Anthony Giddens - Sociologia

Anthony Giddens - Sociologia

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Ao examinar registos oficiais sobre o suicídio em

França, Durkheim descobriu que determinadas categorias de pessoas eram mais propensas a cometer suicídio do que outras. Descobriu, por exemplo, que se verificavam mais suicídios entre os homens do que entre as mulheres, mais entre os protestantes do que entre os católicos, mais entre os ricos do que entre os pobres, e mais entre os solteiros do que entre os casados. Durkheim percebeu também que as taxas de suicídio tendiam a ser menores durante épocas de guerra e mais elevadas em alturas de mudança económica ou de instabilidade.

Estes adiados levaram Durkheim a concluir que existem forças sociais externas ao indivíduo que influenciam as taxas de suicídio. O autor relacionou a sua explicação com a ideia de solidariedade social e com dois tipos de laços na sociedade - a integração social e a regulação social. Durkheim acreditava que as pessoas que estavam solidamente integradas em grupos sociais, e cujos desejos e aspirações se regiam pelas normas sociais, tinham uma menor probabilidade de se suicidar. Identificou quatro tipos de suicídio, em função da presença ou ausência da integração e da regulação

Os suicídios egoístas caracterizam-se por uma fraca integração na sociedade e ocorrem quando o indivíduo está sozinhor ou quando os laços que o prendem a um grupo estão enfraquecidos ou que- brados. As baixas taxas de suicídio entre os católicos, por exemplo, podem explicar-se pela sua forte de reciprocidade económica e de mútua dependência gião, são destruídos em larga medida pelo desenvoU vêm substituir as crenças partilhadas na função de vimento social moderno, o que deixa em muitos indi- criar um consenso social. víduos das sociedades modernas um sentimento de

No entanto, os processos de mudança no mundo ausência de sentido na sua vida quotidiana, moderno são de tal maneira rápidos e intensos que Um dos estudos mais famosos de Durkheim (ver dão origem a problemas sociais importantes. Podem caixa de texto) dizia respeito à análise do suicídio, ter efeitos dissolventes sobre os estilos de vida tradi- O suicídio parece ser uma acção puramente pessoa], cionais, a moral, as crenças religiosas e os padrões do o resultado de uma infelicidade pessoal extrema, quotidiano, sem no entanto fornecerem novos valores O autor mostrou, contudo, que factores sociais exer- de forma evidente. Durkheim relacionou este contex- cem uma influência fundamental no comportamento to conturbado com a anomia, um sentimento de suicidário - sendo a anomia uma dessas influências, ausência de objectivos ou de desespero provocado As taxas de suicídio mostram padrões regulares de pela vida social moderna. Os padrões e meios de con- ano para ano, e esses padrões devem ser explicados trolo tradicionais, fornecidos anteriormente pela reli- sociologicamente.

O QUE E A SOCIOLOGIA? 1 noção de comunidade social, enquanto que a líber* dade moral e pessoal dos protestantes significa que «estão sozinhos» perante Deus. O casamento iunciona como uma protecção em relação ao suicídio, ao integrar o indivíduo num relacionamento social estável, ao contrário das pessoas solteiras, que permanecem mais isoladas no seio da sociedade. A menor taxa de suicídios em tempo de guerra, segundo Durkheim, pode ser vista como um sinal de uma maior integração social.

O suicídio anómico é causado por uma ausência de regulação social. Para Durkheim, tal reportava* -se às condições sociais de anomia, quando as pessoas se vêem «sem normas» em contextos de mudança súbita ou de Instabilidade na sociedade. A perda de um ponto de referência fixo no que diz respeito às normas e desejos - como sucede em tempos de convulsões económicas ou de conflitos pessoais como o divórcio - pode perturbar o equilíbrio entre a realidade da vida das pessoas e os seus desejos.

O suicídio altruísta tem lugar quando um indivíduo se encontra «excessivamente integrado» - os vínculos sociais são demasiado fortes - e valoriza mais a sociedade do que a si próprio. Neste caso, o suicídio trànsforrna-se numa espécie de sacrifício por um «bem maior». Os pilotos kamikase japoneses ou os «bombistas suicidas» islâmicos são exemplos de suicidas altruístas. Para Durkheim, este tipo de suicídio é característico das sociedades tradicionais, onde prevalece a solidariedade mecânica.

O último tipo de suicídio é o suicídio fatalista.

Embora para Durkheim este tipo de suicídio fosse pouco relevante na sociedade contemporânea, o autor acreditava que este se verificava quando um indivíduo em excessivamente regulado peta sociedade. A opressão do indivíduo traduz-se num sentimento de impotência perante o destino ou a sociedade.

Embora variem de sociedade para sociedade, as taxas de suicídio apresentam padrões reguladores em cada sociedade ao longo dos anos. Para Durkheim, tal provava que existem forças sociais consistentes que influenciam o comportamento suícidá» rio. Uma análise das taxas de suicídio revela até que ponto podem ser identificados padrões sociais gerais em acções individuais.

