Apostilas do ensino médio telecurso - por2g68

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68 AULA

Plantando dÆ 68

MÓDULO 21

Acostumados a dormir com as galinhas e acordar com os galos, Noca e Euclides jÆ estavam bem dispostos para o trabalho, apesar de o dia nem bem ter amanhecido. Todos os dias, e isto jÆ se tornara um hÆbito, eles trocavam uns dedos de prosa, antes de iniciarem a lida diÆria.

-Compadre Euclides, ontem, na hora da janta, eu tava proseando com a minha

Tereza sobre o começo da nossa Associaçªo. Mas vocŒ deu foi trabalho naquele tempo, homem! Eu tenho pra mim que, se dependesse de vocŒ, nossa Associaçªo nªo existia nªo.

-Ah, compadre, gato escaldado tem medo de Ægua fria. Eu temia entrar na

Associaçªo porque ninguØm pode confiar nessas coisas. VocŒ lembra o tempo do mutirªo? Cansei de trabalhar para os outros em roçada, queimada, colheita, e quando chegou a vez de bater inseticida na minha roça, nªo foi quase ninguØm...

-Acontece que a Associaçªo Ø preto no branco, por isso que tÆ funcionando.

Hoje a gente tem nosso tratorzinho, nossa granja e umas vaquinhas pra tirar leite. VocŒ Ø muito pØ atrÆs, compadre! Parece que vocŒ nªo quer nosso progresso.

Euclides, pensativo, reconhecia que as coisas haviam melhorado sensivelmente desde que a Associaçªo de Microprodutores Rurais começara a mostrar os primeiros frutos. Mas nªo podia se esquecer de um problema que, de vez em quando, lhe

Cenatexto

AULAtirava o sono. -E o financiamento do banco, compadre Noca? VocΠvive se esquecendo disso.

A gente nªo comprou nada com dinheiro da gente e estamos devendo atØ a raiz do cabelo. É dívida atØ a goela, compadre!

-É, mas a trancos e barrancos a Associaçªo nªo tÆ atrasada com nenhuma prestaçªo. TÆ tudo em dia. E, se Sªo Pedro ajudar, a gente continua cumprindo direitinho o trato com o banco.

Os dois amigos continuaram conversando por um bom tempo. Lembraram-se das dificuldades iniciais: a luta na hora de conseguir o emprØstimo, a compra do equipamento de irrigaçªo, a construçªo da granja e a demarcaçªo das terras que, na visªo deles, foi o que mais deu confusªo.

plantaçªo: uns querendo milho, outros feijªo, outros laranja, outros batatinhaque

-É, compadre Noca, eu nªo me esqueço da reuniªo pra escolha da primeira barafunda! Pra que tanto barulho?

-É, lidar com o bicho homem nªo Ø fÆcil! Cada um com a natureza que Deus lhe deu. O certo Ø que a gente plantou uma idØia que vingou. É como se diz por aí: plantando dÆ!

1.Em outras aulas vocŒ trabalhou a diferença entre conotaçªo e denotaçªo. Nas oraçıes a seguir estªo destacadas expressıes conotativas que aparecem na Cenatexto. Assim como no modelo, explique o que elas significam.

Modelo: Acostumados a dormir com as galinhas e acordar com os galos. Explicaçªo: Acostumados a dormir e acordar cedo.

a)Mas, a trancos e barrancos, a gente nªo tÆ atrasado com nenhuma prestaçªo.

b)VocŒ Ø muito pØ atrÆs, compadre.

c)Estamos devendo atØ a raiz do cabelo.

d)A associaçªo começou a produzir os primeiros frutos.

e)A gente plantou uma idØia que vingou.

Observe que a formaçªo da palavra inseticida se dÆ com o acrØscimo de um sufixo:

inset + i + cida æradicalævogal de ligaçªoæsufixo

O sufixo -cida quer dizer que mata, que destrói; portanto, inseticida

DicionÆrio

AULAsignifica aquele ou aquilo que mata insetos. 2.Imagine que Noca estÆ comprando agrotóxicos (aqueles defensivos agríco-

las para acabar com insetos e germes nocivos) para a lavoura da Associaçªo e o vendedor, novato, nªo estÆ entendendo o que ele quer. Ajude ao vendedor explicando-lhe o significado das palavras em destaque. Siga o modelo e consulte o dicionÆrio se necessÆrio.

Modelo: Noca:- VocŒ tem inseticida? Vendedor:- O quŒ? VocŒ:- Inseticida Ø um produto que serve para matar insetos.

a)Noca: Por favor, preciso de um formicida.

VocŒ:

Vendedor: O quŒ? b)Noca: Estou precisando de pesticida.

VocŒ:

Vendedor: Precisando de quŒ? c)Noca: Quero, tambØm, um bom fungicida.

VocŒ:

Vendedor: Nªo entendi... d)Noca: VocŒ tem aí um herbicida?

VocŒ:

Vendedor: Como Ø que Ø?

