nietzsche assim falou zaratustra

nietzsche assim falou zaratustra

(Parte 4 de 5)

Ai, meu irmão! Nunca viste uma virtude caluniar−se e aniquilar−se a si mesma? O homem precisa ser superado. Por isso necessitas amar as tuas virtudes, porque por elas morrerás".

Assim falou Zaratustra.

Do Pálido Delinqüente

"Vós, juizes e sacrificadores, não quereis matar enquanto a besta não haja inclinado a cabeça? Vede: o pálido delinqüente inclinou a cabeça: em seus olhos fala o supremo desprezo.

"O meu Eu deve ser superado: o meu Eu é para mim o grande desprezo do homem". Assim faIam os olhos dele. O seu momento maior foi aquele em que a si mesmo se julgou. Não deixeis o sublime tornar a cair na sua baixeza!

Para aquele que tanto sofre por si, só há salvação na morte rápida.

O vosso homicídio, ó juizes, deve ser compaixão e não vingança. E, ao matar, tratai de justificar a própria vida.

Não vos basta reconciliar−vos com aquele que matais. Seja a vossa tristeza amor ao Super−homem; assim justificais a vossa supervivência!

Dizei "inimigo", "malvado" não; dizei "enfermo" e não "infame"; dizei "insensato" e não "pecador".

E tu, vermelho juiz, se dissesses em voz alta o que fizeste já em pensamento, toda gente gritaria: Abaixo essa imundície e esse verme venenoso!...

Uma coisa é o pensamento, outra a ação, outra a imagem da ação.

A roda da causalidade não gira entre elas.

Uma imagem fez empalidecer esse homem pálido. Ele estava à altura do seu ato quando o realizou, mas não suportou a sua imagem depois de o ter consumado.

Sempre se viu só, como o autor de um ato. Eu considero isso loucura; a exceção converteu−se para ele em regra.

O golpe que deu fascina−lhe a pobre razão: a isso chamo eu a loucura depois do ato.

Ouvi, juizes! Ainda há outra loucura: a loucura antes do ato. Ah! não penetrastes profundamente nessa alma. O juiz vermelho fala assim: "Por que este criminoso matou? Queria roubar".

Mas eu vos digo: a sua alma queria sangue e não o roubo; tinha sede do gozo da faca!

A sua pobre razão, contudo, não compreendia essa loucura e decidiu−o. "Que importa o sangue? − disse ela. − Nem ao menos desejas roubar ao mesmo tempo? Não te desejas vingar?"

E atendeu a sua pobre razão, cuja linguagem pesava sobre ele como chumbo; então roubou ao assassinar. Não se queria envergonhar da sua loucura. E agora pesa sobre ele o chumbo do seu crime; mas a sua pobre razão está tão paralisada, tão torpe!...

Se ao menos pudesse sacudir a cabeça, a sua carga cairia, mas quem sacudirá esta cabeça?

Quem é este homem? Um conjunto de enfermidades que, pelo espírito, abrem caminho para fora do mundo, onde querem apanhar a sua presa.

Que é este homem? Um magote de serpentes ferozes que se não podem entender; por isso cada um vai por seu lado procurar a presa pelo mundo.

Vede este pobre corpo! O que ele sofreu e o que desejou, a alma o interpretou a seu favor; interpretou−o como gozo e desejo sanguinário do prazer da faca.

O que enferma agora vê−se dominado pelo mal, que é mal agora; quer fazer sofrer com o que o faz sofrer; mas houve outros tempos e outros males e bens.

Dantes era um mal a dúvida e a vontade própria. Então o enfermo torna−se herege e bruxa; como herege e bruxa padecia e fazia padecer.

Mas isto não quer entrar nos vossos ouvidos; prejudica, dizeis, os vossos bons; mas que me importam a mim os vossos bons?

Nos vossos bons há muitas coisas que me repugnam, e de certo não é o seu mal.

Quereria que tivessem uma loucura que os levasse a sucumbir, como esse pálido criminoso.

Quereria que a sua loucura se chamasse verdade, ou fidelidade, ou justiça; mas têm virtude para viver em mísera conformidade.

