A construção do sentido na arquitetura- j. teixeira coelho netto

A construção do sentido na arquitetura- j. teixeira coelho netto

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Próximo lançamento A Gramática do Decameron

TzvetanTodorov !eEtese atese tes arquitetura

Uma edificação nflOtem apenlls um sll:nificlldo formlll, estético, e outro funcional: há nela sentidos 1i1:'l<lostanto ao po<'ticoquanto ao sociológico, movidos por val:0s Impulsos inconscienles ou por um nítido projeto ideológico. No entanto, hOIl p"r'" dll arquitelurll contemp0rl,nea tem deixado escapar esses nexos ou, pior allulll, manlpulll-os de maneira inconsciente, criando uni n.·luírio ond." u unluilclllrn ni,o fulu nu.is. apenas balbucia coisas que niio rum Ch"I:"1 irls,'nsato, ,,'sulllmdo dllí o progressivo esmaganlcnto d('" d••~Unul{.rio

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j. teixeira coelho netto

Coleção Debates Dirigida por J.Guinsburg j. teixeira coelho netto

Equipe de realização - Revisão: Jost: Bonifáeio Caldas; Produção: Ricardo

W. Neves e Adriana Garcia. ~\\,/~ ~ ~ EDITORA PERSPECTIVA

Por uma Linguagem da Arquitetura .

espaço

1.3. Eixos organizadores do sentido do 1.3.1. 1.° Eixo do espaço arquitetural: Es-

Direitos reservados 1 EDITORA PERSPECfIVA S.A.

1. O Imaginário e o Ideológico . 2 . Três Casos Particulares do Ideológico

2.2. Teoria de produção do espaço: uma formulação .

2 .3 . Semantização e dessemantizazação do espaço .

IlI. DESCONSTRUÇÁO DO SENTIDO: ANTIARQUITETURA? . I.L Arquitetura perecível como antiar- quitetura .

Il1.2. Arquitetura não-racional, arquitetura irracional, arquitetura radical ..

Os arquitetos não falam mais: apenas balbuciam coisas sem sentido. Quantas vezes esta advertência tem sido feita recentemente, com estas ou com palavras semelhantes, nesta ou naquela língua? Seria inútil e cansativo proceder a uma contagem: o que parece ter sido também totalmente inútil foi essa mesma admoestação, pois o panorama à nossa volta continua uma algaravia deprimente e insensata.

Se os arquitetos não falam mais, supõe-se que alguma vez devam ter-se exprimido de modo não apenas coerente como adequado e atraente. Quando foi isso? Por certo, mesmo na atualidade alguns arquitetos continuam falando conscientemente, continuam a propor um discurso arquitetônico - mas não se cOn- segue citar mais que um Lloyd Wright aqui, um outro mais além (e isto, cOm reservas). Não parece res- tar dúvidas, no entanto, que os momentos em que a arquitetura constituiu, globalmente considerada, um discurso significativo pertencem ao passado. O arquiteto grego (o da Antigüidade, bem entendido, pois a arquitetura comum das cidades gregas atuais não passa, lamentavelmente, do nível tristemente baixo de um estilo internacional bastardo de nítidas influências americanas) sabia o que falava, conhecia aquilo com que f~lava, e o mesmo se pode dizer do arquiteto do gótIco, da renascença - mas não, obviamente. dos arquitetos de todos os neos, o neogótico, o neodássico, etc. Que se pretende dizer cOm isso? Que es ses homens tinham formulado, ou formulavam, um estoque preciso de conceitos e de signos do qual retiravam os elementos para propor uma arquitetura onde cada elemento se define por si só e, ao mesmo tem- po, em relação aos demais, num discurso que responde a determinadas necessidades do homem da época e que este compreende.

