Vida e Destino - Vassili Grossman

Vida e Destino - Vassili Grossman

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Sobre a obra:

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Vassili Grossman Vida e destino

Tradução do russo Irineu Franco Perpetuo

© L’Éditions l’Âge d’Homme and the Estate of Vassili Grossman 1980-1991 © The Estate of Vassili Grossman 1992 Publicado originalmente por L’Éditions l’Âge d’Homme

Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA OBJETIVA LTDA. Rua Cosme Velho, 103 Rio de Janeiro — RJ — CEP: 22241-090 Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825 w.objetiva.com.br

Título original Жизнь и судьба [Jizn i sudbá]

Capa Thiago Lacaz

Imagem de capa Latinstock / Dmitri Bactermants / Corbis

Preparação Diogo Henriques

Revisão Cristiane Pacanowski Ana Kronemberger Tamara Sender

Coordenação de e-book Marcelo Xavier

Conversão para e-book Freitas Bastos

G921v Grossman, Vassili Semiônovitch

Vida e destino [recurso eletrônico] / Vassili Grossman ; tradução Irineu Franco Perpetuo. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2014. recurso digital

Tradução de: [Jizn i sudbá] Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web 767 p. ISBN 978-85-7962-346-2 (recurso eletrônico)

1. Guerra Mundial, 1914-1918 - Ficção. 2. Nazismo - Ficção. 3. Ficção ucraniana. 4. Livros eletrônicos. I. Perpetuo, Irineu Franco. I. Título.

Sumário

Capa Folha de Rosto Créditos Prefácio

A prisão de um romance Publicação póstuma

Apêndice Glossário de siglas e termos mais frequentes Relação de personagens principais

A família Chápochnikov e seu círculo Colegas de Viktor Chtrum no Instituto de Física Círculo de Viktor em Kazan No campo de concentração alemão No campo de trabalho russo Na jornada para a câmara de gás Na prisão Lubianka Em Kúibichev Na usina de força de Stalingrado Círculo de Guétmanov em Ufá Membros do Esquadrão de Combate da Força Aérea Russa Corpo de tanques de Nóvikov Oficiais do Exército soviético em Stalingrado Soldados na casa 6/1 Na estepe calmuca Oficiais do Exército alemão em Stalingrado

Prefácio

O Guerra e paz do século X foi um romance sequestrado de seu autor, que levou uma década para ser escrito, outras duas para ser publicado, e ainda mais três até a libertação pelo serviço secreto de seu país. A trajetória de Vida e destino, do russo Vassili Semiônovitch Grossman (1905-1964), por vezes parece ser tão dramática e complexa quanto a dos personagens retratados na obra.

“É um vasto livro em que se tratam com a maior franqueza problemas candentes da vida russa, inclusive o antissemitismo, preocupação constante do autor”, sintetiza Boris

Schnaiderman, em Os escombros e o mito — a cultura e o fim da União Soviética.1 “Este evidentemente deriva seu livro de Leon Tolstói em Guerra e paz, um modelo que o ajudou a penetrar fundo nos problemas humanos ligados com a guerra e o stalinismo.”

“Como ensina a tradição russa, entre duas palavras deve estar a conjunção ‘e’”, disse

Grossman ao amigo Semion Lípkin, ao explicar o título de seu romance, cujo débito para com o relato de Tolstói da invasão da Rússia por Napoleão Bonaparte, evidentemente, vai muito além do nome e das dimensões.

Em torno do eixo das famílias Chápochnikov-Chtrum (que replicam aqui, de modo quase simétrico, os Bolkonski-Rostov de Guerra e paz), Grossman — cujo único livro a ter lido durante a Segunda Guerra Mundial foi Guerra e paz, duas vezes — traça um profundo panorama da sociedade soviética de seu tempo, denunciando a alarmante similaridade entre nazismo e stalinismo, com uma carga filosófica que também parece ecoar a da obra de Tolstói. Para alguns autores, a conjunção “e” a que Grossman se refere não seria aditiva, porém adversativa: “vida”, no romance, seria sinônimo de liberdade, enquanto “destino” seria o inevitável, a morte, o Estado, a privação de liberdade. Vida e destino, assim, não significaria Vida + Destino, mas Vida X Destino.

