Sistemas Agroflorestais na Amazônia Brasileira - Análise de 25 Anos de Pesquisas

Sistemas Agroflorestais na Amazônia Brasileira - Análise de 25 Anos de Pesquisas

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Sistemas Agroflorestais na Amazônia Brasileira: Análise de 25 Anos de Pesquisas

Silvio Brienza Júnior(1), Rosana Quaresma Maneschy(2), Moisés Mourão Júnior(1), Aderaldo Batista Gazel Filho(3),

Jorge Alberto Gazel Yared(4), Delman Gonçalves(1) e Michelliny Bentes Gama(5)Embrapa Amazônia Oriental, Travessa Enéas Pinheiro, s/n. C.P. 48, CEP 66095-100. E-mails: brienza@cpatu.embrapa.br mmourao@cpatu.embrapa.br delman@cpatu.embrapa.br Universidade Federal do Pará, Rua Augusto Corrêa, 01, Guamá, C.P. 479, CEP 66075-110, Belém-PA. E-mail: romaneschy@hotmail.com Embrapa Amapá, Rodovia Juscelino Kubitschek, Km 5, 2600, C.P. 10, CEP 68903-419, Macapá-AP. E-mail: agazel@uol.com.br Pesquisador aposentado da Embrapa Amazônia Oriental, Governo do Estado do Pará. E-mail: jyared@amazon.com Embrapa Rondônia, BR 364, Km 5,5, C.P. 127, CEP 76815-800, Porto Velho-RO. E-mail: mbgama@cpafro.embrapa.br

Resumo - A pesquisa agroflorestal na Amazônia começou a ser sistematizada no início dos anos 80 por instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Comissão Executiva da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Avaliar a literatura produzida sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs) na Amazônia pode identificar áreas carentes de estudos, agrupar informações para consolidação de conhecimento e contribuir para o planejamento e execução de políticas públicas. O presente documento analisa a literatura sobre SAFs na Amazônia brasileira entre 1980 a 2005, baseado no acervo documental da Embrapa Amazônia Oriental e na Base de Dados da Pesquisa Agropecuária (BDPAWeb). Os trabalhos foram classificados por: ano; instituição responsável; local; e uso do(s) componente(s) arbóreo(s) dentro do sistema. Foram catalogadas 460 referências bibliográficas sobre SAFs na Amazônia brasileira. A análise mostrou que as edições do Congresso Brasileiro de Sistemas Agroflorestais contribuíram para aumentar a produção científica. A pesquisa agroflorestal requer longo tempo para a validação de resultados, e uma forma de encurtar tempo é projetar cenários, via utilização de modelagem. Na bibliografia consultada, observa-se uma lacuna quanto à pesquisa de modelagem de sistemas, e como o seu desenvolvimento pode proporcionar avanços dinâmicos e consistentes na pesquisa agroflorestal.

Termos para indexação: Espécies nativas, agrossilvicultura, literatura, banco de dados.

Agroforestry in the Brazilian Amazon: an Analysis of 25 Years of Research

Abstract - Agroforestry research in the Brazilian Amazon began in the eighties by Agricultural Research Brazilian Enterprise (Embrapa), Executive Commission of Cacao Plantation (CEPLAC), and the National Institute of Amazonian Research (Inpa) by the Agronomic Science Research Coordination (CPCA). Evaluation of literature on agroforestry systems can identify lacking areas of information or grouping them into knowledge area. Thus, it is possible to extract lessons to be used for planning and executing public polices. This paper analyzed the literature on agroforestry systems, in the Brazilian Amazon, from 1980 to 2005. The bibliography survey was based on database of Embrapa Eastern Amazon as well as on the Agricultural Research Data Base (BDPAWeb) through the search expression [*Amazon and sist* and agriculture* and agrossi*]. The literature was classified by year, responsible institution, author, local implementation, and use of trees. A total of 460 references were classified. The chronological analysis showed that the Brazilian Congress of Agroforestry System (CBSAF) contributed to increase the scientific production. In general, agroforestry research needs a long time for validation. However, projection of scenarios by modeling could shortening time. We observed a gap in modeling of systems. Therefore, it is necessary to develop this issue seeking to obtain more dynamic and solid progresses in the agroforestry system research.

Index terms: Native species, agrisilviculture, literature, data bank.

Introdução

Nas últimas décadas, a cobertura florestal mundial diminuiu acentuadamente (cerca de 20%) (BRYANT et al.,

1997), em função de mudanças do uso da terra, tanto para a ampliação de áreas de cultivos como para implantação de novas áreas de pastagens (KAIMOWITZ; ANGELSEN, 1998; VOSTI et al., 2002). O desmatamento contínuo doi: 10.4336/2009.pfb.60.67

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ameaça os serviços ambientais globais como sequestro de carbono e biodiversidade, especialmente quando associado ao uso do fogo (COCHRANE; SCHULZE, 1998a, 1998b; SORRENSEN, 2000).