:b fácil prever, aqui, uma objeção: em suma, os grandes monumentos da história da arquitetura, os grandes nomes, estes têm uma linguagem específica, estes dominam um discurso: mas em volta de cada

Notre-Dame de Paris, de cada palácio dos Doges há uma centena de habitações menOs ou mais pobres que o cronista não registrou e de cuja linguagem não se fala porque simplesmente não existe. E neste caso se poderia dizer que também nos tempos modernos os arquitetos "f"lam", pois Mendelsohn tem uma linguagem, Loos tem uma linguagem, etc.

Esta objeção, em parte, tem sua razão de ser: sem dúvida, o capital sempre favoreceu o desenvolvimento das artes, e a arquitetura não faz exceção. Por certo é mais fácil criar um código ou falar à perfeição uma certa língua quando o "cliente" tem todo o dinheiro necessário a tais exerckios. Dinheiro e tempo: uma catedral gótica é assunto de gerações. Tudo isto é fato. No entanto, a história da arquitetura não se limita às catedrais ou aos palácios - ou pelo menos nã~ deveria se limitar, embora montanhas e montanhas de volumes sobre história da arquitetura repitam sempre, incansavelmente, os mesmos nomes, as mesmas obras, e estas são sempre Notre-Dame, São

Pedro, ea' d'Oro, etc. E se de fato, quando se fala da arquitetura grega, é preciso ressaltar que se está falando da arquitetura dos templos e deixando de mencionar a grande maioria de construções inqualificáveis habitadas pelo povo; que quando se elogia a casa pompeana não se diz, freqüentemente, ter sido ela privilégio de bem poucos, por outro lado não é menos verdade que também não se menciona uma série de fatos (de forma alguma exceções ou em minoria) não relacionados com as "grandes obras" e os "grandes arquitetos" e que não deixam de apresentar-se como exemplos de domínio perfeito de uma linguagem precisa, clara e conveniente de arquitetura e urbanismo. Pense-se no discurso produzido por um hábil jogo entre ruas e praças que marca a maioria das cidades italianas, desde uma minúscula San Gimignano que chega até hoje praticamente tal como era nos séculos XIV e XV, até uma moderna Turim (que mal ou bem, e por uma série de razões das quais nem todas são a simples clarividência urbanística, ainda conserva, pelo menos em seu centro, essa rede antiga). Quem assinou essas obras, essas concepções? Michelângelo e Borromini se ocuparam de Roma, mas quem "planejou" San Gimignano? O nome não ficou. E no entanto, muitas dessas cidades não são simples proposições espontâneas: foram até certo ponto planejadas. E não o foram apenns para as grandes famílias, para os doges e papas: o povo era e é seu grande usuário. E uma linguagem está presente nessas obras, uma linguagem urba- nística onde o fechado e o aberto se completam, e o previsível cOm o inesperado, o protegido e o exposto, o privado e o comum, o geométrico e o orgânico, em suma: a unidade e a variedade. Essa é uma lingua- gem completa, onde o indivíduo faz parte da cidade e a cidade, parte fundamental do indivíduo. O homem vive na cidade e da cidade, e a cidade não deixa de viver do homem. Recentemente falaram mais uma vez, absurdo risível não fosse trágico, em transformar Veneza numa espécie de museu a ser visitado: custou convencer tais "planejadores" que sem os habitantes "normais" da cidade, Veneza se transformaria num simples amontoado de pedras que morreria rapidamente como qualquer ser vivo.

Onde se encontra, hoje, essa linguagem que não é essencialmente vista e apontada-como "grande obra da arquitetura ou da urbanística" mas que é sentida fisicamente, emocionalmente, por aqueles que ainda n:'ío se deixaram entorpecer totalmente pelo vazio significativo das "cidades" modernas? Em lugar nenhum.

