Ecologia marinha

Ecologia marinha

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Afloramento costeiro ou "upwelling" e suas consequŒncias biológicas

Em certas Æreas e em condiçıes favorÆveis, os movimentos laterais das massas de Ægua induzidos pelo vento, podem ser responsÆveis pelo afloramento costeiro ou "upwelling". Ao longo das margens Este das bacias oceânicas, no HemisfØrio Norte e no HemisfØrio Sul, as correntes de superfície induzidas pelo vento que se desenvolvem paralelamente às massas continentais dirigem-se para o Equador. Por acçªo da força de Coriolis estas Æguas superficiais sªo deflectidas numa direcçªo perpendicular às margens. Estas sªo por sua vez substituídas por Æguas profundas que sªo transportadas em direcçªo à superfície. Estes fenómenos de afloramento costeiro ou "upwelling" (correntes ascendentes de Æguas frias e ricas em nutrientes) podem afectar sobremaneira a produçªo de uma Ærea costeira sendo numerosas as consequŒncias biológicas. Estima-se que cerca de 50% da produçªo piscícola mundial se efectua nestas zonas.

1.4- Geografia e geomorfologia dos oceanos Oceanos e mares (definiçªo e classificaçªo), Mares limítrofes, mediterrâneos, interiores e fechados

Apesar das principais bacias oceânicas se encontrarem em contacto, por uma questªo de conveniŒncia, dividiram-se os oceanos do globo em quatro Æreas distintas: os oceanos Pacífico, Atlântico, ˝ndico e `rtico (por ordem decrescente de dimensıes). Consideram-se ainda os mares, que relativamente aos oceanos apresentam uma menor superfície, menor profundidade, maior proximidade dos continentes e comunicaçıes entre si ou com os oceanos menos amplas e menos profundas. Os mares podem ser classificados em: (i) limítrofes (em geral mares epicontinentais, situados na margem dos continentes, na orla das grandes extensıes oceânicas) - mar da ArÆbia, mar de Bengala, mar do Norte (...); (i) mediterrâneos (situados no interior dos continentes efectuando-se a comunicaçªo com os oceanos por estreitos de pequena profundidade) - mar Mediterrâneo, mar Vermelho, mar das Caraíbas (...); (i) interiores (comunicam por um estreito apertado e pouco profundo com outro mar) - mar BÆltico, mar Negro; (iv) fechados (nªo comunicam nem com outros mares nem com os oceanos, o seu estudo Ø do domínio da Limnologia) - mar CÆspio. Os oceanos Pacífico, Indico e Atlântico convergem na Ærea do continente AntÆrtico que Ø deste modo circundado por um corpo de Ægua contíguo. Os oceanos nªo se encontram uniformemente distribuídos no globo. Cobrem cerca de 80% da Ærea do HemisfØrio Sul e somente 61% da Ærea do HemisfØrio Norte, onde se encontra a maior concentraçªo de massas continentais.

Principais acidentes topogrÆficos do fundo dos oceanos (curva hipsogrÆfica ou hipsobatimØtrica)

Nas margens das massas continentais os oceanos apresentam profundidades reduzidas. A plataforma continental (a extensªo imersa dos continentes) ocupa 7 a 8% da Ærea total dos oceanos. Esta apresenta uma extensªo muito variÆvel, desde cerca de 400km na costa do CanadÆ atØ alguns quilómetros na costa Oeste dos Estados Unidos da AmØrica. Esta plataforma estende-se desde a superfície das Æguas atØ uma profundidade mØdia de cerca de 200m. No limite da plataforma continental existe um acidente abrupto dos fundos marinhos, a vertente ou talude continental que se estende atØ uma profundidade mÆxima de 2500 a 3000m. Em profundidades superiores estende-se uma vasta Ærea plana e coberta de sedimentos de origem variada, a planície abissal que representa cerca de 92% elos oceanos. A planície abissal pode ser recortada por diversas ravinas abissais (longas e estreitas depressıes de paredes quase verticais) que se estendem desde o limite inferior da planície abissal (6000/6500m) atØ às maiores profundidades conhecidas (ca. 11000m). A planície abissal Ø recortada por cristas ou cordilheiras submarinas que foram detectadas em todos os oceanos. A crista mØdio-atlântica que bisecta o oceano Atlântico em duas bacias (Este e Oeste) estende-se ininterruptamente desde a Islândia atØ ao Atlântico Sul onde comunica com uma cordilheira idŒntica do oceano Pacífico. Ocasionalmente estas cristas oceânicas afloram à superfície formando ilhas vulcânicas como Ø o caso do arquipØlago dos Açores, Ascençªo e Tristªo da Cunha (...). Estas extensas cristas oceânicas marcam os limites das diversas placas tectónicas e sªo frequentemente locais de intensa actividade vulcânica.