O desmatamento na Amazônia brasileira é monitorado oficialmente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desde 1988. Em termos de valores acumulados, estima-se um desmatamento equivalente a quase 700 mil km2 ou 17,5% da área florestada da Amazônia (INPE, 2009) e cerca de 19,8% dessa área encontram-se abandonados ou sub-utilizados ou, muitas vezes, em estado de degradação (ALMEIDA, 2008).

Essa expressiva porção de área desmatada pode ser reincorporada ao processo produtivo mediante o uso de sistemas produtivos adaptados às condições ambientais da Amazônia. Em geral, essas áreas marginais encontram-se sob pressão ampla e direta da pecuária, agricultura e exploração madeireira predatória, provenientes de políticas expansionistas em décadas anteriores (VOSTI et al., 2002; BARRETO et al., 2006).

Atividades agrícolas apresentam benefícios econômicos e podem aliviar a pobreza. Entretanto, limitações agronômicas referentes a tipos de solo, clima e potencial de tecnificação são questões que devem ser consideradas nas prognoses de sustentabilidade e no dimensionamento dos empreendimentos. O debate centra-se em como manejar áreas de florestas restantes, conjugando os objetivos do desenvolvimento via crescimento econômico agrícola com sustentabilidade ambiental e redução da pobreza (VOSTI et al., 2002).

Há várias tecnologias passíveis de uso com o propósito de recuperar a capacidade produtiva do solo, tais como: preparo de área sem queima (KATO, 1998a, 1998b); enriquecimento de floresta secundária para produção de biomassa (BRIENZA JÚNIOR, 1999); sistema Bragantino (CRAVO et al., 2005); pastejo rotacionado (MOURA CARVALHO; COSTA, 1998); integração lavoura-pecuária (TRECENTI et al., 2008) e sistemas agroflorestais (EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL, 2003), entre outros. O uso de sistemas agroflorestais (SAFs) também é uma alternativa sustentável, com possibilidade de auxiliar na redução do desmatamento, uma vez que rompe com o ciclo da agricultura migratória tão comum na região, a qual, em função de períodos de pousio muito curtos para a recuperação dos solos, aumenta a pressão sobre as áreas de floresta primária (SMITH et al., 1998).

O espectro de adaptação dos SAFs (condições ecológicas e socioeconômicas) é amplo e pode resultar numa classificação quanto ao uso dos componentes, como: i) sistemas silviagrícolas; i) silvipastoris; e ii) agrossilvipastoris. Esta ampla adaptação é corroborada pelo elevado número de espécies e arranjos destas registrados na literatura, o que confere um caráter dinâmico aos sistemas agroflorestais (ÁVILA; MINAE, 1992). O enfoque de diagnóstico e planejamento praticado em diversas experiências promissoras de SAFs parte do pressuposto participativo das comunidades para indicação e seleção de espécies, sem que haja restrição quanto ao número de componentes (ARCOVERDE et al., 2004). Desse modo, o número de arranjos possíveis é muito elevado. Smith et al. (1998) citam 70 espécies utilizadas em SAFs na Amazônia brasileira, dentre espécies perenes e semi-perenes, enquanto que Sá (1989) registrou 57 espécies. Por outro lado, Veiga e Tourrand (2002) citam 14 espécies relacionadas somente a sistemas silvipastoris.

Na Amazônia brasileira existem várias experiências sobre recuperação de áreas alteradas com SAFs, havendo predominância de dois grupos:

Primeiro Grupo - Encontram-se os trabalhos realizados por instituições de pesquisa ou independentes cujas informações são geradas de forma sistematizada e dentro de um rigor científico.

Segundo Grupo - Predominam experiências empíricas realizadas por produtores dos mais variados setores. E, nesse caso, os produtores têm maior interesse no resultado final, e não se preocupam com os meios usados na “experimentação”. Devido a isso, as informações geradas são de difícil sistematização, mas relevantes, havendo necessidade de serem reunidas, sistematizadas e analisadas de forma a serem submetidas à validação científica.

A prática de combinar árvores com cultivos agrícolas e/ou com atividade pecuária ocorro há bastante tempo na Amazônia brasileira, como exemplo, agricultores japoneses em Tomé-Açu, PA, e agricultores do projeto Reflorestamento Consorciado e Adensado, em Rondônia (Reca), ambos na década de 1980; e agricultores da Associação de Produtores Alternativos de Ouro Preto do Oeste (APA), também em Rondônia, no início dos anos 90. Por outro lado, a pesquisa agroflorestal na Amazônia começou a ser sistematizada no início dos anos 80 por instituições como a Comissão Executiva

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69Sistemas Agroflorestais na Amazônia Brasileira: Análise de 25 Anos de Pesquisas da Lavoura Cacaueira (Ceplac), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) via suas unidades localizadas na Amazônia e o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), por meio da Coordenação de Pesquisa em Ciência Agronômicas (CPCA). Outra iniciativa relevante sobre SAFs na Amazônia, refere-se a atuação da Rede Brasileira Agroflorestal (Rebraf), que trabalhou na capacitação de técnicos e agricultores em meados da década de 90, e lançou a publicação “Manual agroflorestal para a Amazônia” (DUBOIS et al., 1996).

