souza - jesse - a-rale - brasileira - quem - e-e - como - vive

souza - jesse - a-rale - brasileira - quem - e-e - como - vive

(Parte 1 de 6)

Ralé BRasileiRa Quem é e como vive

A rale brasileira.indb 19/10/2009 16:31:21

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS ReitoR Ronaldo Tadêu Pena Vice-ReitoRa Heloisa Maria Murgel Starling

EDITORA UFMG DiRetoR Wander Melo Miranda

Vice-DiRetoRa Silvana Cóser

CONSELHO EDITORIAL Wander Melo Miranda (presidente) Carlos Antônio Leite Brandão Juarez Rocha Guimarães Márcio Gomes Soares Maria das Graças Santa Bárbara Maria Helena Damasceno e Silva Megale Paulo Sérgio Lacerda Beirão Silvana Cóser

A rale brasileira.indb 29/10/2009 16:31:21

Jessé souza colaboRaDoRes

André Grillo

Emanuelle Silva Emerson Rocha Fabrício Maciel

José Alcides Figueiredo Santos

Lara Luna

Lorena Freitas

Maria Teresa Carneiro

Patrícia Mattos

Priscila Coutinho

Roberto Torres Tábata Berg

Ralé BRasileiRa Quem é e como vive

Belo Horizonte Editora UFMG 2009

A rale brasileira.indb 39/10/2009 16:31:21

© 2009, os autores © 2009, Editora UFMG

Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita do Editor.

Ralé brasileira : quem é e como vive / Jessé Souza ; colaboradores
André Grillo[et al.] – Belo Horizonte : Editora UFMG, 2009.

S729rSouza, Jessé. ??? p. : il. – (Humanitas)

Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7041-787-9

1. Classes sociais – Brasil. 2. Brasil – Aspectos sociais. I. Grillo,

André. I. Título. II. Série. CDD: 301 CDU: 316

Elaborada pela DITTI - Setor de Tratamento da Informação da Biblioteca Universitária da UFMG

DIRETORA DA COLEÇÃO Heloisa Maria Murgel Starling ASSISTêNCIA EDITORIAL Eliana Sousa e Euclídia Macedo EDITORAÇÃO DE TEXTOS Maria do Carmo Leite Ribeiro REVISÃO E NORMALIZAÇÃO Maria do Rosário Alves Pereira REVISÃO DE PROVAS Danivia Wolff e Isadora Rodrigues PROJETO GRÁFICO Glória Campos - Mangá FORMATAÇÃO E CAPA Diêgo Oliveira PRODUÇÃO GRÁFICA Warren Marilac

Tel.: +5 31 3409-4650Fax: +5 31 3409-4768
w.editora.ufmg.breditora@ufmg.br

EDITORA UFMG Av. Antônio Carlos, 6.627 – Ala direita da Biblioteca Central – térreo Campus Pampulha – 31270-901 – Belo Horizonte/MG A rale brasileira.indb 49/10/2009 16:31:21

Dedico este livro ao meu pai, in memoriam, por ter me transmitido o sentimento que me permitiu fazê-lo.

A rale brasileira.indb 59/10/2009 16:31:21

A rale brasileira.indb 69/10/2009 16:31:2 A rale brasileira.indb 69/10/2009 16:31:2 agRadecimentos

Agradeço, antes de tudo, e com muita ênfase, o apoio e a confiança da FAPEMIG (Fundação de Pesquisa do Estado de Minas Gerais) que, através da concessão do prêmio PRONEX (Fapemig/ CNPq) à nossa pesquisa, possibilitou as melhores condições materiais e acadêmicas possíveis ao desenvolvimento do objetivo a que nos propusemos. Esse apoio nos permitiu muito especialmente engajar especialistas de renome internacional no nosso projeto, permitindo tanto sofisticar o desenho teórico e metodológico de nossa pesquisa quanto possibilitar, à pós-graduação da UFJF, por meio de diversos seminários internacionais e workshops (além de cursos regulares nos diversos temas relacionados à presente pesquisa), desfrutar de uma internacionalização singular no atual contexto das ciências sociais brasileiras. Agradeço ainda aos apoios adicionais do CNPq, DAAD e à Fundação Humboldt da Alemanha que contribuíram, ainda que em porções menores, para o mesmo resultado.

