nietzsche assim falou zaratustra

nietzsche assim falou zaratustra

(Parte 2 de 5)

Algum veneno uma vez por outra é coisa que proporciona agradáveis sonhos. E muitos venenos no fim para morrer agradavelmente.

Trabalha−se ainda porque o trabalho é uma distração; mas faz−se de modo que a distração não debilite.

Já uma pessoa se não toma nem pobre nem rica; são duas coisas demasiado difíceis. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas muito custosas.

Nenhum pastor, e só um rebanho! Todos querem o mesmo, todos são iguais: o que pensa de outro modo tende a ir para o manicômio.

''Noutro tempo toda a gente era doida" − dizem os perspicazes, e reviram os olhos.

É−se prudente, e está−se a par do que acontece: desta maneira pode−se zombar sem cessar. Questiona−se ainda, mas logo se fazem as pazes; o contrário altera a digestão.

Não falta um pouco de prazer para o dia e um pouco de prazer para a noite; mas respeita−se a saúde.

"Descobrimos a felicidade" − dizem os últimos homens − e reviram os olhos".

Aqui acabou o discurso de Zaratustra − que também se chama preâmbulo − porque neste ponto foi interrompido pelos gritos e pelo alvoroço da multidão. "Dá−nos esse último homem, Zaratustra − exclamaram − toma−nos semelhantes a esses últimos homens! perdoar−te−emos o Super−homem".

E todo o povo era alegria. Zaratustra entristeceu e disse consigo:

"Não me compreendem; não. Não é da minha boca que estes ouvidos necessitam.

Vivi demais nas montanhas, escutei demais os arriôos e as arvores, e agora falo−lhes como um pastor.

A minha alma é sossegada e luminosa como o monte pela manhã; mas eles julgam que sou um frio astuto chacareiro.

Ei−los olhando−me e rindo−se,

E, enquanto se riem, continuam a odiar−me. Há gelo nos seus risos".

Algo ocorreu, no entanto, que fez emudecer todas as bocas e atraiu todos os olhares.

Entrementes pusera−se a trabalhar o volteador; saíra de uma pequena porta e andava pela corda presa a duas torres sobre a praça pública e a multidão.

Quando se encontrava bem na metade do caminho abriu−se outra vez a portinhola, donde saltou o segundo acrobata que parecia um palhaço com as suas mil cores, o qual seguiu rapidamente o primeiro. "Depressa, bailarino! − gritou a sua horrível voz. − "Depressa, mandrião, manhoso, cara deslavada! Olha que te piso os calcanhares!

Que fazes aqui entre estas torres? Na torre devias tu estar metido; impedis o caminho a outro mais ágil do que tu!" E a cada palavra se aproximava mais, mas, quando se encontrou a um passo, ocorreu essa coisa terrível que fez calar todas as bocas e atraiu todos os olhares; lançou um grito diabólico e saltou por sobre o que lhe interceptava o caminho.

Este, ao ver o rival vitorioso, perdeu a cabeça e a corda, largou o balancim e precipitou−se no abismo como um remoinho de braços e pernas. A praça pública e a multidão pareciam o mar quando se desencadeia a tormenta. Todos fugiram atropeladamente, em especial do lugar onde deveria cair o corpo. Zaratustra permaneceu imóvel, e junto dele caiu justamente o corpo, destroçado, mas vivo ainda. Passado um instante o ferido recuperou os sentidos e viu Zaratustra ajoelhado junto de si. "Que fazes aqui? − disse−lhe. Já há tempo que eu sabia que o diabo me havia de derrubar. Agora arrasta−me para o inferno. Queres impedi−lo?"

"Amigo − respondeu Zaratustra − palavra de honra que tudo isso de que falas não existe, não há demônio nem inferno. A tua alma ainda há de morrer mais depressa do que o teu corpo; nada temas". O homem olhou receoso. "Se dizes a verdade – respondeu − nada perco ao perder a vida. Não passo de uma besta que foi ensinada a dançar a poder de pancadas e de fome".

"Não − falou Zaratustra − fizeste do perigo o teu ofício, coisa que não é para desprezar.

Agora por causa do teu ofício sucumbes e atendendo a isso vou enterrar−te por minha própria mão". O moribundo já não respondeu, mas moveu a mão como se procurasse a de Zaratustra para lhe agradecer.

Abeirava−se a noite, e a praça sumia−se nas trevas. Então a multidão dispersou−se porque até a curiosidade e o pavor se cansam. Sentado ao pé do cadáver, Zaratustra encontrava−se tão abismado nas suas reflexões que se esqueceu do tempo. Fez−se noite e sobre o solitário soprou um vento frio. Zaratustra ergueu−se, então, e murmurou:

"Zaratustra fez hoje uma boa pesca! Não alcançou um homem, mas um cadáver!

Coisa para nos preocupar é a vida humana, e sempre vazia de sentido: um trovão lhe pode ser fatal!

Quero ensinar aos homens o sentido da sua existência, que é o Super−homem, o relâmpago que brota da sombria nuvem homem.