Judeu de Berdítchev (na atual Ucrânia), Grossman estudou química na Universidade de

Moscou — daí, possivelmente, vem a escolha de fazer seu alter ego, Viktor Chtrum, um membro da comunidade científica. Seu “padrinho literário” foi Górki, o que não impediu que esse filho de pai menchevique tivesse de tratar com os órgãos de segurança soviéticos duas vezes antes da Segunda Guerra Mundial.

A primeira, em 1933, deveu-se à prisão de sua prima, Nadiejda Almaz, por “trotskismo”.

A segunda, em 1938, foi ocasionada pela detenção de sua segunda mulher, Olga, simplesmente pelo fato de ela ter sido casada com o escritor Boris Gúber, preso e executado pela repressão política. Grossman adotou os filhos de Olga e Gúber, escreveu pessoalmente a Iejov (à época, chefe do NKVD, órgão antecessor do famigerado KGB) e conseguiu, assim, salvar a esposa.

Em 1941, com a invasão da URSS pelas tropas alemãs, o escritor se voluntariou para combater, mas acabou virando correspondente do Krásnaia Zvezdá (Estrela Vermelha), o jornal do Exército. No front, ganhou rapidamente a confiança tanto de soldados rasos quanto do alto-comando, e seus relatos causavam sensação. “Todos os correspondentes no front de Stalingrado ficaram impressionados com a maneira como Grossman havia feito o comandante de divisão, general Gúrtiev, um siberiano silencioso e reservado, falar com ele durante seis horas sem parar, dizendo tudo o que ele queria saber, em um dos momentos mais difíceis [da batalha]”, contaria, mais tarde, David Ortenberg, diretor do Krásnaia Zvezdá. “Sei que o fato de nunca escrever qualquer coisa durante as entrevistas ajudava Grossman a ganhar a confiança das pessoas. Ele escrevia tudo mais tarde, depois de voltar a um centro de comando ou à isbá dos correspondentes. Todos iam para a cama, mas Grossman, cansado, escrevia tudo meticulosamente em seu bloco de anotações.” 2

Testemunha da batalha de Stalingrado, Grossman resolveu ficcionalizar sua experiência em um díptico: os romances Por uma causa justa e Vida e destino. Durante toda a saga, mas especialmente em Vida e destino, o autor abordou de modo corajoso e pioneiro assuntos como a brutalidade da coletivização agrícola forçada e o banho de sangue da repressão política de 1937, passando pelo antissemitismo na URSS e o início do programa nuclear soviético.

Detalhes da vida pessoal também entraram na obra, desde Kátia, filha do primeiro casamento (o modelo da operadora de rádio da casa 6/1), até o envolvimento amoroso com Iekaterina Vassílievna Zabolótskaia, mulher do poeta Nikolai Zabolotski (1903-1958) — cujo flerte de Chtrum com Mária Sokolova, em Vida e destino, reproduz em minúcias, como os passeios no Jardim Neskútchny, em Moscou.

Episódios mais dramáticos de Vida e destino também foram inspirados por acontecimentos verídicos. O pesar de Liudmila Nikoláievna diante da morte de Tólia ecoa a dor real de Olga, mulher de Chtrum, ao saber que Micha, seu filho de 15 anos, fora vítima de uma bomba alemã. E Grossman descarrega no romance recriminações à sua mulher pela perda da mãe. Iekaterina Saviélievna, mãe de Grossman, morava em Berdítchev e, aparentemente, Olga achava que o apartamento dos Grossman em Moscou era pequeno demais para acolhê-la. Quando o escritor se deu conta do perigo representado pela invasão alemã, já era tarde para resgatá-la. Iekaterina Saviélievna foi morta pelos nazistas. Grossman incluiu no romance a carta de despedida que gostaria de ter recebido da mãe, dedicando a ela Vida e destino.