Desde a publicação de O Suicídio* foram levantadas muitas objecções a este estudo de Durkheim, especialmente acerca da sua utilização nas estatísticas oficiais, da sua rejeição de influências de carácter não-social sobre o suicídio, e da sua insistência em classificar em conjunto todos os tipos de suicídio. De qualquer maneira, esta obra continua a ser um estudo clássico e a sua asserção fundamental permanece válida: mesmo um acto tão pessoal como o suicídio exige uma explicação sociológica.

Karl Marx

As ideias de Karl Marx (1881-83) contrastam radicalmente com as de Comte e Durkheim, embora, tal como eles, também Marx tenha tentado explicar as mudanças que ocorriam na época da Revolução Industrial. As actividades políticas de Marx, quando jovem, tiveram como consequência um conflito com as autoridades alemãs; após uma breve estadia em França, fixou-se, para sempre, no exílio na Grã-Bretanha. Marx assistiu ao aumento do número de fábricas e da produção industrial, bem como às desigualdade daí resultantes. O seu interesse pelo movimento operário europeu e pelas ideias socialistas reflectiu-

-se na sua obra, que abrange uma grande diversidade de assuntos. A maior parte dos seus escritos centra-se em questões económicas, mas, como sempre teve como preocupação relacionar os problemas económicos com as instituições sociais, a sua obra era, e é, rica em reflexões sociológicas. Mesmo os seus críticos mais implacáveis consideram a sua obra de importância para o desenvolvimento da Sociologia.

Capitalismo e luta de classes

Embora escrevesse acerca de várias fases da história, Marx concentrou-se na mudança nos tempos modernos. Para ele, as mudanças mais importantes estavam

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ligadas ao desenvolvimento do capitalismo - um sistema de produção que contrasta de forma radical com sistemas económicos historicamente anteriores, implicando a produção de bens e serviços para serem vendidos a uma grande massa de consumidores. O autor identificou dois elementos cruciais nas empresas capitalistas. O primeiro é o capital - qualquer activo, incluindo dinheiro, máquinas, ou mesmo fábricas, que possa ser usado ou investido para realizar futuros bens. A acumulação do capital está intimamente ligada ao segundo elemento, o trabalho assalariado - por tal entende-se o conjunto de trabalhadores que não detém a propriedade dos meios de produção, mas que tem de procurar emprego, fornecido pelos que detêm o capital. Marx acreditava que aqueles que detêm o capital, ou capitalistas, constituem uma classe dominante, enquanto a grande massa da população constitui uma classe de trabalhadores assalariados, ou classe operária. A medida que a industrialização se propagou, um grande número de camponeses, que anteriormente subsistiam do trabalho agrícola, mudou-se para as cidades em expansão, ajudando a formar uma classe operária industrial urbana. Esta classe de trabalhadores é também apelidada de proletariado.

Segundo Marx, o capitalismo é inerentemente um sistema de classes, sendo as relações entre as classes caracterizadas pelo conflito. Embora os proprietários do capital e os trabalhadores dependam uns dos outros - os capitalistas necessitam da mão-de-obra e os trabalhadores necessitam dos salários - a dependência é extremamente desequilibrada. O relacionamento entre as classes assenta na exploração, na medida em que os trabalhadores têm pouco ou nenhum controlo sobre o seu trabalho e os patrões têm a possibilidade de gerar lucro apropriando-se do produto do esforço dos trabalhadores. Marx acreditava que o conflito de classes em torno dos recursos económicos se iria acentuar com a passagem do tempo.

Mudança social: a concepção materialista da história

A perspectiva de Marx assentava no que denominava concepção materialista da história. De acordo com esta perspectiva, não se encontram nas ideias ou nos valores humanos as principais fontes de mudança social. Pelo contrário, a mudança social é promovida acima de tudo por factores económicos. Os conflitos entre classes fornecem a motivação para os desenvolvimentos históricos - eles são o «motor da história». Nas palavras de Marx, «toda a história humana é, até à data, a história da luta de classes». Embora o autor centrasse a maior parte da sua atenção no capitalismo e na sociedade moderna, analisou igualmente a forma como as sociedades se desenvolveram ao longo da história. Segundo Marx, os sistemas sociais transitam de um modo de produção para outro - às vezes de forma gradual, outras vezes por via de uma revolução - em resultado das contradições dos seus sistemas económicos. O autor delineou uma progressão por etapas históricas, com início nas sociedades comunistas dos caçadores-recolectores > passando pelos sistemas esclavagistas antigos e pelos sistemas feudais baseados na distinção entre senhores das terras e servos. A emergência de comerciantes e artesãos marcou o início de uma classe comercial ou capitalista que acabou por substituir a nobreza fundiária. De acordo com esta perspectiva da história, Marx defendeu que tal como os capitalistas se haviam unido para derru-

O QUE E A SOCIOLOGIA? 13 bar a ordem feudal, também os capitalistas seriam suplantados e uma nova ordem instalada.

