Iniciando um trabalho com música1390-4309-1-PB- SILVA, Mara; Ana Paula

Iniciando um trabalho com música1390-4309-1-PB- SILVA, Mara; Ana Paula

(Parte 1 de 2)

Iniciando o trabalho com música: uma experiência no 6º e 7º ano do Ensino Fundamental.

Ana Paula Silva da Silva Amaral

Universidade do Estado do Amapá ana.amaral@ueap.edu.br

Mara Pereira da Silva

Universidade Federal do Tocantins Pereiracantora1@hotmail.com

Resumo. Este texto descreve e analisa algumas atividades desenvolvidas nas turmas de 6º e 7º ano do Ensino Fundamental, nas aulas de Arte, durante o primeiro semestre de 2013 vivenciada na Escola Municipal de Ensino Fundamental Major Cornélio, localizada no Município de Santo Antônio do Tauá, na mesorregião metropolitana da Capital Belém, no estado do Pará. A atividade foi uma alternativa para se iniciar um trabalho relacionado à Educação Musical, dentro da disciplina Arte, considerando que os alunos envolvidos, acreditavam que aulas de Arte, consistia em atividades para desenhar e pintar. Acredita-se ser importante a apresentação deste trabalho para poder refletir sobre as dificuldades e os desafios em se trabalhar com a música na educação básica, e que mesmo com a aprovação da Lei 1. 769, a qual torna obrigatório o ensino de conteúdos musicais, ainda precisamos romper com muitos concepções e conceitos pré estabelecidos sobre as aulas de Arte, primordialmente com os educandos os quais são os principais atores neste processo.

Palavras-chave: Ensino Fundamental, aulas de Arte, Ensino da Música.

Introdução

Este trabalho é um relato de experiência, de uma prática pedagógica em educação musical desenvolvida com as turmas do 6º e 7º ano do Ensino Fundamental. Essa proposta descreve e analisa atividades desenvolvidas nas aulas de música, dentro da Disciplina Arte, durante o primeiro semestre de 2013, vivenciada na Escola Municipal de Ensino Fundamental Major Cornélio, localizada no Município de Santo Antônio do Tauá, na mesorregião metropolitana da capital Belém, no Estado do Pará.

A Escola de Ensino Fundamental Major Cornélio oferece ensino do 6º ao 9º ano, funciona em três turnos, no primeiro e segundo turno atende alunos com faixa etária entre 9 a 17 anos, ficando o terceiro turno a faixa etária acima de 18 anos através da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Nesta escola não haviam outros professores com formação específica em qualquer uma das linguagens artísticas, para trabalhar com a disciplina Arte. Somente após a realização de concurso público ocorre a entrada de um professor com formação específica em música para trabalhar com a disciplina Arte, os outros professores eram de outras áreas como Língua Portuguesa e Ensino Religioso que, até mesmo sem curso de licenciatura, trabalhavam com a disciplina com o intuito de aumentar sua carga horária.

Nesta escola éramos responsável por 12 turmas, formadas com 45 a 47 alunos, cada uma, totalizando 564 alunos, trabalhava-se com uma carga horária de 120h/aula em média por mês, onde o maior número estava concentrado no turno da manhã, ficando apenas o atendimento de três turmas no período da tarde, na sexta-feira, e como forma de ajudar no nosso planejamento, a assistência pedagógica definiu que ficássemos responsáveis pelas turmas de 6º e 7º ano.

Apesar do trabalho a ser apresentado neste relato ter ocorrido no primeiro semestre de 2013, quase cinco anos após a provação da lei 1.769, percebeu-se que nada havia mudado quanto ao entendimento sobre o ensino de Arte e também sobre o ensino da música, é como se não houvesse preocupação nenhuma neste município com a inclusão de conteúdos musicais nas aulas de Arte.

Ao chegar nesta escola me deparei om uma realidade não muito diferente das escolas da capital do Estado e das escolas brasileiras, com condições extremamente precárias no que se refere a salas de aulas, onde as mesmas estavam poluídas visualmente, a estrutura era de meia parede e grade, onde era possível ouvir tudo que acontecia do lado de fora e até mesmo as aulas do colega ao lado, a qual trazia interferência nas aulas de ambos, tomadas sem funcionamento, dois ventiladores por sala, mas só funcionava um, os quadros ainda eram aqueles quadros de giz, etc. Dificuldades declaradas por Penna (2012), quando relata que “os desafios da escola básica são reais – turmas grandes, falta de condições materiais, baixos salários, desvalorização do professor, indisciplina ou violência, etc.” (PENNA, 2012, p. 152).

Sobre a questão da indisciplina e violência, são fatores que dificultavam nossa prática pedagógica, pois o aluno da escola de ensino regular, por não ver essa disciplina como importante para sua formação, e que no geral eles não ficam retidos em uma série por causa dela, acabam não levando à sério, apesar de sabermos que Arte é uma disciplina como qualquer outra, e também reprova, mas ao final sempre os pedagogos pedem para aplicarmos outro instrumento de avaliação de forma que o aluno consiga alcançar uma pontuação para avançar para outra série. Muitos ficavam do lado de fora da sala, preferindo fazer outra atividade e um fato que nos chamou atenção, era que eles só entendiam que a aula havia começado se houvesse algo escrito no quadro, enquanto eles não visse o professor em pé, escrevendo algo no quadro, eles não entravam em sala ou não se acomodavam em suas carteiras.

