Friedrich Wilhel...e (bibliografia) - a ideia de sofrimento em nietzsche

Friedrich Wilhel...e (bibliografia) - a ideia de sofrimento em nietzsche

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CienteFico. Ano I, v. I, Salvador, janeiro-junho 2003

A Idéia de Sofrimento em Nietzsche Sissi Viganó

Resumo
depressivos
Palavras Chave

O presente trabalho tem por objetivo elucidar alguns dos principais conceitos da obra de Nietzsche e analisá-los sob a ótica de um "sofrimento necessário" - tema subjacente a toda a obra nietzscheana. Desde a biografia do autor, até sua crítica à compaixão, o sofrimento está presente como elemento indispensável à construção e ao aprimoramento do homem, em sua caminhada rumo ao Super-Homem. Para suavizar as dores do crescimento, Nietzsche sugere a retomada da Arte Trágica, única maneira de perceber complementaridade no antagonismo dos deuses gregos Apolo e Dionísio. Conclui-se, então, que psicólogos e profissionais da área de saúde mental devem revisar seus conceitos de sofrimento, mudando suas abordagens dentro do consultório e o tratamento de quadros

Nietzsche, Jung, Sartre, sofrimento, compaixão, hedonismo, arte trágica, existencialismo, depressão, psicologia, saúde mental.

O tema do sofrimento nas obras do filósofo trágico foi escolhido após a leitura de diversos livros de Nietzsche e alguns de seus comentadores. O livro de Hilton Japiassu, Introdução ao Pensamento Epistemológico, ajudou a guiar a elaboração desse trabalho após construir uma visão mais completa do que é Epistemologia e, por sua vez, ter desenvolvido uma pesquisa epistemológica. A leitura dos textos foi feita sublinhando idéias importantes e anotando ao lado das páginas as idéias-chaves do capítulo ou do parágrafo: isso facilitou não só a compreensão dos textos como a elaboração da monografia, uma vez que a idéia geral do tema já estava dividida, anotada e esquematizada.

Há alguns conceitos peculiares e recorrentes na filosofia de Nietzsche, tais como: Vontade de Potência, Super-homem, Amor Fati, Eterno Retorno e Transvaloração de todos os valores que precisam ser esmiuçados para permitir a interpretação de sua obra. Nietzsche começa sua produção associando helenismo e pessimismo – subtítulo de seu primeiro livro,[1] escrito em 1872 –, e já aí se tem material suficiente que mostra o sofrimento enquanto elemento detonador do pensamento nietzschiano. Suas críticas ao cristianismo começam a aparecer em Humano, demasiado humano (1878-80) e persistem ao longo da obra – sendo mais explícitas e contundentes, porém, em A Genealogia da Moral (1887), O Crepúsculo dos Ídolos (1888) e O Anticristo (1888). Em Assim Falou Zaratustra (1883-5), ele propõe uma nova tábua de valores como forma de superar o homem e atingir o superhomem – uma espécie de ser humano, concebida por Nietzsche, que superaria a espécie atual com uma discrepância, em termos evolutivos, igual ou superior à que é encontrada entre o homem atual e o macaco. Todo esse caminho, no entanto, do homem ao superhomem, do exercício da vontade de potência, de ídolos a serem derrubados, é um caminho difícil de ser trilhado. Este texto tenta analisar a visão do autor, do sofrimento, na elaboração de sua filosofia.

O filósofo Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844, em Röcken, uma pequena cidade da Prússia. Filho do pastor Karl Ludwig Nietzsche e de Franziska Oehler, também ela de família luterana, Nietzsche cresceu em um ambiente conservador e religioso. Teve dois irmãos mais novos: Elizabeth e Joseph, sendo que este morreu em idade prematura. Antes que Friedrich completasse cinco anos, seu pai morreu, provavelmente decorrente de um crescente quadro mórbido após queda e traumatismo craniano. Nietzsche cresceu sem uma figura masculina, idealizando e futuramente transferindo, talvez, o papel de pai para Schopenhauer e Wagner.

