nietzsche assim falou zaratustra

nietzsche assim falou zaratustra

(Parte 1 de 5)

Assim Falou Zaratustra Friedrich Nietzsche

Tradução: Pietro Nassetti

SABOTAGEM w.sabotagem.cjb.net

Índice:

Primeira Parte 4 − Preâmbulo de Zaratustra

Os Discursos de Zaratustra 20 − Das três Transformações 2 − Das cátedras da virtude 25 − Dos crentes em Além−mundos 29 − Dos que desprezam o corpo 31 − Das alegrias e paixões 32 − Do pálido Delinqüente 35 − Ler e escrever 37 − Da árvore da montanha 40 − Dos pregadores da morte 42 − Da guerra e dos guerreiros 4 − Do novo ídolo 47 − Das moscas da praça pública 50 − Da castidade 52 − Do amigo 54 − Os mil objetos e o único objeto 56 − Do amor ao próximo 58 − Do caminho do criador 61 − A velha e a nova 64 − A picada da víbora 6 − Do filho do matrimônio 68 − Da morte livre 71 − Da virtude dadivosa

Segunda Parte 76 − Criança do espelho 79 − Nas ilhas bem−aventuradas 82 − Dos compassivos 85 − Dos sacerdotes 8 − Dos virtuosos 91 − Da canalha 94 − Das tarântulas 98 − Dos sábios célebres 101 − O canto da noite 103 − O canto do baile 105 − O canto do sepulcro 109 − Da vitória sobre si mesmo 113 − Dos homens sublimes 116 − Do país da civilização 118 − Do imaculado conhecimento 121 − Dos doutos 124 − Dos poetas 127 − Dos grandes acontecimentos 131 − O adivinho 135 − Da redenção 140 − Da circunspecção humana 144 − A hora silenciosa

Terceira Parte 147 − O viajante 151 − Da visão e do enigma

154 − Da beatitude involuntária 160 − Antes do nascer do sol 163 − Da virtude amesquinhadora 169 − No monte das oliveiras 172 − De passagem 175 − Dos trânsfugas 180 − O regresso 184 − Dos três males 189 − Do espírito do pesadume 193 − Das antigas e das novas tábuas 215 − O convalescente 2 − Do grande anelo 225 − O outro canto do baile 229 − Os sete selos

Quarta Parte 229 − A oferta do mel 236 − O grito de angústia 240 − Conversação com os reis 244 − A sanguessuga 248 − O encantador 254 − Fora de serviço 258 − O homem mais feio 264 − O mendigo voluntário 269 − A sombra 272 − Ao meio−dia 275 − A saudação 281 − A ceia 283 − O homem superior 294 − O canto da melancolia 298 − Da ciência 301 − Entre as filhas do deserto 302 − O deserto cresce. Ai daquele que oculta desertos! 304 − O despertar 308 − A festa do burro 312 − O canto de embriaguez 320 − O sinal

Primeira Parte

Preâmbulo de Zaratustra

Aos trinta anos Zaratustra afastou−se da sua pátria e do lago da sua pátria, e dirigiu−se à montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua solidão sem se cansar. Variaram, no entanto, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo−se com a aurora, pôs−se em frente do sol e falou−lhe da seguinte maneira:

"Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te apresentas à minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver−te−ias cansado da tua luz e deste caminho.

Nós, porém, te aguardávamos todas as manhãs, tomávamos−te o supérfluo e bendizíamos−te.

Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha quando acumula demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim. Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres, da sua riqueza.

Por essa razão devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpôes o mar para levar a tua luz ao mundo inferior.

Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir.

Abençoa−me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande!

Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela jorrem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!

Olha! Esta taça quer novamente esvaziar−se, e Zaratustra quer tornar a ser homem".

Assim principiou o ocaso de Zaratustra.

Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou−se−lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua sagrada cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:

"Este viandante não me é estranho: passou por aqui há anos. Chamava−se Zaratustra, mas mudou.

Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não temerá o castigo que se reserva aos incendiários?

Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, no entanto, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino!

Zaratustra mudou, Zaratustra tomou−se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?

Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tomar a arrastar tu mesmo o teu corpo?"

Zaratustra respondeu: "Amo os homens".

"Pois por que − disse o santo − vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens?

Agora amo a Deus; não amo os homens.

O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar−me−ia".

Zaratustra retrucou: "Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens".

"Nada lhes dês − disse o santo. − Pelo contrário, tira−lhes algo e eles logo te ajudarão a levá−lo. Nada lhes convirá melhor de que quanto a ti de convenha.

E se pretendes ajudar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que te peçam".

