A igreja como espaço constituinte da experiência musical

A igreja como espaço constituinte da experiência musical

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A igreja como espaço constituinte da experiência musical: narrativas de jovens indígenas do IFPA

Mara Pereira da Silva

Universidade de Brasilía pereiracantora1@hotmail.com

Delmary Vasconcelos de Abreu

Universidade de Brasília delmaryabreu@gmail.com

Resumo: Considerando o aumento crescente de publicações relacionados a música e igreja, nesta comunicação é feito um recorte de pesquisa em processo de análise. A pesquisa tem como objetivo investigar os modos como os jovens indígenas do IFPA constituem suas experiências musicais. Entre os espaços constituintes da experiência, a igreja tem sido um dos espaços de formação dos colaboradores da pesquisa. O estudo fundamentou-se na abordagem autobiográfica (DELORY-MOMBERGER, 2012), tendo como técnica de pesquisa a entrevista narrativa (SCHUTZE, 2013). Espera-se que este trabalho venha contribuir na gama de trabalhos literários relacionados a música na igreja na perspectiva autobiográfica.

Palavras chave: Jovens indígenas; música na igreja; experiências musicais

Apresentando o tema

Esta comunicação apresenta um recorte de pesquisa em processo de análise, que tem como objetivo geral investigar os modos como os jovens indígenas do Curso Técnico em Agroecologia dos Povos Indígenas do Sudeste Paraense, do Instituto Federal do Pará – IFPA, constituem suas experiências musicais. Os colaboradores da pesquisa são sete, idades entre 19 a 25 anos, e os nomes escolhidos por eles próprios fazem alusão ao nome das aldeias e etnias as quais pertencem. São eles: Ararandewa, Barreirinha,Trocará, Guajajara I, Guajajara I, Atikum e Parkatêjê.

A metodologia empregada consiste na pesquisa autobiográfica (DELORY-

MOMBERGER, 2012). O método autobiográfico é uma abordagem de investigação narrativa, que se ocupa da forma de construir e analisar fenômenos narrativos. O fenômeno consiste no ato de narrar acontecimentos. É a narrativa como produto, cujos registros podem ser na forma oral, escrita ou imagéticas. A narrativa é tanto o fenômeno que se investiga quanto o método de investigação (CONNELLY E CLANDININ, 1995, p.12).

As Narrativas de Experiências Musicais de Jovens Indígenas – NEMJI foram estruturadas em três espaços formativos: música na aldeia, música em outros espaços formativos e música no IFPA. Esses eixos estruturantes geraram o tópico denominado dimensões das experiências musicais dos jovens indígenas colaboradores da pesquisa. Para este trabalho, nossa contribuição, nesta fase que a pesquisa se encontra, consiste em sintetizar o eixo música em outros espaços formativos abordando, dentro deste eixo, narrativas que se destacaram no tópico música e igreja.

um local propício para o processo formativo em música

Ao adentrarem os outros espaços formativos em música, como as igrejas católicas e evangélicas, os colaboradores trazem consigo experiências aprendidas na cultura tradicional, adquiridas com seus pais, sábios e os mais antigos da aldeia. Não foi o foco da pesquisa ver se tais jovens são praticantes ou não de uma determinada religião, mas como veem a igreja

A igreja como um espaço formativo em música é crescente na área de educação musical. Lorenzetti (2014), realizou uma pesquisa e apresentou um estado do conhecimento dos trabalhos realizados na educação musical que têm como foco a música na igreja. Conforme o autor, na literatura pesquisada houve um aumento significativo de trabalhos relacionados à educação musical e religião apresentados nos encontros nacionais e regionais da ABEM. A partir do aumento das produções de trabalhos relacionados ao processo de ensino e aprendizagem em música nas igrejas percebe-se a necessidade de reflexão sobre esse espaço formativo que é a igreja. Entretanto, o objetivo aqui não é discutir se o contato desses povos com outras culturas religiosas é bom ou ruim para as comunidades indígenas, mas do que apreendem musicalmente desses espaços para a sua formação.

“Eu sempre tive aquela vontade, assim, de aprender para um dia tocar em uma banda da igreja”.

A importância dos contextos religiosos na educação musical é tão visível que os colaboradores dessa pesquisa trouxeram em suas narrativas aspectos que nos levam a discutir essa unidade temática dentro do eixo música em diferentes espaços formativos. No caso de Guajajara I, por exemplo, ele tem como interesse aprender um instrumento musical, manifestando o desejo de ser o violão ou o teclado. Esse desejo em aprender um instrumento harmônico se manifesta pelo interesse em tocar para acompanhar seu irmão, cantor de uma igreja. A esse respeito, ele disse:

instrumento]. Um dia poder tocar violão, teclado eQuem sabe

Meu interesse mesmo é aprender e poder esta praticando [um até...porque meu irmão ele é cantor, cantor na igreja. E, se um dia eu puder entrar para área e poder tocar algum instrumento eu acho bom.