Marx acreditava na inevitabilidade de uma revolução da classe trabalhadora que derrubaria o sistema capitalista e abriria portas a uma nova sociedade onde não existissem classes - sem grandes divisões entre ricos e pobres. Marx não queria dizer que todas as desigualdades entre os indivíduos iriam desaparecer, mas que as sociedades não mais iriam ser divididas entre uma pequena classe que monopoliza o poder político e económico, por um lado, e, do outro, uma grande massa de indivíduos que pouco benefício reti* ram da riqueza gerada pelo seu trabalho. O sistema económico assentaria na posse comum, sendo estabelecida uma forma de sociedade mais justa do que a que conhecemos hoje. Marx acreditava que na sociedade do futuro a produção seria mais evoluída e eficaz do que na sociedade capitalista.

A obra de Marx teve um efeito de enorme relance no mundo do século X. Até muito recentemente, mais de um terço da população humana vivia em países cujos governos reivindicavam ser inspirados pelas ideias de Marx, como a União Soviética e os países da Europa de Leste.

Max Weber (1864-192C)

Max Weber

Tal como Marx, Max Weber (1864-1920) não pode ser simplesmente rotulado como sociólogo; os seus interesses e preocupações abrangem muitas áreas. Nascido na Alemanha, onde passou a maior parte da sua carreira académica, Weber era um indivíduo de grande erudição. As suas obras cobrem os campos da Economia, do Direito, da Filosofia e da História Comparada, bem como da Sociologia. Grande parte da sua obra dava também particular atenção ao desenvolvimento do capitalismo moderno e à forma como a sociedade moderna era diferente de outros tipos anteriores de organização social. Através de um conjunto de estudos empíricos, Weber explicitou algumas das características básicas das sociedades industriais modernas e identificou debates sociológi» cos fundamentais, que ainda hoje permanecem centrais para os sociólogos.

Tal como outros pensadores do seu tempo, Weber tentou compreender a natureza e as causas da mudança social. Foi influenciado por Marx, mas mostrou-se também muito crítico em relação a alguns dos princi- pais pontos de vista de Marx. Weber rejeitou a concepção materialista da história e deu ao conflito de classes um significado menor do que Marx. Na perspectiva de Weber, os factores económicos eram importantes, mas as ideias e os valores tinham o mesmo impacto sobre a mudança social. Ao contrário dos primeiros pensadores sociológicos, Weber defendeu que a Sociologia devia centrar-se na acção social, e não nas estruturas. Argumentava que as ideias e as motivações humanas eram as forças que estavam por detrás da mudança - as ideias, valores e crenças tinham o poder de originar transformações. Segundo o autor, os indivíduos têm a capacidade de agir livremente e configurar o futuro. Ao contrário de Durkheim ou Marx, Weber não acreditava que as estruturas existiam externamente aos indivíduos ou que eram independentes destes. Pelo contrário, as estruturas da sociedade eram formadas por uma complexa rede de acções recíprocas. A tarefa da Sociolo* gia era procurar entender o sentido por detrás destas acções.

Algumas das obras mais importantes de Weber preocuparam-se com a análise das características

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Uma fundadora esquecida

Embora Comte, Durkheim, Marx e Weber sejam, sem dúvida alguma, as figuras fundadoras da Sociologia, existem outros pensadores importantes do mesmo período histórico cuja contribuição deve também ser tomada em conta. A Sociologia, como muitas outras áreas académicas, nem sempre teve a postura ideal de reconhecer a importância de cada um dos autores cu|a obra tenha um mérito intrínseco. No período «clássico» do fim do século XIX e princípios do século X, muito poucas mulheres ou membros de minorias étnicas tiveram a possibilidade de se tornarem sociólogos profissionais á tempo inteiro. Além disso, os poucos que tiveram a possibilidade de conduzir pesquisas sociológicas de importância maior foram muitas vezes esquecidos pelo meia Gente como Harriet Martâneau merece a atenção dos sociólogos contemporâneos. Harriet Martineau (1802-1876) próprias da sociedade Ocidental, em comparação com as outras grandes civilizações. Estudou as religiões da China, índia e Próximo Oriente, e no decorrer dessas pesquisas fez grandes contribuições para a Sociologia da religião. Comparando os principais sistemas religiosos da China e índia com os do Ocidente, Weber concluiu que alguns aspectos das crenças cristãs influenciaram grandemente o aparecimento do capitalismo. Este não emergira, como Marx acreditava, apenas graças às mudanças económicas. Segundo Weber, os valores e as ideias culturais contribuem para moldar a sociedade e as nossas acções individuais.

Um elemento importante da perspectiva sociológica de Weber era a ideia de tipo ideal - modelos conceptuais ou analíticos que podem ser usados para compreender o mundo. Na vida real, é raro existirem, se é que existem, tipos ideais - muitas vezes existem apenas algumas das suas características. Estas construções hipotéticas podem, no entanto, revelar-se muito úteis, na medida em que se pode compreender qualquer situação do mundo real através da sua com- paração com um tipo ideal. Desta forma, os tipos ideais servem como pontos de referência fixos. É importante sublinhar que por tipo «ideal» Weber não entendia que essa concepção fosse algo de perfeito ou desejável, sendo antes uma forma «pura» de determinado fenómeno. Weber utilizou os tipos ideais nas suas obras sobre a burocracia e o mercado.

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