O governo eclesiástico no modelo dos doze

O governo eclesiástico no modelo dos doze

(Parte 3 de 4)

2. REVISÃO CONCEITUAL

Para maior abrangência do tema e consequente clareza da área proposta ao trabalho apresentado, a busca de referenciais teóricos, argumentos e conceitos, faz-se necessária e se prestará de base para a monografia.

2.1 - Histórico

O pastor sul-coreano David (Paul) Yonggi Cho, fundador da Igreja do Evangelho Pleno é considerado no meio evangélico como o pai das igrejas em células. Esse modelo conquistou o mundo e implantado em diversos lugares na sua íntegra ou com algumas adaptações, o sistema de igrejas em células tem a pretensão de retornar ao evangelismo dos moldes de Atos dos apóstolos, com cultos realizados nas casas dos discípulos.

David(Paul)YonggiCho (14defevereiro de 1936)éum ministroevangélico coreano,ligadoà AssociaçãoMundialdasAssembleiasdeDeus.É pastor da IgrejadoEvangelhoPleno de Yoido.ElenasceucomonomedeYonggiCho,incluiuoprimeironomePaulparafacilitarocontatocomosocidentais,masdepoismudouseunomeparaDavidYonggiCho.Chonasceuemumlar budista efoiassimatéos19anos,quando,apósficardoentede tuberculose seconverteuàfé cristã.Apósasuaconversão,eleseuniuaumaigreja pentecostal.Inicialmentefoiintérpretede missionários norte-americanos,masem 1958,começouapregarnumbairropobrede Seul.Pregavaparapoucaspessoas,masdepoisamembresiafoiaumentando.Apósoserviçomilitar,abriuumnovotemploemSeodamun,em 1961,com1500membros.Apósumtempo,secasoucomKimSungHye,filhadesuaassociadaJasilChoiKim,comquemtiveram3filhos.

Nesta época também implantou uma estratégia de evangelismo de reuniões eclesiásticas nas casas dos membros, o que fez com que a igreja crescesse bastante.” 6

O pastor Cho viu sua igreja se transformar de pequena e pobre comunidade evangélica para a condição de maior igreja do mundo. Uma explosão de crescimento que desafia até os dias de hoje, a compreensão humana. Essa expansão da Igreja do Evangelho Pleno, liderada por Cho, chamou a atenção de lideres evangélicos de todo o mundo, que desembarcavam no solo coreano em busca de respostas para tamanho e instantâneo crescimento, bem como, a receita para a implantação do método em suas igrejas.

2.2 – O modelo ganha as nações

Na década de 1960, o pastor Cho ficou conhecido e passou a ser respeitado na comunidade evangélica mundial como um homem de conquistas. Sua história de sucesso ganhou manchete na imprensa protestante e chegou aos Estados Unidos da América, vitrine mundial de todas as áreas da humanidade. Em suas cruzadas na América, pastor Cho apresentava a fórmula simples para o crescimento da Igreja. A nova mensagem era tudo o que a igreja americana necessitava ouvir, já que atravessava uma letargia espiritual.

Partindo dos EUA, a mensagem de implantar igrejas nos lares, que mais tarde passou a chamar igrejas em células, ganhou aceitação em diversas nações do mundo. Ganhar as nações continua sendo um dos pilares do movimento das igrejas em células no modelo dos doze.

E percorria Jesus todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles, e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. E, vendo a multidão, teve grande compaixão deles, porque andavam desgarrados e errantes, como ovelhas que não têm pastor”. “Então chamando os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem, e para curarem toda a enfermidade e todo o mal” Mt 9.35,36; 10.1

Ao estabelecer os Doze, o Senhor Jesus teve quatro propósitos definidos:  Mostrar compaixão pelas pessoas. Vendo o povo desorientado e como ovelhas sem pastor, Jesus se compadeceu (Mt 9.35). Ele imprimiu este sentimento em Seus discípulos, ensinando-os a interessar-se pelas necessidades das multidões. “Não é mister que vão; daí-lhes vós de comer”. Mt 14.15,16 Através de Seus doze, Ele demonstrou Sua compaixão. As pessoas de hoje vivem perdidas, com muitos problemas e conflitos sem saber a quem recorrer.

