SOBREVIVÊNCIA E CRESCIMENTO DOS CAMARÕES MARINHOS DA FAMILIA PENEIDAE TESTADOS EM DIFERENTES SALINIDADES uma revisão bibliográfica FINALIZADA

SOBREVIVÊNCIA E CRESCIMENTO DOS CAMARÕES MARINHOS DA FAMILIA PENEIDAE TESTADOS EM...

(Parte 4 de 5)

    1. Escolha da espécie

As populações naturais de muitas espécies de camarões peneídeos da costa da América do Sul estão sofrendo uma forte pressão devido à pesca intensiva e à introdução de espécies exóticas para o cultivo. Dentre estas espécies, o camarão branco L. schmitti é o único pertencente ao gênero Litopenaeus que ocorre em águas brasileiras, podendo ser o primeiro a sofrer as consequências da rápida expansão da cultura de L. vannamei devido às suas semelhanças morfológicas e ecológicas com esta espécie. (LUVESUTO et al., 2005)

O camarão branco L. schmitti é um importante recurso pesqueiro, e está entre as principais espécies da pesca extrativista marinha (IBAMA, 2007). Entretanto, SANTOS (2007), ao estudar a pesca da espécie na Baixada Santista, São Paulo, observou a pressão de pesca agindo fortemente sobre os juvenis. Este mesmo problema foi relatado por OSHIRO et al. (2005), na Baía de Sepetiba, Rio de Janeiro, onde jovens de L. schmitti, são capturados, mantidos vivos e comercializados como isca viva para pescadores amadores e turistas. A captura muito intensa nessa fase de vida pode levar ao comprometimento do recrutamento da espécie, e consequentemente à redução dos estoques naturais no futuro.

Não existe uma regulamentação específica para pesca de L. schmitti, pois essa espécie geralmente é capturada por frotas direcionadas para a pesca do camarão sete-barbas Xiphopenaeus kroyeri (Heller, 1862).

O camarão branco apresenta características relacionadas à sua distribuição e ao seu ciclo de vida que podem influenciar a estruturação das populações desta espécie. Além da necessidade do estabelecimento de defeso, que realmente é um instrumento de proteção do recurso pesqueiro, levando em consideração o seu ciclo de vida nas diferentes regiões brasileiras, L. schmitti é potencialmente importante para a criação da espécie em cativeiro, para fins comerciais e o repovoamento de populações naturais.

Litopenaeus schmitti não tem recebido muita atenção como as outras espécies de camarão marinho como Litopenaeus vannamei (Boone, 1931) e Penaeus monodon (Fabricius, 1798), existindo poucas informações na literatura a respeito do crescimento da espécie em cativeiro. Portanto, são necessários estudos que possam fornecer informações, que possibilitem o estabelecimento da criação comercial da espécie no Brasil, além de possibilitar o repovoamento das populações naturais.

O objetivo do presente estudo de caso foi verificar o crescimento, através de índices zootécnicos e a sobrevivência dos juvenis de L. schmitti criado em diferentes salinidades. Os resultados obtidos podem fornecer informações que permitam entender a influência desses fatores sobre a produção dessa espécie.

    1. Local da Coleta

O município da Raposa está situado um pouco mais de 30 km de São Luís, capital do estado do Maranhão, num segmento da Costa Maranhense, tendo uma extensão de um quilômetro, mais ou menos (ver Figura 7). Desenvolve-se entre a praia de Carimã, a Leste, e a do Cocal, a Oeste, assumindo uma direção geral Nordeste-Sudoeste, em frente à Ilha de Curupu. Seus limites territoriais são: Ao Norte com o Oceano Atlântico; a Leste, a Oeste e ao Sul com o município de Paço do Lumiar (SANTOS et al., 2011). A coleta ocorreu um pouco antes da Praia da Raposa, em um trecho conhecido como Pucal (ver Figura 8).

Figura 7: Ponto de coleta

Fonte: Antunes Ramos, Q. F. (2008).

Figura 8: Praia do Pucal (Lat. 02°25’27’’S e 44°08’84’’W)

Fonte: © Google Earth, 2012.

    1. Metodologia

      1. Captura e transporte

O método da coleta foi realizado através de rede de arrasto de 5 metros (ver Figura 9), com malha miúda e funil, em pontos sem grandes mudanças na profundidade, próximo às margens e preferencialmente na baixa-mar em marés de sizígia. Foram feitas duas coletas com total sobrevivência dos indivíduos.

