nietzsche assim falou zaratustra

nietzsche assim falou zaratustra

(Parte 5 de 5)

Não vos aconselho o trabalho, mas a luta. Não vos aconselho a paz, mas a vitória. Seja o vosso trabalho uma luta! Seja vossa paz uma vitória!

Não é possível estar calado e permanecer tranqüilo senão quando se têm flechas no arco; a não ser assim, questiona−se. Seja a vossa paz uma vitória!

Dizeis que a boa causa é a que santifica também a guerra? Eu vos digo: a boa guerra é a que santifica todas as coisas.

A guerra e o valor têm feito mais coisas grandes do que o amor do próximo. Não foi a vossa piedade mas a vossa bravura que até hoje salvou os náufragos.

Que é bom? − perguntais. –Ser valente. Deixai as raparigas dizerem: "Bom é o bonito e o meigo".

Chamam−vos gente sem coração; mas o vosso coração é sincero, e a mim agrada−me o pudor da vossa cordialidade. Envergonhai−vos do vosso fluxo; e os outros se envergonham do seu refluxo. Sois feios? Pois bem, meus irmãos; envolvei−vos no sublime. o manto da fealdade.

Quando a vossa alma cresce. torna−se arrogante, e há maldade na vossa elevação. Conheço−vos.

Na maldade, o arrogante encontra−se com o fraco, mas não se compreendem. Conheço−vos.

Só deveis ter inimigos para os odiar, e não para os desprezar. Deveis sentir−vos orgulhosos do vosso inimigo; então os triunfos dele serão também triunfos vossos. A revolta é a nobreza do escravo. Seja a obediência a vossa nobreza. Seja a obediência o vosso próprio mandato! Para o verdadeiro homem de guerra soa mais agradavelmente "tu deves" do que "eu quero". E vós deveis procurar ordenar tudo o que quiserdes. Seja o vosso amor à vida amor às mais elevadas esperanças, e que a vossa mais elevada esperança seja o mais alto pensamento da vida.

E o vosso mais alto pensamento deveis ouvi−lo de mim, e é este: o homem deve ser superado.

Vivei assim a vossa vida de obediência e de guerra. Que importa o andamento da vida! Que guerreiro quererá poupar−se?

Eu não uso de branduras convosco, amo−vos de todo o coração, irmãos na guerra!"

Assim falou Zaratustra.

Do Novo Ídolo

"Ainda em algumas partes há povos e rebanhos; mas entre nós, irmãos, entre nós há Estados.

Estados? Que é isso? Vamos! Abri os ouvidos, porque vos vou falar da morte dos povos.

Estado chama−se o mais fraco de todos os monstros. Mente também friamente, e eis que mentira rasteira sai da sua boca: "Eu, o Estado, sou o Povo".

É uma mentira!

Os que criaram os povos e suspenderam sobre eles uma fé e um amor, esses eram criadores: serviam a vida.

Os que armam ciladas ao maior número e chamam a isso um Estado são destruidores; suspendem sobre si uma espada e mil apetites.

Onde há ainda povo não se compreende o Estado que é odiado como uma transgressão aos costumes e às leis.

Eu vos dou este sinal: cada povo fala uma língua do bem e do mal, que o vizinho não entende. Inventou sua própria língua para os seus costumes e as suas leis.

Mas o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal, e em tudo quanto diz mente, tudo quanto tem roubou−o.

Tudo nele é falso; morde com dentes roubados. Até as suas entranhas são falsas.

Uma confusão das línguas do bem e do mal: é este o sinal do Estado. Na verdade, o que este sinal indica é a vontade da morte; está chamando os pregadores da morte.

Nascem homens demais; para os supérfluos inventou−se o Estado! Vede como ele atrai os supérfluos! Como os engole, como os mastiga e remastiga!

"Na terra nada há maior do que eu; eu sou o dedo ordenador de Deus"− assim grita o monstro. E não são só os que têm orelhas compridas e vista curta que caem de joelhos! Ai, também em vossas almas grandes murmuram as suas sombrias mentiras! Eles conhecem os corações ricos que gostam de se prodigalizar!

Sim; adivinha−vos a vós também, vencedores do antigo Deus. Saístes derrotados do combate, e agora a vossa fadiga ainda serve ao novo ídolo!

