O físico, o xamã e o místico

O físico, o xamã e o místico

(Parte 1 de 11)

Patrick Drouot

Os caminhos espirituais percorridos no Brasil e no exterior

Tradução de LUCA ALBUQUERQUE

Nova Era

Rio de Janeiro 1999

Outras obras do autor publicadas pela NOVA ERA:

Reencarnação e imortalidade Nós somos todos imortais Cura espiritual e imortalidade Memórias de um viajante do tempo

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. D854f

Drouot, Patrick

O físico, o xamã e o místico I Patrick Drouot; tradução de Luca Albuquerque. - Rio de Janeiro: Record: Nova Era. 1999.

Tradução de: Le chaman, le physicien et le mystique. Inclui bibliografía. ISBN 85-OI-O5626-X

1. Drouot, Patrick. 2. Xamanismo. 3. Parapsicologia. 4. Misticismo. I. Título.

Título original francês LE CHAMAN, LE PHYSICIEN ET LE MYSTIQUE

Copyright @ Éditions du Rocher 1998

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Impresso no Brasil ISBN 85-01-05626-X PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 - Rio de Janeiro, RJ - 20922-970

A Liliane, às mulheres xamãs de sua linhagem

A purificação virá

Grande-Mãe nos embalará em seus braços e secará nossas lágrimas e Grande-Pai caminhará entre nós.

Será esta geração - todos vocês - que tornará isso possível e o círculo rompido .do da nação será novamente refeito.

Wallace Alce Negro Curandeiro oglala

Agradecimentos

Esta obra representa a evolução de minhas experimentações e reflexões ao longo dos últimos vinte anos. Faço questão de expressar meu profundo reconhecimento às inúmeras pessoas que me ajudaram, apoiaram e seguiram durante esse período:

a Paul Couturiau, por sua colaboração e ajuda eficaz e imaginativa; a Jean-Paul Bertrand, meu editor, que acreditou em meu projeto desde as primeiras publicações; aos representantes das diferentes tradições que encontrei durante minhas viagens pelo mundo; a Deva Salmon, que nos conduziu ao encantamento das tradições do Pacífico Sul e nos abriu as portas de Rapa Nui, ilha de Páscoa; a meu amigo e irmão Marc Côté, terapeuta em Montreal, que teve a paciência de rever e retificar certos aspectos do capítulo canadense; a Waldemar Falcão, um dos meus editores no Rio de Janeiro e organizador da "saga" brasileira; a Anne-Marie e Wim Ordelman, da propriedade de Tertre, em Paimpont, Bretanha, que me sensibilizaram para o antigo pensamento druídico; a Wa1lace Alce Negro, Andrew Cão Trovão e Kim Pollis, cujo ensinamento, os cantos e os tambores ressoam ainda hoje em meus ouvidos.

Assim também para com meus guardiães e aliados, o urso e o lobo

Enfim, meus pensamentos mais profundos dirigem-se a Liliane, que me acompanhou em todas essas viagens e que me guiou, abrindo-me as portas de seu mundo xamânico interior. Em outros tempos e lugares já nos havíamos encontrado, e nossos caminhos acabaram por se encontrar novamente no mundo de hoje.

Sumário

Introdução Prefácio de Leonardo Boff

1. A VIAGEM XAMÂNICA

Crowley Lake, contraforte da High Sierra, Califórnia, setembro de 1992 Wallace Alce Negro, inipi, a sweat lodge

Consciência ameríndia do meio ambiente, Flora Jones, índia wintu, canal do monte Shasta

Ritual da tenda tremulante entre os índios crees – norte de Quebec - outono de 1992

2. O MUNDO DAS PLANTAS QUE ENSINAM

Amazônia, abril de 1995 Experiência com a ayahuasca - Santo Daime Preparação da ayahuasca A experiência xamânica As plantas psicoativas da bacia do Amazonas O triângulo polinésio Profecias de antes do contato A caverna dos antigos Profecias de antes do contato nas ilhas da Sociedade Os primeiros navegadores no Taiti - O esquecimento das antigas tradições A dinastia dos Teva

