Economia numa única lição - Henry Hazlitt

Economia numa única lição - Henry Hazlitt

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Economia numa única lição

Henry Hazlitt

Economia numa única lição

4ª Edição

H431e Hazlitt, Henry.

Economia Numa Única Lição / Henry Hazlitt. -- São

Paulo : Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010. 125p.

Tradução de: Leônidas Gontijo de Carvalho

1. Economia 2. Estado 3. Intervencionismo 4. Liberdade 5. Mercado I. Título.

CDU – 330.1 copyright © instituto liberal e instituto ludwig von mises Brasil

Título: Economia numa única lição autor: Henry Hazlitt

Esta obra foi editada por: instituto ludwig von mises Brasil

Rua iguatemi, 448, conj. 405 – itaim Bibi

São Paulo – SP

Tel: (1) 3704-3782 impresso no Brasil / Printed in Brazil iSBn: 978-85-62816-17-8 4ª Edição

Traduzido por leônidas Gontijo de carvalho

Projeto Gráfico e capa: andré martins

Revisão para nova ortografia: Fernando Fiori chiocca

Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário Sandro Brito – cRB8 – 7577

Revisor: Pedro anizio

Sobre o Autor13
Prefácio dA edição de 1979 (H.H.)15
Prefácio dA PrimeirA edição (H.H.)17

Sumário

cAPítulo 1 – A lição23
cAPítulo 2 – A VitrinA QuebrAdA29
cAPítulo 3 – AS bênçãoS dA deStruição31
cAPítulo 4 – obrAS PúblicAS SignificAm imPoStoS37
cAPítulo 5 – oS imPoStoS deSencorAjAm A Produção43
cAPítulo 6 – o crédito deSViA A Produção45
cAPítulo 7 – A mAldição dA mAQuinAriA53
cAPítulo 8 – eSQuemAS de difuSão do trAbAlHo65
cAPítulo 9 – A diSPerSão de troPAS e burocrAtAS71
cAPítulo 10 – o feticHe do Pleno emPrego75
cAPítulo 1 – Quem é “Protegido” PelAS tArifAS?7
cAPítulo 12 – A determinAção de exPortAr87
cAPítulo 13 – A “PAridAde” de PreçoS93
cAPítulo 14 – A SAlVAção dA indúStriA x101
cAPítulo 15 – como funcionA o SiStemA de PreçoS107
cAPítulo 16 – A “eStAbilizAção” dAS mercAdoriAS113
cAPítulo 17 – tAbelAmento de PreçoS Pelo goVerno119
cAPítulo 18 – o Que fAz o controle de AluguéiS129
cAPítulo 19 – leiS do SAlário mínimo135
cAPítulo 20 – oS SindicAtoS eleVAm reAlmente oS SAlárioS?141
cAPítulo 21 – “o Suficiente PArA AdQuirir o Produto”153
cAPítulo 23 – A mirAgem dA inflAção163
cAPítulo 24 – o ASSAlto à PouPAnçA175
cAPítulo 25 – rePete-Se A lição187

8Henry Hazlitt

cAPítulo 26 – A lição trintA AnoS dePoiS197

“Educar é desensinar com o propósito de superar preconceitos e intolerância.” – Frank H. Knight

“Quando se trata de liberdade, o conservador deveria ou calar ou encontrar algo de útil para dizer. Eu penso que há algo de útil a ser dito, e é o que está aqui.” – George J. Stigler

Sobre o Autor

Henry Hazlitt nasceu em 28 de novembro de 1894. Pretendia estudar filosofia e psicologia, mas foi obrigado a abandonar os estudos para ganhar a vida.

Ao decidir ser jornalista, empregou-se no Wall Street Journal como taquígrafo, sem nenhum conhecimento de economia. Entretanto, rapidamente se inteirou do assunto.

Em 1946, escreveu uma crítica popular sobre a intervenção do governo na vida econômica das pessoas. Tornou-se editor literário do New York Sun, em 1925, de The Nation, em 1930, e editor de The American Mercury, em 1933. Entre 1934 e 1946, escreveu a maioria dos editoriais econômicos para The New York Times e, a seguir, entre 1946 e 1966, passou a assinar a coluna “Business Ties” do Newsweek, passando mais tarde para o Los Angeles Times Syndicate, como colunista.

