Paleoantropologia Para Iniciantes

Paleoantropologia Para Iniciantes

(Parte 1 de 6)

Por Euder Monteiro (revisão e edição por Fernando Bilharinho)

Ardi (Ardipithecus ramidus) e Lucy (Australopithecus afarensis), duas damas do passado. Fonte: Revista Veja

PALEOANTROPOLOGIA PARA INICIANTES: Um curso ilustrado sobre a evolução biológica humana

Introdução Capítulo1: O surgimento do Homo sapiens Capítulo 2: Homo neanderthalensis Capítulo 3: Homo sapiens X Homo neanderthalensis: hibridismo Capítulo 4: Homo floresiensis Capítulo 5: Homo erectus Capítulo 6: Gigantopithecus, os maiores primatas de todos os tempos Capítulo 7: Homo ergaster Capítulo 8: Homo rudolfensis e Homo habilis Capítulo 9: O mundo há 2 milhões de anos Capítulo 10: Outras Espécies do Gênero Homo Capítulo 1: O Polegar Opositor Capítulo 12: Importantes Marcos Pré-Históricos Capítulo 13: O gênero Australopithecus Capítulo 14: Berço da Humanidade Capítulo 15: Australopithecus afarensis: um velho conhecido Capítulo 16: Australopithecus afarensis: outro velho conhecido Capítulo 17: Australopithecus gahri: quase Homo? Capítulo 18: Australopithecus sediba: uma descoberta recente Capítulo 19: Australopithecus anamensis: o mais antigo Capítulo 20: Curiosidades sobre os Australopithecus Capítulo 21: Paranthropus: um gênero paralelo aos humanos

Capítulo 2: O início da expansão cerebral Capítulo 23: Homossexualidade Capítulo 24: Os grandes antropóides antigos Capítulo 25: Bipedalismo Capítulo 26: Parto de um chimpanzé (descrição) em relação ao parto humano Capítulo 27: Kenyanthropus platyops: um bípede misterioso Capítulo 28: Por que você não tem rabo? Capítulo 29: Teorias heterodoxas

1. Lista de espécies humanas e pré-humanas 2. Classificações completas de alguns primatas 3. Algumas observações sobre a classificação dos primatas 4. Sugestões de leitura 5. Sugestões de Livros 6. Para conversar com o autor

Introdução:

A Paleoantropologia estuda, em suma, a evolução das espécies pré-humanas e das espécies do gênero Homo, incluindo nossa própria espécie: Homo sapiens. A Paleoantropopologia (“Paleo”, do grego, significa antigo, indicando que se trata do estudo da Antropologia antiga, ou pré-histórica) é uma junção de ramos científicos importante: a Paleontologia e a Antropologia. A Paleoantropologia realiza estudos antropológicos de todas as características físicas, modos de vida, interações sociais e outros aspectos dos pré-humanos e dos humanos, além das relações de parentesco entre as espécies.

A Paleontologia é bastante utilizada pelos Paleoantropólogos, como, por exemplo, quando fósseis de animais pré-históricos auxiliam ou complementam os outros métodos de datação dos sítios arqueológicos, tendo em vista que é possível saber em que época determinados paleoanimais viveram.

Fonte das imagens: http://humanorigins.si.edu

A Paleoantropologia também pode valer-se de ciências afins, como a Genética, a Arqueologia, a Geologia, e muitas outras. Quando são encontrados fósseis acompanhados de animais pré-históricos e/ou ferramentas e/ou vestígios de fogueira, por exemplo, é possível fazer uma análise muito mais completa do sítio arqueológico quando os conhecimentos de todas essas ciências em conjunto forem utilizados.

Os vestígios de ferramentas são fundamentais e, naturalmente, é possível saber de que material as mesmas foram feitas. A Geologia informa qual o grau de dureza de determinado material, se mais maleável como o marfim ou o mármore, ou mais rígido como o minério de ferro. A Geologia é capaz de fornecer detalhes espantosos sobre as pedras e rochas, como a idade delas (o que também ajuda na datação dos fósseis).

