Ecologia marinha

Ecologia marinha

(Parte 3 de 14)

Classificaçªo das Æguas salobras

É possível dividir os estuÆrios em diversas regiıes (zonas) tendo em consideraçªo a salinidade das Æguas: zona hipersalina (>40 ); zona euhalina (40-30 ); zona mixohalina (40/30-0,5 ); zona mixo-halina (>30 ); zona polihalina (30-18 ); zona mesohalina (18-5 ); zona oligohalina (5-0,5 ); zona limnØtica (<0,5 ).

Organismos oligohalinos, verdadeiramente estuarinos, marinhos eurihalinos, marinhos estenohalinos e migradores

Paralelamente pode estabelecer-se um sistema de classificaçªo dos elementos florísticos e faunísticos estuarinos em funçªo da gama de salinidades por eles ocupadas: (i) organismos oligohalinos- constituem a maioria dos organismos que ocorrem nos rios e noutros corpos de Ægua doce, nªo toleram salinidades superiores a 0,5 , mas algumas espØcies podem sobreviver em Æguas com uma salinidade nªo superior a 5 ; (i) organismos verdadeiramente estuarinos- organismos geralmente com afinidades marinhas, mas ocorrendo na regiªo intermØdia do estuÆrio, aparentemente excluídos do meio marinho devido a competiçªo biológica ou fenómenos de natureza física (e.g. hidrodinamismo), ocorrem geralmente em Æguas cujas salinidades variam entre 5 e 18 ; (i) organismos marinhos eurihalinos- constituem a maioria dos organismos que ocorrem nos estuÆrios, distribuem-se desde a embocadura atØ às regiıes intermØdias do estuÆrio, subsistem em Æguas cujas salinidades nªo ultrapassam os 18 , raramente penetram na secçªo superior do estuÆrio onde as salinidades sªo da ordem dos 5 ; (iv) organismos marinhos estenohalinos- organismos marinhos que ocorrem na embocadura dos estuÆrios, só eventualmente penetram nas secçıes intermØdias, subsistem atØ salinidades da ordem dos 25 e (v) organismos migradores- espØcies pelÆgicas que completam parte do seu ciclo vital nos estuÆrios ou que os utilizam meramente como via de comunicaçªo entre o rio e o mar ou entre o mar e o rio (migradores catÆdromes e migradores anÆdromes respectivamente).

Temperatura, marØs e circulaçªo das massas de Ægua

A temperatura das Æguas estuarinas Ø muito variÆvel devido sobretudo à mistura de massas de Ægua com características físico-químicas diferentes e à ocorrŒncia de zonas pouco profundas. A temperatura Ø em grande medida determinada pela razªo entre a descarga fluvial e o fluxo de marØ e Ø modificada pelo aquecimento solar e pelo arrefecimento provocado pela evaporaçªo. Grande parte dos organismos estuarinos suportam variaçıes importantes de temperatura, isto Ø sªo euritØrmicos. As marØs resultam da atracçªo gravitacional da Lua e do Sol exercida sobre a Terra. A Lua por se encontrar mais próximo da Terra relativamente ao Sol exerce uma influŒncia cerca de duas vezes superior. O regime de marØs nos estuÆrios Ø basicamente do tipo semi-diurno podendo existir variaçıes entre os períodos de enchente e de vazante relacionadas com a circulaçªo geral das Æguas e consequentemente com a sua fisiografia e geomorfologia. A Preia-mar e Baixa-mar de Æguas vivas e de Æguas mortas ocorrem quando a Lua e Sol se encontram em conjuntura e em quadratura respectivamente. Nos estuÆrios em cunha salina existe uma corrente de Ægua salgada junto ao fundo e uma corrente de Ægua doce próximo da superfície, nªo havendo mistura entre as duas. Nos estuÆrios altamente estratificados a corrente de Ægua doce corre para jusante e a corrente de Ægua mais salina corre para montante independentemente do estado da marØ. Na interface destas duas correntes existe alguma mistura ao contrÆrio do que acontece nos estuÆrios em cunha salina em que a referida estratificaçªo Ø inexistente. Neste tipo de estuÆrios (altamente estratificados) o caudal fluvial Ø usualmente muito importante e persistente ao longo de todo o ano. Nos estuÆrios parcialmente estratificados a entrada de Ægua salina, efectuada numa corrente que corre para montante junto ao fundo, Ø geralmente mais importante ou de igual grandeza do que o caudal fluvial. Neste tipo de estuÆrios assiste-se a uma mistura contínua entre as duas massas de Ægua que entram em contacto. Nos estuÆrios do tipo verticalmente homogØneo, a estratificaçªo ao longo da coluna de Ægua Ø diminuta ou inexistente. A circulaçªo das massas de Ægua nestes estuÆrios pode ser controlada por acçªo da força de Coriolis, efectuando-se sobretudo numa direcçªo perpendicular e nªo paralela às margens como sucede nas outras categorias de estuÆrios.