Hazlitt é autor de dezoito livros. Economia numa única lição já foi traduzido em dez países, com cerca de um milhão de exemplares vendidos. a primeira edição foi publicada em 1946 e a edição revista em 1979, até hoje, é uma das leituras mais sucintas sobre Economia.

um outro livro do mesmo autor, intitulado Will Dollars Save the

World?, editado em 1947, foi condensado em janeiro de 1948 pelo Reader’s Digest e publicado em vários países.

algumas de suas obras analisam as falácias keynesianas e outras enfocam o assunto inflação.

Prefácio dA edição de 1979 a primeira edição deste livro foi publicada em 1946. Foram feitas oito edições e surgiram várias outras em brochura. na de 1961, foi introduzido um novo capítulo sobre controle de aluguéis, que não havia sido especificamente estudado, na primeira edição, separadamente do tabelamento de preços pelo governo em geral. Foram atualizadas algumas referências sobre dados estatísticos e ilustrações.

De outra forma não houve modificações até agora. a principal razão disto é que não foram consideradas necessárias. meu livro foi escrito para dar ênfase aos princípios econômicos gerais e às penalidades por ignorá-los, não aos danos causados por um determinado artigo de lei. Embora meus exemplos sejam baseados, principalmente, na experiência americana, o tipo de intervenções governamentais, que eu abomino, tem-se tornado tão internacionalizado, que, para muitos leitores estrangeiros, me parece estar particularmente descrevendo as políticas econômicas de seu próprio país. não obstante, penso que, agora, após trinta anos, esteja exigindo uma extensa revisão. além de atualizar todos os exemplos e dados estatísticos, introduzi um capitulo inteiramente novo sobre controle de aluguéis. acho que o estudo de 1961 agora está inadequado. E acrescentei um novo capítulo final, “a lição trinta anos depois”, para mostrar por que hoje esta lição ê mais desesperadamente necessária que nunca.

Wilton, conn. H.H Junho de 1978

Prefácio dA PrimeirA edição

Este livro é uma análise das falácias da economia, hoje tão correntes que se tornaram quase uma nova ortodoxia. a única coisa que impediu que isto ocorresse foram suas próprias contradições, que dispersaram os que aceitam as mesmas premissas e criaram uma centena de diferentes “escolas”, pela simples razão de ser impossível, em assuntos referentes à vida prática, ser coerente com o erro. mas a diferença entre uma nova escola e outra está, simplesmente, no fato de um grupo despertar mais cedo que outro ante os absurdos a que suas falsas premissas o estão conduzindo e, nesse momento, tornar-se inconsequente, quer abandonando-as involuntariamente, quer aceitando conclusões delas decorrentes menos inquietantes ou menos fantásticas que as que a lógica exigiria. não há no mundo, porém, neste momento, um governo sensato cuja política econômica não seja influenciada pela aceitação de algumas dessas falácias, quando não for inteiramente dirigido por elas. o meio mais curto e mais seguro para compreender a economia talvez seja mediante uma dissecação de tais erros e, especialmente, do erro fundamental do qual elas se originam. É esta a pretensão desse livro e de seu titulo um tanto ambicioso e belicoso.

Esta obra contém, por isso, em primeiro lugar uma exposição.

não tem a pretensão de ser original no tocante a quaisquer das principais ideias que expõe. Pelo contrário, seus esforços objetivam mostrar que muitas das ideias, que agora passam por brilhantes inovações e progressos, são, na realidade, mera revivificação de antigos erros e mais uma prova do ditado, segundo o qual todo aquele que ignora o passado está condenado a repeti-lo.

o presente ensaio é, suponho, impudentemente “clássico”, “tradicional” e “ortodoxo”: pelo menos são esses os epítetos com os quais as pessoas, cujos sofismas são aqui analisados, procurarão, indubitavelmente, tentar rejeitar essa análise. mas o estudante, cujo objetivo é, na medida do possível, alcançar a verdade, não se atemorizará com tais adjetivos. não estará procurando uma permanente revolução, uma “nova arrancada” no pensamento econômico.