Dentre os diversos especialistas estrangeiros que participaram de nossa pesquisa gostaria de agradecer em especial a Bernard Lahire, da Universidade de Lyon, França, e a Thomas Leithäuser, da Universidade de Bremem, Alemanha, pela generosa ajuda na formação da equipe de pesquisadores do CEPEDES. A ajuda de Lahire foi decisiva para a sofisticação metodológica do tipo de pesquisa empírica inovadora e crítica que utilizamos. A contribuição de Leithäuser permitiu uma formação continuada de nossos pesquisadores em variadas técnicas de pesquisa qualitativa ao longo de vários anos.

Agradeço, também de modo enfático, à equipe de pesquisadores do CEPEDES (w.cepedes.ufjf.br), que se dedicou integralmente,

A rale brasileira.indb 79/10/2009 16:31:2 nos últimos quatro anos, a levar a cabo a pesquisa teórica e empírica que resultou no presente livro. A dedicação apaixonada desses jovens, que sem exceção abdicaram de férias e subordinaram todos os outros interesses em nome desse projeto, permitiu transformar um trabalho penoso e árduo numa experiência singularmente prazerosa de aprendizado coletivo.

A rale brasileira.indb 89/10/2009 16:31:2 s umá R io

1P a R te o mito BRasileiRo e o encoBRimento da desigualdade

CAPíTULO 1

A CONSTRUÇÃO DO MITO DA “BRASILIDADE” 29 Jessé Souza

CAPíTULO 2 SENSO COMUM E JUSTIFICAÇÃO DA DESIGUALDADE 41

Jessé Souza

CAPíTULO 3

COMO O SENSO COMUM E A “BRASILIDADE” SE TORNAM CIêNCIA CONSERVADORA? 49

Jessé Souza

CAPíTULO 4

A TESE DO PATRIMONIALISMO A demonização do Estado corrupto e a divinização do mercado como reino da virtude 73

Jessé Souza

CAPíTULO 5

OS LIMITES DO POLITICAMENTE CORRETO 89 Jessé Souza

A rale brasileira.indb 9/10/2009 16:31:2

2P a R te o BRasil além do mito Novo olhar e Novos coNflitos

CAPíTULO 6

COMO é POSSíVEL PERCEBER O BRASIL CONTEMPORâNEO DE MODO NOVO? 103

Jessé Souza as mulheRes da Ralé

CAPíTULO 7

“DO FUNDO DO BURACO” O drama na ascensão social de empregadas domésticas 125

Maria Teresa Carneiro Emerson Rocha

CAPíTULO 8

A MISéRIA DO AMOR DOS POBRES 143

Emanuelle Silva Roberto Torres Tábata Berg

CAPíTULO 9

A DOR E O ESTIGMA DA PUTA POBRE 173 Patrícia Mattos os homens da Ralé

CAPíTULO 10

O CRENTE E O DELINqUENTE 205

Emerson Rocha Roberto Torres

A rale brasileira.indb 109/10/2009 16:31:2

CAPíTULO 1

O TRABALHO qUE (IN)DIGNIFICA O HOMEM 241

Fabrício Maciel André Grillo a má-fé institucional

CAPíTULO 12

A INSTITUIÇÃO DO FRACASSO A educação da ralé 281

Lorena Freitas

CAPíTULO 13 “FAZER VIVER E DEIXAR MORRER”

A má-fé da saúde pública no Brasil 305 Lara Luna

CAPíTULO 14 A MÁ-Fé DA JUSTIÇA 329

Priscila Coutinho o Racismo no BRasil

CAPíTULO 15

COR E DOR MORAL Sobre o racismo na “ralé” 353

Emerson Rocha

CONCLUSÃO A MÁ-Fé DA SOCIEDADE E A NATURALIZAÇÃO DA RALé 385

Jessé Souza

POSFÁCIO SOBRE O MéTODO DA PESqUISA 433 NOTAS 441 REFERêNCIAS 455

A rale brasileira.indb 119/10/2009 16:31:2 anexos

ANEXO I POSIÇõES DE CLASSE DESTITUíDAS NO BRASIL 463

José Alcides Figueiredo Santos

OS NúMEROS DOS DESTITUíDOS NO BRASIL 479 José Alcides Figueiredo Santos

SOBRE OS COLABORADORES 481

A rale brasileira.indb 129/10/2009 16:31:2

A sociologia talvez não merecesse uma hora de esforço se tivesse por finalidade apenas descobrir os cordões que movem os indivíduos que ela observa, se esquecesse que lida com os homens, mesmo quando estes, à maneira das marionetes, jogam um jogo cujas regras ignoram, em suma, se ela não se desse à tarefa de restituir a esses homens o sentido de suas ações.

Pierre Bourdieu. O camponês e seu corpo.

A doença grave do Brasil é social, não econômica.

Celso Furtado

Entrevista à revista Caros Amigos, fevereiro de 2003.