Guajara I vê a igreja como um local “bom” para aprender e praticar música. Ele anuncia um desejo de “entrar para a área” de música. Para entrar na área de música, o colaborador tem consciência que é preciso saber tocar instrumentos musicais, no caso dele, a escolha por instrumentos harmônicos como o violão e o teclado, com o intuito de acompanhar seu irmão cantor. Ao que parece ele pensa em participar de grupos musicais religiosos sendo reconhecido como alguém da área de música nesse contexto como um profissional.

Outro colaborador que traz em seu relato a ideia de que as igrejas podem ser um espaço formativo para músicos praticarem seus instrumentos musicais é Barreirinha. Ele disse:

dizemTambém não sei se é verdade, que o melhor lugar para a gente
tocarAssim, quando a gente esta aprendendo a tocar é na igreja. Até

Eu sempre tive aquela vontade, assim, de aprender para um dia tocar em uma banda da igreja. A minha aldeia não tem igreja. Não tem uma banda assim, mas eu gostaria muito de aprender tocar, até pra poder tocar em uma igreja algum dia. Eu conheço muitas pessoas que tocam na igreja e dizem que se sentem muito felizes lá, eu queria ser uma pessoa dessas pra mim poder aprender a tocar, que é pra justamente aprender e estar tocando nesses lugares. Isso pra mim é muito importante. Porque muitos porque, eu assistindo sobre a história de vida de cantores famosos, hoje em dia, muitos falam que começaram tocando, então, cantando na igreja.

O colaborador ao narrar sobre a igreja como um espaço formativo para o aprendizado de músicos iniciantes, manifesta a sua visão de mundo sobre onde está e onde pode chegar por meio da música. Ele tem consciência que para atuar como músico de banda é preciso estar em um lugar que favoreça esse acontecimento. E a igreja, como outros espaços formativos, também é um lugar que agrega, promove e incentiva os jovens a fazer música.

Esse fato foi observado por Cantão (2009) quando o autor afirmou que as igrejas evangélicas contribuíram para incentivar a prática instrumental, especialmente de instrumentos de sopro, e que esse fato foi se multiplicando pelo interior do estado do Pará conforme as igrejas iam sendo implantadas.

Apesar de Barreirinha se encontrar em uma aldeia que não tem igreja, ele se mostra interessado pela música que acontece na igreja por vários motivos. Dentre esse motivos o que chama a atenção do colaborador da pesquisa é o fato de que na “história de vida de cantores famosos, muitos falam que começaram tocando na igreja”. Essa narrativa exprime a ideia de que a fama é também uma evidencia de construção de uma carreira com a música.

A igreja é também uma vitrine para a projeção midiática e dentro do campo da música. Para Paula (2007), referindo-se ao crescimento do segmento evangélico no mercado musical, relata que o surgimento de grandes gravadoras interligadas aos meios de comunicação possibilitou a dimensão da música evangélica em nível nacional. Esse crescimento pode ser oriundo ao que Reck (2012) aponta sobre a performance musical desenvolvida nos cultos. Para o autor, esse é um instrumento de louvor que leva ao consumo da música por um mercado específico – o evangélico. Esse consumo produz “significações musicais dentro de contextos específicos, seja na escuta, no fazer ou na maneira de interpretar os códigos musicais” (RECK, 2012, p. 160).

Assim, a música em contextos religiosos, que tem motivos específicos, desperta interesse nas pessoas que frequentam esses ambientes e participam das apresentações musicais. Esses motivos e interesses são narrados por Barreirinha. O colaborador considerou em seu relato que, aprender um instrumento e tocar na igreja é algo “muito importante”, pois as “pessoas que tocam na igreja se sentem muito felizes”. Essa importância dada por Barreirinha, no que se refere a felicidade, remete a possibilidade de que esse sentimento esta atrelado a construção de uma trajetória de vida em que a música faz parte. Isso pode ser aclarado com o pensamento de Josso (2004). A autora defende “a premissa de que há buscas orientadoras dos itinerários e das escolhas de vida: a busca de felicidade, a busca de si e de nós, a busca de conhecimento ou a busca do real e a busca do sentido” (JOSSO, 2004, p 8, grifos meus).

Assim como Josso (2004) descreve sobre a busca pela felicidade, dentro de uma existencialidade em que os autores de si descrevem seus itinerários, e classificam suas experiências de vida em períodos felizes e doloridos, Barreirinha traz elementos para pensarmos que dentro de uma história de vida em que o colaborador escolhe o que narrar, a busca pelo saber viver a sua própria vida é uma das premissas que jovens indígenas, como é o seu caso, parecem buscar para alcançar a felicidade.

Ao narrar: “Eu conheço muitas pessoas que tocam na igreja e dizem que se sentem muito felizes lá, e eu queria ser uma pessoa dessas pra mim poder aprender a tocar, que é pra justamente aprender e estar tocando nesses lugares”, Barreirinha parece caminhar para essa busca da felicidade de si que, nas palavras de Josso (2004), está quase sempre associada a busca da felicidade coletiva. Neste caso, o colaborador confronta a articulação de sua felicidade com a da comunidade que faz parte, seja ela entendida de maneira restrita ou ampliada, ao dizer: “aprender a tocar pra poder tocar em uma igreja algum dia”. Para conquistar essa felicidade o colaborador reconhece que precisa construir um caminho esforçando-se para alcançar o almejado.