Figura 9. Coleta do L. schmitti.

Após a coleta, os camarões, foram acondicionados em caixas de isopor e caixas de polipropileno, com asas ergonômicas, sistema de duplo fecho, com tamanho de 30 L (530 x 396 x 159 mm), com água local e aerador portátil, tendo sido transportados por via terrestre até o laboratório da Universidade Federal do Maranhão – onde foi realizado todo o experimento.

      1. Procedimentos em laboratórios

Após a chegada dos indivíduos ao laboratório foi realizada a equiparação da temperatura da caixa e do tanque de recepção (salinidade 30), através da troca da água realizada lentamente. Após verificar que as temperaturas estavam similares, liberaram-se os animais.

Em seguida, foi iniciado o processo de aclimatação, adaptado de Santos (2009), diminuindo-se ou aumentando-se, gradativamente, a salinidade, em 5%/ 2 horas, até serem atingidas as salinidades desejadas.

A redução gradativa da salinidade foi realizada adotando o modelo de Santos et al. (2009), seguindo a seguinte fórmula matemática:

em que:

F = volume de água do tanque a ser renovado e substituído por água doce;

P nova = salinidade da água adicionada (água doce ou oligohalina);

P inicial = salinidade da água do tanque;

P final = salinidade final da água desejada.

Em cinco tanques de polietileno com volume total de 1000 L (ver Figura 10), foram distribuídos, em um delineamento inteiramente casualizado, cinco tratamentos (salinidades 35, 15, 10, 5 e 0,5) com duas repetições cada. Foi utilizada a densidade média de 10 indivíduos/tanque.

Para oxigenação da água, em cada unidade experimental dispuseram-se mangueiras com pedras porosas acopladas em sopradores de ar.

Figura 10. Tanques de polietileno de 1000 L, utilizados para os tratamentos.

Os camarões foram alimentados com filés de peixes que eram armazenados no Laboratório de Maricultura, ofertadas ad libitum, tentando evitar a disputa por alimento.

As variáveis, pH, oxigênio dissolvido (OD) e temperatura, foram monitoradas semanalmente, com auxílio de um sensor multiparamétrico, sendo determinadas no Laboratório de Maricultura do Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFMA.

Realizava-se a sifonagem das sobras dos alimentos e de outras partículas orgânicas, diariamente e, posteriormente, era realizada a reposição da quantidade de água retirada de cada unidade experimental.

Procederam-se às biometrias (peso e comprimento total) no início e no final do experimento. Para a pesagem, empregou-se balança digital com precisão de 0,001g e para a determinação do comprimento total utilizou-se paquímetro de aço inoxidável com precisão de 0,05 mm (ver Figura 11).

Figura 11. Medida do camarão com o paquímetro.

A taxa de sobrevivência foi avaliada ao final do experimento, tendo sido observado o número de camarões restante em cada tratamento e comparado com o número inicial de camarões. Em seguida, aplicou-se uma regra de três simples para medir a taxa de sobrevivência final.

      1. Resultados e discussão

  • Fatores físico-químicos da água.

Os valores dos parâmetros adequados em relação aos fatores abióticos no cultivo de camarões peneídeos exibem variações entre as espécies e fases de vida dos camarões. Mas, por falta de informações quanto ao L. schmitti, os níveis considerados ideias para o L. vannamei foram utilizados para comparação com os níveis encontrados no presente trabalho, como a concentração mínima de 4,0 mg/L de oxigênio dissolvido (OD); pH entre 7,5 e 9,0; temperatura entre 24 e 30º C. (BARBIERI JÚNIOR & OSTRENSKY NETO, 2002).

Portanto, os parâmetros de qualidade dos fatores abióticos monitorados exibiram mínimas alterações entre os tratamentos (Tabela 1).

Verificou-se que os valores máximos foram similares entre si, do mesmo modo como os valores mínimos. Dessa maneira, acredita-se que os parâmetros de qualidade da água não interferiram no desenvolvimento dos camarões.

Tabela 1. Valores máximos (Mx), médios (Me), mínimos (Mn) e desvio padrão (DP) para as variáveis físico-químicas da água no cultivo do L. schmitti.