A rale brasileira.indb 139/10/2009 16:31:2

A rale brasileira.indb 149/10/2009 16:31:2 A rale brasileira.indb 149/10/2009 16:31:2 intRoduçã o

A impressão mais compulsivamente repetida por todos os jornais e por todo debate intelectual e político brasileiro contemporâneo é a de que todos os problemas sociais e políticos brasileiros já são conhecidos e que já foram devidamente “mapeados”. que não se perceba nenhuma mudança efetiva no cotidiano de dezenas de milhões de brasileiros condenados a um dia a dia humilhante deve-se ao fato de que a desigualdade brasileira vem de “muito tempo” e que não se pode acabar de uma penada com coisa tão antiga. As duas teses não poderiam ser mais falsas. Elas também não poderiam estar mais relacionadas. Elas formam o núcleo mesmo da “violência simbólica” – aquele tipo de violência que não “aparece” como violência –, que torna possível a naturalização de uma desigualdade social abissal como a brasileira. Na realidade, a “legitimação da desigualdade” no Brasil contemporâneo, que é o que permite a sua reprodução cotidiana indefinidamente, nada tem a ver com esse passado longínquo. Ela é reproduzida cotidianamente por meios “modernos”, especificamente “simbólicos”, muito diferentes do chicote do senhor de escravos ou do poder pessoal do dono de terra e gente, seja esta gente escrava ou livre, gente negra ou branca. quando não se fala dessas formas “novas” e “modernas” de se legitimar a dominação cotidiana injusta e se apela a uma suposta e vaga continuidade com o passado distante é porque não se sabe do que se está falando, ainda que não se tenha coragem de admitir.

quando se sabe pouco sobre assuntos tão importantes, não só não se admite que não se sabe, como tenta-se também passar a impressão de que se sabe muito. é isso que explica que cientistas sociais de todos os matizes, políticos de todos os partidos, jornalistas de todos os jornais e canais de TV acreditem efetivamente

A rale brasileira.indb 159/10/2009 16:31:2 que a realidade seja transparente, de fácil acesso, e confundam o tempo todo “quantificação” e o fetiche dos “números” com “interpretação” e “explicação”. Como intuiu corretamente Renato Mezan em inspirado ensaio,1 o fascínio pelos números e pelas estatísticas hoje em dia parece ter substituído a retórica vazia e as “palavras bonitas” ou difíceis que faziam o prestígio dos bacharéis do passado: nos dois casos fala-se do que não se conhece com toda a pose de quem se sabe muito. Mudam-se os jogos da dominação, que pressupõe desconhecimento sistemático da realidade sob a aparência de conhecimento, mas se preserva o mesmo sucesso ao se travestir do espírito (quantitativo) da época.

é isso que explica que a forma como a sociedade brasileira percebe, hoje em dia, seus problemas sociais e políticos seja “colonizada” por uma visão “economicista” e redutoramente quantitativa da realidade social. O economicismo é, na realidade, o subproduto de um tipo de liberalismo triunfalista hoje dominante em todo o planeta (isso se mantém, apesar da recente crise, já que a articulação de uma contraideologia nunca é automática), o qual tende a reduzir todos os problemas sociais e políticos à lógica da acumulação econômica. Como historicamente entre nós se gestou entre os anos de 1930 e 1970 um tipo amesquinhado e pretensamente crítico de liberalismo que se consolidou como visão hegemônica do país desde os anos de 1970 e 1980 até hoje em dia, a união desses dois contextos, internacional e nacional, no sentido de uma síntese conservadora, fez com que a elaboração consequente e convincente de uma visão alternativa se tornasse especialmente difícil. Esse é precisamente – com as armas da sociologia teórica e empírica de vanguarda aplicadas ao contexto brasileiro numa linguagem compreensível a todos – o desafio deste livro.

Na verdade, a força do liberalismo economicista, hoje dominante entre nós, só se tornou possível pela construção de uma falsa oposição entre mercado como reino paradisíaco de todas as virtudes e o Estado identificado com a corrupção e o privilégio. Essa oposição simplista e absurda – que ignora a ambiguidade constitutiva de ambas as instituições –, cuja gênese e condições de possibilidade serão estudadas em detalhe na primeira parte deste livro, é o que permite, no Brasil de hoje, que a eternização dos privilégios econômicos de alguns poucos seja “vendida” ao público como interesse de todos na luta contra uma corrupção

A rale brasileira.indb 169/10/2009 16:31:2 pensada como “mal de origem” e supostamente apenas estatal. Como todo conflito social é dramatizado nessa falsa oposição entre mercado divinizado e Estado demonizado, os reais conflitos sociais que causam dor, sofrimento e humilhação cotidiana para dezenas de milhões de brasileiros são tornados literalmente invisíveis.

