in the suburbs are large, more convenient, and abound in the comforts of Europe: they are generally in large gardens, which during a great part of the year resemble huge bouquets

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