Estou, porém, longe deles, e o meu sentido nada diz aos seus sentidos. Para os homens sou uma coisa intermediária entre o doido e o cadáver.

Escura é a noite, escuros são os caminhos de Zaratustra. Vem, companheiro frio e rígido! Levar−te−ei ao lugar onde por minha mão te enterrarei".

Dito isto ao seu coração, Zaratustra deitou o cadáver às costas e pôs−se a caminho. Ainda não andara cem passos quando se lhe acercou furtivamente um homem e lhe murmurou ao ouvido. O que falava era o palhaço da torre. Eis o que lhe dizia: − "Sai desta cidade, Zaratustra − há aqui muita gente que te odeia. Os bons e os justos odeiam−te e chamam−te seu inimigo e desprezador; os fiéis da verdadeira crença odeiam−te e dizem que és o perigo da multidão. Ainda tiveste sorte em zombarem de ti, e na verdade falavas como um truão. Tiveste sorte em te associar a esse vilão desse morto; rebaixando−te, por essa forma salvaste−te por hoje; mas sai desta cidade, ou amanhã salto eu por cima de ti, um vivo por cima de um morto". E o homem desapareceu, e Zaratustra seguiu o seu caminho pelas escuras ruas.

À porta da cidade encontrou os coveiros. Estes aproximaram−lhe da cara as enxadas, e conheceram Zaratustra e troçaram muito dele. "Zaratustra leva o indigno morto! Bravo! Zaratustra tomou−se coveiro! As nossas mãos são puras demais para tocar nessa peça! Com que então Zaratustra quer roubar o pitéu ao demônio! Apre! Bom proveito! Isto se o diabo não for melhor ladrão que Zaratustra e os não roubar aos dois!" E riam entre si, cochichando. Zaratustra não respondeu palavra e seguiu seu caminho. Passadas duas horas a andar à beira de bosques e de lagoas; já ouvira latir os lobos esfomeados, e também a ele o atormentava a fome. Por esse motivo parou diante de uma casa isolada onde brilhava uma luz.

"Apodera−se de mim a fome como um salteador − disse Zaratustra: − no meio dos bosques e das lagoas e na escura noite me surpreende.

A minha fome tem estranhos caprichos. Em geral só me aparece depois de comer, e hoje em todo o dia não me apareceu. Onde se entreteria então?"

Assim dizendo, Zaratustra bateu à porta da casa. Logo apareceu um velho com uma luz e perguntou: "Quem se abeira de mim e do meu fraco sono?"

"Um vivo e um morto − respondeu Zaratustra. − Dá−me de comer e de beber; esqueci−me de o fazer durante o dia. Quem dá comida ao faminto reconforta a sua própria alma: assim falava a sabedoria". O velho retirou−se; mas voltou imediatamente e ofereceu a Zaratustra pão e vinho. "Ruim terra é esta para os que têm fome − disse ele − por isso eu habito nela. Homens e animais de mim se aproximam, de mim, o solitário. Mas chama também o teu companheiro para comer e beber; está mais cansado do que tu". Zaratustra respondeu: "O meu companheiro está morto; não é fácil decidi−lo a comer". "Nada tenho com isto − resmungou velho. − O que bate à minha porta deve receber o que lhe ofereço. Come, e passa bem".

Zaratustra tornou a andar outras duas horas, orientando−se pelo caminho e pela luz das estrelas. porque estava acostumado às caminhadas noturnas e gostava de contemplar tudo quanto dorme. Quando principiou a raiar a aurora encontrava−se num espesso bosque e já não via nenhum caminho. Então colocou o cadáver no côncavo de uma árvore à altura da sua cabeça − pois queria livrá−lo dos lobos − e deitou−se no solo sobre a relva. No mesmo instante adormeceu cansado de corpo, mas com a alma tranqüila.

Zaratustra dormiu muito tempo e por ele passou não só a aurora mas toda a manhã. Finalmente abriu os olhos e olhou admirado no meio do bosque e do silêncio; admirado olhou para dentro de si mesmo. Ergueu−se precipitado, como navegante que de repente avista terra, e gritou de alegria porque vira uma verdade nova. E falou deste modo ao seu coração:

"Um raio de luz me atravessa a alma: preciso de companheiros. mas vivos, e não de companheiros mortos e cadáveres, que levo para onde quero.

preciso de companheiros, mas vivos que me sigam − porque desejem seguir−se a si mesmos – para onde quer que eu vá.

Um raio de luz me atravessa a alma: não é à multidão que Zaratustra deve falar, mas a companheiros! Zaratustra não deve ser pastor e cão de um rebanho!

Para desgarrar muitos do rebanho, foi para isso que vim. O povo e o rebanho irritam−se comigo. Zaratustra quer ser chamado de ladrão pelos pastores.

Eu os denomino pastores, mas eles a si mesmos se consideram os fiéis da verdadeira crença! Vede os bons e os justos! A quem odeiam mais? A quem lhes despedaça as tábuas de valores, ao infrator, ao destruidor. É este, porém, o criador.