Barreirinha, em sua narrativa, expressa também o desejo “de aprender a tocar um instrumento, para um dia tocar em uma banda da igreja. Esse desejo de tocar em banda é uma característica do jovem que tem um envolvimento com a música. Isso também aparece na pesquisa de Rêgo (2013). A autora diz que os jovens pesquisados no IFMA/CMC citaram, dentre as práticas musicais das quais participaram ou participam, as bandas de igrejas como uma das manifestações culturais que praticam fora da escola.

O desejo de tocar em banda de igreja, expressado por Barreirinha, colaborador da pesquisa, mostra o valor que ele dá a aprendizagem musical em um espaço informal de aprendizagem como é a igreja. Para Green (2000), a aprendizagem informal não acontece em instituições de ensino e nem apresenta “currículos escritos, programas e nem metodologias específicas, nem professores qualificados, nem mecanismos de avaliação ou certificados, diplomas, pouca ou mesmo nem uma notação ou bibliografia”, ao contrário da educação formal que apresenta todos os elementos citados anteriormente. (GREEN, 2000, p. 65)

Para Guajajara I, a aprendizagem musical do violão na aldeia tem chegado não só pelo ensino formal, que para Green (2001) é centrada na figura do professor, mas também, pela igreja que é um espaço de aprendizagem informal. Guajajara I explica como isso acontece:

Como o contato com o não índio já ta muito avançado, éEm algumas
aldeias tem igrejas evangélicas e a gente se dedica aa gente ver as
uma curiosidade pra aprender então isso éuma das coisas que nos

pessoas que entram na aldeia pra fazer os cultos, ver que tem alguns jovens que tocam esse tipo de instrumento, como o violão. Isso nos deixa muito motivado porque é um instrumento, é meio que complexo e a gente tem motiva a aprender.

O colaborador se identifica com a música da igreja, porque vê outros jovens de sua idade tocando “o violão” nesse espaço de aprendizagem musical. E esse fazer musical dos jovens em suas igrejas o motiva a querer frequentar esse espaço para aprender e praticar o violão. O desejo em querer tocar esse instrumento musical aparece, na narrativa do colaborador, como um valor ressignificado por ele mesmo no ato de narrar. Querer aprender algo que não se sabe, mas que se deseja, é movido pelo ver e ouvir o que o outro faz com aquele instrumento musical, e os lugares que podem gerar pertencimentos. Outra evidencia nesse relato são os desafios que os jovens se impõem, nos desafios de querer aprender coisas novas e se inserir em ambientes que lhes convém ou que os identificam como grupo.

Assim como a escola, a igreja como espaço formativo da aprendizagem musical também se constitui como um lugar aprendente: estudar, praticar e superar os desafios encontrados. O aprendiz nesse contexto tem a oportunidade de aprender a conhecer. No momento que o colaborador fala que “a gente tem uma curiosidade pra aprender”, isso nos leva a pensar no Relatório da Unesco da Educação para o Século XXI, coordenado por Jaques Delors em 1999. Esse relatório, fundamentado nos quatro pilares da Educação esclarece que a educação é adquirida ao longo da vida por meio dos caminhos escolhidos para se adquirir conhecimento. Os pilares apresentados são: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e por fim aprender a ser. A curiosidade do colaborador para aprender remete ao “aprender a conhecer”, expressando o desejo de adquirir os conhecimentos relacionados ao violão. Nas palavras de Josso (2004), seria a busca pelo conhecimento direcionada, pelo desejo “de se informar sobre e/ou de se apropriar dos saberes construídos”, sendo estes científicos e não científicos (JOSSO, 2004, p. 96).

Ao ver outros jovens “que tocam esse tipo de instrumento [violão]”, o colaborador fala dessa experiência do outro com interesse no “aprender”. Ao dizer: “a gente ver as pessoas que entram na aldeia pra fazer os cultos, ver que tem alguns jovens que tocam esse tipo de instrumento, como o violão”, Guajajara I evidencia a “busca de si e de nós” construída por meio de um olhar para o outro. Conforme Josso (2004), “o caminho que orientará a partir daí, para uma procura de conhecimento por si mesmas”(JOSSO, 2004, p.94). Essa busca do eu é inseparável das relações com o outrem, no caso desse colaborador, a sua busca se dá na relação com os jovens que tocam na igreja.

Outra força do relato de Guajajara I está no fato dele ter clareza sobre si e o nós ao dizer que, “o contato com o não índio já tá muito avançado”. O colaborador deixa pistas de que existe uma troca intercultural entre as diferentes culturas do índio e do não índio, reconhecendo, aquilo que nas palavras de Delors (2003, p. 92) significa que, “o processo de aprendizagem do conhecimento nunca esta acabado, e pode enriquecer-se com qualquer experiência”. No caso de Guajajara I, essa busca pelo conhecimento musical pode estar

[] pela escolha de grupos de afinidades”.

atrelado ao fato de ver jovens de sua idade que tocam instrumentos musicais na igreja. E, conforme Josso (2004, p. 95), nas “narrativas de vida, a busca de nós começa muitas vezes

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