"Não − respondeu Zaratustra; − eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso".

O santo pôs−se a rir de Zaratustra e falou assim: "Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.

As nossas passadas ecoam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi−las, perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes de nascer o sol: Aonde irá o ladrão?

Não vás ao encontro dos homens! Fica no bosque!

Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?"

"E que faz o santo no bosque?", perguntou Zaratustra.

O santo respondeu: "Faço cânticos e canto−os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro.

Assim louvo a Deus.

Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é me Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?".

Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse−lhe: "Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar−me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma".

Separam−se um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.

Zaratustra, porém, ao ficar sozinho falou assim ao seu coração: "Será possível que este santo ancião ainda não ouviu no seu bosque que Deus já morreu?"

Chegando à cidade mais próxima, situada nos bosques, Zaratustra encontrou uma grande multidão na praça pública, porque estava anunciado o espetáculo de um bailarino de corda.

E Zaratustra falou assim ao povo: "Eu vos anuncio o Super−homem".

"O homem é superável. Que fizestes para o superar?

Até agora todos os seres têm apresentado alguma coisa superior a si mesmos; e vós, quereis o refluxo desse grande fluxo, preferis tornar ao animal, em vez de superar o homem?

Que é o macaco para o homem? Uma zombaria ou dolorosa vergonha.

Pois é o mesmo que deve ser o homem para Super−homem: uma irrisão ou uma dolorosa vergonha.

Percorrestes o caminho que medeia do verme ao homem, e ainda em vós resta muito do verme. Noutro tempo fostes macaco, e hoje o homem é ainda mais macaco do que todos os macacos.

Mesmo o mais sábio de todos vós não passa de uma mistura híbrida de planta e de fantasma. Acaso vos disse eu que vos torneis planta ou fantasma?

Eu vos apresento o Super−homem! O Super−homem é o sentido da terra. Diga a vossa vontade: seja o Super−homem, o sentido da terra.

Exorto−vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar em que vos fala de esperanças supraterrestres.

São envenenadores, quer o saibam ou não.

Não dão o menor valor à vida, moribundos que estão, por sua vez envenenados, seres de que a terra se encontra fatigada; vão−se por uma vez!

Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele morreram tais blasfêmias. Agora, o mais espantoso é blasfemar da terra, e ter em maior conta as entranhas do impenetrável do que da terra.

Noutros tempos a alma olhava o corpo com desprezo, e então nada havia superior a esse desdém; queria a alma um corpo fraco, horrível, consumido de fome! Julgava deste modo libertar−se dele e da terra.

Ó! Essa mesma alma era uma alma fraca, horrível e consumida, e para ela era um deleite a crueldade!

Irmãos meus, dizei−me: que diz o vosso corpo da vossa alma? Não é a vossa alma, pobreza, imundície e conformidade lastimosa?

O homem é um rio turvo. E preciso ser um mar para, sem se toldar, receber um rio turvo.

Pois bem; eu vos anuncio o Super−homem; é ele esse mar; nele se pode abismar o vosso grande menosprezo.

Qual é a maior coisa que vos pode acontecer? Que chegue a hora do grande menosprezo, a hora em que vos enfastie a vossa própria felicidade, de igual forma que a vossa razão e a vossa virtude.

A hora em que digais: "Que importa a minha felicidade! É pobreza, imundície e conformidade lastimosa. A minha felicidade, porém, deveria justificar a própria existência!" A hora em que digais: "Que importa minha razão! Anda atrás do saber como o leão atrás do alimento. A minha razão é pobreza, imundície e conformidade lastimosa!"

A hora em que digais: "Que importa a minha virtude? Ainda me não enervou. Como estou farto do meu bem e do meu mal. Tudo isso é pobreza, imundície e conformidade lastimosa!"

A hora em que digais: "Que importa a minha justiça?! Não vejo que eu seja fogo e carvão! O justo, porém, é fogo e carvão!"

A hora em que digais: "Que importa a minha piedade? Não é a piedade a cruz onde se crava aquele que ama os homens? Pois a minha piedade é uma crucificação". Já falaste assim? Já gritaste assim? Ah! Não vos ter eu ouvido a falar assim!

Não são os vossos pecados, é a vossa parcimônia que clama ao céu! A vossa mesquinhez até no pecado, isso é que clama ao céu!

Onde está, pois, o raio que vos lamba com a sua língua? Onde está o delírio que é mister inocular−vos? Vede; eu anuncio−vos o Super−homem: "É ele esse raio! É ele esse delírio!"

