Nada a perder - Bispo Edir Macedo

Nada a perder - Bispo Edir Macedo

(Parte 1 de 4)

Copyright © Edir Macedo, 2012

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Conversão para eBook: Freitas Bastos

M119n Macedo, Bispo, 1945-

Nada a perder / Edir Macedo. - 1.ed. - São Paulo: Planeta, 2012. ISBN 978-85-7665-985-3

1. Macedo, Bispo, 1945-. 2. Empresários - Brasil - Biografia. 3. Igreja Universal do Reino de Deus - Clero - Biografia. I. Título.

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Ao meu Deus, Senhor da minha vida. Nada do que aconteceu seria possível sem o Espírito de Deus.

xistem duas maneiras de olhar para o passado. A primeira é relembrar momentos vividos, agonizando-se com as marcas de sofrimento e traumas jamais apagados da memória, tornandose escravo de lembranças difíceis e dolorosas. Outra forma de olhar para trás é absorver lições do que passou e trazê-las para o presente transformando-as em aprendizados. Usar a fé nos ensinamentos bíblicos para compreender que as tribulações recordadas produzem perseverança, a perseverança produz a experiência e a experência produz esperança (Romanos 5.3,4).

O profeta Moisés, inspirado por Deus, provocava a lembrança do povo de Israel diante de situações de perigo ou incerteza em quatro décadas de fuga pelo deserto. Ao estabelecer as leis para os hebreus, determinou que sempre fosse feita uma recordação às futuras gerações: “Quando teu filho, no futuro, te perguntar, dizendo: Que significam os testemunhos, e estatutos e juízos que o Senhor, nosso Deus, vos ordenou? Então, dirás a teu filho: Éramos servos de Faraó, no Egito; porém o Senhor de lá nos tirou com poderosa mão. Aos nossos olhos fez o Senhor sinais e maravilhas, grandes e terríveis, contra o Egito, contra Faraó e toda a sua casa” (Deuteronômio 6.20-2).

Assim, inicio a primeira obra com as memórias da minha vida. Serão três livros para recontar os desafios do começo dessa jornada, a origem e a árdua construção dos 35 anos da Igreja Universal do Reino de Deus, nossa trajetória de batalhas e conquistas marcada por episódios decisivos e inesperados, mas, sobretudo, para narrar as minhas experiências espirituais jamais reveladas com tanta descrição de detalhes.

Nada a Perder não é uma simples retrospectiva. Não sei viver do passado. Eu olho para frente. Por isso, esta obra se projeta para o futuro, com o objetivo de reunir e divulgar experiências pessoais para alicerçar a crença dos que seguem firmes a fé cristã e alcançar os que se consideram perdidos.

O livro não segue uma precisa ordem cronológica, escrevi a maioria dos capítulos fora de sequência, de forma temática. Abordo os assuntos de modo individual buscando extrair ensinamentos práticos da crença na Palavra de Deus, vividos no meu dia a dia. Esta também não é uma exposição convencional de quem eu conheci ou daquilo que fiz ao longo das últimas décadas, por isso há uma série de pessoas próximas e anônimos que estão ausentes destas páginas. A intenção principal desta obra é registrar com minhas próprias palavras os momentos de convicção que transformaram a minha vida e que podem ajudar tantas pessoas a encontrar o significado maior de suas existências.

Nada a Perder se baseia principalmente nas minhas lembranças e nas de Ester, fiel companheira desde o início deste percurso percorrido. Com a ajuda do jornalista e escritor Douglas Tavolaro, que convive conosco há nove anos, fundamentei minha narração com o auxílio de relatos dos primeiros fiéis, obreiros e pastores, depoimentos dos meus familiares, documentos antigos, reportagens e fotos da época. Em alguns casos, precisei contar somente com a minha memória.

Nas páginas seguintes, fiz o melhor para escrever a respeito das lições que esta caminhada de fé me ensinou. Peço a Deus que minha experiência seja útil para o leitor tomar decisões em sua própria vida para alcançar o que há de mais relevante neste mundo: a conquista da salvação eterna da alma.