Nietzsche estudou Teologia e Filologia Clássica na Universidade de Bonn. Posteriormente, Nietzsche deixa Bonn e vai para a Universidade de Leipzig, abandonando a Teologia por não acreditar mais em Deus, decepcionando, assim, sua família. Ao descobrir Schopenhauer, Nietzsche se identifica não só com o “modelo masculino” que este se tornou para ele, mas também como um modelo de gênio solitário, que o próprio Nietzsche viria a se tornar mais tarde. Com a descoberta da filosofia schopenhauriana, Nietzsche começou a

criatividade

se desencantar da Filologia, vendo esse campo de estudo como estreito e sem lugar para

Ainda assim, aos 24 anos, Nietzsche tornou-se professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia. Apesar das suas incertezas em torno da Filologia, Nietzsche lecionava com entusiasmo e disciplina, sendo muito querido pelos seus alunos. A proximidade de Basiléia com a casa dos Wagner favoreceu idas freqüentes de Nietzsche àquela casa, onde o jovem admirador foi praticamente adotado. Nietzsche passava todos os finais de semana naquela casa, um ambiente que ele mesmo descreveu como sem moralismos e intelectualmente estimulante. A importância de Wagner no florescimento intelectual de Nietzsche e na elaboração de seu primeiro livro é reconhecida tanto por seus comentadores, quanto por ele próprio. Para seu grande pesar, sua relação com Wagner foi se deteriorando à medida que este foi se deixando corromper pela burguesia cristã, na ânsia de conseguir fundos para a construção de um teatro “digno da apresentação de suas óperas”, um monumento à música wagneriana. Em 1876, na época da apresentação do Parsifal de Wagner, Nietzsche rompe definitivamente com o homem que tinha sido seu grande ídolo.

Nietzsche escreveu diversas obras ao longo de dezesseis anos – um período produtivo que vai de 1872 a 1888, quando sofre um colapso mental, ficando sob a tutela de sua mãe e logo depois de sua irmã, até seu falecimento em Weimar, no dia 25 de agosto de 1900. Seu primeiro livro, O Nascimento da Tragédia, foi publicado em 1872. O livro foi primeiramente ignorado e depois mal recebido por seus colegas, que começaram a isolá-lo. Nesse primeiro trabalho ficam claros seu envolvimento emocional com Wagner e uma grande influência da filosofia schopenhauriana (Nietzsche afirma que os gregos não eram felizes, mas pessimistas e descrentes na vida).[2]

Nietzsche foi, certamente, uma das maiores influências no Existencialismo.[3] Foi ele o primeiro a se referir à náusea, o desespero decorrente da disparidade entre o mundo real e o mundo imaginado, que dá nome ao livro homônimo de Jean-Paul Sartre.[4] Em seu livro A

horror ao confrontar com a gratuidade das coisas e o sem-sentido da existência

Náusea, Sartre conta a história de intelectual que subitamente é acometido pela náusea, pelo

“Apertei com força em minhas mãos o volume que estava lendo: mas as sensações mais violentas estavam amortecidas. Nada parecia verdadeiro; eu me sentia rodeado por um cenário de papelão que podia ser bruscamente transplantado. O mundo esperava, retendo a respiração, encolhendo – aguardava sua crise, sua Náusea, como o Se. Achille outro dia.” [5]

aparência?” [6]

“Minha existência começava a me espantar seriamente. Não seria eu uma simples

ao final, como contra-peso, a Arte

No decorrer do livro, o personagem principal, Roquentim, elabora sua Náusea e encontra,

arrepios lentos percorreriam seu corpo todo. (...) Será que poderia tentarNaturalmente
não se trataria de uma músicamas será que não poderia, num outro gênero? Teria que ser
que estaria acima da existência.” [7]

“A negra canta. Então pode-se justificar sua existência? Só um pouquinho? Sinto-me extraordinariamente intimidado. Não é que tenha muita esperança. Mas estou como um sujeito completamente gelado após uma viagem na neve que estivesse entrando de repente num quarto aquecido. Creio que permaneceria imóvel perto da porta, ainda frio, e que um livro: não sei fazer outra coisa. Mas não um livro de história, isso fala do que existiu – jamais um ente pode justificar a existência de outro ente. Meu erro foi querer ressuscitar o Sr. de Rollebon. Outro tipo de livro. Não sei bem qual – mas seria preciso que se adivinhasse, por trás das palavras impressas, por trás das páginas, algo que não existisse,

Essa é justamente a postura defendida por Nietzsche – o resgate da arte como contraponto à realidade angustiante – em seu primeiro livro, O Nascimento da Tragédia (1872).