Seu espírito acolherá, naturalmente, tanto as novas, como as velhas ideias, mas terá prazer em afastar a inquietação ou o exibicionismo dos que andam à cata de novidade e originalidade. como observou morris R. cohen: “a ideia de que podemos abandonar as opiniões de todos os

18Henry Hazlitt pensadores que nos precederam não deixa, por certo, qualquer base para a esperança de que nosso trabalho prove ter algum valor para outrem.”1

Tratando-se de uma obra expositiva, manifestei-me livremente e sem entrar em detalhes quanto à contribuição de ideias alheias (salvo raras notas de rodapé e citações). isto é inevitável quando penetramos num campo em que trabalharam arduamente muitos dos mais belos espíritos do mundo. minha dívida, porém, para com três autores, pelo menos, é de natureza tão especifica que não posso deixar de mencioná-la. minha dívida maior, relacionada à espécie de enquadramento elucidativo, na qual se apóia o presente argumento, é para com o ensaio de Frédéric Bastiat, ce qu’on voit et ce qu’on ne voit pas, que data de quase um século. Este meu trabalho poderá, realmente, ser considerado como a modernização, ampliação e generalização de ideias encontradas no opúsculo de Bastiat. minha segunda dívida é para com Philip Wicksteed: especialmente os capítulos relativos aos salários e ao resumo final devem muito a seu trabalho common Sense of Political Economy. minha terceira dívida é para com ludwig von mises. omitindo tudo quanto esse tratado elementar possa dever às suas obras, minha dívida mais específica refere-se à exposição sobre a maneira pela qual o processo de inflação monetária se difunde.

ao analisar as falácias, julguei mais aconselhável reconhecer méritos que citar nomes, individualmente. Se fosse citá-los, deveria render justiça especial a cada autor criticado, com transcrições exatas, e considerar a ênfase peculiar que dá a um ou a outro ponto, às qualificações que faz, ambiguidades pessoais, incoerências etc. Espero, portanto, que ninguém fique desapontado com a ausência, nessas páginas, de nomes tais como Karl marx, Thorstein Veblen, major Douglas, lord Keynes, Professor alvin Hansen e outros. não é propósito deste livro expor erros peculiares a determinados autores, e sim erros econômicos mais frequentes, generalizados ou influentes.

Quando atingem a fase popular, as falácias tornam-se praticamente anônimas. Eliminamos sutilezas ou obscurantismos encontrados nos autores mais responsáveis por sua propagação. uma doutrina é simplificada; o sofisma de que tenha permanecido enterrada numa rede de qualificações, ambiguidades ou equações matemáticas tornase patente. Espero, portanto, não ser acusado de praticar injustiça, sob a alegação de que uma doutrina em voga pela forma por mim apresentada não é precisamente a que lord Keynes ou algum outro autor formularam. Estamos aqui interessados nas crenças que grupos politicamente influentes aceitam, e com as quais agem os governos, e Reason and Nature (1931) p. x

19Prefácio da Primeira Edição não nas suas origens históricas. Espero, finalmente, que me relevarão o fato de raramente fazer referência a estatísticas, nas páginas seguintes. Procurasse eu apresentar confirmação estatística ao referir-me aos efeitos de tarifas, fixação de preços, inflação e controle sobre mercadorias tais como carvão, borracha e algodão, e teria aumentado as dimensões desse livro muito além das previstas. além disso, como jornalista militante, sei perfeitamente quão depressa as estatísticas se tornam antiquadas e superadas por cifras mais recentes. aconselho a quem estiver interessado em problemas econômicos específicos a ler exposições “realistas” correntes, com documentação estatística; não encontrará dificuldade em interpretá-las corretamente à luz dos princípios básicos que aprendeu.

Procurei escrever este livro com simplicidade e sem detalhes técnicos, embora compatível com razoável exatidão, de sorte a poder ser compreendido perfeitamente por um leitor que não tenha tido prévio conhecimento de economia.

Quando o livro estava sendo composto, três capítulos apareceram como artigos independentes, e desejo agradecer a The new York Times, The american Scholar e The new leader por haverem permitido a reimpressão da matéria anteriormente publicada em suas páginas. Sou grato ao Professor von mises por ter lido o manuscrito e apresentado úteis sugestões. claro que é inteiramente minha a responsabilidade pelas opiniões aqui expressas.