Outra situação encontrada na escola Major Cornélio, refere-se a questão da baixa carga horária para a Disciplina Arte e o entendimento por parte dos gestores, professores e até mesmo dos alunos da importância da disciplina para o seu desenvolvimento global era o que mais incomodava, pois dificultava o desenvolvimento das aulas, pois além de já termos um espaço pequeno para o trabalho, quando precisávamos de espaço para reuniões pedagógicas, sempre as aulas de Arte eram canceladas para haver estas reuniões. A educadora musical Hentschke (1991) levanta questões sobre a necessidade de uma conscientização sobre o valor da música e da educação musical por parte dos agentes de toda prática educacional. Por outro lado Fonterrada (2008) afirma que “o impacto que determinada profissão pode ter na sociedade depende, em grande parte, do entendimento do que ela tem a oferecer” (FONTERRADA, 2008, p. 1). Neste sentido compreende-se que é necessário uma maior explicação a sociedade sobre o porquê ensinar música na Educação Básica.

Observou-se que em algumas turmas, as aulas de arte são trabalhadas por educadores de outras disciplinas como Língua Portuguesa, com a finalidade de aumentar a carga horária para um maior rendimento financeiro, onde os mesmos costumam fazer cartazes com os alunos de acordo com as datas comemorativas, como a Páscoa, Dia da Mulher, Dia das Mães, etc. Essa realidade demonstra o discurso de Hentschke (2000) onde a autora fala que “as escolas acabam admitindo professores, nem sempre capacitados para abarcar a tarefa do ensino de música, dentre eles amadores ou professores de outras disciplinas”. Esse fato atinge não somente a música, mais acaba interferindo nas outras linguagens artísticas como o teatro, a dança e as artes visuais, que apresentam conteúdo específico de sua área de conhecimento.

Como professora recém formada em um curso de licenciatura em música na época, senti muita dificuldades em trabalhar com música na educação básica, pois observei que o tipo de música que os alunos ouviam, não era aquela à qual estava interessada em trabalhar com eles, e naquele momento o que os interessava eram as músicas que estavam em alta nas mídias. Lembro-me bem, que pelos corredores, na quadra, na hora do intervalo e até mesmo na sala dos professores, as músicas mais tocadas eram, o fank carioca como: “ le lek lek”, “Ela não anda, ela desfila”, entre outras e os chamados Sertanejo Universitários como: “180, 180, 360”, “ Loucaaa, Louquinha ”, e Dance como: “Dança Kuduro e outros.

Ao buscar formas para iniciar um trabalho com música nesse contexto, que dialogasse com o cotidiano desses alunos, verifiquei que os Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino de Arte (BRASIL, 1998), no que se refere à música, considera a questão do avanço tecnológico, a relação destes avanços com os jovens, o qual interferem no que ouvem em seu gosto musical, nos orientando que:

É necessário procurar e repensar caminhos que nos ajudem a desenvolver uma educação musical que considere o mundo contemporâneo em suas características e possibilidades culturais. Uma educação musical que parta do conhecimento e das experiências que o jovem traz de seu cotidiano, de seu meio sociocultural e que saiba contribuir para a humanização de seus alunos (BRASIL, 1998, p. 79)

A partir dessas observações, busquei iniciar um trabalho considerando o que eles estavam acostumados a ouvir, “conhecendo e apreciando músicas de seu meio sociocultural”, até chegar à apresenta-los o “conhecimento musical construído pela humanidade em diferentes períodos históricos e espaços geográficos”, para que então ele pudesse “aprender a valorizar essa diversidade sem preconceitos estéticos, étnicos, culturais e de gênero” (BRASIL, 1998, p. 79). Então, irei relatar algumas atividades que envolveram música no processo de ensino dos educandos.

Descrevendo a prática:

As aulas iniciaram de forma dialogada sobre Arte, numa tentativa de tentar entender de que forma os alunos esperavam acontecer as aulas de Arte. Os relatos eram que as aulas sempre consistiam desde a 1ª série em pintar no caderno de desenho, com lápis de cor, cera ou com tinta guache. Então, mesmo o professor não solicitando do aluno este tipo de material, essas ferramentas já faziam parte da lista de materiais feitas por eles e seus pais no início do ano letivo.

A partir desses relatos, foi explicado aos alunos o conceito de Arte e as linguagens artísticas que constituem essa disciplina. Dialogando com os estudantes sobre cada uma das categorias de arte, até chegar à Linguagem da Música, demonstrando o quanto esta está presente em nosso cotidiano. Bernadete Zagonel (2008) afirma que “a música é uma das expressões artísticas mais afetadas e usadas pela mídia em geral e talvez a que mais está presente no cotidiano das pessoas”. Nos dias atuais, a escola não pode desconsiderar ou negar a presença das mídias no dia a dia dos alunos. O educador pode estar utilizando os meios de comunicação no processo de aprendizagem dos discentes.