O criador procura companheiros, não procura cadáveres, rebanhos, nem crentes; procura colaboradores que inscrevam valores novos ou tábuas novas.

O criador procura companheiros para acompanhá−lo; porque tudo está maduro para a ceifa. Faltam−lhe, porém, as cem foices, e por isso arranca espigas, contra sua vontade.

Companheiros que saibam afiar as suas foices, eis o que procura o criador.

Chamar−lhes−ão destruidores e desprezadores do bem e do mal, mas eles hão de ceifar e descansar. Colaboradores que ceifem e descansem com ele, eis o que busca Zaratustra. Que se importa ele com rebanhos, pastores e cadáveres?

E tu, primeiro companheiro meu, descansa em paz! Enterrei−te bem, na tua árvore oca, deixo−te bem defendido dos lobos.

Separo−me, porém, de ti; já passou o tempo. Entre duas auroras me iluminou uma nova verdade.

Não devo ser pastor nem coveiro. Nunca mais tornarei a falar ao povo; pela última vez falei com um morto.

Quero unir−me aos criadores, aos que colhem e se divertem; mostrar−lhes−ei o arco−íris e todas as escadas que levam ao Super−homem.

Entoarei o meu cântico aos solitários e aos que se encontram juntos na solidão; e a quem quer que tenha ouvidos para as coisas inauditas confranger−lhe−ei o coração com a minha ventura.

Caminho para o meu fim; sigo o meu caminho; saltarei por cima dos negligentes e dos retardados. Desta maneira será a minha marcha o seu fim!"

Assim falou Zaratustra ao seu coração quando o sol ia em meio do seu curso; depois dirigiu para as alturas um olhar interrogador porque ouvia no alto o grito penetrante de uma ave. E viu uma águia que pairava nos ares traçando largos rodeios e sustentando uma serpente que não parecia uma presa, mas um aliado, porque se lhe enroscava ao pescoço.

"São os meus animais! − disse Zaratustra, e regozijou−se intimamente. O animal mais arrogante que o sol cobre e o animal mais astuto que o sol cobre saíram em exploração. Queriam descobrir se Zaratustra ainda vivia. Ainda viverei, deveras?

Encontrei mais perigos entre os homens do que entre os animais; perigosas sendas segue Zaratustra. Guiem−me os meus animais".

Depois de dizer isto, Zaratustra recordou−se das palavras do santo do bosque, suspirou e falou assim ao seu coração:

"Devo ser mais judicioso! Devo ser tão profundamente astuto como a minha serpente.

Peço, porém, o impossível; rogo, portanto, a minha altivez que me acompanhe sempre a prudência! E se um dia a prudência me abandonar − ai! agrada−lhe tanto fugir! − possa sequer a minha altivez voar com a minha loucura!" Assim começou o ocaso de Zaratustra.

Das Três Transformações

"Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.

Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e sólido, respeitável. A força deste espírito está clamando por coisas pesadas, e das mais pesadas.

Há o quer que seja pesado? − pergunta o espírito sólido. E ajoelha−se igual camelo e quer que o carreguem bem. Que há mais pesado, heróis − pergunta o espírito sólido − para eu o ditar sobre mim, para que a minha força se recreie?

Não será rebaixarmo−nos para o nosso orgulho padecer?

Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sabedoria?

Ou será separarmo−nos da nossa causa quando ela festeja a sua vitória?

Escalar altos montes para tentar o que nos tenta?

Ou será sustentarmo−nos com bolotas e erva do conhecimento e sofrer fome na alma por causa da verdade? Ou será estar enfermo e despedir a consoladores e travar amizade com surdos que nunca ouvem o que queremos?

Ou será nos afundar em água suja quando é a água da verdade, e não afastarmos de nós as frias rãs e os quentes sapos?

Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar?

O espírito sólido sobrecarrega−se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto. No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito toma−se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto.

Procura então o seu último senhor, quer ser seu inimigo e de seus dias; quer lutar pela vitória com o grande dragão.

Qual é o grande dragão a que o espirito já não quer chamar Deus, nem senhor?

"Tu deves", assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: "Eu quero".

O "tu deves" está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: "Tu deves!"

Valores milenários cintilam nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim:

"Em mim brilha o valor de todas as coisas".

"Todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o "eu quero!" Assim falou o dragão.

Meus irmãos, que falta faz o leão no espírito? Não será suficiente a besta de carga que abdica e venera?

Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode−o o poder do leão. Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão.

Conquistar o direito de criar novos valores é a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito sólido e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e próprio de um animal rapace.

Como o mais santo, amou em seu tempo o "tu deves" e agora tem de ver a ilusão e arbitrariedade até no mais santo, a fim de conquistar a liberdade à custa do seu amor. É preciso um leão para esse feito...

Dizei−me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se mude em criança?

A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação.

Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é necessário uma santa afirmação: o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar o seu mundo. Três transformações do espírito vos mencionei: como o espírito se transformava em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança".

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