1.7- Bibliografia

BARNES, R.S.K. (1974). Estuarine Biology. The Institute of Biology’s Studies in Biology No. 49, Edward Arnold, London: 73pp.

CARPINE-LANCRE, J. & L. SALDANHA (1992). Souverains oceanographes. Fundaçªo Calouste Gulbenkian: 178pp.

DAY, J.H. (ed.) (1981). Estuarine ecology with particular reference to southern Africa. A.A. Balkema, Roterdam: 411pp.

DIETRICH, G.; KALLE, K.; KRAUSS, W. & SIEDLER, G. (1980). General Oceanography: An introduction. John Wiley & Sons, New York: 626pp.

DUXBURY, A.B. & A.C. DUXBURY (1993). Fundamentals of Oceanography. Wm. C. Brown Publishers: 291pp.

IVANOFF, A. (1972). Introduction à l’OcØanographie. PropriØtØs physiques et chimiques des eaux de mer. Librairie Vuibert, Paris: 208pp.

GRAHAME, J. (1987). Plankton and fisheries. Edward Arnold, Baltimore: 140pp. GROSS, M.G. (1982). Oceanography: a view of the earth. Prentice-Hall, Englewood Cliffs: 498pp. KENNISH, M.J. (1989). Pratical handbook of marine sciences. CRC Press, Boca Raton: 710pp.

LAUFF, G.H. (ed.) (1967). Estuaries. American Association for the Advancement of Science, Washington, Publication No. 83: 723pp.

LINKLATER, E. (1972). The voyage of the Challenger. Cardinal, London: 288pp.

MENZIES, R.J.; GEORGE, R.Y. & ROWE, G.T. (1973). Abyssal environment and ecology of the world ocean. John Willey & Sons.

McLUSKY, D.S. (1981). The estuarine ecosystem. Blackie, Glasgow: 215pp.

NYBAKKEN, J.W. (1988). Marine biology. An ecological approach. Harper & Row, Publishers, New York: 514pp.

PARKER, H.S. (1985). Exploring the Oceans. Prentice-Hall, Inc.: 354pp.

PÉRS, J-M. (1961). OcØanographie biologique et biologie marine. Volume 1- La vie benthique. Presses Universitaires de France, Paris: 541pp.

PÉRS, J-M. (1976). PrØcis d’OcØanographie biologique. Presses Universitaires de France, Paris: 239pp.

PÉRS, J-M. & J. PICARD (1964). Nouveau manuel de bionomie benthique de la mer MediterranØe. Recueil des Travaux de la Station Marine d’Endoume, 31 (47): 5-137.

PICKARD, G.L. & EMERY, W.J. (1982) Descriptive physical oceanography. 4th edition Pergamon, Oxford.

PRITCHARD, D.W. (1967). What is an estuary: a physical viewpoint, in Lauff, G.H. (ed) Estuaries, American Association for the Advancement of Science, Washington, Publication No. 83: 3-5.

RAYMOND, J.E.G. (1980). Plankton and productivity in the oceans. Volume 1- Phytoplankton. Pergamon Press, Oxford: 489pp.

RESECK, J. (1979). Marine Biology. Reston Publication Corporation Inc., Reston: 257pp. SALDANHA, L. (1983). Fauna submarina atlântica. Publicaçıes Europa AmØrica, Lisboa: 179pp.

SALDANHA, L. (1995). Fauna submarina atlântica. Ediçªo revista e aumentada. Publicaçıes Europa AmØrica, Lisboa: 364pp.

SALDANHA, L., P. RÉ & A. FRIAS MARTINS (Editores) (1992). Centenaire de la derniŁre campagne ocØanographique du Prince Albert de Monaco aux Açores à bord de l’Hirondelle. Communications, Açores, 1988. Açoreana, Suplemento, 345 p.

SALDANHA, L., P. RÉ & A. FRIAS MARTINS (1992). Centenaire de la derniŁre campagne ocØanographique du

Prince Albert de Monaco aux Açores à bord de l’Hirondelle. Communications, Açores, 1988. Açoreana, Suplemento: 345pp.

SUMICH, J.L. (1976). An introduction to the biology of marine life. Wm. C. Brown Company Publishers, Dubuque: 348 p.

SVERDRUP, H.U.; JOHNSON, M.W. & FLEMING, R.H. (1942). The oceans: their physics, chemistry and general biology. Prentice-Hall, Englewood Cliffs.