A prisão de um romance

Depois de embates e discussões com os editores da Nóvyi Mir, Por uma causa justa apareceu nas páginas dessa revista, em 1952. As críticas iniciais foram elogiosas, e o romance, que já apresentava os personagens de Vida e destino, bem como muitas questões que seriam desenvolvidas e aprofundadas neste livro, foi indicado para o Prêmio Stálin.

Em fevereiro de 1953, porém, Por uma causa justa começou a ser sistematicamente atacado na imprensa soviética, e o escritor Aleksandr Tvardóvski (1910-1971), editor da Nóvyi Mir, reconheceu sua publicação como um erro grave.

Não custa lembrar que, em janeiro do mesmo ano, o Pravda publicara um violento artigo, acusando proeminentes médicos do país — todos eles judeus — de conspirar para envenenar Stálin. Claramente se tratava do prelúdio de uma campanha antijudaica. Depois do início dos ataques contra seu livro, Grossman, junto com outros escritores e jornalistas judeus, foi convocado a assinar uma carta de repúdio contra os “médicos assassinos” — o remorso por ter aceitado aquilo está nas páginas de Vida e destino.

Assinar a carta não contribuiu em nada para melhorar a situação do escritor; porém, quando tudo parecia se encaminhar para o pior, ele foi salvo pela morte de Stálin, em 5 de março de 1953. A campanha contra Por uma causa justa arrefeceu; o romance teve nada menos do que três edições na década de 1950 — em 1954, 1955 e 1959 — e já havia expectativa quanto à sua continuação.

Toda tensão envolvendo Por uma causa justa abalou a relação de Grossman com

Tvardóvski, que ele até então considerava um amigo. Além disso, o autor parecia acreditar que redatores e editores tidos como “progressistas” tendiam a se comportar, perante a censura, de modo mais temeroso do que os “retrógrados”.

Assim, quando Kojévnikov, editor da revista Známia (Bandeira), propôs-lhe a publicação de Vida e destino, Grossman acabou aceitando — e preterindo, assim, a Nóvyi Mir, de Tvardóvski. O arranjo parecia vantajoso para ambas as partes. O dinheiro da Známia cairia muito bem nas sempre precárias finanças do escritor, enquanto a revista contava com a repetição do êxito de Por uma causa justa.

Em meados de 1960, o autor finalizou a redação da obra e a encaminhou a Semion

Lípkin, que deveria avaliar sua possibilidade de publicação e indicar quais de suas partes seriam as mais “perigosas”. O veredito do amigo foi claro e peremptório: Grossman não devia, de forma alguma, enviar o texto para Kojévnikov, cujas posições políticas eram conhecidas de todos no meio literário. Não havia a menor chance de Vida e destino ser publicado, e seu autor corria o risco de ir para a cadeia. Grossman chamou Lípkin de “covarde”, acatando, contudo, suas sugestões de suprimir as partes mais “explosivas” — como, por exemplo, o diálogo entre Liss e Mostovskói, sublinhando as semelhanças entre nazismo e stalinismo.

Assim, um texto “expurgado” foi encaminhado à Známia (vale assinalar que, nesta edição, os trechos “politicamente incorretos” estão presentes). Passaram-se semanas, e a revista ficou em silêncio. Orgulhoso, Grossman não queria procurar a redação. Começaram a circular rumores de que seu romance não seria publicado. Finalmente, o autor foi convidado a uma reunião do conselho editorial da revista, à qual, contudo, preferiu não comparecer. Recebeu uma ata que dava conta do linchamento da obra: todos os presentes acusavam Vida e destino de ser antissoviético e difamatório.