Salinidades/Parâmetros

pH

Temperatura (ºC)

O2D (mg/L)

Mx

Me

Mn

Mx

Me

Mn

Mx

Me

Mn

35

8,87

8,07

7,54

28,17

26,5

24,33

8,98

7,96

6,98

DP

0,41

1,51

0,73

15

8,38

7,94

7,68

28,9

26,93

24,54

8,2

7,71

6,43

DP

0,24

1,47

0,56

10

8,8

8,09

7,54

28,95

26,82

24,72

8,75

7,9

6,68

DP

0,45

1,5

0,71

5

8,77

8,1

7,73

28,4

27,27

24,78

8,54

7,76

6,9

DP

0,35

1,13

0,65

0,5

8,83

8

7,64

28,34

26,86

24,9

8,94

7,92

6,26

DP

0,39

1,45

0,78

Santos et al. (2002) cultivando Litopenaeus vannamei em água doce, alimentados com dietas naturais, observaram valores mínimos e máximos para pH e temperatura variando entre 7,91 e 8,75 e 26,3ºC e 28ºC, sendo as médias de 8,56 e 27,2ºC respectivamente. Posteriormente Santos et al. (2009) avaliando o crescimento e sobrevivência do camarão marinho L. vannamei em diferente salinidades, observaram valores mínimos e máximos para pH e temperatura variando entre 6,99 e 8,30 e 24,8ºC e 28,6ºC, sendo as médias de 7,67 e 27,1ºC, respectivamente. Ferreira (2009), produzindo juvenis de L. vannamei com diferentes densidades de estocagem em baixa salinidade encontrou variáveis de qualidade de pH mínimo de 7,01 e máximo de 8,50 e temperatura oscilando de 25,4ºC para o menor valor e 29,1ºC para o maior valor. Fugimura (2009) apresentou temperaturas mínimas e máximas de 24,2º C e 26º C, respectivamente e média de pH de 7,59.

O oxigênio dissolvido (OD) para Santos et al. (2009) oscilou entre 7,4 e 8,2 mg/L, sendo sua média 7,88 mg/L. Ferreira (2009) exibe valores de OD entre 4,9 mg/L a 8,1 mg/L. E Fugimura (2009) relatou média de OD de 6,98 mg/L.

Dessa forma, constatou-se que as variáveis de pH, temperatura e OD permaneceram dentro das faixas consideradas ideais para o cultivo de peneídeos.

  • Índices zootécnicos

No que se refere aos resultados de peso final, comprimento total final, incremento em peso, incremento em comprimento e sobrevivência, o tratamento com salinidade 10 apresenta um menor valor para o incremento em peso e o tratamento 0,5 apresenta um maior valor para o incremento em comprimento, como podemos observar na tabela 2 a seguir.

Tabela 2. Valores médios gerais (± desvio padrão) dos índices de desempenho do Litopenaeus schmitti.

Índices/ Salinidades

35

15

10

5

0,5

Comprimento inicial

5,85±0,99

6,18±0,78

5,82±1,10

5,83±0,72

5,95±0,94

Peso inicial

2,27±0,65

2,36±0,6

2,57±,53

2,21±0,55

2,31±0,55

Comprimento final(cm)

7,47±1,10

7,59±0,82

7,29±1,41

7,47±0,86

7,67±1,26

Peso final(g)

3,3±0,77

3,48±0,50

3,16±0,50

3,75±0,86

3,62±0,68

Incremento em peso (g)

1,08

1,12

0,68

1,52

1,33

Incremento em comprimento (cm)

1,49

1,40

1,30

1,59

1,65

Sobrevivência (%)

75

70

60

75

75

Os indivíduos com a salinidade 15 e 0,5 tiveram os melhores índices de comprimento finais. Os melhores valores de peso final, incremento em peso e incremento em comprimento foram registrados nas salinidades 5 e 0,5. O tratamento com a salinidade 10 exibiu os menores valores para todos os parâmetros finais. As taxas de mortalidades foram similares para todos os tratamentos, exceto na salinidade 10, sugerindo que estes camarões, estiveram em processo de muda deixando-os mais vulneráveis à manipulação durante a troca da água e devido a poucas repetições (o estudo teve apenas duas repetições).

Julga-se que o baixo desempenho dos tratamentos para a o índice de mortalidade ocorreu devido a grande variabilidade dos tamanhos dos indivíduos (Mn = 4,25 cm e Mx = 8,0 cm) capturados no meio ambiente e dispostos de uma forma casualizada nos tanques. Inerente a este fator, podemos citar o processo de ecdise, pois o ciclo de muda envolve um gasto de energia muito grande para o animal e provoca uma situação de extrema fragilidade, competição por alimentos e canibalismo – que tende a crescer em baixas salinidades segundo Silva, 2010 – entre os pré-adultos e os camarões menores capturados, durante o tempo em que o novo exoesqueleto ainda não estava duro. (CHANG, 1985).