H. H. nova York, 25 de março de 1946.

PArte 1 A Lição cAPítuLo 1 A Lição a economia é mais assediada por falácias que qualquer outro estudo conhecido pelo homem. Tal fato não é acidental. as dificuldades inerentes ao assunto seriam, em todo o caso, bastante grandes; são, entretanto, mil vezes multiplicadas por um fator insignificante na física, matemática ou medicina: alegações especiais de interesse egoístico. conquanto qualquer grupo tenha interesses econômicos idênticos aos de todos os demais, cada um tem também, conforme veremos, interesses opostos aos de todos os outros grupos. Enquanto certa política governamental procuraria beneficiar todo mundo a longo prazo, outra política beneficiaria apenas um grupo, à custa dos demais. o grupo que se beneficiasse com esta política, tendo nela interesse direto, achá-la-ia plausível e pertinente. contrataria os melhores cérebros que pudesse conseguir, para dedicarem todo o tempo na defesa de seu ponto de vista. E acabaria convencendo o público de que o caso é justo ou o confundiria de tal modo, que se tornaria quase impossível formar, sobre ele, um juízo claro.

além desses infindáveis argumentos relacionados ao interesse próprio, há um segundo fator principal que todos os dias semeia novas falácias. É a persistente tendência de os homens verem somente os efeitos imediatos de determinada política ou seus efeitos apenas num grupo especial, deixando de averiguar quais os efeitos dessa política a longo prazo, não só sobre esse determinado grupo, como sobre todos os demais.

É a falácia de menosprezar consequências secundárias. nisso talvez esteja toda a diferença entre a boa e a má economia. o mau economista vê somente o que está diante de seus olhos; o bom economista olha também ao seu redor. o mau percebe somente as consequências diretas do programa proposto; o bom olha, também, as conseqüências indiretas e mais distantes. o mau economista vê somente quais foram ou quais serão os efeitos de determinada política sobre determinado grupo; o bom investiga, além disso, quais os efeitos dessa política sobre todos os grupos. Parece óbvia a diferença. a precaução de averiguar todas as consequências de uma certa política sobre todos talvez pareça elementar.

não sabe todo mundo, em sua vida privada, que há toda sorte de complacências que, na ocasião, são agradáveis e que, no fim, se tornam desastrosas? não sabe toda criança que se comer muito doce poderá ficar doente? não sabe o indivíduo que se embriaga que, na manhã seguinte, despertará com o estômago ruim e com horrível dor

24Henry Hazlitt de cabeça? não sabe o dipsomaníaco que está arruinando o fígado e abreviando a vida? não sabe o Dom Juan que se está entregando a toda sorte de riscos, da chantagem à doença? Finalmente, para voltarmos ao reino da economia, se bem que ainda pessoal, não sabem o ocioso e o esbanjador, mesmo em meio a gloriosas experiências, que estão caminhando para um futuro de dívidas e pobreza?

Todavia, quando entramos no campo da economia pública, ignoramos essas verdades elementares. Há homens, hoje considerados brilhantes economistas, que condenam a poupança e recomendam o esbanjamento em escala nacional como meio de salvação econômica; e quando alguém assinala quais serão, por fim, a longo prazo, as consequências dessa política, respondem, petulantemente, tal como um filho pródigo ao pai que o estivesse prevenindo: “a longo prazo estaremos todos mortos.” Essas pilhérias vazias passam por epigramas devastadores e sabedoria amadurecida.

mas a tragédia é que, ao contrário, já estamos sofrendo as consequências a longo prazo da política do passado remoto ou recente. o dia de hoje já é o amanhã que os maus economistas, ontem, nos aconselharam a ignorar. as consequências a longo prazo de certa política econômica poderão tornar-se evidentes dentro de poucos meses. outras, talvez não se evidenciem durante vários anos. outras, ainda, talvez não o sejam durante décadas. mas, em qualquer caso, essas consequências a longo prazo estão contidas na política econômica, com a mesma certeza com que a galinha estava no ovo, a flor na semente. Partindo, portanto, desse aspecto, pode-se resumir toda a economia em uma única lição, e pode-se reduzir essa lição a uma única proposição.

a arte da economia está em considerar não só os efeitos imediatos de qualquer ato ou política, mas, também, os mais remotos; está em descobrir as consequências dessa política, não somente para um único grupo, mas para todos eles.

nove décimos das falácias sobre economia, que estão causando um terrível mal ao mundo, resultam da ignorância dessa lição. originam-se todas elas de uma das duas falácias fundamentais, ou de ambas: considerar somente as consequências imediatas de um ato, ou proposta, e apenas as suas consequências, para um determinado grupo, esquecendo os demais.

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