Agradeço ao Espírito de Deus pela oportunidade de compartilhar a minha história com cada um de vocês.

CAPÍTULO 1

u tenho prazer em admirar o céu. O sol, as nuvens, a lua, as estrelas. Tudo forma uma composição irretocável, símbolo do que há de mais sublime no dom da perfeição. O céu representa bem a transformação de um planeta que era sem forma e vazio.

Por onde viajo, passo horas olhando para o horizonte azul e meditando em Deus. Sozinho, sento-me numa cadeira, em silêncio, sem ler nem ouvir som nenhum, sem conversar com ninguém. Geralmente faço isso ao amanhecer. O sol aquece meu corpo. Medito nas promessas, na compaixão, nas vontades divinas.

Olho para dentro de mim. É meu momento com Deus. Jesus “se retirava” para o deserto para orar. Ninguém o acompanhava, ele seguia só para viver sua intimidade de Espírito. Era o alimento de sua alma. Sigo esse exemplo. Os momentos de silêncio, contemplando a beleza do céu, me fazem ouvir Deus. Me fazem pensar. E me trazem memórias.

O céu também é a expressão da liberdade. Quando eu era criança, tinha pavor em pensar na privação. Dizia para os meus irmãos que preferia levar umas bofetadas do meu pai a ser proibido de sair de casa. A clausura me agoniza. Que ser humano consegue viver feliz sem poder exercer a liberdade de ir e vir? Sem ter a simples opção de escolha de entrar e sair em qualquer lugar e no momento que desejar? Parecem coisas simples, elementares, mas, apenas por um instante, imagine-se vivendo sem o controle de suas atitudes. Foi a liberdade que sacrifiquei para ver uma mudança radical na minha trajetória e no futuro da Igreja Universal.

Em 1992, quando eu estava em São Paulo, pregava todas as quartasfeiras e todos os domingos numa pequena e calorosa Igreja situada na rua Promotor Gabriel Nettuzzi Perez, no bairro de Santo Amaro. Na época, era lá que ficava o nosso maior templo no Brasil. Habitualmente, seguia para a reunião com minha esposa, Ester, e minha filha Viviane, a do meio, que naquele tempo tinha 17 anos. Era a única que vivia comigo. Cristiane, a mais velha, morava e estudava nos Estados Unidos. Moisés, meu filho adotivo, também.

Fazia uma manhã luminosa em São Paulo, um domingo especial, como de costume. Eu acordei cedo para ler a Bíblia e me preparar para a reunião.

O culto durou duas horas. Falei muito sobre a importância de manter uma aliança com Deus e como devemos confiar acima de tudo, e em quaisquer situações, porque sempre o que Deus faz é bom e coopera para o nosso bem. Para terminar a reunião, orei por todos, pedindo que fossem para casa em paz e segurança e que tivessem uma semana feliz. O culto havia sido maravilhoso. A palavra de salvação havia sido semeada. O espírito de fé havia sido transmitido com vivacidade.

Mas era minha vez de ser provado na prática. Era minha vez de provar o verdadeiro tamanho da minha confiança.

Deixei o altar, me despedi de alguns pastores e, como fazia sempre aos fins de semana, convidei meus amigos Laprovita Vieira e sua mulher Vera para almoçarem em nossa casa. Já no carro, pedi para Laprovita me seguir.

Começo da tarde do dia 24 de maio de 1992, mais precisamente uma e meia da tarde. Como esquecer essa data e esse horário?

Era um tempo de ataques à Igreja Universal, a mim e a minha família. Desde que o trabalho começou a crescer, entramos na mira. O Clero Romano mandava e desmandava no Brasil, mais do que nos dias de hoje. Eram políticos de prestígio, empresários da elite econômica e social, intelectuais, juízes, desembargadores e outras autoridades do Poder Judiciário que tomavam decisões sob a influência do alto comando católico. A Cúria não admitia o surgimento de um povo livre da escravidão religiosa imposta por eles. Mas eu nunca olhei para isso. Minha missão sempre foi uma só: pregar a verdade do Evangelho a todos os que sofrem.

