Mao A historia desconhecida - Jon Halliday

Mao A historia desconhecida - Jon Halliday

(Parte 1 de 8)

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Sumário

Lista de abreviações Nota sobre a grafia dos nomes próprios

5. O sequestro de uma força comunista e a tomada da terra dos bandidos (1927-28; 3-34 anos) 6. Subjugando o Supremo do Exército Vermelho (1928-30; 34-36 anos) 7. Tomada de poder leva à morte da segunda mulher (1927-30; 3-36 anos) 8. Expurgo sangrento abre caminho para o “presidente Mao” (1929-31; 35-37 anos) 9. Mao e o primeiro Estado comunista (1931-34; 37-40 anos) 10. De criador de caso a chefe nominal (1931-34; 37-40 anos) 1. Como Mao entrou na Longa Marcha (1933-34; 39-40 anos) 12. A Longa Marcha I: Chiang deixa os comunistas escaparem (1934; 40 anos) 13. A Longa Marcha I: o poder por trás do trono (1934-35; 40-41 anos) 14. A Longa Marcha I: o monopólio da conexão com Moscou (1935; 41 anos)

15. A conveniente morte do anfitrião de Mao (1935-36; 41-42 anos) 16. O sequestro de Chiang Kai-shek (1935-36; 41-42 anos) 17. Um ator nacional (1936; 42-43 anos) 18. Nova imagem, vida nova e esposa nova (1937-38; 43-4 anos) 19. Infiltrado comunista deflagra a guerra entre China e Japão (1937-38; 43-4 anos) 20. Combater os rivais e Chiang — não o Japão (1937-40; 43-46 anos) 21. O cenário mais desejado: Stálin divide a China com o Japão (1939-40; 45-46 anos) 2. Armadilha mortal para seus próprios homens (1940-41; 46-47 anos) 23. A montagem de uma base de poder mediante terror (1941-45; 47-51 anos) 24. O envenenamento de Wang Ming (1941-45; 47-51 anos) 25. Por fim, supremo líder do partido (1942-45; 48-51 anos)

Epílogo Caderno de imagens Notas Agradecimentos Lista de entrevistados Arquivos consultados Bibliografia de fontes em chinês Bibliografia de fontes em outras línguas Lista de imagens Sobre os autores Créditos

Lista de abreviações

PCC Partido Comunista Chinês

Cominform Birô de Informação Comunista

Comintern Internacional Comunista

PC Partido Comunista

8EM 8o Exército de Marcha

GRU Glavnoye Razvedyivatelnoye Upravleniye (Departamento Geral do Serviço Secreto)

Novo 4o Exército

Z Zhang Zhi-zhong

Nota sobre a grafia dos nomes próprios

Nos nomes de pessoas chinesas, o sobrenome vem em primeiro lugar. Nos casos em que as pessoas têm um sobrenome muito comum, referimo-nos a elas pelos prenomes, depois da primeira menção. Grafamos os nomes de modo a torná-los distintos e facilmente reconhecíveis na medida do possível. Para aqueles que não estão em pinyin (o sistema oficial de transliteração da China), a versão em pinyin é dada no índice.

Para os nomes de lugares, usamos o pinyin, exceto para Pequim (Beijing), Yenan

(Yan’an), Cantão (Guangzhou), Nanquim (Nanjing) e as ilhas de Quemoy (Jinmen) e Matsu (Mazu).

Para os nomes chineses, manteve-se o mesmo critério de grafia do original, em que foi adotado o sistema de transliteração para o inglês criado no século XIX por professores britânicos. Quanto aos nomes russos, fez-se a transliteração para o português somente dos nomes que aparecem no texto principal; para outros nomes que aparecem na lista de entrevistados, nas notas e na bibliografia, manteve-se a transliteração para o inglês do original.