O mito da Criação Os sítios cerimoniais polinésios - Os marae. Ra'aitea, agosto de 1997 Os xamãs polinésios - Os tahua As tatuagens polinésias

3. OS ESTADOS DE CONSCIÊNCIA XAMÂNICA

A emergência do xamanismo Estrutura do universo xamânico Visão xamânica do meio ambiente O curador ferido - O chamado da senda As cartografias modernas da consciência A busca de visão Retiro no deserto do Sinai - dezembro de 1995 A relação com a Natureza Busca de visão de Nariz Adunco Rituais xamânicos e física moderna Os estados de consciência xamânica Sítios sagrados e física quântica As hipóteses da física xamânica Origens do conhecimento xamânico Realidade xamânica e realidade virtual Histórico da realidade virtual Projeção fora do corpo e realidade virtual Ciência xamânica e iluminação Rumo à teociência? Os médicos anônimos. A catástrofe genética Uma teoria universal dos Universos A iluminação

4. OS MECANISMOS XAMÂNICOS DA CURA CORPO-ESPÍRITO

Curar pelo wakan - o sagrado Interação entre as vias tradicionais e modernas Medicina das plantas taitianas e origem da doença entre os polinésios Medicina faraônica e xamanismo tradicional Ritual xamânico nos hospitais norte-americanos O mundo xamânico hopi Os kachina Dinetah, o mundo místico navajo Cerimônias de pinturas na areia dos navajos Os mandalas de cura - o caminho do pólen A tradição oral. Os tahua oradores polinésios A recuperação da alma

Incorporação por um animal totem Os animais totens

5. OS JOGOS DO MÍSTICO - O GAMBITO DAS ESTRELAS

A estrutura energética do ser humano Aquele que não dormia mais O pifao As terapias vibratórias: técnicas energéticas do terceiro milênio O corpo etérico e o inconsciente A reação palpatória A textura O movimento etérico primário A arqueologia psíquica O corpo astral Sophie e a batalha dos deuses

CONCLUSÃO Contatos com o autor BIBLIOGRAFIA

Introdução

O físico, o xamã e o místico evoca a cultura tradicional dos povos abertos à dimensão oculta do mundo. Para eles, o meio ambiente, os espíritos da Natureza e os deuses fazem parte da mesma esfera mágica. Este livro expõe os ensinamentos de xamãs encontrados durante viagens aos hemisférios Norte e Sul, e sua visão acerca da vida e da morte, da doença e da cura. Examina igualmente a questão de seus poderes paranormais, de suas profecias e de suas incursões no mundo dos espíritos.

Sou apenas um neófito no caminho da consciência xamânica, mas em várias ocasiões senti-me recipiendário de uma espécie de conhecimento esquecido. Quis por isso mesmo descrever o acesso a uma notável via de liberação psicológica e espiritual - uma maneira de estar no mundo que desafia nossas concepções do corpo, do espírito e da alma. Considero os ensinamentos dos povos tradicionais tão ricos e estimulantes hoje quanto o eram antes da chegada dos primeiros europeus.

Este trabalho é fruto de um encontro entre a visão ocidental do ser humano, de seu papel e lugar no Universo, e a esfera mágica do mundo xamânico. Relata a experiência vivida pelos representantes da tradição ameríndia, do Brasil amazônico e da Polinésia, assim como o fascínio que essa tradição exerceu sobre minha própria busca pessoal. (Percorri nessas viagens mais de quinhentos mil quilômetros.)

A partir do final da década de 1970, efetuei pesquisas, na condição de físico, sobre a natureza da consciência humana. Eu mesmo realizei viagens ao mundo interior, além de ajudar outras pessoas a fazê-lo. Conheci as experiências de expansão de consciência descritas em todas as tradições - viagens às vidas anteriores, projeção da consciência fora do corpo e incursão nos mundos sutis. Busquei nos ensinamentos tibetanos e nos da ioga similitudes com nossos conceitos ocidentais.