é essa invisibilidade da sociedade e de seus conflitos – que é o principal produto do tipo de ciência social conservadora que se tornou dominante entre nós nas universidades, na grande imprensa e no debate público – que permite um tipo de economicismo, que, de tão hegemônico, transformou-se na única linguagem social compreensível por todos. é esse contexto desolador que explica que, mesmo nos setores não identificados com a manutenção indefinida dos privilégios de mercado de alguns poucos, nossos graves problemas sociais e políticos sejam todos superficialmente percebidos e amesquinhados a questões de “gestão de recursos”. Com isso, cria-se a falsa impressão de que conhecemos os nossos problemas sociais e que o que falta é apenas uma “gerência” eficiente – a crença fundamental de toda visão tecnocrática do mundo – quando, na verdade, sequer se sabe do que se está falando.

Senão, vejamos. A crença fundamental do economicismo é a percepção da sociedade como sendo composta por um conjunto de homo economicus, ou seja, agentes racionais que calculam suas chances relativas na luta social por recursos escassos, com as mesmas disposições de comportamento e as mesmas capacidades de disciplina, autocontrole e autorresponsabilidade. Nessa visão distorcida do mundo, o marginalizado social é percebido como se fosse alguém com as mesmas capacidades e disposições de comportamento do indivíduo da classe média. Por conta disso, o miserável e sua miséria são sempre percebidos como contingentes e fortuitos, um mero acaso do destino, sendo a sua situação de absoluta privação facilmente reversível, bastando para isso uma ajuda passageira e tópica do Estado para que ele possa “andar com as próprias pernas”. Essa é a lógica, por exemplo, de todas as políticas assistenciais entre nós.

é esse mesmo raciocínio economicista, que abstrai sistematicamente os indivíduos de seu contexto social, que também transforma a escola, pensada abstratamente e fora de seu contexto, em remédio para todos os males de nossa desigualdade. Na realidade,

A rale brasileira.indb 179/10/2009 16:31:2 a escola, pensada isoladamente e em abstrato, vai apenas legitimar, com o “carimbo do Estado” e anuência de toda a sociedade, todo o processo social opaco de produção de indivíduos “nascidos para o sucesso”, de um lado, e dos indivíduos “nascidos para o fracasso”, de outro. Afinal, o processo de competição social não começa na escola, como pensa o economicismo, mas já está, em grande parte, pré-decidido na socialização familiar pré-escolar produzida por “culturas de classe” distintas.

Como toda visão superficial e conservadora do mundo, a hegemonia do economicismo serve ao encobrimento dos conflitos sociais mais profundos e fundamentais da sociedade brasileira: a sua nunca percebida e menos ainda discutida “divisão de classes”. O economicismo liberal, assim como o marxismo tradicional, percebe a realidade das classes sociais apenas “economicamente”, no primeiro caso como produto da “renda” diferencial dos indivíduos e no segundo, como “lugar na produção”. Isso equivale, na verdade, a esconder e tornar invisível todos os fatores e precondições sociais, emocionais, morais e culturais que constituem a renda diferencial, confundindo, ao fim e ao cabo, causa e efeito. Esconder os fatores não econômicos da desigualdade é, na verdade, tornar invisível as duas questões que permitem efetivamente “compreender” o fenômeno da desigualdade social: a sua gênese e a sua reprodução no tempo.

A visão redutoramente econômica do mundo, que estou chamando de “economicismo”, não é privilégio de economistas (que efetivamente substituíram os antigos bacharéis de direito do século 19 como “cientistas do poder”) e de cientistas sociais de todos os matizes em sua imensa maioria também “economicistas”. O economicismo é a visão dominante também de todas as “pessoas comuns” no sentido de “não especialistas”, ou seja, das pessoas que não são “autorizadas”, pelo seu capital cultural e jargão técnico, a falar com autoridade sobre o mundo social. é isso que faz do economicismo a ideologia dominante do mundo moderno. Um exemplo basta para tornar clara toda a cegueira que a visão economicista do mundo nos impõe. Peguemos a questão central da “classe social”. Normalmente apenas a “herança” material, pensada em termos econômicos de transferência de propriedade e dinheiro, é percebida por todos. Imagina-se que a “classe social”, seus privilégios positivos e negativos dependendo do caso, se transfere às novas gerações por meio de objetos

(Parte 1 de 6)

Comentários