PARTE I Um crente sem entusiasmo

Mao Tse-tung, que durante décadas deteve poder absoluto sobre a vida de um quarto da população mundial, foi responsável por bem mais de 70 milhões de mortes em tempos de paz, mais do que qualquer outro líder do século X. Ele nasceu numa família de camponeses, em um vale chamado Shaoshan, na província de Hunan, no coração da China, em 26 de dezembro de 1893. Seus ancestrais haviam vivido no vale por quinhentos anos.

Era um mundo de beleza antiga, uma região temperada, úmida, cujas colinas ondulantes e enevoadas eram habitadas desde o Neolítico. Templos budistas que datavam da dinastia Tang (618-906), quando o budismo ali chegou, ainda estavam em uso. Florestas onde quase trezentas espécies de árvores cresciam, entre elas bordo, cânfora, metassequoia e o raro ginkgo, cobriam a área e abrigavam tigres, leopardos e javalis, que ainda vagavam pelas montanhas (o último tigre foi morto em 1957). Esses morros, sem estradas nem rios navegáveis, separavam a aldeia do resto do mundo. Ainda no começo do século X, a notícia de um acontecimento tão momentoso como a morte do imperador, em 1908, não chegou lá e Mao só ficou sabendo disso dois anos depois, quando deixou Shaoshan.

O vale de Shaoshan mede em torno de cinco por três quilômetros e meio. As cerca de seiscentas famílias que viviam ali plantavam arroz, chá e bambu e usavam búfalos para lavrar os arrozais. A vida cotidiana girava em torno dessas atividades antiquíssimas. Yichang, o pai de Mao, nasceu em 1870. Aos dez anos de idade, ficou noivo de uma menina de treze, de uma aldeia distante cerca de dez quilômetros, do outro lado de uma passagem chamada Passo do Tigre em Repouso, onde os tigres costumavam tomar banho de sol. Naquele tempo, essa curta distância era o suficiente para que as duas aldeias falassem dialetos quase ininteligíveis mutuamente. Sendo uma mera menina, a mãe de Mao não recebeu um nome; e, como era a sétima filha do clã Wen, era conhecida apenas como a Sétima Irmã Wen. De acordo com séculos de costume, seus pés haviam sido comprimidos e amarrados para produzir os assim chamados “lírios dourados de três polegadas”, que eram o modelo de beleza da época.

O noivado com o pai de Mao seguiu costumes ancestrais. Foi arranjado pelos pais e se baseava numa consideração prática: o túmulo de um dos avôs dela estava em Shaoshan e precisava ser cuidado periodicamente com rituais elaborados; assim, ter um parente lá seria útil. A Sétima Irmã Wen mudou-se para a casa da família de Mao depois do noivado e casou-se aos dezoito anos, em 1885, quando Yi-chang estava com quinze.

Pouco depois do casamento, Yi-chang partiu para se tornar soldado, a fim de ganhar dinheiro para pagar as dívidas da família, o que conseguiu depois de muitos anos. Os camponeses chineses não eram servos, mas agricultores livres, e entrar para o Exército por razões puramente financeiras era uma prática estabelecida. Felizmente, não se envolveu em nenhuma guerra; em vez disso, conheceu um pouco do mundo e captou algumas ideias para negócios. Ao contrário da maioria dos aldeões, Yi-chang sabia ler e escrever, o suficiente para lidar com contabilidade. Ao retornar, criou porcos e processou grãos para obter um arroz de alta qualidade, a fim de vender no mercado de uma cidade próxima. Comprou de volta as terras que o pai havia penhorado, depois comprou mais terras e se tornou um dos homens mais ricos da aldeia.

Embora relativamente próspero, Yi-chang continuou a ser um homem extremamente trabalhador e econômico por toda a vida. A casa da família consistia em meia dúzia de dependências que ocupavam uma ala de uma grande propriedade coberta de sapê. Mais tarde, Yi-chang substituiu o sapê por telhas, uma grande melhoria, mas conservou o chão batido e as paredes de barro. As janelas não tinham vidros — um luxo ainda raro — e eram apenas aberturas quadradas com barras de madeira, fechadas à noite com pranchas de madeira (a temperatura dificilmente caía abaixo de zero). A mobília era simples: camas de madeira, mesas e bancos de madeira nua. Foi num desses quartos espartanos, sob uma colcha de algodão azul tecida em casa, dentro de um mosquiteiro azul, que Mao nasceu.

