Metodologia Cientifica

Metodologia Cientifica

(Parte 2 de 6)

1.2.4 Teoria crítica

Em 1937, o filósofo Max Horkheimer lançou um ensaio em que procurava aliar teoria e prática, relacionando o pensamento tradicional dos filósofos a seu presente. Posteriormente, a corrente iniciada por Horkheimer deu ori-

A pesquisa científica 9 gem à Escola de Frankfurt, que foi formada por grandes pensadores, mas não representava uma ideia única porque seu principal objetivo era alcançar novos conhecimentos através da crítica. Ou seja, os participantes dessa escola não seguiam um pensamento único, mas questionavam o que havia até essa época para chegar a novos conhecimentos. Com isso, procuraram seguir a dialética de Kant.

1.2.5 A nova filosofia da ciência

O principal cientista das últimas décadas na área do estudo do pensamento humano é Kuhn (1922-1996). Para ele, a ciência procura solucionar os problemas “científicos” utilizando os conhecimentos, os pressupostos conceituais, metodologias e instrumentais que são partilhados pelos cientistas de uma época e constituem o paradigma vigente (KUHN, 1978). Entretanto, em certas ocasiões, o “[...] progresso e o desenvolvimento do conhecimento requerem explicações que o paradigma vigente não pode fornecer” (MATTAR NETO, 2002, p. 75). Nessas horas ocorre uma crise que pode dar origem a uma revolução científica. Portanto, os enunciados científicos não são verdades irrefutáveis, mas provisórios, e quando ocorre uma mudança nos paradigmas vigentes diz- -se que houve uma “quebra de paradigma”. Segundo Boog:

Paradigmas são referenciais que usamos continuamente para balizar nossas decisões. Paradigmas são “lentes” que condicionam a nossa “visão do mundo”, dando-lhe as suas cores e formas. Por estarem tão incorporados ao nosso dia a dia, muitas vezes nem nos damos conta de que os paradigmas existem e são tão determinantes em nossa forma de perceber o mundo. Os paradigmas são, num certo sentido, altamente positivos, pois tratam-se de um referencial que nos ajuda e nos apoia. Por outro lado, ao definirem uma forma rígida de ver e perceber, podem nos causar uma “cegueira” que nos impede enxergar o que não se ajusta aos pressupostos básicos. Os paradigmas são uma forma de expressar valores, crenças, referenciais e mitos que orientam nossas vidas, dando consistência às nossas ações individuais, grupais e empresariais (BOOG, 1994, p. 3, grifo do autor).

Com esses esclarecimentos, podemos continuar com o que vínhamos explorando.

Há uma implicação entre as teorias do conhecimento e as de investigação, ou seja, uma teoria traz consigo não só conceitos, mas também aspectos re-

10 METODOLOGIA CIENTÍFICA lacionados aos valores, isto é, às formas que o homem tem de se relacionar consigo mesmo, com o outro e com o mundo.

Nesse sentido, Fazenda (2004) destaca três princípios importantes para a formação do pesquisador. Como primeiro princípio, ela aponta a aquisição de uma disciplinaridade teórica que se obtém com a profunda aquisição de erudição na área de estudos desejada; a segunda refere-se à aquisição de uma disciplinaridade histórico-sociocultural que exige “[...] um rigor disciplinar diferente onde o importante é o retorno ao entorno de quem pesquisa verificando como o tema afeta e de que forma o cativa” (FAZENDA, 2004, p. 48) e finalmente o terceiro princípio apontado é a importância da aquisição de uma atitude interdisciplinar.

A pesquisa científica conduz o homem na busca de novos conhecimentos.

Didaticamente podemos dividir o conhecimento em quatro tipos: conhecimento empírico, também conhecido como vulgar ou senso comum, o conhecimento filosófico, o conhecimento teológico e o conhecimento científico. O conhecimento empírico, vulgar ou senso comum é construído a partir da experiência de vida e da transmissão de geração para geração. Não exige nenhuma comprovação científica. O conhecimento filosófico se sustenta na reflexão e na razão, usando para isso o raciocínio. O homem busca na filosofia a explicação que não encontra na ciência. O conhecimento teológico se sustenta na fé que o homem tem em uma entidade superior e divina, e sua principal característica é a crença sem questionamento dos ensinamentos adquiridos através da tradição.

O senso comum é um saber que nasce da experiência cotidiana, da vida em sociedade. É um saber que envolve os elementos da realidade em que vivemos; engloba os hábitos, os costumes, as práticas, as tradições, as regras de conduta que necessitamos assimilar para podermos conduzir o nosso dia a dia, e aprender como devemos nos comportar em sociedade, adquirindo autonomia para construirmos de forma espontânea o nosso conhecimento.

Para saber mais

Você já parou para pensar que o conhecimento empírico serve de fonte de inspiração para o conhecimento científico?

