Anthony Giddens - Sociologia

Anthony Giddens - Sociologia

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O desenvolvimento do pensamento sociológico

Quando começam a estudar Sociologia, muitos alunos ficam perplexos com a diversidade de abordagens existentes. A Sociologia nunca foi uma daquelas disciplinas com um corpo de ideias unanimemente aceites como válidas. Os sociólogos discutem entre si frequentemente acerca da melhor maneira de estudar o comportamento humano e da forma como os resultados das pesquisas devem ser interpretados. Porque é que isto se passa assim? A resposta está relacionada com a própria natureza do campo de estudos. A Sociologia debruça-se sobre as nossas vidas e o nosso próprio comportamento, e estudar-nos a nós próprios é a mais difícil e complexa tarefa que podemos empreender.

Os primeiros teóricos

Nós, os seres humanos, sempre sentimos curiosidade pelas razões do nosso próprio comportamento, mas durante milhares de anos as tentativas de nos entendermos dependeram de formas de pensar transmitidas de geração em geração. Estas ideias eram expressas frequentemente em termos religiosos, ou em mitos bem conhecidos, superstições ou crenças tradicionais. O estudo objectivo e sistemático da sociedade e do comportamento humano é uma coisa relativamente recente, cujos inícios remontam aos finais do século XVIII. Um desenvolvimento-chave foi o uso da ciência para se compreender o mundo - a emergência de uma abordagem científica teve como consequência uma mudança radical nas formas de ver e entender as coisas. As explicações tradicionais baseadas na religião foram suplantadas, em sucessi* vas esferas, por tentativas de conhecimento racional e crítico.

Tal como a Física, a Química, a Biologia e outras disciplinas, a Sociologia surgiu como parte deste importante processo intelectual. As origens da disciplina inserem-se no contexto de uma série de mudanças radicais introduzidas pelas «duas grandes revoluções» da Europa dos séculos XVIII e XIX. Estes acontecimentos profundos transformaram irreversivelmente o modo de vida que os seres humanos levavam há milhares de anos. A Revolução Francesa de 1789 representou o triunfo das ideias e valores seculares, como a liberdade e a igualdade, sobre a ordem social tradicional. Foi o início de um movimento dinâmico e intenso que a partir de então se espalhou pelo globo, tornando-se algo inerente ao mundo moderno. A segunda grande revolução teve início na Grã-Bretanha em finais do século XVIII, antes de se verificar noutros locais da Europa, na América do Norte e noutros continentes. Ficou conhecida como

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Revolução Industrial - o conjunto amplo de transformações económicas e sociais que acompanharam o surgimento de novos avanços tecnológicos como a máquina a vapor e a mecanização. O surgimento da indústria conduziu a uma migração em grande escala de camponeses, que deixaram as suas terras e se transformaram em trabalhadores industriais em fábricas, o que causou uma rápida expansão das áreas urbanas e introduziu novas formas de relacionamento social. A Revolução Industrial mudou de forma dramática a face do mundo social, incluindo muitos dos nossos hábitos pessoais. A maior parte da comida que ingerimos e das bebidas que tomamos - o café, por exemplo - são hoje em dia produzidos através de meios industriais.

A destruição dos modos de vida tradicionais levou os pensadores a desenvolver uma nova concepção dos mundos natural e social. Os pioneiros da Sociologia confrontaram-se com os eventos que acompanharam essas revoluções, tentando compreender tanto as razões da sua emergência como as suas consequências potenciais. O tipo de questões a que estes pensadores do século XIX procuraram responder - O que é a natureza humana? Porque é que a sociedade está estruturada assim? Como mudam as sociedades e por que razão o fazem? - são as mesmas a que os sociólogos procuram responder actualmente.

Auguste Comte

Ninguém pode, por si só, como é óbvio, fundar sozinho todo um novo campo de estudos, e foram muitos aqueles que contribuíram para os começos do pensamento sociológico. Contudo, é frequentemente atribuído um lugar de destaque ao autor francês Auguste Comte (1798-1857), nem que seja porque foi ele quem de facto inventou o termo «Sociologia». Originalmente, Comte usou a expressão «física social», mas alguns dos seus rivais intelectuais da altura também a usavam. Comte queria distinguir o seu ponto de vista da visão dos seus rivais, de modo que criou o termo «Sociologia» para descrever a disciplina que pretendia estabelecer.

O pensamento de Comte reflectia os acontecimentos turbulentos do seu tempo. A Revolução Francesa havia introduzido uma série de mudanças importantes na sociedade e o crescimento da industrialização tinha alterado o modo tradicional de vida da população francesa. Comte procurou criar uma ciência da sociedade que pudesse explicar as leis do mundo social, à imagem das ciências naturais que explica» vam como funcionava o mundo físico. Embora reconhecesse que cada disciplina científica tem o seu próprio objecto de análise, Comte acreditava que todas partilham uma lógica comum e um método científico, o que visa revelar leis universais. Tal como a descoberta das leis do mundo natural nos permite controlar e prever os acontecimentos à nossa volta, também desvendar as leis que governam a sociedade humana nos pode ajudar a configurar o nosso destino e a melhorar o bem-estar da humanidade. Comte acreditava que a sociedade se submete a leis invariáveis, de um modo muito semelhante ao que sucede no mundo físico.