Mao foi o terceiro filho, mas o primeiro a sobreviver à infância. Sua mãe, budista, tornou-se ainda mais devota para que Buda o protegesse. Mao ganhou o nome duplo Tse-tung. Tse, que significa “brilhar sobre”, foi o nome dado a toda a sua geração, tal como predeterminado quando a crônica do clã foi escrita pela primeira vez, no século XVIII; tung significa “o Leste”. Assim, seu nome completo significava “brilhar sobre o

Leste”. Quando dois outros meninos nasceram, em 1896 e 1905, ganharam os nomes de Tse-min (min significa “o povo”) e Tse-tan (tan se referia possivelmente à região local,

Xiangtan).

Esses nomes refletiam a inveterada aspiração dos camponeses chineses de que seus filhos fossem bem-sucedidos — e a expectativa de que poderiam ser. Altos cargos estavam abertos a todos por meio da educação, que durante séculos significou estudar os clássicos confucianos. A excelência possibilitaria que homens jovens de qualquer extração passassem nos exames imperiais e se tornassem mandarins — a caminho de se tornarem primeiros-ministros. Um cargo na burocracia era sinônimo de sucesso e os nomes dados a Mao e seus irmãos expressavam as esperanças neles depositadas.

Mas um grande nome também tinha um peso e desafiava potencialmente o destino; então, a maioria dos filhos ganhava um nome de estimação que era mais despretensioso ou forte, ou ambos. O de Mao era “Menino de Pedra” — Shi san ya-zi. Para esse segundo “batismo”, sua mãe o levou até uma rocha de cerca de dois metros e meio de altura, que tinha fama de ser encantada, pois havia uma fonte sob ela. Depois que Mao fez mesuras e reverências, foi considerado adotado pela pedra. Ele gostava muito desse nome e continuou a usá-lo na idade adulta. Em 1959, quando voltou a Shaoshan e se encontrou com os aldeões pela primeira — e única — vez na qualidade de líder supremo da China, começou o jantar para eles com um gracejo: “Então, estão todos aqui, exceto minha Mãe Pedra. Devemos esperar por ela?”.

Mao adorava sua mãe real, com uma intensidade que não demonstrava com mais ninguém. Ela era uma pessoa gentil e tolerante, que, como ele lembrava, jamais ergueu a voz para o filho. Dela herdou o rosto redondo, os lábios sensuais e um autocontrole calmo nos olhos. Mao falaria com emoção sobre a mãe pelo resto da vida. Foi seguindo seu exemplo que se tornou budista quando criança. Anos mais tarde, disse ao seu staff: “Eu idolatrava minha mãe [...] Aonde quer que ela fosse, eu a seguia [...] indo a feiras de templos, queimando incenso e dinheiro de papel, fazendo reverências a Buda [...] Porque minha mãe acreditava em Buda, eu também acreditava”. Mas ele abandonou o budismo na adolescência.

Mao teve uma infância despreocupada. Até os oito anos, morou com a família da mãe, os Wen, na aldeia deles, pois ela preferia morar com sua própria família. Lá, sua avó materna o adorava. Os dois tios e esposas o tratavam como filho e um deles se tornou seu pai adotivo, o equivalente chinês de padrinho. Mao fazia um pouco de trabalho agrícola leve, juntando forragem para os porcos e levando os búfalos para passear nos bosques de camélias, junto a um lago sombreado por folhas de bananeiras. Na velhice, ele se lembraria com ternura dessa época idílica. Começou a aprender a ler, enquanto as tias teciam e costuravam à luz de uma lamparina a óleo.