A visão G12 proporciona-lhes cuidado pessoal e direto que necessitam. Através da visão G12, as pessoas são conduzidas à salvação, visitas em seus lares, e desta forma suas necessidades são conhecidas, oramos e as ajudamos a prosseguir nas diferentes situações que enfrentam”. 7

O ganhar as Nações está inserido na ordenança do Senhor Jesus Cristo de “ir pelo mundo e pregar o evangelho a toda criatura”, e no movimento das igrejas em Células, o método é aplicado aos pequenos grupos de oração e estudo da Bíblia, instalado nos lares, que se fundamenta em Mt. 28 V19: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo.”

2.3 – O modelo na Colômbia

Inspirado no pastor sul coreano David (Paul) Yonggi Cho, o ministro do evangelho na Colômbia, pastor Cesar Castellanos Dominguez, iniciou no ano de 1983 a implantação em solo colombiano do que viria a ser conhecido como Missão Carismática Internacional (MCI). Após alguns anos, a igreja presidida por Castellanos estagnou e apresentava crescimento mínimo. Em 1991, o pastor colombiano disse ter recebido do próprio Deus uma revelação profética em resposta às suas orações pelo crescimento da igreja. Em seu livro “Sonhas e Ganharás o Mundo”, o pastor Cesar aponta:

Em 1991, sentimos que se aproximava um maior crescimento, mas algo impedia que o mesmo ocorresse em todas as dimensões. Estando em um dos meus prolongados períodos de oração, pedindo a direção de Deus para algumas decisões, clamando por uma estratégia que ajudasse na frutificação das setenta células que tínhamos até então, recebi a extraordinária revelação do modelo dos doze. Deus me tirou o véu. Foi então que tive a clareza do modelo que agora revoluciona o mundo quanto ao conceito mais eficaz para a multiplicação da igreja: os doze. Nesta ocasião, ouvi o Senhor dizendo-me: vais reproduzir a visão que tenho te dado em doze homens, e estes devem faze-lo em outros doze, e estes por sua vez em outros doze”. 8

A revelação do propósito de Deus para a Igreja presidida por Castellanos na Colômbia, foi posta em prática e em pouco tempo o resultado se apresentou de maneira surpreendente. A igreja no modelo de células ganhou na Colômbia, uma forma de governo composta pelo líder e doze discípulos. Essa forma de governo é diferente da adotada pela Igreja em Células do Evangelho Pleno, do sul coreano David (Paul) Yonggi Cho, que aplica naquela igreja a forma de governo tradicional das Assembleias de Deus. O método da igreja em células de Castellanos atravessou as fronteiras da Colômbia e ganhou diversas Nações, sendo hoje empregado em diversas denominações evangélicas desde as tradicionais, passando pelas pentecostais e neopentecostais.

2.4 – O modelo chega ao Brasil

Não demorou muito e os ventos da igreja em células no modelo dos doze, conhecida como Governo dos Doze (G12), passou a assoprar sua doutrina em território brasileiro. Castellanos encontrou no pastor Batista Renê Terra Nova, seu representante no Brasil, e dai, o sonho de conquistar o mundo oficialmente se instalou no solo brasileiro. Pastor Renê Terra Nova fundou o MIR – Missão Internacional de Restauração e logo após acontece o rompimento com a cobertura espiritual do pastor Cesar Castellanos. Renê Terra Nova e o MIR não aceitam a maneira que o G12 do pastor colombiano foi patenteado e a cisão foi inevitável. Surge então, sob o cajado de Renê Terra Nova, o M12, uma cópia do G12, o governo no modelo dos 12.

OM12,designaçãodomodelocelularlideradoporRenê,surgiuquandoRenêeoMIRnãoaceitaramacoberturadeCastellanos,eRenêadaptouG12 paraformarM12.OprincipalmotivofoiopatenteamentodadesignaçãoG12,foraofatoqueomovimentodeigrejascelulares(GruposFamiliares)começounaCoreiacomDavid(Paul)Cho,quepossuicercadeummilhãodemembrosemsuaigrejaehouvemovimentoscelularestambémnosEstadosUnidosatravésdeRalphNeighbour,RichWarreneoutros(G5,IgrejacomPropósitosetc.)esurgiutambémnoNorte(Pará),emSantarémaIgrejadaPaz,doPastorAbeHuberquesegueoMDA(ModelodeDiscipuladoApostólico).AIDPB-IgrejaPentencostaldeDeusnoBrasilealgumasPresbiterianas(Manaus)seguemomodelodeGruposFamiliares.