No começo dos anos 80, quando morava em Nova York, participei de reuniões interculturais entre o mundo dos brancos e a cultura aborígine da América do Norte, permitindo-me assim entrar em contato com representantes da tradição xamânica ameríndia. Seus rituais, suas preces de agradecimento à Terra Mãe e a maneira como encaravam a doença e a cura causaram me profunda impressão. Pareceu-me tais culturas terem desenvolvido, ao longo de sua história, ensinamentos e práticas espirituais que lhes permitiam transcender as camadas da realidade convencional e experimentar uma dimensão que prescindia das noções de tempo, espaço e causalidade.

Minhas investigações conduziram-me a domínios tão díspares quanto a história da medicina, a mitologia comparada de Joseph Campbell, o estudo dos relatos dos primeiros exploradores, o folclore e as narrativas aborígines anteriores ao contato.

Interessei-me igualmente pelos estados de consciência transpessoais descritos pelas tradições orientais e xamânicas. Vias que desembocam em ensinamentos, conceitos, perspectivas e experiências que hoje nos falam com uma pertinência inquietante e irresistível.

Gostaria entretanto de mencionar, nesta introdução, a existência de uma tradição céltica.

Raymond Graf, um representante da antiga cultura maori do Pacífico Sul, disse-me um dia: "Sob mil e quinhentos anos de substrato cristão, suas raízes culturais profundas são célticas!" Curiosa observação da parte de um taitiano tão estranho à nossa cultura. Os celtas elaboraram uma concepção de vida a que chamaram wyrd, uma maneira de ser e de vir a ser que transcende nossas noções convencionais de livre-arbítrio e de determinismo. Todos os aspectos do mundo são percebidos num fluxo, um movimento constante entre as polaridades psicológica e mística do fogo e do gelo: uma visão criadora e orgânica paralela aos conceitos orientais clássicos de yin e de yang. Hoje essa noção goza do reforço de vários desdobramentos em física teórica.

Desse conceito de wyrd resulta uma visão do universo - dos deuses ao mundo subterrâneo - representado por um sistema de fibras gigantescas, espécie de monumental teia de aranha em três dimensões. Quando se faz vibrar um dos fios da teia, todo o conjunto entra em ressonância, uma vez que seus componente estão ligados entre si. Tal imagem vai além de nossa concepção da ecologia, que, no entanto, já ampliou nosso conceito de causa e efeito a cadeias de influência mais longas e mais laterais. Mas a teia do xamã céltico propõe um modelo que leva em conta tanto os acontecimentos da vida individual quanto os fenômenos físicos e biológicos, tanto as ocorrências materiais quanto as imateriais, questionando dessa forma nosso próprio conceito de causalidade.

Inúmeras provas confirmam que uma tradição xamânica desenvolveu-se em todos os pontos do globo terrestre. Essa tradição implica a coexistência entre um mundo de espíritos dinâmico e onipresente e o mundo material. Tais espíritos, manifestações das forças da Natureza, são invisíveis para a maioria dos seres humanos, mas não para os xamãs, seres dotados de paranormalidade.

Os xamãs praticavam a cura e a adivinhação, presidiam a rituais de adoração e a celebrações, e chegavam inclusive a aconselhar os reis. Suas aptidões eram reconhecidas, cultivadas e conservadas porque permitiam o acesso à magia. O ser assim investido relacionava-se diretamente com os espíritos e operava como mediador entre o mundo interior e o da matéria. Naturalmente, o abismo cultural entre a visão cartesiana clássica e as tradições xamânicas é gigantesco. Entretanto, as aptidões da consciência humana parecem mudar pouco com o tempo. A emergência da tradição xamânica mundial, seus ensinamentos, suas crenças, práticas e sendas de iniciação constituem uma via de liberação psicológica e espiritual preciosa para o Ocidente.