Recentemente, a Genética promoveu uma significativa colaboração aos estudos paleoantropológicos, tendo em vista que foi possível extrair amostras de DNA de alguns fósseis mais recentes.

No entanto, a principal fonte de conhecimentos da Paleoantropologia são os ossos fossilizados de humanos e pré-humanos, que, sozinhos, fornecem uma fonte gigantesca de informações, principalmente a partir dos anos 1990, quando algumas características não-métricas dos ossos começaram a receber tratamento estatístico mais elaborado.

Neste curso, serão estudadas cada uma das espécies do nosso gênero (Homo) e dos gêneros ancestrais, o paleoambiente onde viviam e os caminhos evolutivos totalmente aleatórios e casuais (mas obedecendo as leis da Evolução) pelos quais passaram.

Capítulo 1: O surgimento do Homo sapiens

A maioria dos paleoantropólogos acredita que o Homo sapiens surgiu na África (na parte oriental ou no sul do continente) entre 150.0 e 200.0 anos atrás.

O fóssil mais antigo de Homo sapiens foi apelidado de "Herto", tem entre 150.0 e 160.0 anos de idade, e ainda exibe algumas características arcaicas, como ligeiras protuberâncias supra-oculares. Essa protuberâncias são um tipo de viseira óssea sobre os olhos que aparece em todos os hominídeos, exceto nos Homo sapiens tardios. Sua função, segundo o paleoantropólogo Richard Klein, no livro "O Despertar da Cultura", seria impedir que a face se partisse em duas com as forças causadas pelos músculos das mandíbulas durante a mastigação. Nossa testa alta e escarpada faria as vezes dessa protuberância, distribuindo e absorvendo tais forças. Aliás, alguns povos atuais, como os aborígines australianos, os pigmeus asiáticos e alguns povos africanos ainda exibem muitos traços anatômicos primitivos. Os aborígines ainda possuem resquícios dessa protuberância supra-orbital, além de alguns outros povos e pessoas isoladas.

Ao longo deste curso, falaremos mais sobre esses aspectos anatômicos.

Apesar de ter surgido há aproximadamente 200 mil anos, apenas há 50.0 anos o Homo sapiens começou a imprimir aperfeiçoamentos constantes à sua tecnologia, sendo também nessa época o início do pensamento abstrato e simbólico, conforme explicou Klein em seu livro “O Despertar da Cultura”.

Alguns autores, inclusive Klein, consideram que houve uma mutação genética que teria aumentado o número de sinapses cerebrais dos sapiens há 50.0 anos, tendo em vista que não houve nenhuma alteração física ou morfológica nesse período. Outros autores defendem que a capacidade de pensamento abstrato surgiu com o Homo sapiens há quase 200.0 anos, mas apenas há 50.0 anos encontrou condições de desenvolvimento. Atualmente, há cada vez mais evidências arqueológicas indicando essa última possibilidade e mais, são encontradas evidências cada vez mais antigas do pensamento abstrato/simbólico.

Pessoalmente, acredito que o potencial para o pensamento simbólico surgiu com a nossa espécie e desenvolveu-se mais tarde, quando as condições climáticas na Terra se mostraram mais favoráveis. Robert Foley, da Universidade de Cambridge, e autor de vários livros (entre eles: "Os Humanos Antes da Humanidade") também pensa assim. Ou seja, a partir de 50.0 anos, ou antes, o clima na África (berço da cultura simbólica) teria permitido um significativo aumento populacional (conforme se verá adiante), impulsionando também o desenvolvimento cognitivo humano.

Quando surgiu, nossa espécie dividia o planeta com o Homo neanderthalensis, com o Homo floresiensis, com o Homo erectus e com uma espécie ainda não identificada, cujo único fóssil é conhecido como "Mulher X". Ao longo do curso, vamos falar mais sobre essas espécies.