Comte via a Sociologia como uma ciência positiva. Acreditava que a disciplina devia aplicar ao estudo da sociedade os mesmos métodos científicos e rigorosos que a Física ou a Química usam para estudar o mundo físico. O positivismo defende que a ciência deve preocupar-se apenas com factos obser-

O QUE E A SOCIOLOGIA? 25 váveis que ressaltam directamente da experiência. Com base em cuidadosas observações sensoriais, podemos inferir as leis que explicam a relação existente entre os fenómenos observados. Compreendendo o relacionamento causal entre acontecimentos, os cientistas podem então prever o modo como futuros acontecimentos poderão ocorrer. A abordagem positivista da Sociologia acredita na produção de conhecimento acerca da sociedade com base em provas empíricas retiradas da observação, da comparação e da experimentação.

A lei dos três estádios de Comte postula que as tentativas humanas para compreender o mundo passaram pelos estádios teológico, metafísico e positivo. No estádio teológico, as ideias religiosas e a crença que a sociedade era uma expressão da vontade de Deus eram o guia do pensamento. No estádio metafísico, que se afirmou pela época do Renascimento, a sociedade começou a ser vista em termos naturais, e não sobrenaturais. O estádio positivo, desencadeado pelas descobertas e feitos de Copérnico, Galileu e Newton, encorajou a aplicação de técnicas científicas ao mundo social. Comte, ao adoptar esta última perspectiva, considerava a Sociologia como a última das ciências a desenvolver-se - depois da Física, da Química e da Biologia embora também a mais importante e complexa das ciências.

Já na fase final da sua carreira, Comte concebeu planos ambiciosos para a reconstrução da sociedade francesa em particular e das sociedades humanas em geral, com base nos seus pontos de vista sociológicos. Reclamou a fundação de uma «religião da humanidade», que deveria abandonar a fé e o dogma em favor de um fundamento científico. A Sociologia estaria no centro desta nova religião. Comte estava perfeitamente consciente do estado da sociedade em que vivia: estava preocupado com as desigualdades que a industrialização produzia e a ameaça que elas constituíam para a coesão social. A solução a longo prazo, de acordo com a sua perspectiva, consistia na produção de um consenso moral que ajudaria a regular, ou unir, a sociedade, apesar dos novos padrões de desigualdade. Embora o caminho de Comte para a reconstrução da sociedade nunca se tivesse concretizado, a sua contribuição para a sistematização e unificação da ciência da sociedade foi importante para a posterior profissionalização da Sociologia enquanto disciplina académica.

Emile Durkheim

A obra de outro autor francês, Émile Durkheim (1858-1917), teve um impacto mais duradouro na Sociologia moderna do que a obra de Comte. Embora se apoiasse em determinados aspectos da obra de Comte, Durkheim pensava que muitas das ideias do seu predecessor eram demasiado especulativas e vagas, e que Comte não realizara com sucesso o seu programa - dar à Sociologia um carácter científico. Durkheim via a Sociologia como uma nova ciência que podia ser usada para elucidar questões filosóficas tradicionais, examinando-as de modo empírico. Durkheim, como anteriormente Comte, acreditava que devemos estudar a vida social com a mesma objectividade com que cientistas estudam o mundo natural. O seu famoso princípio básico da Sociologia era «estudar os factos sociais como coisas». Queria com isso dizer que a vida social podia ser analisada com o mesmo rigor com que se analisam objectos ou fenómenos da natureza.

A obra de Durkheim abrange um vasto espectro de tópicos. Três dos principais temas que abordou foram: a importância da Sociologia enquanto ciência

Émile Durkheim (1958-1917)

O QUE E A SOCIOLOGIA? 9 empírica; a emergência do indivíduo e a formação de uma ordem social; e as origens e carácter da autoridade moral na sociedade. Encontraremos as ideias de Durkheim repetidas vezes nas nossas discussões teó* ricas acerca da religião, do desvio e do crime, do trabalho e da vida económica.