Assim que Zaratustra disse isto, um da multidão exclamou: "Já ouvimos falar muito do que dança na corda; queremos conhecê−lo agora". E toda a gente se riu de Zaratustra. Mas o dançarino da corda, julgando que tais palavras eram com ele, pôs−se a trabalhar.

Zaratustra, no entanto, olhava a multidão, e assombrava−se. Depois falava assim:

"O homem é corda estendida entre o animal e o Super−homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.

O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento.

Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.

Amo aqueles de grande desprezo, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem.

Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para sucumbir e oferecer−se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao Super−homem.

Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super−homem, porque assim quer ele sucumbir.

Amo o que trabalha e inventa, a fim de exigir uma morada ao Super−homem e preparar para ele a terra, os animais e as plantas, porque assim quer o seu fim.

Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é vontade de extinção e uma seta do desejo.

Amo o que não reserva para si uma gota do seu espírito, mas que quer ser inteiramente o espírito da sua virtude, porque assim atravessa a ponte como espírito.

Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e não viver mais.

Amo o que não quer ter demasiadas virtudes. Uma virtude é mais virtude do que duas, porque é mais um nó a que se ata o destino.

Amo o que prodigaliza a sua alma, o que não quer receber agradecimentos nem restitui, porque dá sempre e não quer se poupar.

Amo o que se envergonha de ver cair o dado a seu favor e, por essa razão, se pergunta: "Serei um jogador fraudulento?", porque quer ir ao fundo.

Amo o que solta palavras de ouro perante as suas obras e cumpre sempre com usura o que promete, porque quer perecer.

Amo o que justifica os vindouros e redime os passados, porque quer que o combatam os presentes. Amo aquele cuja alma é profunda, mesmo na dor, e pois a cólera do seu Deus o confundirá.

Amo aquele cuja alma é profunda, mesmo na ferida, e ao que pode aniquilar um leve acidente, porque assim de bom grado passará a ponte.

Amo aquele cuja alma transborda, a ponto de se esquecer de si mesmo e quanto esteja nele, porque assim todas as coisas se farão para sua ruína.

Amo o que tem o espírito e o coração livres, porque assim a sua cabeça apenas serve de entranhas ao seu coração, mas o seu coração o leva a sucumbir.

Amo todos os que são como gotas pesadas que caem uma a uma da nuvem escura suspensa sobre os homens, anunciam o relâmpago próximo e desaparecem como anunciadores.

Vede: eu sou um anúncio do raio e uma pesada gota procedente da nuvem; mas este raio chama−se o Super−homem".

Pronunciadas estas palavras, Zaratustra tornou a olhar o povo, e calou−se. "Riem−se − disse o seu coração. − Não me compreendem; a minha boca não é a boca que estes ouvidos necessitam.

Precisarei começar a lhes destruir os ouvidos para que aprendam a ouvir com os olhos? Terei de atroar à maneira de timbales ou de pregadores de Quaresma? Ou só acreditarão nos gagos?

De qualquer coisa se sentem orgulhosos. Como se chama, então, isso de que estão orgulhosos? Chama−se civilização: é o que se distingue dos cabreiros.

Isto, porém, não gosta ele de ouvir, porque os ofende a palavra "desdém".

Falar−lhes−ei, portanto, ao orgulho.

Falar−lhes−ei do mais desprezível que existe, do último homem.

E Zaratustra falava assim ao povo:

"É tempo que o homem tenha um objetivo.

É tempo que o homem cultive o germe da sua mais elevada esperança.

O seu solo é ainda bastante rico, mas será pobre, e nele já não poderá medrar nenhuma árvore alta.

Ai, aproxima−se o tempo em que o homem já não lançará por sobre o homem a seta do seu ardente desejo e em que as cordas do seu arco já não poderão vibrar

Eu vô−lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.

Eu vô−lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós.

Ai! Aproxima−se o tempo em que o homem já não dará a luz às estrelas; aproxima−se o tempo do mais desprezível dos homens, do que já se não pode desprezar a si mesmo.

Olhai! Eu vos mostro o último homem.

Que vem a ser isso de amor, de criação, de ardente desejo, de estrela? − pergunta o último homem, revirando os olhos.

A terra tornar−se−á então menor, obre ela andará aos pulos o último homem, que tudo apouca. A sua raça é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que vive mais tempo.

"Descobrimos o que é a felicidade" − dizem os últimos homens, e piscam os olhos.

Abandonaram as comarcas onde a vida era rigorosa, porque uma pessoa necessita calor. Ainda se quer ao vizinho e se roçam pelo outro, porque uma pessoa necessita calor. Enfraquecer e desconfiar parece−lhes pecaminoso; anda−se com cuidado. Insensato aquele que ainda tropeça com as pedras e com os homens!

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