Antes mesmo da compra da Rede Record, em novembro de 1989, já havíamos sido vítimas de diversos tipos de abuso. A polícia tinha invadido meu apartamento, os escritórios da Igreja e as empresas relacionadas que existiam para apoiar o trabalho evangelístico. Sabia que as perseguições jamais teriam ponto-final, mas nunca imaginei que essas agressões terminariam em prisão.

O meu nome foi surrado por anos seguidos. Para quem me odiava, bispo Macedo era sinônimo de bandido. Isso é assim até hoje. Muita gente sequer me conhece e deseja o mal para mim. Tudo bem, a própria Palavra de Deus me alertava sobre isso. Muitos que se convertiam mudavam de opinião após conhecerem de perto o trabalho da Igreja e as minhas intenções. Não havia problema, era assim até com Jesus. Mas nunca aceitei a ideia de que a Justiça brasileira seria influenciada pelas vontades do Vaticano ou pela pressão da imprensa manipulada por eles.

A Igreja Universal já estava em quatro continentes e avançava sem parar. Almas estavam sendo ganhas em todo o mundo. Milhares de pastores e obreiros levantados, milhões de fiéis se multiplicando. A Record havia sido comprada tinha apenas três anos, ainda estávamos colocando a empresa em ordem, mas já prometia um grande desenvolvimento. Todos sabiam que a Record tomaria o rumo de um crescimento sustentável e irreversível, como de fato aconteceu.

E eu paguei por tudo isso. Andei com o carro alguns quarteirões do estacionamento da Igreja e, na rua São Benedito, ouvimos um barulho estranho. A imagem permanece estática na minha mente: dezenas de viaturas da polícia correndo em nossa direção. Ester me perguntou se tinha cometido alguma infração de trânsito. — Não, Ester. Estou dirigindo normalmente.

— Mas o que é isso então? – questionou Ester. Não deu tempo de responder. As viaturas, com os ruídos da sirene, acelerando ferozmente, me mandavam parar. Eles acenavam com violência. Alguns colocavam a cabeça para fora da janela do carro e gritavam comigo.

O carro é cercado. Metralhadoras, revólveres e um tremendo aparato de armas pesadas apontadas para mim e para minha família. Que mal poderíamos fazer? Eu, Ester e minha filha de 17 anos. Quase perdi a conta da quantidade de policiais. Eram cinco delegados e 13 agentes civis e federais.

Parei o carro e levantei os braços. Não entendi o que estava acontecendo. “Meu Deus, o que é isso?”, pensei comigo. “Meu Deus!”

A cena mais parecia um sequestro do que uma abordagem policial.

Logo recebi voz de prisão e fui arrastado em direção a uma das viaturas. Minha Bíblia ficou no banco de trás, bem ao lado de Viviane. Não demonstrei resistência. E nem poderia.

Laprovita, deputado federal na época, tentou reagir e pediu para a polícia ter calma. Mostrou a carteira de parlamentar, que foi jogada no chão pelos policiais. Não havia calma, somente confusão e gritaria por todos os lados. Minha vontade era brigar com todos. Era me soltar e proteger a minha família.

Antes de entrar na viatura, virei o rosto rapidamente para trás. Por alguns segundos, vi Ester e Viviane gritando, pedindo explicação aos policiais, mas ninguém parecia ouvi-las. Um pequeno tumulto se formou na rua. O carro da polícia saiu em arrancada, comigo detido entre dois agentes armados. A expressão de desespero das duas marcou minhas lembranças.

aquela tarde de domingo de 1992, estava a caminho da prisão. Não sabia para onde seria levado, apenas que era o trajeto da cadeia. O rumo do cárcere.