Nªo se esqueça de que o sufixo -cida tambØm aparece em muitas outras palavras que nªo tŒm qualquer relaçªo com a lavoura, como por exemplo:

suicida:indivíduo que matou a si próprio. homicida:pessoa que matou outra pessoa.

a) fratricida:

3.Procure no dicionÆrio o significado das seguintes palavras: b) matricida : ...........................................................................................................

AULAc) germicida :

na Øpoca da formaçªo da Associaçªo dos Microprodutores Rurais. Mas este se justificou citando um dito popular gato escaldado tem medo de Ægua fria. Explique o que ele queria dizer com esse provØrbio.

2.VocŒ pôde notar que na Cenatexto os personagens ora se referem a fatos e ora dªo sua opiniªo. Considerando o contexto, classifique as passagens que seguem em fato ou opiniªo. Siga o modelo:

Lidar com o bicho homem nªo Ø fÆcil (opiniªo)

()

a)Quando chegou a vez de bater inseticida na minha roça, nªo foi quase ninguØm .

()

b)A gente nªo tÆ atrasado com nenhuma prestaçªo.

()

c)VocŒ Ø muito pØ atrÆs.

()

d)Eu penso que se dependesse de vocŒ nossa Associaçªo nªo existia nªo.

()

e)A demarcaçªo das terras que, na visªo deles, foi o que mais deu confusªo.

3.Noca fez a seguinte observaçªo: - Acontece que a Associaçªo Ø preto no branco, por isso que tÆ funcionando. A que Noca se referia e o que estava querendo dizer com isso?

4.O título da Cenatexto Plantando dÆ Ø uma expressªo que aparece na carta escrita por Pero Vaz de Caminha e que foi enviada ao Rei de Portugal, quando o Brasil foi descoberto. Ao dizer em se plantando tudo dÆ, Caminha se referia à fertilidade do solo brasileiro. Agora, responda: a que se refere o personagem ao fazer uso dessa expressªo, no final da Cenatexto? Entendimento

AULA

68 Ao longo deste curso, as Cenatextos apresentaram diversas situaçıes em que foram apresentadas falas específicas usadas por trabalhadores de profissıes diferentes. Assim foi, por exemplo, com a linguagem do mØdico, com a do advogado e de outros profissionais.

Nesta aula, os personagens sªo dois agricultores do interior que tŒm alguma instruçªo escolar, porØm usam uma linguagem mais próxima dos trabalhadores da zona rural brasileira.

Sua tarefa serÆ a reescritura do trecho apresentado a seguir adequando-o à chamada língua padrªo. Observe que a linguagem da reescritura deve ficar mais formal do que a usada no trecho transcrito da Cenatexto. Veja o modelo:

Trecho da Cenatexto: -Compadre Euclides, ontem, na hora da janta, eu tava proseando com a minha Tereza sobre o começo da nossa Associaçªo. Mas vocŒ deu foi trabalho naquele tempo, homem! Eu tenho pra mim que, se dependesse de vocŒ, nossa Associaçªo nªo existia nªo.

Modelo de Reescritura: -Meu amigo Euclides, ontem, durante o jantar, eu estava conversando com a

Tereza sobre o começo da nossa Associaçªo. Como vocŒ nos deu trabalho naquele tempo! Eu acho que, se dependesse de vocŒ, nossa Associaçªo nªo existiria.

De acordo com esse modelo, faça a reescritura do seguinte trecho: -E o financiamento do banco, compadre Noca? VocŒ vive se esquecendo disso.

A gente nªo comprou nada com dinheiro da gente e estamos devendo atØ a raiz do cabelo. É dívida atØ a goela, compadre!

Leia as frases: As coisas haviam melhorado sensivelmente depois da Associaçªo. As coisas melhoraram sensivelmente depois da Associaçªo

Apesar de as duas frases transmitirem a mesma idØia, observe que na primeira oraçªo foram usados dois verbos - haviam (verbo auxiliar) e melhorado (verbo principal) - e na segunda foi usado apenas um verbo - melhoraram.

verbo auxiliar+verbo principal= tempo composto

Veja: As coisas haviam melhorado. æ æ haviam melhorado haviam melhorado

As coisasmelhoraram.melhoraram » tempo simples æ

Reescritura 1

Aprofundando

AULAVerbo Agora, observe:

As coisas melhoraram desde que a Associaçªo começara a produzir primeiros frutos.

O narrador empregou o verbo destacado no tempo simples: começara. Na língua falada, essa forma Ø geralmente substituída pelo tempo composto: tinha começado, havia começado. Observe que Ø muito comum usar formas verbais compostas na fala e formas simples na escrita. Veja:

na língua escrita:Comprara um inseticida. na língua falada:Tinha comprado um inseticida

VocŒ viu que a Cenatexto de hoje fala a respeito da zona rural. Os personagens, ao longo da pequena história narrada, comentam sobre fatos ocorridos no campo. Leia este texto, no qual o autor tambØm fala sobre a vida na zona rural.

(Sossego...)

E foi obedecendo a essa ordem de idØias que comprou aquele sítio, cujo nome -

Sossego - cabia tªo bem à nova vida que adotara (...)