A pesquisa científica vem se modificando nos últimos tempos em função de muitos fatores, tanto os resultantes dela própria e do desenvolvimento

A pesquisa científica 1 tecnológico, como de outros fatores de ordem política, educacional, social e econômica. Segundo Martins e Theóphilo (2007), o reconhecimento e o prestígio da pesquisa científica na área de Ciências Sociais Aplicadas no Brasil é bem recente, data da metade do século passado.

A pesquisa científica está estreitamente relacionada com a ciência. E isso fica evidente na afirmação de Minayo (1994, p. 23), que considera a pesquisa como:

Atividade básica das ciências na sua indagação e descoberta da realidade. É uma atitude e uma prática teórica de constante busca que define um processo intrinsecamente inacabado e permanente. É uma atividade de aproximação sucessiva da realidade que nunca se esgota, fazendo uma combinação particular entre teoria e dados.

O principal objetivo da ciência está na busca de conhecimentos que são produzidos a partir da investigação. Köche (2006) ainda vai além, quando acrescenta que se deve buscar a explicação para o problema investigado.

Outros autores também abordam a pesquisa como responsável pelas investigações que levam a novas descobertas e a resolução de problemas. Demo (1996, p. 34) insere a pesquisa como atividade cotidiana, considerando-a como uma atitude, um “[...] questionamento sistemático crítico e criativo, mais a intervenção competente na realidade, ou o diálogo crítico permanente com a realidade em sentido teórico e prático”. Para Gil (1996, p. 19):

[...] a pesquisa é desenvolvida mediante o concurso dos conhecimentos disponíveis e a utilização cuidadosa de métodos, técnicas e outros procedimentos científicos. Na realidade, a pesquisa desenvolve-se ao longo de um processo que envolve inúmeras fases, desde a adequada formulação do problema até a satisfatória apresentação dos resultados.

O objetivo fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas mediante o emprego de procedimentos científicos.

A pesquisa científica “[...] consiste na observação dos fatos tal como ocorrem espontaneamente, na coleta dos dados, no registro de variáveis presumivelmente relevantes para análises posteriores” (BARROS; LEHFELD, 2000, p. 68).

Nas pesquisas na área das Ciências Sociais e Aplicadas por muito tempo utilizou-se do método experimental, que tem uma abordagem própria para a área das Ciências Naturais, em função da falta de outras metodologias que fossem mais apropriadas à área e para conferir status científico às pesquisas.

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A necessidade de avançar no campo da pesquisa para a área das Ciências Sociais e Aplicadas, na explicação de Martins e Theóphilo (2007, p. 2), deve-se ao fato que:

[...] o homem não pode ser tratado como um simples objeto do conhecimento, como acontece com os elementos estudados pelas Ciências da Natureza. O homem é um sujeito demasiado complexo para se deixar reduzir ao estado de objeto.

Os autores ainda enfatizam a complexidade que envolve realidade humana, afirmando que:

O objeto de estudo das Ciências Sociais e Humanas está associado com o homem enquanto ser relacionado com si próprio, com os outros, com seu entorno físico e biológico e com as entidades mentais: ideias, conceitos, lógica. O homem distingue-se por aspectos que lhe são específicos, que fazem dele uma entidade bem definida: a consciência reflexiva (MARTINS; THEÓPHILO, 2007, p. 2).

Em função das constatações feitas em relação aos estudos dos problemas que envolvem a pesquisa nessa área e a postura dos pesquisadores em dar mais atenção à forma de conduzi-las para que os resultados pudessem ser aceitos sem o questionamento da validade ou não dos métodos, faz-se necessário observar as etapas indispensáveis para a geração de novos conhecimentos provenientes das pesquisas, a saber: a questão epistemológica, teórica, metodológica e técnica (MARTINS; THEÓPHILO, 2007).

Portanto, a pesquisa científica envolve um conjunto de informações que resultam num processo da construção do conhecimento e isso só se torna possível através do emprego da metodologia científica. O pesquisador precisa escolher o método e o tipo de pesquisa adequada ao problema que será investigado levando em consideração os objetivos da pesquisa.

Para a realização da pesquisa científica, é necessário um planejamento que se dá com a elaboração do projeto de pesquisa.

Após a delimitação do tema do projeto de pesquisa, o passo seguinte é identificar, na literatura, o estado da arte do assunto a ser discutido, trazendo os autores e suas ideias sobre o tema que será pesquisado. Essa fase é denominada levantamento bibliográfico, e é sobre esse assunto que passaremos a discorrer.

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É de grande proveito a leitura do livro O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, de autoria do cientista e escritor americano Carl Sagan (SAGAN, 1997) que mostrou em seus livros a importância da ciência para a humanidade e os perigos de se restringir o conhecimento apenas a suposições sem comprovação em pesquisa. O título de seu livro é muito interessante.

Para saber mais

Os relatos espúrios que enganam os ingênuos são acessíveis. As abordagens céticas são muito mais difíceis de encontrar. O ceticismo não vende bem. Uma pessoa inteligente e curiosa, que se baseie inteiramente na cultura popular para se informar sobre uma questão como Atlântica, tem uma probabilidade centenas ou milhares de vezes maior de encontrar uma fábula tratada de maneira acrítica em lugar de uma avaliação sóbria e equilibrada (SAGAN, 1997, p. 20).

