Volume II. Arte Naval_2 - arte naval - cap. 18

Volume II. Arte Naval_2 - arte naval - cap. 18

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CAPÍTULO 18 CONDIÇÕES SANITÁRIAS E HIGIENE

18.1. Generalidades – Neste capítulo, abordaremos aspectos importantes para o homem embarcado, pois estão relacionados diretamente à qualidade de vida, a sua saúde e à manutenção da prontidão para o combate.

A higiene pessoal é muito importante para o homem do mar, porque, geralmente, ele vive por muito tempo em um espaço restrito. Assim, a saúde de um homem passa a ser um problema coletivo.O assunto pode ser visualizado por dois enfoques distintos: aspectos de responsabilidade da administração do navio e os relacionados ao comportamento individual.

Obviamente, ambos os enfoques estão relacionados, na medida em que uma das atribuições da administração é o adestramento da tripulação e um homem comprometido com o tema, no seu comportamento individual, contribuirá diretamente para o bom desempenho de seu navio.

No enfoque da administração do navio, as necessidades relacionadas com a conservação de boas condições sanitárias e a saúde da tripulação fazem parte do planejamento das viagens, que deve considerar locais de arribada para uma evacuação médica, necessidade de medicamentos, política do consumo de água, qualidade dos gêneros e da água recebidos nas escalas, endemias ou epidemias existentes nos portos visitados, necessidade de vacinação, programação das atividades recreativas para atender às necessidades psicossociais da tripulação etc.

É importante que o médico do navio – ou, na sua falta, o enfermeiro – alerte imediatamente seu Comandante quando da ocorrência de patologias relevantes, particularmente as infecto-contagiosas, a fim de que as medidas corretivas e preventivas sejam tomadas tempestivamente.

18.2. Ações de caráter administrativo 18.2.1. Preparação de alimentos – A alimentação servida a bordo deve obedecer a uma dieta balanceada, compatível com a atividade exercida e confeccionada segundo normas rigorosas de higiene. No âmbito da Marinha do Brasil, o Manual de Alimentação e Planejamento de Refeições apresenta cardápios que atendem às necessidades nutricionais do pessoal embarcado. 18.2.2. Conservação e limpeza a. Limpeza – A limpeza de um navio, além de servir como cartão-de-visita, exprime os cuidados e a dedicação que a tripulação devota a sua unidade e propicia um ambiente mais agradável de convivência.

Mas manter um navio permanentemente limpo é uma tarefa bastante complexa, que exige uma programação capaz de abranger todos os elementos organizacionais e compartimentos, bem como as necessidades da tripulação. Recomenda-se a adoção de uma programação semelhante a um Sistema de Manutenção Planejada (SMP), considerando atividades diárias, semanais, mensais ou com periodicidade maior.

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Como exemplo de atividades a serem contempladas em uma rotina de conservação, apresentamos o quadro abaixo:

Observações: (1) as rotinas podem ser subdivididas por áreas, compartimentos ou incumbências. Assim, a rotina “lavar e limpar tetos e acessórios nele instalados” pode ser distribuída ao longo das semanas do mês, como necessário, de modo a abranger todo o navio no período; e (2) considerando as constantes movimentações dos navios, dificilmente um planejamento de médio prazo para essas atividades será executado com fidelidade. Entretanto, as rotinas previamente identificadas balizarão a programação adequada, de modo que se tenha como resultado um navio sempre asseado e com alto padrão de higiene. b. Eliminação de vetores de doenças – Uma preocupação constante na conservação de perfeitas condições sanitárias a bordo é a eliminação dos vetores de doenças. Entre eles, destacam-se os ratos e insetos como baratas, pulgas, piolhos, percevejos e moscas.

As medidas de proteção contra animais daninhos começam na redução da probabilidade de que ingressem a bordo, com barreiras físicas, controle e verificação do material que embarca (gêneros e carga, pois eles podem se ocultar em embalagens); redução de suas opções de sobrevivência (manutenção dos alimentos em embalagens fechadas, constante limpeza, correção dos maus hábitos individuais etc.); e eliminação das pragas através da aplicação de veneno ou outro meio.

Entende-se como barreiras físicas quaisquer obstáculos que impeçam o ingresso no navio (rateiras e hábito de se manter os acessos exteriores ao navio fechados, principalmente no período noturno) ou nos compartimentos em que se

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ODNAUQ ETNEINEVNOC ;sievátibahsotnemitrapmocedoãçepsnI oãçazitarabsed guardam gêneros (exemplo: vedação das frestas existentes nas anteparas dos paióis – eficazes, particularmente, em relação aos roedores).