Como vimos, na literatura paleoantropológica há duas hipóteses principais para o relativamente repentino surgimento da cultura simbólica há 50.0 anos (lembrando que apenas há 30.0 anos a revolução espalhou-se pelo mundo), a saber:

1ª. O Homo sapiens, quando surgiu, com seu cérebro reconfigurado em relação às outras espécies Homo, já era capaz de pensamentos simbólicos e de imprimir constante e acelerado aperfeiçoamento à sua indústria. No entanto, essa capacidade permaneceu inerte até que o clima da Terra permitiu um aumento populacional razoável e condições menos duras de sobrevivência;

2ª. Há 50.0, na África, houve uma mutação genética em uma das tribos humanas que, ao longo dos muitos milênios seguintes, espalhou-se por todas as populações. Essa mutação conferiu um aumento significativo na quantidade de sinapses ou uma reconfiguração nos neurônios, permitindo o desenvolvimento de atividades que até então nenhuma espécie havia alcançado, principalmente o pensamento por meio de símbolos.

Apesar de a revolução cultural ter ocorrido há tanto tempo, apenas há 6.0 anos (mais ou menos) proto-civilizações surgiram no planeta, em três pontos separados do globo (Egito, Mesopotâmia e China). Com elas vieram a agricultura, as cidades, as profissões, etc. Antes disso, vivíamos como nômades, caçando animas e coletando frutas, sem muita expressão cultural, em comunidades pequenas e espalhadas. Alguns autores chegam a afirmar que umas 2.0 pessoas constituíam toda a espécie humana, e a maioria acredita que éramos, no máximo, 30.0 ou 50.0 indivíduos, divididos em aldeias de mais ou menos 200 habitantes cada.

Veja a gravura abaixo, onde se pode perceber com facilidade a evolução da população humana ao longo dos últimos 200.0 anos:

Em seu livro “O Despertar da Cultura” (páginas 195 a 197), Craig Stanford, descreve da seguinte maneira o grande despertar humano:

"Deixando de lado rótulos e datas precisas, o aspecto básico é que as populações da Idade da Pedra Posterior e do Paleolítico Superior [após o despertar] são as primeiras a que podemos atribuir a capacidade plenamente moderna de produzir cultura, ou talvez, com maior precisão, a aptidão completamente moderna de inovar. Foi com certeza essa capacidade que permitiu que os povos da Idade da Pedra Posterior e do Paleolítico Superior se dispersassem à custa dos seus contemporâneos mais primitivos, começando entre 50.0 e 40.0 anos atrás. As inovações incluíram casas construídas solidamente, roupas costuradas, fogueiras mais eficientes e uma nova tecnologia de caça que permitiu aos Cro-Magnons do Paleolítico Superior deslocar seus predecessores, ajudando-os também a colonizar as partes mais continentais e inóspitas da Eurásia, onde ninguém havia vivido antes."

Não há dúvidas de que o despertar não fez surgir apenas pinturas rupestres, mas revolucionou o modo de vida dos humanos.

1.1. Teorias sobre o surgimento do Homo sapiens

Existem duas teorias básicas sobre o surgimento do Homo sapiens, que, de forma resumida, podem ser explicadas assim:

a. Teoria do Berço Africano, também conhecida como "Out of Africa" (África para fora) ou Arca de Noé; b. Teoria Multirregional, também conhecida por "Candelabro".

A primeira teoria, mais aceita atualmente, dispõe que os primeiros Homo sapiens surgiram na África, provavelmente na África Oriental (ou no sul do continente) e, de lá, se espalharam pelo Oriente Médio, Ásia, Oceania, Europa e Américas (nessa ordem). Além de muitos fósseis darem a entender que essa teoria está correta, agora a Genética também a corrobora. Estudos genéticos apontam claramente a África como origem de todos os humanos atuais.

Primeiro os fósseis: na África, foram encontrados diversos fósseis que indicam claramente a tendência evolutiva em direção ao Homo sapiens. O Homo erectus africano, conhecido como Homo ergaster (homem trabalhador, em latim) possui uma morfologia muito mais parecida com a nossa do que o Homo erectus da Ásia. Aliás, muitos paleoantropólogos, como G. J. Sawyer e Victor Deak, autores de "The Last Human – A Guide to Twenty-Two Species of Extinct Human" (um dos livros mais atuais sobre o tema, ainda sem edição em português) e também Richard Klein, defendem a existência de 2 espécies de Homo erectus asiáticos, a encontrada na

China e a outra da Indonésia. Realmente há diferenças pequenas entre as duas morfologias, principalmente no formato da parte superior do crânio.