1. Cite três dos muitos movimentos que procuraram discutir os métodos em ciência.

2. Defina o que é senso comum.

Atividades de aprendizagem

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Seção 2 Classificação das pesquisas

Para a realização de um trabalho científico, o pesquisador terá necessariamente que coletar dados e informações, os quais, depois de analisados, permitirão o entendimento do problema. Dependendo da natureza desses dados e informações, e dos objetivos que se pretende alcançar, o pesquisador deverá escolher o tipo de abordagem que irá utilizar no desenvolvimento de seu estudo.

2.1 Levantamento bibliográfico

O levantamento bibliográfico é a fase da pesquisa na qual se identificam os autores que estudaram ou estão estudando o tema em questão, para depois elaborar a revisão bibliográfica, que iremos discutir no item dos elementos textuais de um projeto.

Durante a realização do levantamento bibliográfico, é necessário observar algumas etapas que ajudarão na identificação, localização e obtenção das fontes. Na fase preparatória, em primeiro lugar, é preciso estudar o assunto para identificar e definir os termos para a busca do tema. Em seguida, é necessário estabelecer algumas delimitações quanto ao período de tempo a ser levantado, da área geográfica, de idiomas e outras delimitações necessárias para acessar as publicações específicas que remetam ao assunto a ser estudado. A definição das palavras-chave e a tradução dos termos também merecem a atenção do pesquisador. Delimitações consistem principalmente na conceituação do assunto, definindo-se nesse momento os termos que o identificam. Para este estudo, deve-se recorrer aos dicionários, enciclopédias especializadas, compêndios e outras fontes de informação que se fizerem necessárias, bem como a pesquisadores da área (GIANNASI-KAIMEN et al., 2008).

Após esses procedimentos, o pesquisador deve estabelecer quais serão os tipos de fontes que serão utilizados entre os diversos suportes informacionais disponíveis. Deve, ainda, definir se usará fontes impressas e/ou on-line de acordo com o escopo da sua pesquisa. A busca das fontes pode ser feita utilizando-se diferentes estratégias: por palavras-chave, frases, autores, instituições e títulos.

Para obter maiores informações sobre a busca de documentos on- -line, recomendo a consulta a este link que traz a publicação de Jorge Alberto Machado, da UFRJ, sobre Como pesquisar na Internet: guia de métodos, técnicas e procedimentos gerais. <w.forum-global.de/curso/ textos/ pesquisar_na_internet.htm>.

Para saber mais

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Após a fase preparatória, o pesquisador começa de fato a reunir os documentos de seu interesse, iniciando, assim, a fase de execução, que compreende a identificação, a localização e a obtenção do material. Essas três etapas possibilitam ao pesquisador o acesso direto às fontes selecionadas finalizando a realização do levantamento bibliográfico.

O passo seguinte é proceder à leitura, seleção e documentação do seu conteúdo com vistas à retenção do conhecimento obtido e a sua utilização futura. Para uma melhor organização das fontes e das informações estudadas, recomenda-se que nessa etapa se crie um mecanismo de controle, que pode ser, por exemplo, o fichamento de todos os materiais obtidos e estudados. Esse procedimento facilitará muito o momento da redação do projeto e do relatório da pesquisa, pois o pesquisador terá em mão todas as referências bibliográficas que necessitar para fazer suas citações no texto; além disso, essa documentação servirá de suporte para a análise de dados da pesquisa, no referencial teórico ou no estado da arte da literatura da área.

Para fazer o fichamento, o pesquisador poderá usar uma ficha impressa ou automatizada. Nessa ficha deverão constar a referência bibliográfica da obra que está sendo estudada, o resumo, o comentário ou as citações que o pesquisador selecionar na leitura e, finalmente, a indicação da localização da fonte. A forma como esses dados serão disponibilizados fica a critério de cada pesquisador.

O passo seguinte na elaboração do projeto de pesquisa será a definição do tipo de pesquisa que será usado. Essa escolha deve levar em consideração o problema a ser investigado e o objetivo que se pretende com o objetivo da pesquisa.

Com o levantamento pronto sobre o tema do projeto da pesquisa, é necessário, em seguida, definir qual será o tipo de pesquisa que mais se adequa ao problema a ser pesquisado. Vamos descobrir como se dá essa escolha?

2.2 Abordagens quantitativa e qualitativa

A pesquisa pode ser realizada dentro das abordagens quantitativa e qualitativa. As duas abordagens não se excluem, uma vez que a abordagem quantitativa busca indicadores e tendências observáveis e a qualitativa destaca os valores, crenças e atitudes. Considerando o histórico e a evolução da pesquisa educacional, e ainda as tendências atuais, a abordagem qualitativa prevalece como a mais indicada para ser aplicada nessa área. Podemos também usar as duas abordagens combinadas, quando se fizer necessário, surgindo, então, segundo Creswell (2007), a abordagem mista.

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