culturas

Nietzsche começa sua trajetória filosófica sob influência do pensamento schopenhaueriano; influência essa claramente percebida em O Nascimento da Tragédia, que contém algumas citações de Schopenhauer comentadas por Nietzsche.[8] Neste seu primeiro livro, Nietzsche defende a idéia de um retorno da arte trágica. Segundo ele, os gregos, especialmente os atenienses, criaram uma noção de mundo essencialmente apolínea, ignorando o outro lado representado por Dionísio, lado este que pode ser comparado, na Psicologia, à “sombra” [9] junguiana.[10] O lado dionisíaco, no entanto, ressurgiria sempre, apesar da repressão de uma visão de mundo apolínea – nesse escape do dionisíaco, o homem seria tomado pela náusea. A questão era, então, como permitir que coexistissem Apolo e Dionísio. A resposta estava na tragédia, em especial no drama trágico, que, através da arte, mescla os dois universos de maneira saudável. Essa união é a cura para a náusea, a reconciliação com o problema existencial que surge, não só na Grécia, mas em todas as

povo grego que dá origem ao drama trágico:

Desde essa sua primeira obra, o sofrimento já é questão central, pois é o sofrimento do

dos deuses olímpicos.” [1]

“O grego conheceu e sentiu os temores e os horrores do existir: para que lhes fosse possível de algum modo viver. Teve de colocar ali, entre ele e a vida, a resplendente criação onírica

enlace do apolíneo e do dionisíaco que dá origem ao drama, especialmente o drama trágico:

Nietzsche mostra como o sofrimento grego deu origem à arte, dividindo-a em dois pólos: a arte apolínea e a arte dionisíaca. O apolíneo, constantemente redimindo o homem, resgatando-o de seu sofrimento, é ciclicamente devastado pelo dionisíaco, que mostra o sofrimento cru, o deus despedaçado. Apolo eleva e enleva, envolve o artista em sonho; Dionísio recaptura o artista e rasga o sonho –mostra o substrato mórbido da realidade. É o

“O encantamento é o pressuposto de toda a arte dramática. Nesse encantamento o entusiasta dionisíaco se vê a si mesmo como sátiro, e como sátiro, por sua vez, contempla o deus, isto

sempre de novo em um mundo de imagens apolíneo.” [12]
A luta e coexistência dos dois princípios é que traz a arte que justifica a existência:

é, em sua metamorfose ele vê fora de si uma nova visão, que é a ultimação apolínea de sua condição. Com essa nova visão o drama está completo. Nos termos desse entendimento devemos compreender a tragédia grega como sendo o coro dionisíaco a descarregar-se

fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente...” [13]

“...nossa suprema dignidade temo-la no nosso significado de obras de arte – pois só como

assim, os gregos não acabavam destruídos por ele:

O sofrimento, então, força impulsionadora da arte, é suavizado pela beleza que produz;

salva-se nele – a vida” [14]

“Da mesma maneira, creio eu, o homem civilizado grego sente-se suspenso em presença do coro satírico; e o efeito mais imediato da tragédia dionisíaca é que o Estado e a sociedade, sobretudo o abismo entre um homem e outro, dão lugar a um superpotente sentimento de unidade que reconduz ao coração da natureza. (...) “Ele é salvo pela arte, e através da arte

possível:

A arte surgirá, como substrato do sofrimento, sob duas representações que tornam a vida

descarga artística da náusea do absurdo” [15]

“são elas: o sublime, enquanto domesticação artística do horrível, e o cômico, enquanto

processo de compreensão da existência em sua essência – o sofrimento lhe é inerente

Ainda em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche fala do sofrimento como resultante do

“Na consciência da verdade, uma vez contemplada, o homem vê agora, por toda parte, apenas o aspecto horroroso e absurdo do ser; agora ele compreende o que há de simbólico

enoja” [16]

no destino de Ofélia; agora reconhece a sabedoria do deus dos bosques, Sileno: isso o

“Este conhecimento eu o vejo cunhado naquela espantosa tríade do destino edipiano: aquele que decifra o enigma da natureza – essa esfinge biforme –, ele mesmo tem de romper também, como assassino do pai e esposo da mãe, as mais sagradas ordens da natureza. Sim, o mito parece querer murmurar-nos ao ouvido que a sabedoria, e precisamente a sabedoria dionisíaca, é um horror antinatural, que aquele que por seu saber precipita a natureza no abismo da destruição há de experimentar também, em si próprio, a desintegração da natureza. ‘O aguilhão da sabedoria se volta contra o sábio; a sabedoria é um crime contra a natureza’ (...)” [17]