Uma prática bem-sucedida para reduzir o ingresso de animais daninhos a bordo tem sido a adoção de caixas plásticas vazadas, padronizadas para o acondicionamento, principalmente de itens fornecidos em embalagens não industriais (caixotes de madeira), como frutas, legumes e hortaliças. Tais itens são transferidos para as caixas ainda no cais, ocasião em que se faz uma inspeção acurada do material a ser embarcado, eliminando-se detritos e o que estiver estragado. Tal procedimento apresenta as seguintes vantagens: ·embarque de gêneros de melhor qualidade, com economia de recursos financeiros, pois elimina o material de má qualidade, que de outro modo seria pago; ·emprego de embalagens mais resistentes ao manuseio e ao transporte no interior do navio; ·menor estiva de gêneros a bordo, pois as caixas se ajustam umas às outras pelos ressaltos, facilitando a arrumação e a peação nos paióis e frigorífica (além disso, os furos existentes nas paredes das caixas permitem a circulação de ar no interior dos volumes, conferindo melhores condições para a conservação dos alimentos); e ·redução do lixo produzido, como a madeira, que abriga microorganismos, principalmente quando úmida.

Os três últimos tópicos indicam vantagens que também são obtidas na adoção de caixas plásticas em substituição às embalagens industriais, como as que acondicionam produtos congelados, que, unidas pelo gelo, são involuntariamente destruídas quando se necessita recolher material na frigorífica.

Para reduzir a possibilidade de sobrevivência de animais daninhos, recomendase, ainda, eliminar as fontes de alimento e as opções de abrigo para roedores e insetos, através do manuseio adequado de gêneros e da remoção e acondicionamento apropriado do lixo e de restos de comida.

No combate às pragas, a tripulação deve ser orientada no sentido de não lhes facilitar a sobrevivência, pois tais animais podem migrar de um compartimento para outro. Assim, a desbaratização em uma área infestada será de reduzida utilidade se houver condições de migração e sobrevivência das baratas em um outro compartimento – uma coberta, por exemplo, onde os ocupantes tenham o hábito de guardar guloseimas (balas, biscoitos etc.) no armário.

As fainas de desbaratização e desratização devem ser realizadas com as precauções apropriadas, pois os produtos utilizados são tóxicos para o homem. Durante essas fainas, o material de rancho deve ser retirado de seus armários e coberto, sendo lavado antes de ser novamente guardado.

Podem existir outros vetores de doenças a bordo (por exemplo, há registro de transmissão de conjuntivite a partir de binóculos e sextantes). O médico deve estar atento para os indícios que permitam identificar o vetor de transmissão de doenças, de modo a subsidiar o comandante quanto às providências para a erradicação do problema. c. Facilidades para a lavagem de roupa da tripulação – A existência de tais facilidades reflete-se positivamente nos aspectos de higiene e,

ARTE NAVAL838 conseqüentemente, na redução ou na eliminação de alguns tipos de doenças, particularmente as de pele.

Nos navios com disponibilidade de espaço, a medida mais prática é a instalação de conjunto(s) lavadora-secadora, funcionando em regime de auto-serviço. Como conseqüência, também se observa uma redução de demanda em relação à lavanderia do navio, usualmente já sobrecarregada com a roupa de cama, mesa e banho.

A lavagem de roupa é um tema diretamente ligado à disponibilidade de aguada.

Sendo assim, o uso desses “auto-serviços” deve ser rigorosamente controlado. Salienta-se que a existência dessa facilidade a bordo apresenta vantagens, mesmo se sua utilização estiver limitada ao período de permanência nos portos. d. Inspeções de pessoal, de compartimentos e de armários – A realização de inspeções freqüentes, sejam rotineiras, programadas ou mesmo de surpresa, é muito importante para a manutenção de um bom padrão de higiene.

Essas inspeções permitem verificar se os serviços de limpeza estão sendo realizados com correção, avaliar as condições de asseio da tripulação e coibir as práticas que facilitam a proliferação de insetos e os maus hábitos de higiene. 18.2.3. Execução de fainas, obras e serviços a. Segurança do pessoal – Trata-se da adoção das medidas de proteção individual e coletiva durante a execução de fainas, obras e serviços a bordo. b. Planejamento e fiscalização das fainas e serviços – Visa evitar o surgimento de circunstâncias que possibilitem ou facilitem ocorrências que possam prejudicar a saúde da tripulação, como por exemplo: (1) exigir o cumprimento das rotinas de manutenção dos sistemas de ventilação e ar condicionado. Periodicamente, nos navios que permanecem fechados, com ar condicionado recirculando por longo tempo, executar renovação maciça de ar; e (2) inspecionar a execução de serviços em tanques e redes de aguada (durante e ao término do serviço), a fim de impedir a existência de detritos capazes de contaminar o líquido ou entupir redes. c. Recebimento, armazenagem e controle de material perecível – Enquadram-se neste tópico os gêneros e medicamentos. O recebimento de gêneros deve ser rigorosamente fiscalizado, de modo a assegurar o recebimento de itens de boa qualidade e a dificultar o embarque de animais daninhos em meio ao material.