Eu sou um anteparo na margem do rio; aquele que puder prender−me, que o faça. Saiba−se, porém, que não sou vossa muleta". Assim falou Zaratustra.

Ler e Escrever

"De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito.

É difícil compreender sangue alheio: eu detesto todos os ociosos que lêem. O que conhece o leitor já nada faz pelo leitor. Um século de leitores, e o próprio espírito terá mau cheiro.

Ter toda a gente o direito de aprender a ler é coisa que estropia, não só a letra mas o pensamento.

Noutro tempo o espírito era Deus; depois fez−se homem; agora fez−se populaça.

O que escreve em máximas e com sangue não quer ser lido, mas decorado. Nas montanhas, o caminho mais curto é o que medeia de cimo a cimo; mas para isso é preciso ter pernas altas. Os aforismos devem ser cumeeiras, e aqueles a quem se fala devem ser homens altos e robustos.

O ar leve e puro, o próximo perigo e o espírito cheio de uma alegre malícia, tudo isto se harmoniza bem. Eu quero ver duendes em torno de mim porque sou valoroso. O valor que afugenta os fantasmas cria os seus próprios duendes: o valor quer rir.

Eu já não sinto em uníssono convosco; essa nuvem que eu vejo abaixo de mim, esse negrume e carregamento de que me rio, é exatamente a vossa nuvem tempestuosa.

Vós olhais para o alto quando aspirais a vos elevar. Eu, como estou alto, olho para baixo.

Qual de vós pode estar alto e rir ao mesmo tempo?

O que escala elevados montes ri−se de todas as tragédias da cena e da vida. Valorosos, despreocupados, zombeteiros, violentos, eis como nos quer a sabedoria. É mulher e só lutadores podem amar.

Vós dizeis−me: "A vida é uma carga pesada". Mas para que é esse vosso orgulho pela manhã e essa vossa submissão à tarde?

A vida é uma carga pesada: mas não vos mostreis tão aflitos. Todos somos jumentos carregados.

Que parecença temos com o cálice de rosa que treme porque o oprime uma gota de orvalho?

É verdade: amamos a vida não porque estejamos costumados à vida, mas ao amor.

Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura. E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens.

Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.

Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.

E quando vi o meu demônio, pareceu−me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadelo. Por ele caem todas as coisas.

Não é com raiva, mas com riso que se mata. Adiante! Matemos o espírito do pesadelo!

Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar portanto não quero que me empurrem para mudar de lugar.

Agora sou leve, agora vôo: agora vejo por baixo de mim mesmo, agora salta em mim um Deus".

Assim falou Zaratustra.

Da Árvore da Montanha

Os olhos de Zaratustra tinham visto um mancebo que evitava a sua presença. E, uma tarde, ao atravessar sozinho as montanhas que rodeiam a cidade denominada Vaca Malhada, encontrou esse mancebo sentado ao pé de uma árvore, dirigindo ao vale um olhar fatigado. Zaratustra agarrou a arvore a que o mancebo se encostava e disse:

"Se eu quisesse sacudir esta árvore com as minhas mãos não poderia; mas o vento que não vemos açoita−a e dobra−a como lhe apraz. Também a nós mãos invisíveis nos açoitam e dobram rudemente".

A tais palavras, o mancebo ergueu−se assustado, dizendo: "Ouço Zaratustra, e positivamente estava a pensar nele".

"Por que te assustas? O que sucede à arvore sucede ao homem.

Quanto mais se quer erguer para o alto e para a luz, mais vigorosamente enterra as suas raízes ara baixo, para o tenebroso e profundo para o mal".

"Sim; para o mal! − exclamou o mancebo − Como é possível teres descoberto a minha alma?" Zaratustra sorriu e disse: "Há almas que nunca se descobrirão, a não ser que se principie por inventá−las".

"Sim; para o mal! − exclamou outra vez o mancebo.

Dizias a verdade, Zaratustra. Já não tenho confiança em mim desde que quero subir às alturas, e já nada tem confiança em mim. A que se deve isto?

Eu me transformo muito depressa: o meu hoje contradiz o meu ontem. Com freqüência salto degraus quando subo, coisa que os degraus me não perdoam.