Minhas pernas tremiam. Meu coração palpitava, mas segui calado na viatura que disparava em alta velocidade. Apesar do clima fora de controle, havia paz no meu interior. Em um descuido, o policial à minha esquerda deixa cair as algemas sobre os meus pés. Os policiais se mostravam nervosos, tensos e descontrolados.

Eu não conseguia enxergar direito. Só sentia indignação. Pensava onde a minha família estaria naquele momento. Pensava em Ester e Viviane, no meio da rua, desesperadas. Pensava na Igreja. Pensava no nosso povo. Pedia para Deus me guardar. Pedi para Ele proteger a mim e a minha família.

Quem seria capaz de enfrentar uma situação destas sem a proteção de Deus? Caiam mil ao meu lado e dez mil à minha direita, eu não serei atingido. Mesmo sozinho numa “batalha perdida”, o profeta Eliseu tinha consigo tropas maiores e mais fortes do que um exército inteiro, com forças militares imbatíveis, sob o comando do rei da Síria. Era um exército de cavalos e carros de fogo somente possível de enxergar com os olhos espirituais. Era preciso ver o invisível.

Os provérbios do rei Salomão revelam Deus como escudo para os que caminham na sinceridade. Escudo, defesa, auxílio. Amparo.

A sinceridade sempre foi um dos pilares do ofício da Igreja Universal. Desde os primeiros dias de evangelização, no fim dos anos 1970, eu sempre repetia aos pastores que o sustento da nossa crença deveria ser a honestidade diante do povo e, principalmente, diante de Deus. Eu mesmo sempre fui assim.

Odeio fingimentos, farsas, falsidades. Eu largaria a minha profissão de fé como pastor ou bispo se, um dia, tivesse que apelar para emoções ou sentimentalismos hipócritas para garantir membros na Igreja. Pastores que choram no altar apenas para comover quem lhes assistem. Verdadeiros artistas que fazem qualquer papel. Ora são mocinhos, ora são bandidos. Isso me provoca furor. Fico com raiva mesmo! Raiva de quem usa esse artifício sensacionalista e barato para manter abertas as portas do seu templo ou de sua congregação.

Eu não abro mão disso. Meu ministério e a minha vida pessoal foram e sempre serão regradas pela sinceridade. Quem me conhece de perto sabe o que estou falando. A verdade acima de tudo. Custe o que custar, mesmo se, em um primeiro momento, isso possa significar perdas para a Igreja – de membros, de ofertas e seja mais o que for. Não importa. A verdade liberta e a fé sincera nos assegura a volta por cima. Sempre foi assim comigo ao longo destas décadas de disposição à obra de Deus.

Caminho na sinceridade, como afirmou Salomão. Por isso, eu confiava na proteção divina mesmo em meio a toda truculência daquela detenção injusta e cruel.

Após me prenderem na rua, a primeira parada da viatura foi no

Deic, o conhecido Departamento Estadual de Investigações Criminais. Um caminho de 20 quilômetros que foi cumprido em poucos minutos. Estava de terno cinza, camisa branca e gravata vermelha. A mesma roupa com a qual tinha feito a reunião em Santo Amaro. Desceram-me da viatura e me empurraram para dentro do prédio da polícia. Nos poucos passos que dei em direção à porta de entrada, vi um cinegrafista com o colete de uma das principais emissoras de TV no país. Era a única equipe da imprensa no local. Estranho, não?

Somente dentro do prédio me informaram que havia um mandado de prisão para mim. Minha cabeça ia longe: pedido de prisão? Como assim? Qual era a base legal? Como um juiz teria autorizado essa decisão? O que poderia justificar a minha detenção? O que aprontaram desta vez?

Muitas perguntas estavam sem respostas. Permaneci horas sentado numa das salas de investigação do Deic. Mudo. Percebia uma movimentação contínua. Eu, que sempre zelei por pagar as contas em dia, que tinha pavor somente em pensar em atrasar pagamentos, estava preso. Algemado como se fosse um marginal perigoso. De repente, outros policiais me informam que seria enviado ao distrito onde me manteriam trancafiado pelas próximas semanas.

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