1.5- Subdivisões do meio marinho Província nerítica e província oceânica, Organismos pelÆgicos e bentónicos, Domínios pelÆgico e bentónico

O meio marinho constitui o maior meio aquÆtico do planeta. Como tal torna-se necessÆrio sudividi-lo em diversas zonas tanto no domínio pelÆgico como no domínio bentónico. A província nerítica Ø constituída pelas massas de Ægua que ocorrem sobre os fundos da plataforma continental. A província oceânica inclui as restantes massas de Ægua oceânicas. Os organismos pelÆgicos vivem no seio das massas de Ægua sem dependerem do fundo para completar os seus ciclos vitais. O domínio pelÆgico Ø constituído pelas Æguas oceânicas longe das massas continentais. Os organismos bentónicos sªo aqueles cuja vida estÆ directamente relacionada com o fundo, quer vivam fixos, quer sejam livres. O domínio bentónico Ø constituído pelas regiıes adjacentes às comunidades bentónicas. Pode-se ainda considerar as províncias nerítica e oceânica.

Zonaçªo vertical do domínio pelÆgico relativamente à penetraçªo das radiaçıes luminosas (zona eufótica, oligofótica e afótica)

7 Verticalmente o domínio pelÆgico pode ser subdividido em diversas zonas. Se se considerar a penetraçªo das radiaçıes luminosas distinguem-se a zona eufótica ou fótica, a zona oligofótica ou crepuscular e a zona afótica ou disfótica. A zona eufótica estende-se desde a superfície das Æguas atØ à profundidade de compensaçªo (nível em que a produçªo de oxigØnio atravØs do processo fotossintØtico contrabalança exactamente o oxigØnio absorvido pela respiraçªo e outros processos metabólicos) dos vegetais fotoautotróficos. A profundidade de compensaçªo Ø muito variÆvel de regiªo para regiªo podendo atingir valores extremos próximos de 200m (profundidade mØdia 50m). A zona oligofótica Ø limitada superiormente pela profundidade de compensaçªo e inferiormente pela profundidade mÆxima à qual a visªo humana tem percepçªo da luz quando o sol se encontra no ponto mÆximo da sua trajectória aparente (valor mØdio 500m, varia entre 300 e 600m). A zona afótica estende-se para baixo da zona oligofótica e corresponde à zona de obscuridade total.

Zonaçªo do domínio pelÆgico (comunidades pelÆgicas planctónicas e nectónicas)- zona epipelÆgica, mesopelÆgica, batipelÆgica, abissopelÆgica e hadopelÆgica

O domínio pelÆgico pode ainda ser subdividido em diversas zonas se se considerar as comunidades pelÆgicas (planctónicas e nectónicas). A zona epipelÆgica corresponde à zona eufótica sendo limitada inferiormente pela profundidade de compensaçªo. É a zona onde se encontram os vegetais fotoautotróficos (0-50m). A zona mesopelÆgica Ø limitada inferiormente pela isotØrmica dos 10 ”C (700/1000m). A zona batipelÆgica estende-se atØ à isotØrmica dos 4 ”C (2000/4000m). A zona abissopelÆgica corresponde às Æguas oceânicas que se estendem sobre os fundos da grande planície abissal (limite inferior 6000/6500m). Finalmente a zona hadopelÆgica ocorre sobre os fundos das ravinas hadais (entre os 6000 e os 11000m).

