Metodologia Cientifica

Metodologia Cientifica

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Abordagem mista é aquela em que o pesquisador tende a basear as alegações de conhecimento em elementos pragmáticos (por exemplo, orientado para consequência, centrado no problema e pluralismo). [...] A coleta de dados também envolve a obtenção tanto de informações numéricas (por exemplo, em instrumentos) como de informações de texto (por exemplo, entrevistas), de forma que o banco de dados final represente tanto informações quantitativas como qualitativas (CRESWELL, 2007, p. 35).

Vamos iniciar a discussão sobre as abordagens da pesquisa estudando a pesquisa quantitativa.

2.3 Pesquisa quantitativa

A pesquisa quantitativa é um método de pesquisa social que utiliza técnicas estatísticas. Parte do princípio de que tudo pode ser quantificado. Isso significa transformar em números opiniões e informações para classificá-las e analisá-las. Utiliza-se de recursos e de técnicas estatísticas (percentagem, média, moda, mediana, desvio-padrão, coeficiente de correlação etc.).

As pesquisas quantitativas são aquelas em que os dados e as evidências coletados podem ser quantificados, mensurados. Os dados são filtrados, organizados, tabulados, enfim, preparados para serem submetidos a técnicas e/ou testes estatísticos (MARTINS; THEÓPHILO, 2007, p. 135).

No entendimento de Creswell (2007, p. 35):

[...] é aquela em que o investigador usa primeiramente alegações pós-positivistas para desenvolvimento de conhecimento (ou seja, raciocínio de causa e efeito, redução de variáveis específicas e hipóteses e questões, uso de mensuração e observação e testes de teorias), emprega estratégias de investigação (como experimentos, levantamentos e coleta de dados instrumentos predeterminados que geram dados estatísticos).

O uso da pesquisa quantitativa é indicado quando há necessidade de quantificar e/ou medir opiniões, atitudes e preferências ou comportamentos. Seus resultados auxiliam no planejamento de ações coletivas e são passíveis de generalização, principalmente quando as populações pesquisadas representam com fidelidade o coletivo, por exemplo, um estudo que busca analisar a evasão escolar ou quantificar a opinião dos alunos quanto ao uso do livro didático.

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Para fazer uma pesquisa quantitativa, elegem-se as variáveis que serão medidas. Mas você sabe o que é uma variável? O nome indica que se refere a algo que pode ter valores ou significados diferentes. Vejamos uma definição encontrada em livro especializado em pesquisa quantitativa. Segundo McDaniel e Gates, uma variável é “[...] um símbolo ou conceito que pode assumir qualquer valor de um conjunto de valores” (MCDANIEL JUNIOR; GATES, 2003, p. 3).

Algumas variáveis são muito comuns em pesquisas quantitativas, como, por exemplo, sexo, idade e escolaridade. Quando se escolhem as variáveis para uma pesquisa, deve-se ter em conta o objetivo de cada uma. Uma variável que não tenha aproveitamento para os resultados esperados pode, além de incomodar a pesquisador e pesquisado, prejudicar ou atrapalhar o resultado. Um dos grandes problemas em pesquisa é pedir informações sobre a renda mensal. Normalmente as pessoas se sentem mal porque acreditam que a renda é pouca ou tentam esconder se entendem que é alta e não veem razão para informar corretamente.

Modernamente, o que se faz é levantar o nível do poder de compra de uma população e, então, é usual adotar-se o Critério de Classificação Econômica Brasil, desenvolvido pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep ).

Não se deve confundir essa classificação com um estabelecimento de nível social. É uma divisão por poder de compra que tem como base o Levantamento Socioeconômico (LSE) do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope). Nesse levantamento há uma série de itens aos quais se dá uma pontuação. Por exemplo, a posse de televisão em cores pode ter pontos de 0 (se não possuir), 2 pontos (se tiver um aparelho) 3 pontos (se possuir 2), 4 pontos (para posse de 3), e 5 pontos (se a posse for de 4 ou mais aparelhos). Os pontos se referem à posse de: rádio, banheiro, automóvel, aspirador de pó, máquina de lavar, videocassete e/ou DVD, geladeira, freezer (aparelho independente ou parte da geladeira duplex). Também recebe pontos se o pesquisado contrata empregada mensalista.

Por último, é dada uma pontuação pelo Grau de instrução do chefe de família, variando de 0 a 5 (este para superior completo).

De acordo com o total de pontos, a pessoa é enquadrada em uma das seguintes classes:

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Quadro 2.1 Classes segundo o Critério de Classificação Econômica Brasil

CLASSETOTAL DE PONTOS A142 — 46 A235 — 41 B129 — 34 B223 — 28 C118 — 2 C214 — 17 D8 — 13 E0 — 7

Fonte: ABEP — Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (2014).

Partindo do princípio de que vocês entenderam a abordagem quantitativa, vamos estudar a abordagem qualitativa.