A capacidade de pesquisa das instituições na Amazônia não é suficiente para suprir todas as necessidades da região, em virtude não só do elevado número de assuntos de interesse agroflorestal, como também em função do pequeno número de pesquisadores em comparação com a grandeza territorial da Amazônia. Além desses fatores, deve-se considerar, também, que ensaios sobre SAFs ocupam grandes áreas além de exigirem recursos relativamente elevados para monitoramento.

Do ponto de vista acadêmico, avaliar a literatura produzida sobre o tema SAF na Amazônia pode ajudar a identificar áreas carentes de informações, ou agrupar informações para consolidação de conhecimento. E, por outro lado, a avaliação de experiências de SAFs em andamento também pode contribuir para extrair lições a serem utilizadas no planejamento e execução de políticas públicas.

O presente documento refere-se a uma análise da literatura sobre SAFs na Amazônia brasileira, no período de 1980 a 2005. Buscou-se identificar quais as categorias de SAFs mais estudadas (silviagrícola, silvipastoril e agrossilvipastoril), evolução histórica da produção bibliográfica, assim como espécies mais utilizadas, entre outros.

Material e Métodos

O levantamento bibliográfico realizado sobre SAFs na Amazônia levou em conta o acervo documental da Embrapa Amazônia Oriental, assim como a Base de Dados da Pesquisa Agropecuária (BDPAWeb) por meio da expressão de busca [*amazonia e sist* e agro* e agrossi*]. O material avaliado foi publicado em periódicos, boletins, anais de eventos e folhetos. Não constou do levantamento do presente trabalho teses de pós-graduação. No total, foram catalogadas 460 referências bibliográficas sobre pesquisas realizadas envolvendo SAFs na Amazônia brasileira de 1980 a 2005. Os trabalhos foram classificados por: ano; instituição responsável pela publicação; local de realização do estudo; e uso(s) do(s) componente(s) arbóreo(s) dentro do sistema.

Deve-se ressalvar que, em termos metodológicos, é possível que o procedimento de busca das referências bibliográficas utilizadas não contemple toda a produção científica até a data estipulada no presente trabalho (2005), uma vez que é preciso que as instituições de pesquisa da região procedam a uma constante atualização da Base de Dados da Pesquisa Agropecuária (BDPA).

A análise dos dados foi baseada no uso de tabelas de frequência considerando a década, o local, os usos e as espécies avaliadas. Valores médios foram testados por meio de técnicas não paramétricas. No caso de tabelas de frequências, com múltiplas respostas ou mesmo atribuições, tal como o uso das espécies ou quais as espécies utilizadas, foram construídas relações de concatenação entre estas respostas. Um mapa conceitual também foi elaborado a partir da frequência de linhas de pesquisa, buscando evidenciar a tipologia das linhas de pesquisa e suas orientações ao longo de todo o período avaliado. Para a confecção do mapa conceitual foi utilizado o programa CmapTools (CAÑAS et al., 2004).

Resultados e Discussão

Evolução histórica da pesquisa em SAFs

De 1980 a 2005 foram publicados, em média, 18 trabalhos por ano. Uma avaliação linear da produção científica pode não mostrar sua dinâmica ao longo dos anos. Assim, é preciso fazer uma análise da distribuição das publicações ao longo das décadas. E, essa análise cronológica das publicações demonstrou que a produção científica até 1993 é baixa (Figura 1). A média de publicações na década de 80 foi de três por ano. Nos anos 90, esse número passou para 12 por ano, o que implicou em um aumento de cerca de 300% e alcançou a de média 52 publicações/ano a partir do ano 2000 (crescimento de cerca de 340% em relação à década de 90) (Tabela 1). Nota-se que esse considerável incremento no número de trabalhos publicados está associado ao advento dos Congressos Brasileiros de Sistemas Agroflorestais (CBSAFs) realizados em 1994, 1998, 2000, 2002 e 2004. Esse fato pode ser comprovado ao se verificar que nos anos de realização dos CBSAFs o número de publicações/ano é muito superior (teste U de Mann-

Whitney: U=0,001; z(U)aj. =-3,41; p<0,001) aos anos em que estes não ocorrem (Tabela 1).

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Tabela 1. Número médio de publicações/ano sobre sistemas agroflorestais na Amazônia brasileira nas décadas de 80, 90 e 2000, em função da ocorrência dos Congressos Brasileiros de Sistemas Agroflorestais (CBSAFs).

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