Zonaçªo do domínio bentónico (sistema litoral e sistema profundo)

O domínio bentónico pode ser subdividido em diversas regiıes ou andares (espaço vertical do domínio bentónico marinho, onde as condiçıes ecológicas, funçªo da situaçªo relativamente ao nível mØdio das Æguas, sªo sensivelmente constantes ou variam regularmente entre dois níveis que marcam os seus limites). VÆrios sªo os sistemas de zonaçªo propostos para o domínio bentónico. Todos eles baseiam-se na composiçªo e modificaçªo das comunidades bentónicas e nunca em factores físicos ou químicos. PØrŁs propôs em 1961 uma zonaçªo do domínio bentónico que agrupa os diversos andares em dois sistemas distintos: (i) o sistema litoral ou fital e (i) o sistema profundo ou afital. O sistema litoral ou fital engloba os andares em que ocorrem vegetais fotoautotróficos (andares supralitoral, mØdiolitoral, infralitoral e circalitoral) ao contrÆrio do sistema profundo ou afital onde se incluem os restantes andares do domínio bentónico (andares batial, abissal e hadal). Outros sistemas de zonaçªo. Exemplos.

Andares supralitoral, mØolitoral, circalitoral, batial, abissal e hadal

O andar supralitoral Ø caracterizado pelas comunidades bentónicas que suportam ou exigem uma emersªo contínua. Apenas excepcionalmente sofrem uma imersªo. Estªo sujeitas à acçªo da humectaçªo. O andar mØdiolitoral Ø composto pelas comunidades que suportam ou exigem emersıes e imersıes periódicas. Constituem a maioria das comunidades intermareais. O andar infralitoral Ø composto por comunidades sempre imersas ou raramente emersas (nível superior). O seu limite inferior Ø conferido pela profundidade compatível com a vida das algas fotófilas ou zosterÆceas (15/20m - latitudes elevadas, 30/40m Mediterrâneo, 24m costa de Portugal). O andar circalitoral estende-se desde o limite inferior do andar infralitoral atØ ao nível compatível com a presença de algas ciÆfilas (algas que toleram luminosidades muito atenuadas). Estende-se por vezes atØ à extremidade da plataforma continental (150/200m). O andar batial engloba as comunidades da vertente ou talude continental (limite inferior 2500/3000m). O andar abissal Ø caracterizado pelas comunidades da planície abissal e por vezes pela parte inferior da vertente continental. (limite inferior 6000/6500m). O andar hadal engloba as comunidades das ravinas hadais, extendendo-se atØ uma profundidade mÆxima de cerca de 11000m.

1.6- O meio estuarino Definiçªo de estuÆrio

A palavra estuÆrio Ø originÆria do latim aestuarium. Muitas definiçıes tŒm sido propostas para os estuÆrios. Um estuÆrio pode ser definido como "um corpo de Ægua semi-fechado que possui uma conecçªo com o mar e em que a Ægua salgada se dilue de um modo mensurÆvel com a Ægua doce proveniente da drenagem continental". Esta definiçªo exclui diversos tipos de estuÆrios, nomeadamente os que sªo temporariamente isolados do mar durante a estaçªo seca e os estuÆrios hipersalinos, entre outros. Mais recentemente Day em

1981 define um estuÆrio como: "Um corpo de Ægua que se encontra permanentemente ou periodicamente aberto ao mar e no seio do qual existe uma variaçªo mensurÆvel da salinidade devido à mistura de Ægua salgada com Ægua doce proveniente da drenagem terrestre". Em termos genØricos um estuÆrio Ø portanto uma regiªo de interface entre um rio e o oceano. Este conceito implica o estabelecimento e a realizaçªo de importantes e complexas interacçıes entre os dois meios postos em contacto.

Classificaçªo dos estuÆrios

Existem numerosos tipos de estuÆrios com características variadas. Os Físicos, Químicos, Geólogos e Biólogos classificaram os estuÆrios de modo variado. Os estuÆrios em trŒs principais categorias: (i) estuÆrios típicos ou normais; (i) estuÆrios hipersalinos e (ii) estuÆrios fechados.