Os fósseis mostram que o Homo ergaster é o mais provável ancestral humano, anterior ao Homo heidelbergensis. Além disso, formas claramente ancestrais, como o Homo heidelbergensis (homem de Heidelberg, uma cidade alemã) e o Homo sapiens idaltu (idaltu significa mais antigo, em uma língua africana da região de Afar, também conhecido como “Herto”, descobertos por Tim White em 2003), são encontrados na Europa e África, respectivamente. Tais fósseis demonstram que o Homo sapiens desenvolveu-se paralelamente ao Homo neanderthalensis e distinguiu-se das outras espécies enquanto estava em seu berço africano.

A Genética também confirma a origem africana, baseada em análises do DNA mitocondrial e no próprio DNA nuclear. Sobre esse aspecto, para maiores informações, sugiro o livro "Genes, Povos e Línguas" de Cavalli-Sforza, um grande especialista no assunto.

Em relação à teoria multirregional: seus defensores acreditam que o Homo sapiens surgiu concomitantemente na África e na Ásia (e talvez em outras regiões como a Oceania e Europa). Argumentam, dentre outras coisas, que um surgimento isolado na África dependeria de uma ampla substituição posterior de espécies. Ou seja, o Homo sapiens teria que substituir, inteiramente, os Neandertais na Europa e o Homo erectus na Ásia e na Oceania, o que seria difícil de ocorrer. Para isso, deveria haver uma constante troca de genes entre as populações para manter todas elas unidas em uma mesma espécie.

Essa teoria, hoje em dia, está sofrendo severos ataques, principalmente oriundos da Genética. É que todas as diferenças étnicas são causadas por mutações genéticas recentes na história evolutiva, indicando que as mesmas ocorreram muito tempo depois do surgimento da espécie.

Há cada vez mais indícios de que o Homo sapiens hibridizou-se (em pequena escala) com populações nativas de outras espécies humanas (como o Homo neanderthalensis) em diversas partes do mundo. Mas isso não é suficiente para fortalecer a hipótese multirregional.

1.2. Questões interessantes sobre o gênero humano:

1.2.1. Alguma outra espécie de humanos conseguiu desenvolver a cultura abstrata/simbólica?

O único humano, além dos Homo sapiens, de que se tem alguma evidência de uma mudança cultural foi o Homem de Neandertal. Esse humano experimentou, por 270 mil anos, a cultura Mousteriense e, só então, vivenciou as culturas Chatelperronense, Aurignaciana, e Gravettiana, possivelmente através de contatos com o Homo sapiens. Atualmente, há evidências de que os Homo neanderthalensis tardios conseguiram, sem a ajuda dos Homo sapiens, aperfeiçoar sua tecnologia de fabricação de ferramentas (Livro “O Colar do Neandertal” – ver referências no final).

1.2.2. Por que o Homo sapiens demorou tanto para desenvolver sua civilização?

Na Era do Gelo havia caça abundante. Bastava que as populações acompanhassem as manadas em movimento para ter comida fácil. Depois, a megafauna desapareceu, junto com as contínuas e vastas estepes eurasianas e americanas. Tornou-se necessário permanecer próximo a vales de rios ou à beira do mar, tentando aprender a produzir alimento, que deixou de ser fácil de obter. E fazer isso só era possível se os humanos se agrupassem em sociedades maiores, divididas por categorias ou classes, dedicando-se, cada uma, a funções especializadas.

1.2.3. Até quando o Homo sapiens conviveu com os outros humanos?

Até mais ou menos 16 mil anos atrás, na Ilha de Flores (atual Indonésia), ainda havia Homo floresiensis. Até hoje, há lendas nativas sobre a existência de seres conhecidos como “Ebu Gogo”, na ilha. Houve também uma convivência com os Neandertais, principalmente na Europa e no Oriente Médio até uns 30.0 anos atrás. Além disso, há evidências de convivência com os Homo erectus, na Ásia, até uns 45.0 anos atrás. Adiante, estudaremos mais sobre tais espécies.

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