Mao só voltou a morar em Shaoshan na primavera de 1902, aos oito anos de idade, para receber instrução, que assumiu a forma de estudo na casa de um tutor. Os clássicos confucianos, que compunham a maior parte do currículo, estavam acima da compreensão das crianças e tinham de ser aprendidos de cor. Mao foi abençoado com uma memória excepcional e se saiu bem. Seus companheiros de estudo se lembravam de um menino diligente que conseguia não somente recitar mas também escrever mecanicamente aqueles textos difíceis. Ele também adquiriu conhecimentos básicos de língua e história chinesas e começou a aprender a escrever boa prosa, caligrafia e poesia — escrever poemas era uma parte essencial da educação confuciana. A leitura tornou-se uma paixão. Em geral, os camponeses se deitavam ao pôr do sol, para economizar óleo, mas Mao ficava lendo noite adentro, com uma lamparina acesa sobre um banco, ao lado de seu mosquiteiro. Anos depois, quando era governante supremo da China, metade de sua enorme cama vivia empilhada de clássicos chineses e ele enchia seus discursos e escritos com referências históricas. Mas seus poemas perderam qualidade. Mao entrava frequentemente em choque com seus tutores. Fugiu de sua primeira escola aos dez anos, dizendo que o professor era um tirano. Foi expulso de pelo menos três escolas — ou “pediram que as deixasse” — por ser teimoso e desobediente. A mãe o protegia, mas o pai não estava contente e o salto de Mao de tutor em tutor era apenas uma das fontes de tensão entre eles. Yi-chang pagava pela educação do filho e esperava que ele pudesse ao menos ajudar nas contas da família, mas Mao não gostava da tarefa. Durante toda a vida, foi confuso com números e uma nulidade em economia. Nem gostava muito do trabalho braçal pesado. Passou a evitá-lo assim que acabaram seus dias de camponês.

Yi-chang não suportava ver Mao ocioso. Tendo gasto cada minuto de seus dias trabalhando, esperava que o filho fizesse a mesma coisa e batia nele quando não obedecia. Mao odiava o pai. Em 1968, quando estava se vingando dos adversários políticos em vasta escala, disse aos torturadores deles que gostaria que seu pai tivesse sido tratado com a mesma brutalidade: “Meu pai era mau. Se estivesse vivo hoje, deveriam ‘pô-lo no jato’”. Tratava-se de uma posição de tortura em que os braços da pessoa eram presos às costas e a cabeça, forçada para baixo.

Mao não era uma mera vítima do pai. Ele reagia e muitas vezes saía vitorioso. Dizialhe que, por ser mais velho, deveria fazer mais trabalho manual do que ele, o mais jovem — o que era um argumento incrivelmente insolente pelos padrões chineses. Um dia, de acordo com Mao, pai e filho tiveram uma briga diante de convidados. “Meu pai me repreendeu diante deles. Isso me enfureceu. Disse-lhe uns palavrões e saí da casa [...] Meu pai [...] me perseguiu, me maldizendo e ordenando que eu voltasse. Cheguei na beira de um lago e ameacei saltar se ele se aproximasse mais [...] Meu pai recuou.” Certa vez, ao recontar essa história, Mao riu e acrescentou uma observação: “Velhos como ele não queriam perder os filhos. Era essa a fraqueza deles. Eu ataquei o ponto fraco deles, e venci!”.

Dinheiro era a única arma que o pai de Mao possuía. Depois que o filho foi expulso pelo quarto tutor, em 1907, ele deixou de pagar os estudos e o menino de treze anos teve de se tornar camponês em tempo integral. Mas logo encontrou uma maneira de evitar o trabalho na lavoura e voltar ao mundo dos livros. Yi-chang estava ansioso para que o filho se casasse e assim, amarrado, passasse a se comportar com responsabilidade. Sua sobrinha estava com a idade certa para se tornar esposa, sendo quatro anos mais velha do que Mao, o qual concordou com o plano do pai e retornou à escola depois do casamento.

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