A diferença entre a PIBREM (fundada em 1992) e o MIR é que o Ministério da Restauração inaugurou-se em 20 de outubro de 1990, quando o então Pastor Renê e família chegaram a Manaus, e por conta de divergências doutrinárias como a questão do dom de línguas e o Batismo no Espírito Santo (rejeitado por igrejas históricas), gerou uma cisão na Igreja Batista Memorial (onde pastoreava), sendo acertado pela liderança e membros da igreja que saísse, junto a 169 pessoas da igreja por tais divergências. O Templo do MIR Manaus tem capacidade para 9 mil e 500 Pessoas ”. 9

O racha não foi o único algoz do início do movimento de igrejas em células no Brasil, o pior ainda estava por vir, através de campanha intitulada de defesa do evangelho, promovida pelas igrejas tradicionais que taxaram de herético, o novo movimento.

3. O MODELO É CONFRONTADO

O movimento das igrejas em células recebeu em sua chegada ao Brasil, uma confrontação sem limites. As igrejas históricas e as pentecostais clássicas se uniram nesta refutação e promoveram um combate sem economia de munições àquilo que identificaram como séria ameaça herética, promotora de confusão e rachas nas igrejas estabelecidas.

O foco da refutação ao movimento G12 concentrou-se na alegação de que falsas doutrinas estavam embutidas no novo movimento, como: batalha espiritual, quebra de maldições, cobertura espiritual, atos proféticos, decretos, cura interior, o renascimento para Cristo através do Encontro, etc.

Trabalhos de pesquisadores sobre as possíveis heresias cometidas pelo G12, foram divulgados em larga escala no seio evangélico brasileiro, em um desses trabalhos, o pastor presbiteriano Ornelas Cezar Filho, descreve o seguinte panorama:

O Rev. Anselmo Chaves havia escrito esse livro (Os Cursilhistas), justamente para combater, até radicalmente, o Movimento dos Cursilhos da Cristandade, veja bem, em l973. Ele, depois de ser um católico praticante, português de nascimento, converteu-se à fé evangélica, e se tornou um pastor protestante. Nisto, eu já tinha um livro, de Valnice Milhomens, que respeito muito, ainda que pense diferente, onde ela citava um outro livro, do Apóstolo César Castellanos de 1991 (Sonha e ganharás o mundo). Ora, se alguém aparece, dizendo que, em l991, recebeu “a extraordinária revelação do modelo dos doze...”, mas algo que, veja bem, em l973, um pastor já combatia, como um movimento do Catolicismo Romano, eu só pude pensar nisto: É FRAUDE! Note bem, eu tinha um documento nas minhas mãos! Um livro de l973, já com suas folhas amareladas pelo tempo, que trazia exatamente o que traz a “revelação do Espírito Santo de l991”, e uma dura contestação a ela. Eu tinha, nas minhas mãos, uma prova documental, e a tenho bem guardada. Não desejo criticar diretamente os Cursilhos da Cristandade dos católicos, esta não é minha intenção, em o fazendo, é apenas circunstancial, mas o que vejo com a mais absoluta restrição é o fato de alguém dizer que teve uma revelação do Espírito Santo em l991, que revolucionaria o mundo, mas algo já servido à mesa católica desde os idos de l930, e já falada e combatida por um outro pastor em l973. É aqui que começa o engano no nosso meio, de uma “revelação” de algo já existente, há anos, no seio católico romano. Assim, vi que o movimento do G12 é uma fraude profética, antes de tudo. Vergonha para os católicos? Não! Eles têm o direito de ter os seus programas de treinamento das suas ovelhas, sem dúvida. Vergonha para nós, em que alguém aparece com algo novo no nosso meio, dizendo que Deus lhe mostrou, mas que já é “comida de ontem em outra mesa”. No livro do Rev. Anselmo Chaves, que mostraremos algumas páginas aqui, ele diz, veja bem, em l973, que houve um congresso latino-americano do Movimento dos Cursilhos da Cristandade em Bogotá, capital da Colômbia, em l968, que teria servido para a difusão desse movimento em toda a América Latina. Ora, como pode alguém dizer que recebeu uma revelação do Espírito Santo, em l991, de algo que mudaria o mundo, mas que já existe desde os anos 30, como movimento de outra religião? E o pior: “o que é dito que o Espírito Santo teria mostrado a esse senhor, em l991, já existia, e, veja bem, em Bogotá. Assim, Bogotá, a terra de origem do G12 é, também, o mesmo lugar de um grande congresso, em l968, dos Cursilhos da Cristandade!” Alguém precisa confrontar esse senhor, sobre a sua revelação de l991 com o fato histórico do congresso latino-americano de l968, onde se tratou do mesmo programa de avivamento, o mesmo, como vamos ver logo a seguir. Por volta de l992 aparece alguém que diz ter recebido uma revelação do Espírito Santo, como algo novo, que mudaria o mundo, mas que já foi servido na mesa do Catolicismo Romano. Volto a dizer que não critico, aqui, os católicos, ainda que não seja ecumenista, não! Critico veementemente a fraude evangélica, um tipo de “plágio’, de direito autoral usurpado.”. 10