Ele queria rodear−se de heróis e homens respeitáveis. A este frio monstro agrada acalentar−se ao sol da pura consciência.

A vós quer ele dar tudo, se adorardes. Assim compra o brilho da vossa virtude e o altivo olhar dos vossos olhos.

Convosco quer atrair os supérfluos! Sim; inventou com isso uma artimanha infernal, um corcel de morte, ajaezado com adorno brilhante das honras divinas.

Inventou para o grande número uma morte que se preza de ser vida, uma servidão à medida do desejo de todos os pregadores da morte.

O Estado é onde todos bebem veneno, os bons e os maus; onde todos se perdem a si mesmos, os bons e os maus; onde o lento suicídio de todos se chama "a vida".

Vede, pois, esses supérfluos! Roubam as obras dos inventores e os tesouros dos sábios; chamam a civilização ao seu latrocínio, e tudo para eles são doenças e contratempo.

Vede, pois, esses supérfluos. Estão sempre doentes; expelindo bílis, e a isso chamam periódicos. Devoram−se e nem sequer se podem dirigir.

Vede, pois, eles adquirem riquezas, e fazem−se mais pobres. Querem o poder, esses incompetentes, e primeiro de tudo o palanquim do poder: muito dinheiro!

Vede trepar esses ágeis macacos! Pulam uns sobre os outros e arrastam−se para o lodo e para o abismo.

Todos querem abeirar−se do trono; é a sua loucura − como se a felicidade estivesse no trono! − Freqüentemente também o trono está no lodo.

Para mim todos eles são doidos e macacos trepadores e buliçosos. O seu ídolo, esse frio monstro, cheira mal; todos eles, esses idólatras, cheiram mal.

Meus irmãos, quereis por agora afogar−vos na exalação de suas bocas e de seus apetites? Antes disso arrancai as janelas e salta para o ar livre!

Evitai o mau cheiro! Afastai−vos da idolatria dos supérfluos.

Evitai o mau cheiro! Afastai−vos do fumo desses sacrifícios humanos!

Ainda agora o mundo é livre a almas grandes. Para os que yivem solitários ou aos pares ainda há muitos lugares vagos onde se aspira a fragrância dos mares silenciosos.

Ainda têm franca uma vida livre as almas grandes. Na verdade, quem pouco possui tanto menos é possuído. Bendita seja a nobreza!

Além onde acaba o Estado começa o homem que não é supérfluo; começa o canto dos que são necessários, a melodia única e insubstituível.

Além, onde acaba o Estado... olhai, meus irmãos! Não vedes o arco−íris e a ponte do Super−homem?"

Assim falou Zaratustra.

Das Moscas da Praça Pública

"Foge, meu amigo, para o teu isolamento! Vejo−te aturdido pelo ruído dos grandes homens e crivado pelos ferrões dos pequenos. Dignamente sabem calar−se contigo os bosques e os penedos. Assemelha−te de novo à tua arvore querida, a árvore de forte ramagem que escuta silenciosa, pendida para o mar.

Onde cessa a solidão principia a praça pública, onde principia a praça pública começa também o ruído dos grandes cômicos e o Zumbido das moscas venenosas. No mundo as melhores coisas nada valem sem alguém que as represente; o povo chama a esses representantes grandes homens.

O mundo compreende mal o que é grande, isto é, o que cria; mas tem um sentido para todos os representantes e cômicos das grandes coisas.

O mundo gira em torno dos inventores de valores novos; gira invisivelmente; mas em torno do mundo giram o povo e a glória: assim "anda o mundo".

O cômico tem espírito, mas pouca consciência do espírito. Confia sempre naquilo pelo qual faz crer mais energicamente − crer em si mesmo.

Amanhã tem uma fé nova, e depois de amanhã outra mais nova. Possui sentidos rápidos como o povo, e temperaturas variáveis.

Derribar: chama a isto demonstrar. Enlouquecer: chama a isto convencer. E o sangue é para ele o melhor de todos os argumentos.

Chama mentira e nada a uma verdade que só penetra em ouvidos apurados. Verdadeiramente só crê em deuses que façam muito ruído no mundo.

A praça pública está cheia de truões ensurdecedores, e o povo vangloria−se dos seus grandes homens. São para eles os senhores do momento.