I- Ecologia do Plâncton 2.1- Definição e divisões do plâncton Definiçªo (plâncton, necton e micronecton), Organismos pelÆgicos e organismos bentónicos

A palavra plâncton Ø originÆria do Grego (plagktón), significando errante ao sabor das ondas e foi pela primeira vez utilizada por Victor Hensen (1835/1924) em 1887. O plâncton Ø constituído pelos animais e vegetais que nªo possuem movimentos próprios suficientemente fortes para vencer as correntes, que porventura, se façam sentir na massa de Ægua onde vivem. Os animais que constituem o necton, podem pelo contrÆrio deslocar-se activamente e vencer a força das correntes. O plâncton e o necton sªo englobados na designaçªo de organismos pelÆgicos. Por oposiçªo os organismos bentónicos sªo aqueles cuja vida estÆ directamente relacionada com o fundo, quer vivam fixos, quer sejam livres. Podemos deste modo considerar no meio marinho os domínios pelÆgico e bentónico. Nªo existe contudo uma delimitaçªo nítida entre organismos pelÆgicos e bentónicos. Os organismos geralmente de pequenas dimensıes com algumas capacidades natatórias sªo usualmente englobados no micronecton.

2.2- Divisões do plâncton

Os organismos planctónicos podem ser classificados em funçªo das suas (i) dimensıes, (i) biótopo, (ii) distribuiçªo vertical, (iv) duraçªo da vida planctónica e (v) nutriçªo. Apesar destas classificaçıes serem artificiais, tornam-se œteis por sistematizarem as diversas categorias de planctontes.

Divisªo do plâncton em funçªo das suas dimensıes

Relativamente às dimensıes os organismos planctónicos podem ser classificados em 6 grupos distintos: (i) Ultraplâncton (<5µm); (i) Nanoplâncton (5-60µm); (ii) Microplâncton (60-500µm); (iv) Mesoplâncton (0.5- 1mm); (v) Macroplâncton (1-10mm); (vi) Megaplâncton (>10mm). Outras classificaçıes dimensionais dos planctontes tŒm sido propostas. Dussart em 1965 distinguiu duas grandes categorias de organismos planctónicos: (i) os que passam atravØs das redes de plâncton de poro reduzido (20µm) e ; (i) os que sªo facilmente colhidos com o auxílio de redes de plâncton. Dividiu ainda os planctontes nas seguintes categorias de acordo com a seguinte funçªo exponencial 2 X 10n µm (n=0.1.2,...): (i) Ultrananoplâncton (<2µm); (i) Nanoplâncton (2-20µm); (ii) Microplâncton (20-200µm); (iv) Mesoplâncton (200-2000µm); (v) Megaplâncton (>2000µm). Omori e Ikeda (1984) dividiram os planctontes em 7 categorias distintas: Untrananoplâncton (<2µm); Nanoplâncton (2-20µm); Microplâncton (20-200µm); Mesoplâncton (200µm- 2mm); Macroplâncton (2-20mm); Micronecton (20-200mm); Megaplâncton (>20mm). Os planctontes que podem ser amostrados com o auxílio de redes de plâncton possuem dimensıes nªo inferiores a 200µm. Planctontes com dimensıes inferiores a esta nªo sªo facilmente amostrados de um modo quantitativo recorrendo à utilizaçªo dos referidos engenhos de colheita. De entre as 7 categorias de planctontes acima referidas unicamente as 5 primeiras sªo distinguidas com base em critØrios dimensionais. As duas œltimas (Micronecton e Megaplâncton) sªo separadas tendo em consideraçªo os organismos planctónicos que as constituem. O Micronecton Ø formado por organismos que possuem exoesqueletos ou endoesqueletos tais como CrustÆceos ou pequenos peixes mesopelÆgicos. O Megaplâncton Ø constituído por formas gelatinosas tais como Cifomedusas e Pyrosomata que sªo geralmente difíceis de capturar de um modo adequado com o auxílio de redes de plâncton.

Divisªo do plâncton em funçªo do biótopo (Haliplâncton e Limnoplâncton)

Os organismos planctónicos podem igualmente ser agrupados em funçªo do biótopo do seguinte modo: A) Plâncton marinho (Haliplâncton) que engloba o Plâncton oceânico, o Plâncton nerítico e o Plâncton estuarino; B) Plâncton de Æguas doces (Limnoplâncton).