Ele foi contente. Como era tªo simples viver na nossa terra! Quatro contos de rØis por ano, tirados da terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! terra abençoada! Como Ø que toda a gente queria ser empregado pœblico, apodrecer numa banca, sofrer na sua independŒncia e no seu orgulho? Como Ø que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidŒmico, sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tªo facilmente obter uma vida feliz, farta, livre, alegre e saudÆvel?

E era agora que ele chegava a essa conclusªo, depois de ter sofrido a misØria da cidade (...), durante tanto tempo! Chegara tarde, mas nªo a ponto de que nªo pudesse, antes da morte, travar conhecimento com a doce vida campestre (...).

Demais, com terras tªo fØrteis, climas variados, a permitir uma agricultura fÆcil e rendosa, este caminho estava naturalmente indicado.

E ele viu entªo diante dos seus olhos as laranjeiras em flor. (...), muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das colinas, como teorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os abacaxis coroados que nem reis, recebendo a unçªo quente do sol; as aboboreiras a se arrastarem com flores carnudas cheias de pólen; as melancias de um verde tªo fixo que parecia pintado; os pŒssegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, as mangas capitosas; e dentre tudo aquilo surgia uma linda mulher, com o regaço cheio de frutos e um dos ombros nu, a lhe sorrir agradecida, com um imaterial sorriso demorado de deusa (...)

Fonte: Lima Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma. 3“ ed. Sªo Paulo, Brasiliense. 1965. PÆg. 119-20.

O texto que vocŒ acabou de ler Ø um pequeno trecho tirado do livro Triste fim de Policarpo Quaresma, do escritor Lima Barreto. O personagem principal, Policarpo Quaresma, Ø usado pelo autor para criticar o exagerado amor à pÆtria.

Em um determinado período da vida, o personagem decide que Ø melhor se mudar para o campo porque a agricultura, segundo ele, Ø a saída para os problemas brasileiros. Após sonhar com colheitas maravilhosas, vŒ seu sonho

Arte e vida

AULAdestruído por saœvas e pela terra que nªo produz como ele gostaria. PrØ-Modernismo

Esse autor e esse romance pertencem a um período da literatura brasileira conhecido como PrØ-Modernismo, termo genØrico que designa a literatura produzida no Brasil nos primeiros anos do sØculo vinte e que tem como temas principais os problemas da nossa realidade e as mazelas da vida nacional.

Para Lima Barreto, escrever era uma forma de denunciar, de criticar os problemas brasileiros. Observe como se opera essa denœncia em outro trecho:

(A MisØria)

O que mais a impressionou no passeio foi a misØria geral, a falta de cultivo, a probreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros idØia de que eram felizes, saudÆveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta Ægua, por que as casas nªo eram de tijolos e nªo tinham telhas? Por que ao redor dessas casas nªo havia culturas, uma horta, um pomar? Nªo seria tªo fÆcil, trabalho de horas? E nªo havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por quŒ? Mesmo nas fazendas, o espetÆculo nªo era mais animador. Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A nªo ser o cafØ e um milharal, aqui e ali, ela nªo pôde ver outra lavoura, outra indœstria agrícola. Nªo podia ser preguiça só ou indolŒncia. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar. As populaçıes mais acusadas de preguiça, trabalham relativamente. Na `frica, na ˝ndia, na Cochinchina, em toda a parte, os casais, as famílias, as tribos, plantam um pouco, algumas coisas para eles. Seria a terra? (...)

Como no dia seguinte fosse passear ao roçado do padrinho, aproveitou a ocasiªo para interrogar a respeito o tagarela Felizardo. (...) -Bons dias, sÆ dona.

-Entªo trabalha-se muito, Felizardo?

-O que se pode.

-Estive ontem no Carico, bonito lugarOnde Ø que vocŒ mora, Felizardo?

-É doutra banda, na estrada da vila.

-É grande o sítio de vocŒ?

-Tem alguma terra, sim, senhora, sÆ dona.

-VocŒ por que nªo planta para vocŒ?

-QuÆ sÆ dona! O que Ø que a gente come?

-O que plantar ou aquilo que a plantaçªo der em dinheiro.

-SÆ dona tÆ pensando uma coisa e a coisa Ø outra. Enquanto planta cresce, e entªo? QuÆ, sÆ dona, nªo Ø assim.

-Terra nªo Ø nossaE frumiga?... Nós nªo tem ferramenta... isso Ø bom para
italiano ou alemªo, que governo dÆ tudoGoverno nªo gosta de nós... (...)

Deu uma machadada; o trono escapou: colocou-o melhor no picador e, antes de desferir o machado, ainda disse:

encontrava por aí? Ela vira atØ fazendas fechadas, com as casas em ruínasPor que

E a terra nªo era dele? Mas de quem era entªo, tanta terra abandonada que se esse acaparamento, esses latifœndios inœteis e improdutivos?

Fonte: Lima Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma. Ed. Scipione. Sªo Paulo. 1994 PÆg. 81-2.

Os principais autores do PrØ-Modernismo sªo Lima Barreto, Graça Aranha, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos.

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