águia todas as noites, depois de ter se recuperado das feridas durante o dia

Essa ligação do sofrimento ao conhecimento será retomada e explicitada em obras posteriores, principalmente em Humano, demasiado humano, ao tratar dos gênios e artistas. O principal mito grego que ilustra essa relação entre sofrimento e conhecimento, entre este e o antinatural, aquilo que não seria permitido pelos deuses, é o mito de Prometeu. Esse titã, ludibriando o estado natural das coisas, trouxe a tocha da sabedoria aos homens e, por esse motivo, foi condenado pelos deuses do Olimpo a ter seu fígado devorado por uma

dos artistas e escritores e Sinais de cultura superior e inferior

Humano, demasiado humano representa, segundo Paulo César de Souza,[18] a maioridade intelectual de Nietzsche. Neste livro, Nietzsche faz um apanhado de vários aspectos do homem, da sociedade, da política, das artes e da vida religiosa. É nesse livro que ele aprofunda a relação entre sofrimento e conhecimento, especialmente nos capítulos Da alma

Em Humano, demasiado humano já estamos fora dos tempos gregos. Portanto, agora, o sofrimento é analisado de acordo com os novos artifícios criados para superá-lo ou encobri-

moral e a religião – em especial a religião cristã

lo. Provavelmente o maior artifício mascarador do sofrimento analisado por Nietzsche são a

sermos por ela dilacerados” [19]

“A besta que existe em nós quer ser enganada; a moral é mentira necessária para não

luta Nietzsche, como se pode ver também em Assim Falou Zaratustra:

No decorrer do livro insinua-se, então, a glorificação da força como instrumento que irá constituir o super-homem. É contra a fraqueza do homem perante o sofrimento criativo que

“Procuram morder-me, porque lhes digo: ‘Para gente pequena, são necessárias virtudes pequenas’ – e porque custo a compreender que gente pequena seja necessária” [20]

A religião é a maior evidência da existência dessa fraqueza:
humano; pág. 8)

“(...) até hoje nenhuma religião, seja direta ou indiretamente, como dogma ou como alegoria, conteve uma só verdade. Pois foi do medo e da necessidade que cada uma delas nasceu, e por desvios da razão insinuou-se na existência...” [21] (Humano, demasiado

religiosidade enquanto sinônimo de fraqueza:

Nesse e em outros livros, como no Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche irá demonstrar a

probabilidade de ser novamente chutado. Na língua da moral: humildade” [2]

“O verme se enconcha quando é chutado. Essa é a sua astúcia. Ele diminui com isso a

Nietzsche, então, ao longo da sua obra, desconstrói os princípios da moral e da religião cristã, propondo, em seu lugar, uma filosofia para os fortes, ou para os “espíritos livres”. O sofrimento existe e é essencial à evolução do homem; o sofrimento é criativo:

responsabiliza pelo futuro condiciona o sofrimento” [23]

“Na doutrina dos mistérios, o sofrimento é dito sagrado: as ‘dores das parturientes’ sacralizam o sofrimento em geral – todo vir-a-ser e todo crescimento, tudo o que se

barrar a chegada do super-homem;

Como não podia deixar de ser, a compaixão – elemento minuciosamente desconstruído na análise da religião, tanto em O Anticristo quanto na Genealogia da Moral – torna-se um percalço à evolução do homem. Querer aliviar o sofrimento do próximo seria retardar ou

que precisa ser superado.” [24]

“Isso exige meu amor pelos mais distantes: não poupes o teu próximo! O homem é algo

grande destino

A compaixão é também, para Nietzsche, um desrespeito àquele que ainda tem “feridas não cauterizadas”: é preciso superá-la, para, com mãos piedosas, não acabar por arruinar um

para ele, no entanto, os artifícios dos fracos são inúteis:

Em contrapartida à massa de homens fracos, que vegeta sob uma filosofia de rebanho, aniquiladora da individualidade, há a personalidade criativa do gênio. O gênio também está sujeito ao sofrimento existencial, em grau mais elevado, por sua sensibilidade aumentada –

o homem se esvair em sangue ao conhecer a verdade.” [25]

“A tragédia é que não podemos acreditar nesses dogmas da religião e da metafísica, quando trazemos no coração e na cabeça o rigoroso método da verdade, e que, por outro lado, graças à evolução da humanidade, tornamo-nos tão delicados, suscetíveis e sofredores a ponto de precisar de meios de cura e de consolo da mais alta espécie; daí surge o perigo de

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