O momento oprime−o e eles oprimem−te a ti, exigem−te um sim ou não. Desgraçado! Queres colocar−te entre um pró e um contra? Não invejes esses espíritos opressores e absolutos, ó amante da verdade! Nunca a verdade pendeu do braço de um espírito absoluto.

Torna ao teu asilo, longe dessa gente tumultuosa; só na praça pública assediam uma pessoa com o 'sim ou não'?

As fontes profundas precisam esperar muito para saber o que caiu na sua profundidade.

Tudo quanto é grande passa longe da praça pública e da glória. Longe da praça pública e da glória viveram sempre os inventores de valores novos. Foge, meu amigo, para a soledade; vejo−te aqui aguilhoado por moscas venenosas.

Foge para onde sopre um vento rijo.

Foge para o teu retiro. Viverás próximo demais dos pequenos mesquinhos. Foge da sua vingança invisível! Para ti não mais que vingança.

Não levantes mais o braço contra eles!

São inumeráveis, e o teu destino não é ser enxota−moscas!

São inumeráveis esses pequeninos e mesquinhos; e altivos edifícios se têm visto destruídos por gotas de chuva e ervas ruins.

Não és uma pedra, mas já te fenderam infinitas gotas. Infinitas gotas continuarão a fender−te a quebrar−te. Vejo−te cansado das moscas venenosas, vejo−te arranhado e ensangüentado, e o teu orgulho nem uma só vez se quer encolerizar.

Elas desejariam o teu sangue com a maior inocência; as suas almas anêmicas reclamam sangue e picam com a maior inocência.

Mas tu, que és profundo, sentias profundamente até as pequenas feridas, e antes da cura já passeava outra vez pela tua mão o mesmo inseto venenoso.

Pareces−me altivo demais para matar esses glutões; mas repara, não venha a ser destino teu suportar toda a sua venenosa injustiça!

Também zumbem à tua roda com os seus louvores. Importunidades: eis os seus louvores. Querem estar perto da tua pele e do teu sangue.

Adulam−te como um deus ou um diabo! Choramingam diante de ti como de um deus ou de um diabo. Que importa?

São aduladores e choramingas, nada mais.

Também sucede fazerem−se amáveis contigo; mas foi sempre essa a astúcia dos covardes.

É verdade; os covardes são astutos!

Pensam muito em ti com a alma mesquinha. Desconfiam sempre de ti. Tudo o que dá muito que pensar se torna suspeito.

Castigam−te pelas tuas virtudes todas. Só perdoam de verdade os teus erros.

Como és benévolo e justo, dizes: "Não têm culpa da pequenez da sua existência". Mas a sua alma tímida pensa: "Toda a grande existência é culpada".

Mesmo que sejas atencioso com eles, ainda se consideram desprezados por ti e pagam o teu benefício com ações dissimuladas.

O teu mudo orgulho contraria−os sempre, e alvorotam quando acertas em ser bastante modesto para ser vaidoso.

O que reconhecemos num homem infamamos−lhe também nele. Livra−te, portanto, dos pequenos. Na tua presença sentem−se pequenos, e sua baixeza arde em invisível vingança contra ti.

Não percebeste como costumávamos emudecer quando te aproximava deles, e como as forças os abandonavam tal como a fumaça que se extingue?

Sim, meu amigo; és a consciência roedora dos teus próximos, porque não são dignos de ti. Por isso te odeiam e quereriam Sugar−te o sangue.

Os teus próximos hão de ser Sempre moscas venenosas. E o que é grande em ti deve precisamente torná−los mais venenosos e mais semelhantes às moscas.

Foge, meu amigo, para a tua solidão, para alem onde sopre vento rijo e forte. Não é destino teu ser enxota−moscas"

Assim falou Zaratustra.

Da Castidade

"Amo o bosque. É difícil viver nas cidades; nelas abundam fogosos demais.

Não vale mais cair nas mãos de um assassino do que nos sonhos de uma mulher ardente?

Se não, olhai para esses homens; os seus olhos o dizem; nada melhor conhecem na terra do que deitar−se com uma mulher.

Têm lodo no fundo da alma; e coitados deles se o seu lodo possui inteligência!

Se ao menos fôsseis animais completos!

Mas para ser animal é preciso inocência.

Será isto aconselhar−vos a que mateis os vossos sentidos? Aconselho−vos a inocência dos sentidos.

Será isto aconselhar−vos a castidade?

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