Todos os povos tradicionais possuem um mito da Criação que representa a ossatura de sua visão xamânica do Universo. Tentei, de forma bastante modesta, utilizar o sistema metafórico desses povos para descrever o mito das origens e as profecias dos primeiros contatos na Polinésia. Esse sistema articula-se não com o cérebro esquerdo lógico, mas com a expressão artística e criadora típica do funcionamento do cérebro direito, com seu imenso potencial não utilizado, atualmente, pelo sistema cultural ocidental.

A espetacular ressurgência da consciência xamânica durante os últimos vinte anos tem encontrado entre nós crescente receptividade. Como uma via de transformação pessoal e espiritual, ela se acha no âmago de várias problemáticas contemporâneas. Cada capítulo ilustra meu encontro com uma dimensão particular dessa tradição.

A perspectiva xamânica transcende os limites específicos da psiquiatria, da psicologia e da visão de um mundo ordenado, estavel e determinado. As descobertas revolucionárias da física quântica, o estudo das estruturas voláteis, a pesquisa sobre as potencialidades do cérebro, a holografia, as experiências de expansão de consciência podem combinar-se com os ensinamentos das grandes tradições espirituais, assim como com as experiências trazidas pelos antropólogos. Resumindo, impõe-se definitivamente uma revisão radical de nossos conceitos fundamentais sobre a natureza humana e sobre o Universo.

Desde o início de minhas pesquisas percebera as lacunas próprias à abordagem científica da via xamânica. Não existe física da consciência ou, mais precisamente, não existe a menor tentativa no sentido de conciliar ciência e xamanismo. Sem esquecer minha formação de físico, busquei tal aproximação no quinto capítulo desta obra, onde novas reflexões vêm fazer companhia às idéias apresentadas em meus primeiros ensaios.

Como conceber as experiências xamânicas, veiculadas pelas tradições de todas as idades, num mundo determinista? Esta questão traduz uma profunda tensão no pensamento ocidental que, por um lado, privilegia um saber objetivo e, por outro, defende um ideal humanista de responsabilidade e de liberdade.

Encontramo-nos hoje num estágio crucial dessa aventura. No ponto de partida de uma nova racionalidade que já não identifica ciência e certeza, probabilidade e ignorância. Já ocorreram muitas mudanças no limiar deste terceiro milênio: muitas pessoas aspiram hoje a um estilo de vida diferente, a um sistema ecológico repensado, a uma medicina mais humana, a conhecimentos mais compartilhados, ao respeito pelas diferenças.

De acordo com Karl Popper, o determinismo não somente põe em risco a liberdade humana, como ainda toma impossível qualquer confronto com a realidade, a qual, no entanto, é a vocação do conhecimento. Por conseguinte, impõe-se uma física xamânica da consciência, bem como uma reformulação das leis fundamentais da física. Enraizar o indeterminismo e as experiências xamânicas nas leis da física, tal é a resposta que podemos trazer a esse desafio. Se não formos capazes disso, essas leis continuarão tão incompletas quanto se negligenciassem a gravitação ou a eletricidade. A falha inerente às leis da ciência atual reside no fato de descreverem um mundo idealizado e estável, em vez do mundo instável e evolutivo no qual vivemos. As experiências descritas nesta obra forçam-nos a reconsiderar a validade das leis fundamentais, tanto clássicas como quânticas.

Em todos os tempos, os estados visionários desempenharam um papel importante. Nós os encontramos na origem tanto dos transes extáticos dos xamãs quanto das revelações dos fundadores das grandes correntes religiosas e até mesmo na origem dos notáveis fenômenos de cura ou de inspirações artísticas. As culturas antigas e pré-industriais sempre viram nos estados não ordinários de consciência um meio de abordar os aspectos ocultos do real e de alcançar uma dimensão espiritual.

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