2.4 Pesquisa qualitativa

A pesquisa qualitativa é basicamente aquela que busca entender um fenômeno específico em profundidade. Em vez de estatísticas, regras e outras generalizações, ela trabalha com descrições, comparações, interpretações e atribuição de significados, possibilitando investigar valores, crenças, hábitos, atitudes e opiniões de indivíduos ou grupos. Permite que o pesquisador se aprofunde no estudo do fenômeno ao mesmo tempo que tem o ambiente natural como a fonte direta para coleta de dados.

As pesquisas qualitativas “[...] pedem descrições, compreensões e análises de informações, fatos, ocorrências que naturalmente não são expressas por números” (MARTINS; THEÓPHILO, 2007, p. 135).

Uma das principais características da abordagem qualitativa é a imersão do pesquisador no ambiente da pesquisa, isto é, o pesquisador precisa manter um contato direto e longo com o objeto da pesquisa. Além dessa característica, também são apontadas por Chizotti (1991) outras características, como o reconhecimento dos atores sociais como sujeitos que produzem conhecimentos e práticas; os resultados como fruto de um trabalho coletivo resultante da dinâmica entre pesquisador e pesquisado e a aceitação de todos os fenômenos como igualmente importantes e preciosos. Martins e Theóphilo (2007, p. 137) destacam que os dados coletados devem ser predominantemente descritos; é necessário

A pesquisa científica 19 registrar a descrição “[...] de pessoas, de situações, de acontecimentos, de reações, inclusive transcrições de relatos”. Outra característica muito importante na pesquisa qualitativa, é o acompanhamento do processo, ao contrário da pesquisa quantitativa que se preocupa com os resultados. Acompanhar cada etapa do processo é fundamental, pois é determinante verificar como o fenômeno “[...] se manifesta nas atividades, nos procedimentos e em suas interações com outros elementos” (MARTINS; THEÓPHILO, 2007, p. 137).

Em seu livro Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto,

Creswell (2007) também discute as características da pesquisa qualitativa e recomenda as indicadas por Rossman e Ralii. Novamente aparece o cenário natural como destaque para a pesquisa qualitativa: a possibilidade do uso de múltiplos métodos para a coleta de dados; a possibilidade de não ter que seguir fielmente um projeto pré-configurado, mas sim ir adaptando-o sempre que necessário; a pesquisa qualitativa é interpretativa, ou seja, possibilita que o pesquisador interprete os dados; os fenômenos podem ser vistos de forma holística; permite que o pesquisador se integre à pesquisa, possibilitando, assim, o reconhecimento dos possíveis problemas e limitações apresentadas no decorrer da pesquisa; possibilita ao pesquisador um processo interativo, dando a ele a oportunidade de acompanhar e altera todo o processo desde a coleta de dados até a reformulação do problema, se for o caso; e, finalmente, permite o uso e uma ou mais estratégias de investigação (ROSSMAN; RALII apud CRESWELL, 2007).

Tanto a pesquisa qualitativa quanto a quantitativa podem ser usadas na pesquisa educacional. Mas qual abordagem é mais indicada? Creswell (2007, p. 38) aponta três considerações: “[...] o problema de pesquisa, as experiências pessoais do pesquisador e o público para quem o relatório será redigido”.

O autor destaca que, dependendo do problema a ser investigado, o pesquisador precisa analisar qual é abordagem mais adequada. Por exemplo, se o problema é identificar o número de alunos que estão evadindo da escola, a abordagem quantitativa será suficiente, porém, se o problema a ser investigado for a razão da evasão escolar, será necessário utilizar a abordagem qualitativa.

Quanto à experiência do pesquisador, Creswell (2007) enfatiza que as suas habilidades precisam ser consideradas no momento da escolha da abordagem. De nada adiantará ele optar pela abordagem qualitativa se não tiver conhecimento e segurança sobre como conduzir a pesquisa.

A consideração pelo público deve-se ao fato de que as pesquisas podem ser desenvolvidas e depois disseminadas em periódicos, eventos científicos,

20 METODOLOGIA CIENTÍFICA colegas do mesmo campo do conhecimento e, portanto, a abordagem deve considerar o conhecimento e o interesse desse público.

Você pode ampliar seus conhecimentos sobre a abordagem da pesquisa buscando na biblioteca digital da Unopar o livro CRESWELL, John W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2007.

Para saber mais

Considerando que você já sabe no que consiste a abordagem da pesquisa, vamos avançar e discutir os tipos de pesquisa apresentados pela literatura.

2.5 Tipos de pesquisa

Além da abordagem da pesquisa, é preciso considerar qual é o tipo de pesquisa que mais se ajusta ao problema e aos objetivos a serem estudados. Na literatura, encontramos vários tipos de classificação, segundo o ponto de vista de alguns autores, como Gil (1996), Rudio (2000) e Fazenda (2004).

Iremos abordar, neste texto, alguns tipos de pesquisa focados na área de

Ciências Econômicas e Sociais, porém, a literatura sobre o assunto apresenta muitos outros tipos de pesquisa que poderão ser utilizados.