Quando chego em cima, sempre me encontro só. Ninguém me fala; o frio da solidão faz−me tiritar. Que é que quero, então, nas alturas? O meu desprezo e o meu desejo crescem a par; quanto mais me elevo mais desprezo o que se eleva? Como me envergonho da minha ascensão e das minhas quedas! Como me rio de tanto anelar! Como odeio o que voa! Como me sinto cansado nas alturas!"

O mancebo calou−se Zaratustra olhou atento a arvore a cujo pé se encontravam e falou assim

"Esta árvore está solitária na montanha. Cresce muito sobranceira aos homens e aos animaisÃ

E se quisesse falar ninguém haveria que a pudesse compreender: tanto cresceu.

Agora espera, e continua esperando. Que esperará, então? Habita perto demais das nuvens: acaso esperará o primeiro raio?"

Quando Zaratustra acabava de dizer isto, o mancebo exclamou com gestos veementes:

"E verdade, Zaratustra: dizes bem. Eu ansiei por minha queda ao querer chegar às alturas, e tu eras o raio que esperava. Olha: que sou eu, desde que tu nos apareceste? A inveja aniquilou−me!" Assim falou o mancebo, e chorou amargamente. Zaratustra cingiulhe a cintura com o braço e levouo consigo. Depois de andarem juntos durante algum tempo, Zaratustra começou a falar assim:

"Tenho o coração dilacerado. Melhor do que as tuas palavras, dizem−me os teus olhos todo o perigo que corres.

Ainda não és livre, ainda procuras a liberdade.

As tuas buscas desvelaram−te e envaideceram−te de maneira excessiva.

Queres escalar a altura livre; a tua alma está sedenta de estrelas; mas também os teus maus instintos têm sede de liberdade.

Os teus cães selvagens querem ser livres; ladram de prazer no seu covil quando o teu espírito tende a abrir todas as prisões.

Para mim, és ainda um preso que sonha com a liberdade. Ai, a alma de presos assim torna−se prudente, mas também astuta e má.

O que libertou o teu espírito necessita ainda purificar−se. Ainda lhe restam muitos vestígios de prisão e de lodo: é preciso, todavia, que a tua vista se purifique.

Sim; conheço o teu perigo; mas por amor de mim te aconselho a não afastares para longe de ti o teu amor e a tua esperança!

Ainda te reconheces nobre, assim como nobre te reconhecem os outros, os que estão mal contigo e te olham com maus olhos. Fica sabendo que todos tropeçam com algum nobre no seu caminho.

Também os bons tropeçam com algum nobre no seu caminho, e se lhe chamam bom é tão−somente para o pôr de lado.

O nobre quer criar alguma coisa nobre e uma nova virtude. O bom deseja o velho e que o velho se conserve.

O perigo do nobre, contudo, não é tornar−se bom, mas insolente, zombeteiro e destruidor.

Ah, eu conheci nobres que perderam a sua mais elevada esperança. E depois caluniaram todas as elevadas esperanças.

Agora têm vivido abertamente com minguadas aspirações, e apenas planearam um fim de um dia para outro

"O espirito é voluptuosidade" – diziam. E então o se espirito quebrou as asas; arrastar−se−à agora de trás para diante, maculando tudo quanto consome.

Noutro tempo pensavam fazer−se heróis; agora são folgazões. O herói é para ele aflição e espanto.

Mas, por amor de mim e da minha esperança te digo: não expulses para longe de ti o herói que há na tua alma! Santifica a tua mais elevada esperança!"

Assim falou Zaratustra.

Dos Pregadores da Morte

"Há pregadores da morte, e a terra está cheia de indivíduos a quem é preciso pregar que desapareçam da vida.

A terra está cheia de supérfluos, e os que estão demais prejudicam a vida. Tirem−nos desta com o engodo da "eterna"!

"Amarelos" se costuma chamar aos pregadores da morte, ou então "pretos". Eu, porém, quero apresentá−lo também sob outras cores.

Terríveis são os que têm dentro de si a terra, e que só podem escolher entre as concupiscências e as mortificações.