Divisªo do plâncton em funçªo da distribuiçªo vertical, pleuston, neuston, plâncton eplipelÆgico, mesopelÆgico, batipelÆgico, abissopelÆgico, hadopelÆgico e epibentónico

Podem ainda reconhecer-se no seio do plâncton categorias distintas de organismos se considerarmos a sua distribuiçªo vertical: A) Pleuston- animais e vegetais cujas deslocaçıes sªo fundamentalmente asseguradas pelo vento; B) Neuston- animais e vegetais que vivem na camada superficial (primeiros centímetros) das massas de Ægua (Epineuston- neustontes vivendo na interface ar/Ægua e Hiponeuston- neustontes vivendo sob a interface ar/Ægua); C) Plâncton epipelÆgico- planctontes que vivem nos primeiros 300m da coluna de água durante o período diurno; D) Plâncton mesopelÆgico- planctontes que vivem em profundidades compreendidas entre 1000 e 300m, durante o período diurno; E) Plâncton batipelÆgico- planctontes que vivem em profundidades compreendidas entre 3000/4000m e 1000m durante o período diurno; F) Plâncton abissopelÆgico- planctontes que vivem em profundidades compreendidas entre 3000/4000m e 6000m; G) Plâncton hadopelÆgico- planctontes que vivem em profundidades superiores a 6000m; H) Plâncton epibentónico- planctontes que vivem próximo do fundo ou temporariamente em contacto com o fundo.

Divisªo do plâncton em funçªo da duraçªo da vida planctónica (holoplâncton e meroplâncton)

Podemos finalmente distinguir dois grupos de organismos zooplanctónicos distintos, se considerarmos a duraçªo da sua existŒncia planctónica: A) Holoplâncton (plâncton permanente)- constituído pelos planctontes que vivem no seio das comunidades planctónicas durante todo o seu ciclo vital; B) Meroplâncton (plâncton temporÆrio ou transitório)- constituído pelos planctontes que ocorrem unicamente durante parte do seu ciclo vital no seio do plâncton (ovos e/ou estados larvares).

Divisªo do plâncton em funçªo da nutriçªo (fitoplâncton e zooplâncton)

O modo de nutriçªo dos planctontes permite separar o plâncton vegetal ou Fitoplâncton (autotrófico) do plâncton animal ou Zooplâncton (heterotrófico). Existem, no entanto, organismos planctónicos que sªo simultaneamente autotróficos e heterotróficos (mixotróficos).

2.3- Principais tipos de planctontes Virioplâncton, bacterioplâncton, micoplâncton, fitoplâncton, protozooplâncton e metazooplâncton

Diversos agrupamentos de organismos planctónicos sªo ainda reconhecidos por alguns autores: (i) Fentoplâncton (0,02-0,2µm); (i) Picoplâncton (0,2-2,0µm); (ii) Nanoplâncton (2,0-20µm); (iv) Microplâncton (20-200µm); (v) Mesoplâncton (0,2-20mm); (vi) Macroplâncton (2-20cm); (vii) Megaplâncton (20- 200cm). Consideram-se ainda o Virioplâncton o Bacterioplâncton, o Micoplâncton, o Fitoplâncton, o Protozooplâncton e o Metazooplâncton.

Constituiçªo do bacterioplâncton (planctobactØrias e epibactØrias)

O Bacterioplâncton engloba as bactØrias existentes no domínio pelÆgico e as Cianophyceae. As bactØrias pelÆgicas podem ser encontradas em todos os oceanos sendo relativamente mais abundantes próximo da superfície dos mesmos. Podem ser livres (planctobactØrias) associadas a partículas no seio da coluna de Ægua, ou a diverso material orgânico proveniente de planctontes (epibactØrias). O papel desempenhado pelo Bacterioplâncton no meio marinho e estuarino só recentemente tem vindo a ser investigado. A grande maioria das bactØrias encontradas nos meios marinho e estuarino sªo formas ubíquas. Algumas bactØrias tŒm um período de vida limitado no meio aquÆtico, tais como um grande nœmero de formas patogØneas para o Homem. A composiçªo da flora bacteriana Ø muito variÆvel dependendo fundamentalmente das características da massa de Ægua em que se encontre. A maioria das bactØrias aquÆticas sªo heterotróficas alimentando-se de substâncias orgânicas. Quase todas as formas sªo saprófitas. Algumas bactØrias sªo no entanto fotoautotróficas ou quimioautotróficas. A biomassa procariota (i.e. Bacterioplâncton) pode representar cerca de 30% da biomassa planctónica na zona eufótica e cerca de 40% da mesma biomassa microbiana na zona afótica. As bactØrias presentes nos domínios marinho e estuarino nªo constituem um œnico grupo homogØneo do ponto de vista sistemÆtico, uma vez que estªo representadas a quase totalidade das ordens da classe BactØria.

(Parte 3 de 14)

Comentários