Para o autor, a principal preocupação intelectual da Sociologia reside no estudo dos factos sociais. Em vez de aplicar métodos sociológicos ao estudo de indivíduos, os sociólogos deviam antes analisar fac* tos sociais - aspectos da vida social que determinam a nossa acção enquanto indivíduos, tais como o estado da economia ou a influência da religião. Durkheim acreditava que as sociedades tinham uma realidade própria - ou seja, a sociedade não se resume às simples acções e interesses dos seus membros individuais. De acordo com o autor, factos sociais são formas de agir, pensar ou sentir que são externas aos indivíduos, tendo uma realidade própria exterior à vida e percepções das pessoas individualmente. Outra característica dos factos sociais é exercerem um poder coercivo sobre os indivíduos. No entanto, a natureza constrangedora dos factos sociais raramente é reconhecida pelas pessoas como algo coercivo, pois de uma forma geral actuam de livre vontade de acordo com os factos sociais, acreditando que estão a agir segundo aç suas opções. Na verdade, afirma Durkheim, frequentemente as pessoas seguem simples* mente padrões que são comuns na sociedade onde se inserem. Os factos sociais podem condicionar a acção humana de variadas formas, que vão do castigo puro e simples (no caso de um crime, por exemplo) a um simples mal-entendido (no caso do uso incorrecto da linguagem).

Durkheim reconhecia que os factos sociais são difíceis de estudar. Os factos sociais não podem ser observados de forma directa, dado serem invisíveis e intangíveis. Pelo contrário, as suas propriedades só podem ser reveladas indirectamente, através da análise dos seus efeitos ou tendo em consideração tentativas feitas para as expressar, como leis, textos religiosos ou regras de conduta estabelecidas. Durkheim sublinhava a importância de pôr de lado os preconceitos e a ideologia ao estudar factos sociais. Uma atitude científica exige uma mente aberta à evidência dos sentidos e liberta de ideias preconcebidas provenientes do exterior. O autor defendia que os conceitos científicos apenas podiam ser gerados pela prática científica. Desafiou os sociólogos a estudar as coisas tal como elas são e a construir novos conceitos que reflectissem a verdadeira natureza das coisas sociais.

Tal como os outros fundadores da Sociologia,

Durkheim estava preocupado com as mudanças que transformavam a sociedade do seu tempo. Estava particularmente interessado na solidariedade social e moral - por outras palavras, naquilo que mantém a sociedade unida e impede a sua queda no caos. A solidariedade é mantida quando os indivíduos se integram com sucesso em grupos sociais e se regem por um conjunto de valores e costumes partilhados. Na sua primeira grande obra, A Divisão Social do Trabalho (1893), Durkheim expôs uma análise da mudança social, defendendo que o advento da era industrial representava a emergência de um novo tipo de soli* dariedade. Ao desenvolver este argumento, o autor contrastou dois tipos de solidariedade - mecânica e orgânica relacionando-os com a divisão do trabalho e o aumento de distinções entre ocupações diferentes.

Segundo Durkheim, as culturas tradicionais com um nível reduzido de divisão do trabalho caracterizam-se pela solidariedade mecânica. Em virtude da maior parte dos membros da sociedade estar envolvida em ocupações similares, eles estão unidos em tomo de uma experiência comum e de crenças partilhadas. A força destas últimas é de natureza repressiva - a comunidade castiga prontamente quem quer que ponha em causa os modos de vida convencionais. Desta forma resta pouco espaço para dissidências individuais. A solidariedade mecânica baseia-se, por conseguinte, no consenso e na similaridade das crenças. No entanto, as forças da industrialização e da urbanização conduziram a uma maior divisão do tra* balho, o que contribuiu para o colapso desta forma de solidariedade. A especialização de tarefas e a cada vez maior diferenciação social nas sociedades desenvolvidas haveria de conduzir a uma nova ordem caracterizada pela solidariedade orgânica, defendia Durkheim. Este tipo de sociedades estão unidas pelos laços da interdependência económica entre as pes* soas e pelo reconhecimento da importância da contribuição dos outros. À medida que a divisão do trabalho aumenta, as pessoas tornam-se cada vez mais dependentes umas das outras, dado que cada uma necessita dos bens e serviços que só outras pessoas com ocupações diferentes podem fornecer. Relações

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O estudo de Durkheim sobre o suicídio

Um dos estudos clássicos da Sociologia que expio* ra a relação entre o individuo e a sociedade é a análise de Durkheim sobre o suicídio (Durkheim, 1952; originalmente publicado em 1897). Embora os seres humanos se vejam a si próprios como Indivíduos livres na sua vontade e opções, os seus comportamentos sáo muitas vezes padronizados e determinados pelo mundo social. O estudo de Durkheim demonstrou que mesmo um acto tão pessoal como o suicídio é influenciado pelo mundo social.

Tinha havido anteriormente pesquisas sobre o suicídio, mas Durkheim foi o primeiro autor a insistir numa explicação sociológica para o fenómeno As obras anteriores tinham reconhecido a influência de factores sociais no suicídio, embora destacando factores como a raça, o clima ou perturbações merv tais, para explicar a probabilidade de alguém come* ter suicídio. Contudo, segundo Durkheim, o suicídio era um facto social que apenas podia ser explicado por outros factos sociais. O suicídio era algo mais do que um simples conjunto de actos individuais - era um fenómeno com características padronizadas.

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