Somente naquelas cidades o homem ainda dialoga cOm o espaço que o circunda: ao final de uma ruela sombria, a enorme surpresa sensorial de um espaço aberto; aqui, uma escada que separa duas paisagens inteiramente distintas - mas identifica-se o todo como um conjunto unitário que o indivíduo nunca conhece inteiramente mas que ele não deixa de reconhe:::er. E não um conjunto (na verdade, Um aglomerado) como os de hoje onde o espaço é inteiramente hostil ao indivíduo (que não pertence a ele), não lhe dando nenhuma informação além do mínimo exigido pelo utilitarismo (o funcionalismo, esse deus da opressão), e que o homem não conhece nem em parte nem no todo, que o homem sempre estranha porque a cidade, a intervalos cada vez menores, é constante e li~eralmente destruída para abrigar o novo e todo-poderoso hóspede, o automóvel, em novas e luzentes avenidas que levam do nada a lugar nenhum em termos de espaço humano.

Uma linguagem arquitetural não é portanto privi- légio das grandes obras ou dos grandes nomes: na verdade mesmo, ela é ainda mais rica quando se manifesta nas obras que passam despercebidas, naquelas para as quais os guias turísticos não apontam porque estão se servindo delas e nem pensam nisso: na malha viária, no jogo dos espaços, das cores. E tampouco essa linguagem é privilégio dos "tempos passados". Se é verdade que a con:::epção norte-americana de arquitetura e urbanística (que deixou boquiaberto o Le Corbuster de Quand les cathédrales étaient blanches, esse selvagem suíço prostrado diante do templo ilusionista de Nova York) é um real cancro extremamente árduo de se combater, tampouco é impossível propor uma verdadeira linguagem para as atuais "áglomerações". Na verdade, aquilo de que estas cidades carecem tremendamente é justamente de uma verdadeira linguagem que substitua o amontoado de frases e signos arquitetõnicos sem sentido (porque tanto quem os propõe quanto quem os recebe e utili- za não 'Sabem o que significam, embora sintam seus efeitos) a contribuir unicamente para o caos total.

Uma linguagem precisa. Se a arquitetura é uma arte (e é, efetivamente), é uma arte específica que necessita não de uma linguagem mais ou menOs intuitiva com a qual o sujeito da criação artística lida e propõe sua obra, porém cujo significado real ele só vem a descobrir freqüentem ente finda a obra, mas sim de uma linguagem definida tanto quanto possível de antemão (pelo menos num de seus elementos, o espacial como se verá a seguir) e que esteja ao alcance simultâneo do criador e do re:::eptor (enquanto nas outras artes, a linguagem produtora é praticamen- te um segredo do criador, e a ela o receptor só tem acesso mais tarde - e eventualmente).

Quais os elementos dessa linguagem? As duas grandes unidades sintagmáticas em que se pode inicialmente decompor a linguagem da arquitetura (e da urbanística) são o discurso primeiro do espaço em si mesmo (o discurso do arranjo espacial) e o discurso estéti:::o do espaço (o arranjo espacial sob uma forma artística) .