2.5.1 Estudo de caso

Trata-se de um estudo profundo, exaustivo e detalhado de uma unidade de interesse, que pode ser único ou múltiplo e a unidade de análise pode ser uma ou mais pessoas, família(s), produto(s), escola(s) ou unidade(s) da escola, um órgão público ou mesmo um país ou vários países. Não permite generalizações e só tem validade para o universo a ser estudado.

André (2001) assegura que esse tipo de pesquisa é útil para identificar um problema educacional e entender a dinâmica da prática educativa, destacando assim sua relevância na área da educação, principalmente em estudos exploratórios.

Na opinião de Gil (1996), o uso do estudo de caso é recomendável na fase inicial de uma investigação sobre temas complexos que exijam a construção de hipóteses ou reformulação dos problemas.

A pesquisa científica 21

Hipótese é uma proposição ou suposição, de natureza criativa e teórica, aceita ou não, admissível ou provável, mas não comprovada ou demonstrada.

Para saber mais

O estudo de caso é apresentado por Martins e Theóphilo (2007, p. 61) como:

[...] uma investigação empírica que pesquisa fenômenos dentro do seu contexto real (pesquisa naturalística), onde o pesquisador não tem controle sobre os eventos variáveis, buscando apreender a totalidade de uma situação e, criativamente, descrever, compreender e interpretar a complexidade de um caso concreto [...] O estudo de caso possibilita a penetração na realidade social.

Ao optar pela realização de um estudo de caso, o pesquisador precisa fazer uma seleção criteriosa do problema a ser estudado. Se o problema for mal formulado, poderá comprometer o estudo, portanto, é necessário refletir muito para essa definição. Outro ponto importante é obter a aprovação e colaboração da direção da escola ou instituição onde a pesquisa será realizada, uma vez que esse tipo de pesquisa exige uma imersão no ambiente e a obtenção dos dados, informações e documentos necessários para o pleno desenvolvimento do estudo.

Sobre o estudo de caso, leia o artigo: CAMPOMAR, Marcos Cortez. Do uso de “estudo de caso” em pesquisa para dissertações e tese em administração. Revista de Administração, São Paulo, v. 26, n. 3, p. 95-97, jul./set., 1991.

Para saber mais

2.5.2 Pesquisa bibliográfica

A pesquisa bibliográfica pode se constituir em etapa inicial de um processo de pesquisa, seja qual for o problema em questão, com o objetivo de se ter um conhecimento prévio da situação em que se encontra um assunto na literatura da área. Portanto, é indispensável sua realização, antes de iniciar qualquer estudo, para não correr o risco de estudar um tema que já foi amplamente pesquisado, também para ter conhecimento dos principais autores que estudam o tema e saber qual é a situação do referencial teórico na área. Ela é considerada uma estratégia necessária para a realização de qualquer pesquisa científica.

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A pesquisa bibliográfica também pode ser utilizada para a realização de uma pesquisa teórica sobre um determinado assunto.

Nesse sentido, Köche (2006, p. 122) reforça o aspecto do objetivo da pesquisa bibliográfica: “[...] conhecer e analisar as principais contribuições teóricas existentes sobre um determinado tema ou problema, tornando-se instrumento indispensável a qualquer tipo de pesquisa”.

Fachin (2001, p. 125) chama a atenção para a importância da pesquisa bibliográfica, ao afirmar que “[...] é a base para as demais pesquisas e pode-se dizer que é uma constante na vida de quem se propõe a estudar”.

Desse modo, pode-se afirmar que a pesquisa bibliográfica visa ao conhecimento e análise das principais teorias relacionadas a um tema e é parte indispensável de qualquer tipo de pesquisa, podendo ser realizada com diferentes finalidades.

A pesquisa bibliográfica difere, portanto, do levantamento bibliográfico.

Enquanto este constitui a primeira etapa de qualquer trabalho de pesquisa, a pesquisa bibliográfica é um tipo de pesquisa.

No entendimento de Köche (2006, p. 122), esse tipo de pesquisa pode ser usado para diferentes fins, por exemplo:

[...] (a) para ampliar o grau de conhecimentos em uma determinada área, capacitando o investigador a compreender ou delimitar melhor um problema de pesquisa; (b) para dominar o conhecimento disponível e utilizá-lo como base ou fundamentação na construção de um modelo teórico explicativo de um problema, isto é, como instrumento auxiliar para construção e fundamentação das hipóteses; (c) para descrever ou sistematizar o estado da arte, daquele momento, pertinente a um determinado tema ou problema.

Para dar maior credibilidade à discussão teórica, faz-se necessário o uso de citações, que podem ser literais ou parafraseadas. Porém, é importante fazer na medida certa, sem excessos. Na paráfrase, deve-se tomar cuidado para não alterar a ideia do autor, e as citações literais devem ser inseridas dentro do contexto da discussão com o objetivo de corroborar com a argumentação do pesquisador.

Na paráfrase, mudam-se as palavras, mas a ideia do texto é mantida pelo novo texto. É escrever com outras palavras o que já foi dito.

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