Alguns estudos como o Dall et al. (1990) sugerem que o consumo energético é um fator correlacionado com o comportamento de enterramento. Então, a inclusão de substratos artificiais verticais ou horizontais nos tanques pode minimizar o efeito negativo do processo de ecdise na produção das espécies de camarões peneídeos. E apesar de L. schmitti raramente apresentar hábito de enterramento (PENN, 1984), a inclusão de substrato pode ser uma estratégia em condições adversas com objetivo de permitir um refúgio aos animais e então diminuir o estresse nessa situação. Lembrando que no presente estudo não houve inclusão deste artifício, outro influente para o baixo desempenho seria também a ausência de substratos, servindo de refúgios para os animais em momentos de alto estresse – como o processo de ecdise.

Também podemos justificar a alta taxa de mortalidade levando em consideração que pós-larvas de algumas espécies de camarões adaptam-se melhor à redução de salinidade que os adultos (ALBUQUERQUE, 2005). Então, acredita-se que por esse motivo, o tratamento com salinidade 10 tenha tido uma mortalidade maior, pois neste tratamento encontravam-se os indivíduos de maior comprimento e peso inicial e nenhum dos tratamentos foi realizado com pós-larvas.

Ao longo do estudo, foram observados e registrados diariamente os animais quanto à ocorrência de mudas, através das exúvias de cada tanque. Ao todo foram registrados 30 (trinta) mudas, sendo mais de 30% ocorridas no tratamento com salinidade 10.

      1. Considerações finais

Diante dos resultados pode-se concluir que o ganho de peso e a sobrevivência dos camarões juvenis da espécie L. schmitti foram afetados pela redução do parâmetro de salinidade analisado dentro das condições do estudo, indicando que esta espécie possivelmente, não pode ser cultivada a baixas salinidades (0,5). Porém, sabendo-se que níveis inadequados de minerais podem afetar as taxas de sobrevivência, sugere-se então, novos estudos para definir concentrações iônicas capazes de favorecer o crescimento dos camarões cultivados.

Durante o período de estudo, a qualidade da água (temperatura, pH e OD) permaneceu dentro dos parâmetros aceitáveis para o cultivo de peneídeos, não afetando assim o crescimento e sobrevivência dos organismos nos cinco tratamentos.

Um ponto fraco a ser observado foi a diversidade de tamanhos dos animais nos tanques e a falta de um local de abrigo para o momento de ecdise, que afetou a sobrevivência durante o processo de muda, provocando atividade alimentar mais intensa, e levando os indivíduos a competirem pelos alimentos e provocar uma situação de canibalismo. Então se recomenda também, que novos estudos ofereçam locais de refúgio para os indivíduos, tentando evitar, assim o canibalismo quando estes estiverem em processos de muda – levando em conta que em ambiente naturais, quando este processo está ocorrendo, os animais enterram-se no fundo do substrato.

  1. CONCLUSÃO

Após o desenvolvimento da presente monografia é possível apresentar as seguintes conclusões:

Diante do processo da crescente procura e comercialização de pescado, o setor da aquicultura no Brasil e no mundo sofreu as suas transformações, lançando mão de diversas técnicas e estudos propiciando o aumento da concorrência, melhor qualidade dos produtos e incremento e diversificação do mercado.

A carcinicultura demanda instalação e manutenção de tanques artificiais, monitoramento, por parte do produtor, dos parâmetros físicos e químicos do meio de cultivo e cuidados de atenção ao animal.

Por ser um crustáceo de grande interesse econômico, os resultados obtidos no presente estudo são de suma importância para uma melhor compreensão da biologia do camarão branco L. schmitti, uma vez que os trabalhos que envolvem essa espécie são escassos.

A salinidade, junto com outros fatores, é fundamental no desenvolvimento desta espécie, como visto em diversos estudos. Em essência, fica claro que a invasão da água doce pelos diferentes grupos de crustáceos que se originaram no mar e paulatinamente invadiram a água doce é um processo complexo que envolve não somente adaptações fisiológicas, mas também adaptações morfológicas, reprodutivas, ecológicas e comportamentais.

Estudos futuros da fisiologia osmorregulatória acrescida de estudos genéticos comparativos entre as diferentes populações do camarão L. schmiiti, por exemplo, poderá ajudar na compreensão da invasão da água doce por essa curiosa espécie.

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