Dando prosseguimento, foram propostas algumas questões para refletirem e responder e em seguida uma conversa sobre suas respostas. Os questionamentos levantados foram: Quando ouço música? Que tipos de música gostam de ouvir? Em que situações? Por qual motivo às músicas que eu gosto de ouvir foram compostas? Que intenção tinha o autor/compositor? E em que situações a maioria das pessoas gostam de ouvir música? Essas questões foram baseadas a partir das idéias de Swanwink (2003) sobre o significado da música. Depois de verificadas as mais diversas respostas sobre o que gostam de ouvir, e o porquê, verificou-se que no geral eles costumam ouvir a música popular urbana

(PEREIRA, 2014) aquelas veiculadas pela mídia, que está nas rádios, telenovelas e seriados. O educador antes de transmitir sua própria cultura musical, deve pesquisar o universo musical a que a criança pertence, e encorajar atividades relacionadas com a descoberta e com a criação de novas formas de expressão através da música (JEANDOT, 1997). E de acordo com Pereira (2014)

Ainda que a música popular urbana esteja imersa em processos também ideológicos e que envolvem massificação e homogeneização de gostos e estilos de vida, não é cabível negá-la ou excluí-la dos processos educativos, uma vez que esta música está presente no cotidiano de praticamente todos os cidadãos brasileiros. Seria mais produtivo, portanto, trabalhar a partir da realidade dos alunos e procurar desenvolver o seu senso crítico, tendo como objetivo uma mudança na experiência de vida e, especialmente, na forma de se relacionar com a música e com a arte no cotidiano. Tudo isto se, ao final do processo, esta mudança for da vontade deles. (PEREIRA, 2014, p. 98)

Neste sentido, o educador não pode desprezar esta música do processo de ensino, visto que a mesma contribui no aprendizado e não somente isso, ocasiona momentos escolares de alegria para os alunos.

Apresentou-se uma série de funções ou intenções em que são criados alguns tipos de música, em variados períodos e lugares, tratadas no livro Linguagem da Música da autora Isis Moura Tavares(2008) como: músicas para ninar, guerrear, dançar, divertir, orar, relaxar, curar, músicas para rituais, casamentos, publicidades e outras. Para Tavares (2008), ouvir vários tipos de música, discutir as sensações que elas despertam em cada um e depois descobrir a função original da música é uma atividade importante para a melhor compreensão do fenômeno musical.

Compreende-se que as músicas são criadas em diferentes espaços e contextos, apresentando funções variadas em determinada sociedade, cabe ao educador musical proporcionar a seus alunos oportunidades de ouvir e refletir sobre estilos variados, para que tenham um maior entendimento dos eventos musicais.

Depois de serem apresentadas as funções ou intenções que cada música pode ter, iniciou um trabalho de apreciação musical. O que é apreciação musical? De acordo com

Tavares (2008) A atividade de apreciação se constitui numa forma de contemplação ativa ou de leitura da produção musical, ou seja, refere-se a criação de sentidos. E para Reimer apud França (2002) “a apreciação é uma forma legítima e imprescindível de engajamento com a música. Através dela podemos expandir nossos horizontes musicais e nossa compreensão. Ela é a atividade musical mais facilmente acessível e aquela coma qual a maioria das pessoas vai se envolver durante suas vidas”.

No processo de apreciação musical, o educador não pode deixar de lado a cotidianidade do aluno. Para Barbosa (1997) A educação poderia ser o mais eficiente caminho para estimular a consciência cultural do indivíduo, começando pelo reconhecimento e apreciação cultural do indivíduo, começando pelo reconhecimento e apreciação da cultura local. Tavares (2008) diz mais ainda que durante as atividades de apreciação e produção artística, o educador não pode perder de vista o fato de que os alunos têm suas vivências e experiências musicais e que estas devem ser sempre levadas em consideração.

Considerando as afirmativas, formulamos uma proposta, onde utilizou-se as músicas

O Calhambeque de Roberto Carlos e Erasmo Carlos e a música Camaro Amarelo de Munhoz e Mariano, onde se estabeleceu uma relação, as quais as mesmas apesar de terem sido feitas em épocas diferentes assumiram a mesma função que é de contar uma história, servindo também para dançar.

Esta atividade foi bem aceita pelos alunos despertou a atenção, o interesse, e a reflexão sobre a letra, os tipos de instrumentos utilizados, o ritmo e sobre a própria função da música (HUMMES, 2004). Apesar de ter partido da realidade dos educandos, o foco pretendido foi chegar a músicas que os mesmos não tem oportunidade de ouvir e apreciar. Contudo, o conhecimento musical cotidiano dos alunos deve ser o ponto de partida do processo educacional, mas não seu ponto de chegada (BENEDETTI; KERR, 2008).

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