Em 18 de setembro de 2000, a Convenção Batista Brasileira (CBB) divulgou um manifesto à sua liderança sobre a chegada do G12 no Brasil. A luz de suas convicções de fé (credo religioso), a CBB no item 5 desse manifesto, e em sua exortação e recomendação destaca:

5. Não aprovamos o Modelo G12, já no chamado “Encontro Tremendo” que emprega métodos e procedimentos que vêm ao arrepio dos princípios e ensinos das Santas Escrituras; já na compreensão de que todos os crentes são potencialmente lideres, pois isso contraria a diversidade de dons a que a Bíblia ensina e a experiência eclesiástica confirma. Nem todos receberam o Dom de liderar, mas todos com certeza receberam dons que os habilitam a servir no corpo de Cristo.

Nossa Exortação e recomendação

1. Exortamos pastores e igrejas a cumprirem o que ordena Paulo aos Tessalonicenses: Examinai tudo, retende o bem. Nunca venham a adotar e apregoar, como definitivo e de valor absoluto, qualquer método, modelo ou programa de igrejas que eventualmente tenha produzido frutos noutras culturas e noutros lugares. Cada método ou modelo deve ser confrontado com os princípios bíblicos e, se passar por esse crivo deve ser reajustado à necessidade da igreja.

2. Recomendamos que o G12, como qualquer modelo de igrejas em células ou grupos nos lares, deve ser rejeitado quanto a sua pretensão de revelação final de Deus para a Igreja hoje; mas pode ser aproveitado, em principio, naquilo em que não conflitar com as Escrituras e a teologia e eclesiologia que delas decorrem e nos adotamos como povo cristão, evangélico e batista. Pr. Irland Pereira de Azevedo (relator)”. 11

3.1– A resistência na Assembleia de Deus

Em em 1910 desembarcam no Brasil os missionários suecos Daniel Berger e Gunnar Vingrem, recém chegados da cidade de Los Angeles, onde foram conhecer o avivamento da igreja da rua Azuza e acabaram por experimentar o batismo com o fogo do Espirito Santo. Se instalaram em Belém do Pará e passaram a congregar na Igreja Batista. Não demorou muito e as manifestações da evidência desse batismo, como o falar noutras línguas, chocou com a tradição batista, contrária a glossolalia. Os missionários e mais um grupo de batistas foram convidados a se retirarem da igreja e, em 1911, fundam uma igreja que viria a se transformar na Assembleia de Deus, a maior representante pentecostal clássica na nação brasileira.

A caminhada da Assembleia de Deus não foi nada fácil em seu inicio. Considerada seita herética por alguns segmentos evangélicos, a igreja sofreu várias perseguições e acusações. Mas, após algum tempo se estabeleceu como a maior igreja do pais.