EstuÆrios típicos ou normais (em cunha salina, altamente estratificados, parcialmente estratificados e verticalmente homogØneos)

A maioria dos estuÆrios sªo do tipo normal ou positivo, isto Ø a salinidade aumenta de montante para jusante. Existe ainda uma nítida tendŒncia para a circulaçªo preponderante se realizar em direcçªo ao mar ao longo de um ciclo de marØ completo. Os estuÆrios típicos ou normais podem ser subdivididos em quatro categorias de acordo com o grau de estratificaçªo salina das suas Æguas: (i) estuÆrios em cunha salina- estuÆrios típicos ou normais em que existe uma corrente de Ægua salgada junto ao fundo e uma corrente de Ægua doce à superfície, nªo havendo mistura entre as duas, estas condiçıes sªo raramente satisfeitas, com a possível excepçªo de alguns fiordes; (i) estuÆrios altamente estratificados- estuÆrios típicos ou normais em que existe uma corrente de Ægua salgada junto ao fundo, uma corrente de Ægua doce à superfície e entre estas uma camada de Ægua com características intermØdias separada por haloclinas marcadas, a maioria dos fiordes pertence a esta categoria; (i) estuÆrios parcialmente estratificados- estuÆrios típicos ou normais em que o gradiente salino vertical apresenta graus variados de mistura ou estratificaçªo entre as camadas de Ægua superficial e de fundo que exibem sentidos opostos de direcçªo da corrente, a maioria dos estuÆrios pertence a esta categoria (Exemplos: EstuÆrios do Tamisa, Sena, Tejo, Hudson, Chesapeake); (iv) estuÆrios verticalmente homogØneos- estuÆrios típicos ou normais em que a salinidade decresce de jusante para montante sem existir um gradiente vertical de estratificaçªo das Æguas, esta inexistŒncia de um gradiente vertical salino Ø devida à mistura que ocorre nos estuÆrios pouco profundos sob a influŒncia de fortes correntes provocadas pela marØ.

EstuÆrios hipersalinos

EstuÆrios que possuem um gradiente salino invertido ou negativo, isto Ø a salinidade aumenta de jusante para montante. Nas regiıes interiores destes estuÆrios o nível mØdio das Æguas Ø menos elevado relativamente à Ægua do mar e o fluxo das Æguas Ø predominantemente de jusante para montante ou seja no sentido da nascente.

EstuÆrios fechados

EstuÆrios temporariamente fechados por uma barra de areia que se deposita na sua embocadura. A amplitude de marØ, durante este período Ø nula, e as correntes de marØ inexistentes. A circulaçªo Ø dependente da corrente Ægua doce residual e da acçªo dos ventos sobre a superfície das Æguas. A salinidade pode variar e o estuÆrio pode tornar-se hipersalino ou hiposalino. A variaçªo da salinidade estÆ sobretudo relacionada com a evaporaçªo e a passagem por difusªo atravØs da barra de areia por um lado e com o caudal fluvial e precipitaçªo por outro.

Divisªo dos estuÆrios em funçªo da salinidade das Æguas

As definiçıes de estuÆrio mais aceites baseiam-se nos padrıes de variaçªo da salinidade. Um estuÆrio pode ser considerado como uma regiªo de mistura de massas de Ægua de salinidade diferente. Os factores dominantes, no que diz respeito à distribuiçªo de salinidades e padrıes de circulaçªo nos estuÆrios sªo a geomorfologia, o fluxo de Ægua doce e a amplitude das marØs. O fenómeno de diluiçªo de Ægua marinha em Ægua doce, aos quais correspondem gradientes de densidade, determina em grande medida os padrıes de estratificaçªo vertical e o sistemas de circulaçªo estuarina. O balanço hidrológico, considerado em termos da importância relativa do caudal fluvial e do prisma de marØ (definido como o volume de Ægua movimentado entre a preia-mar e a baixa-mar) permite avaliar a importância da circulaçªo estuarina. A salinidade tem uma importância preponderante na distribuiçªo dos organismos (vegetais e animais) que se encontram nos estuÆrios e que vivem na massa de Ægua. É no entanto muito menos importante para os organismos que se encontram no interior dos sedimentos. A variaçªo da salinidade intersticial (salinidade da Ægua existente nos interstícios do sedimento) Ø consideravelmente mais reduzida relativamente aos limites de variaçªo da salinidade nas massas de Ægua.

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