Que se deve considerar como aquilo que constitui o objeto de estudo referente ao primeiro discurso? Em poucas palavras, esse campo será constituído pelas respostas possíveis à indagação básica: afinal, que ê o espaço? De fato, o que é o espaço? Isso deve- ria ser um conceito básico, muitos dirão que se trata de noção fundamental, praticamente um postulado indefinível. Uma das respostas mais comuns que se obtém a essa indagação é: espaço é isso que nos cerca. Mas o que é isso? E por que esse "nos cerca"? Por que esse conceito do homem ilhado no meio de um espaço, que aliás a arquitetura só faz perpetuar? Não seria simplesmen~e porque não se dispõe ainda de uma noção adequada de espaço, o qual, neste caso, é visto como mais um mistério cuja função básica (como a de todos os mistérios) é de alguma forma oprimir o homem, isolá-Io dentro de si mesmo (como o medo do desconhecido), ilhá-Io? Efetivamente, não existe ainda um corpo de ·coahecimentos orgânicos capaz de reunir uma série de noções fragmentadas so- bre o espaço de modo a fornecer-nos um conceito operacional, manipulável. E isto é tanto mais grave para o arquiteto uma vez que_se supõe que a arquitetura trabalha o espaço - e grave porque o arquiteto trabalha sobre uma coisa que ele simplesmente não sabe o que é, cujos significados (dos superficiais aos mais profundos) ele desconhece inteiramente! E se chega ao absurdo de se ter uma série de teorias altamente elaboradas sobre o modo de tratar algo que não se sabe definir! Aliás, é necessário mesmo frisar que durante um tempo consideravelmente longo a própria arquitetura não sabia nem mesmo propor-se seu verdadeiro objeto, o espaço, recalcandoo sob fórmulas vazias que partiam justamente do pressuposto de que se sabia, obviamente, o que era o espaço. Os exemplos disto são mais de um. Como Vitrúvio conceituava a arquitetura? Dizendo que ar· quitetura é ordenamento, disposição, proporção, distribuição. Do quê? Do espaço, por certo - mas isto era dado como algo já estabelecido. Alberti: arquite- Itura é voluptas, jirmitas, c.omfl1QdiJas..-E-.o _.espaço? esposta-possível: Está implícito. Não: está escamo- teado. VioIlet-Le-Duc: arquitetura é a arte de construir. Fórmula até poética, se se quiser, _mas nova- mente se parte do pressuposto de que já se conhece aquilo sobre o que se vai construir ou que se vai COnstruir. Já Perret propunha que a arquitetura é a arte de organizar o espaço: vê-se aqui, pelo menos, a noção de espaço aflorar nitidamente à superfície do pensamento arquitetural, mas o arquiteto ainda vai continuar se preocupando apenas com as noções tradicionais de material, forma, função e com as noções mais recentes produzidas pela sociologia e pela economia política. Naturalmente se poderia dizer que até meados do. século x não se tinha nem mesmo com o que pensar o espaço a não ser em termos tradicionais de geometria, o que efetivamente é verdade, pois algumas disciplinas fundamentais para a abordagem do espaço só irão se firmar nas primeiras décadas de 1900 (como a psicanálise), enquanto outras só irão começar a. se estruturar bem mais tarde (como a proxêmica). Já é tempo, no entanto, de trazer a pesquisa do espaço em si para o primeiro plano dos estudos de arquitetura; este estudo não tem a pretensão, ainda que remota, de nem ao menos expor o problema em toda sua extensão (quanto mais resolvê-Io), mas pelo menos tratará de levantar aqueles elemen- tos que são absolutamente indispensáveis para a prática do espaço.

O outro dos discursos a ser aqui abordado é o elaborado pela estéüca do espaço (de acordo cOm a fórmula de Perret, o sentido da "organização do espaço" constitui o corpo do primeiro discurso, e o problema da "arte da", o corpo deste discurso segundo).

Estética: a simples menção deste termo talvez já seja suficiente para abrir um enorme claro entre os even- tuais arquitetos leitores deste trabalho. De fato, os problemas de estética têm a peculiar propriedade de aglutinar contra si adeptos de duas correntes perfeitamente opostas em arquitetura: os tecnocratas e os humanistas (ou a arquitetura do status quo e a arquitetura de vanguarda em seu sentido mais amplo, formal e político). Os tecnocratas não vêem nenhuma utilidade para a estética ou para a arte; para estes, responsáveis por uma arquitetura bastarda e de pacotilha (os grandes edifícios, as habitações coletivas, as monstruosas avenidas, as vias expressas, etc.), arquitetura se resume na "arte" de equacionar adequadamente forças, material, tempo e dinheiro, especialmente estes dois últimos elementos. Para muitos dos que se colocam sob a bandeira da vanguarda (simples rótulo vazio, na maioria das vezes), Estética é igual- mente detestável como signo de um ensino arcaico e cIassista. Com que orgulho de "revolucionário" um estudante de arquitetura de Veneza lhe contará "as lutas que tivemos para acabar com a questão da Estética em arquitetura" - sem se dar a menor conta do espaço, do ambiente e da arquitetura que o cerca em sua própria cidade, por certo um dos arquétipos arquiteturais do homem moderno!

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