Abastecer as câmaras frigoríficas gradualmente, respeitando a sua capacidade de resfriamento/congelamento (principalmente quando se tratar do primeiro abastecimento após um período em que a frigorífica tenha ficado desativada).

O material tem que ser armazenado segundo as suas características, de modo a evitar-se a deterioração. Por ocasião do recebimento de gêneros, arrumar o paiol ou a frigorífica de modo que o acesso ao material mais antigo não fique obstruído pelo recém-embarcado.

Controlar o estoque e organizar a confecção de cardápios, de modo a priorizar o consumo dos itens mais antigos, evitando-se a perda de material por término de validade ou deterioração. No que se refere aos gêneros, tal medida é de fácil implementação. Quanto aos medicamentos e afins, não se pode forçar o consumo. Neste caso, uma boa prática é procurar substituí-los ao atingirem 2/3 de sua vida útil, o que, normalmente, é possível através de troca com usuários que apresentem uma grande demanda por esses produtos.

d. Aguada (1) grupos destilatórios – Nos navios que permaneçam no mar por longo tempo, a existência de grupos destilatórios em plenas condições de operação deve ser uma meta a ser perseguida com empenho, pois um bom suprimento de aguada é fundamental para a manutenção das condições de higiene e conforto; (2) manutenção dos equipamentos – Não admitir torneira e conexões vazando, pois isso pode causar restrições operativas aos navios em viagem. Uma simples torneira pingando eqüivale ao consumo de 46 litros de água por dia, o que é suficiente para o banho demorado de uma pessoa; e (3) recebimento de água nos portos – As providências a seguir são genéricas, e a sua adoção deve ser pesada caso a caso: · ao planejar uma viagem, procurar obter dados quanto à disponibilidade e à qualidade da água do porto a ser visitado (tais registros serão importantes para o controle do consumo ao longo da travessia até esse porto); · se possível, analisar a água antes de recebê-la (ao menos, inspecione aspecto e odor); · deixar correr uma boa quantidade de líquido, antes de recolher a amostra para análise ou antes de iniciar o recebimento (tal providência visa a remover a água parada na ramificação da rede do porto que vai ser utilizada, pois esta pode estar estagnada; tal precaução é mandatória nos terminais pouco freqüentados); e · na dúvida quanto à qualidade da água, não recebê-la; se for imprescindível fazê-lo, não a misturar com a água já existente a bordo, recebendo-a em tanques separados, a fim de possibilitar a cloração (se necessário, adotar medidas que impeçam que a água contaminada, ou que se suspeita contaminada, seja ingerida pela tripulação). 18.2.4. Educação da tripulação – O Programa de Adestramento da tripulação deve incluir treinamento físico e aulas voltadas para a higiene e prevenção de doenças, bem como incluir orientações quanto aos temas capazes de influenciar os aspectos emocionais e as relações de trabalho do homem a bordo (orientações aos familiares, assistência médica, auxílio funeral etc.).

Alcança-se um bom padrão de higiene mais facilmente se toda a tripulação estiver efetivamente motivada quanto ao tema. Adicionalmente, os conceitos assimilados serão transferidos para o lar, contribuindo para o bem-estar das famílias dos tripulantes.

18.3. Princípios básicos de higiene pessoal – O homem embarcado contribui para a manutenção das condições sanitárias a bordo através do seu asseio individual, mantendo em boas condições de limpeza as instalações, inclusive as de uso pessoal, de modo a evitar proliferação de ratos, insetos e microorganismos (exemplo: evitando guardar comestíveis em armários de roupa; lavando utensílios de rancho, panelas, pratos, talheres etc., imediatamente após encerradas as refeições – ou seja, não deixando restos para alimentar os animais daninhos – , mantendo fechados os recipientes que guardam gêneros de pronto uso, como açucareiros, potes de biscoitos etc.) e executando corretamente as tarefas relacionadas ao bemestar da tripulação que lhe forem confiadas.

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O homem embarcado tem que estar convencido de que determinados problemas de saúde podem afetar toda a tripulação e orientado para procurar o médico caso observe sintomas que indiquem que está com algum problema de saúde. 18.3.1. Postura – A maneira com que uma pessoa se mantém em pé, senta ou anda afeta, sem dúvida, a saúde. A postura adequada não apenas contribui para a boa apresentação do militar, mas também melhora o tônus (resistência e elasticidade) do corpo, ao auxiliar a circulação sangüínea e o funcionamento dos órgãos internos. 18.3.2. Asseio corporal a. Banho – A limpeza pessoal é a principal medida na prevenção de doenças, pois o sabão, além de limpar por ação química e mecânica, possui ação anti-séptica. O banho deve ser diário, sempre que as condições permitirem.

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