Grossman, então, quis retomar o contato com Tvardóvski, que, depois de ler o romance, qualificou-o de genial, com uma ressalva: “Entre nós, é proibido publicar a verdade. Não há liberdade.” Tvardóvski disse que, a exemplo de Kojévnikov, tampouco teria publicado Vida e destino. “Mas eu também não teria feito essa canalhice. Você me conhece.”

Pois o editor-chefe da Známia não se contentara em simplesmente embargar a obra; ele a encaminhara “para quem de direito”. O desfecho foi, porém, inesperado: em vez de prenderem o autor, prenderam o livro.

Escritores irem para a cadeia, para o exílio, ou para a execução não era um fato raro na era soviética. Porém, o confisco de manuscritos só tinha um precedente: em 1926, o serviço secreto apreendeu duas cópias de Um coração de cachorro no apartamento de Mikhail Bulgákov, para devolvê-las dois anos depois.

Em fevereiro de 1961, três oficiais do KGB foram ao apartamento de Grossman.

Confiscaram o texto datilografado e tudo relacionado a ele, de manuscritos e esboços a papelcarbono e fitas de máquina de escrever. Outros textos do autor não interessavam aos agentes: eles só queriam saber de Vida e destino.

Grossman se recusou a assinar um termo em que se comprometia a silenciar a respeito da batida policial, mas concordou em levar os agentes à datilógrafa que havia trabalhado para ele. Os homens do KGB apreenderam também o exemplar de Tvardóvski, na redação da Nóvyi Mir, e escavaram a horta da casa de Viktor Cherentsis, primo do escritor, em busca de mais exemplares.

O autor resolveu lutar, então, por sua criação. Reuniu-se com os diretores da União dos

Escritores da URSS, que lhe disseram que, embora o romance não fosse “difamatório”, havia nele muito de perigoso para o Estado, e sua publicação só seria possível dentro de 250 anos.

O próximo passo foi escrever diretamente ao secretário-geral do Partido Comunista da

URSS, Nikita Khruschov. Eram, afinal, os tempos do “degelo”, e Grossman parecia confiar que o caráter sabidamente impulsivo do alto mandatário soviético poderia mudar o destino de seu romance.

Na missiva, Grossman dizia que o discurso de Khruschov no X Congresso do Partido

Comunista da URSS, em 1956, denunciando os crimes de Stálin, dera-lhe segurança de que Vida e destino estava no caminho certo. “Pois as ideias de um escritor, seu sentimento, sua dor, são uma parte das ideias, das dores e das verdades de todos.”

Argumentando apaixonadamente em favor de sua obra, ele terminava a correspondência com um apelo:

Eu lhe peço que devolva a liberdade a meu livro, peço que quem fale a seu respeito e o discuta sejam redatores, e não funcionários do Comitê de Segurança do Estado.

Não há sentido, não há verdade na minha situação atual, de liberdade física, se o livro ao qual dediquei minha vida está na prisão, pois não o reneguei, e não o renegarei. Passaram-se doze anos desde que comecei a trabalhar neste livro. Assim como antes, continuo acreditando que escrevi a verdade, que escrevi com amor e compaixão pelas pessoas, com confiança nelas. Peço liberdade para meu livro.

Grossman ficou dois meses praticamente sem sair de casa, esperando por um telefonema de Khruschov. A ligação, quando aconteceu, convocava-o para uma entrevista com Mikhail Suslov, o ideólogo do Partido Comunista.

Ao longo de três horas de conversa, Suslov elogiou as obras anteriores de Grossman, e admitiu não ter lido Vida e destino. Porém, com base na opinião de seus consultores, que haviam examinado o romance, ele era “um perigo para o comunismo, para o poder soviético, para o povo soviético”. Sua devolução ao autor estava fora de questão: “Talvez ele seja publicado dentro de uns duzentos, trezentos anos.”

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