Nem sequer chegaram a ser homens esses seres terríveis.

Preguem, pois, o abandono da vida, e vão−se eles também!

Eis os fracos de alma. Mal nasceram e já começaram a morrer, e sonham com doutrinas do cansaço e da renúncia. Queriam estar mortos, e nós devemos santificar−lhes a vontade. Livremo−nos de ressuscitar esses mortos e de lhes violar as sepulturas.

Encontram um doente, um velho ou um cadáver, e depois dizem: "Reprove−se a vida!"

Os reprovados, contudo, são apenas eles, assim como os seus olhos que só vêem um aspecto da sua vida.

Sumidos na densa tristeza e ávidos dos leves acidentes que matam, esperam cerrando os dentes.

Ou então estendem a mão para doces e zombam das suas próprias criancices: estão encostados à vida como uma palha, e escarnecem de se apoiarem a uma palha.

A sua sabedoria diz: "Louco quem pertence à vida, mas assim somos nós loucos! E esta é a maior loucura da vida!"

"A vida não é mais do que sofrimento", dizem outros, e não mentem.

Cuidai, portanto, de abreviar a vossa. Fazei cessar a vida que é só sofrimento! Eis o ensinamento da vossa virtude: "Deves matar−te a ti mesmo! Deves desaparecer diante de ti mesmo!"

"A luxúria é pecado − dizem alguns dos que pregam a morte. Separemo−nos e não geremos filhos!"

"É doloroso dar a luz − dizem os outros. − Para que se há de continuar a dar à luz?" E também eles são pregadores morte

"É preciso ser compassivo − dizem os terceiros − Recebei o que tenho.

Recebei o que sou! Assim me prendo menos à vida". Se fossem mesmo compassivos procurariam desgostar da vida o próximo. Serem maus, seria a verdadeira bondade.

Eles, porém, querem libertar−se da vida. Que lhes importa prender outros a ela mais estreitamente com as suas cadeias e as suas dádivas?

E vós também, vós que levais uma vida de inquietação e de trabalho furioso, não estais cansadíssimos da vida? Não estais bastante sazonados para a pregação da morte?

Vós todos que amais o trabalho furioso e tudo o que é rápido, novo, singular, suportai−vos mal a vós mesmos: a vossa atividade é fuga e desejo de vos esquecerdes de vós mesmos.

Se confiásseis mais na vida, não vos entregaríeis tanto ao momento corrente.

Mas não tendes fundo suficiente para esperar nem tão pouco para a preguiça.

Por toda parte ressoa a voz dos que pregam a morte, e a terra está cheia de seres a que é mister pregar a morte.

Ou "a vida eterna" – que para mim é o mesmo − contanto que se vão depressa.

Asim Falou Zaratustra.

Da Guerra e dos Guerreiros

"Não queremos que os nossos inimigos nos tratem com clemência, nem tão pouco aqueles a quem estimamos de coração. Deixai−me, portanto, dizer−vos a verdade! Irmãos na guerra! Amo−vos de todo o coração; eu sou e era vosso semelhante. Também sou vosso inimigo. Deixai−me, portanto, dizer−vos a verdade!

Conheço o ódio e a inveja do vosso coração. Não sois bastante grandes para não conhecer o ódio e a inveja. Sede, pois, grandes o suficiente para não vos envergonhardes disso!

E se não podeis ser os santos do conhecimento, sede ao menos os seus guerreiros. Eles são os companheiros e os precursores dessa entidade.

Vejo muitos soldados; oxalá possa ver muitos guerreiros. Chama−se "uniforme" o seu traje; não seja, porém, uniforme o que esse traje oculta! Vós deveis ser daqueles cujos olhos procuram sempre um inimigo, o vosso inimigo. Em alguns de vós se descobre o ódio à primeira vista.

Vós deveis procurar o vosso inimigo e fazer a vossa guerra, uma guerra por vossos pensamentos. E se o vosso pensamento sucumbe, a vossa lealdade, contudo, deve cantar vitória. Deveis amar a paz como um meio de novas guerras, e mais a curta paz do que a prolongada.

(Parte 4 de 5)

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