Foi justamente da seara da Assembleia de Deus, com histórico de vítima de perseguições e acusações, que partiu os mais intensos ataques contra o G12, recém instalado no Brasil.

Na primeira quinzena de maio de 2000, o Conselho de Doutrina da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, a CGADB, divulgou no periódico Mensageiro da Paz, editado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus, o manifesto de alerta aos lideres a respeito da ameaça do G12, conforme trecho extraído da declaração do pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente daquela convenção:

As tais reuniões secretas do G-12, são práticas semelhantes e usadas pelo espiritismo. Essa nova tática vem promovendo mudanças na liturgia das igrejas, permitindo seus participantes tornarem seus cultos uma verdadeira confusão, onde a decência e a ordem não mais existem, além de tirar a liberdade da verdadeira adoração a Deus. São novas heresias iguais a outras que tentam eliminar a eficácia da morte de Jesus no Calvário. 0 G12 leva seus participantes a pronunciamentos, confissões e até chegam à petulância de dizer que perdoam Deus, afirmando ser "uma nova visão, uma coisa "tremenda", induzindo as pessoas a aceitarem adendos e retoques à obra do Calvário. 0 plano de Deus realizado por Jesus na cruz é completo, perfeito, insubstituível e não aceita apêndices. Lamentavelmente, alguns irmãos e até obreiros embriagaram-se com o G12. 0 apóstolo Paulo nos advertiu em Gálatas 1.8: "Mas ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já pregamos, seja anátema”. 12

Ainda hoje, com poucas exceções, a semente do G12 é infrutífera no solo das Assembleias de Deus e para a maioria dos lideres dessa denominação, o fruto produzido pelo G12 é podre. Algumas igrejas adotam apenas o sistema de trabalhar em células, que muito se assemelha aos pontos de pregação, existentes nos primórdios da igreja AD. Mas, quando se trata do sistema de administração, as poucas Assembleias que adotaram o modelo de células, dão preferência ao seu centenário método de administração, ou seja, igrejas ligadas aos Campos Eclesiásticos que por sua vez são ligados a Convenções Regionais (Estados) , culminando com a filiação à Convenção Nacional. Pré encontros, encontros, pós encontros, terapias para cura interior, quebra de maldições e outras inovações do G12, quase nunca são aplicadas nas Assembleias com modelo de igreja em células. Nas Assembleias de Deus em células, observa-se mais a metodologia do pastor David (Paul) Yonggi Cho, da Coreia do Sul, em detrimento ao sistema de governo do G12, propagado pelo pastor Cesar Castellanos e aqui no Brasil, o M12 do apóstolo Renê Terra Nova.

Em síntese: a maior igreja do Brasil não aprova a nova visão divulgada pelo movimento G12. O Conselho de Doutrina da Convenção Geral das Assembleias de Deus, se mostra atuante na orientação da liderança da igreja, no sentido de que se feche as portas para a doutrina do G12, a qual qualifica de evangelho falsificado. O pastor e deputado federal Paulo Roberto Freire, como então presidente do Conselho de Doutrina da CGADB, ratificou a vertente do pensamento da igreja em relação ao G12, tratando o novo movimento da Visão do governo dos 12 como sendo seita profética.

O G12 apresenta-se ainda como uma nova revelação divina, que supervaloriza a visão dos doze como solução última para a igreja dos dias atuais. A palavra "novo", utilizada ininterruptamente pelo G12, carrega intenções malignas objetivando desestabilizar igrejas que já existem, como se o G12 fosse a "última revelação de Deus" para o momento. Pior: os líderes do G12 dizem que caso as igrejas não participem desta "nova visão", serão substituídas por outras. Neste sentido, o G12 em nada difere das chamadas seitas proféticas. Refutação: Toda revelação de Deus ao homem já se encontra registrada no Antigo e no Novo Testamento, não nos cabendo acrescentar mais nada (Is 8.20; Ap 22.19). Paulo Roberto Freire, presidente do Conselho de Doutrina da CGADB, maio de 2000”. 13

3.2 - O medo no arraial evangélico

O começo da década passada, foi marcado por muita expectativa, deste o acesso ao novo milênio; a campanha da Nova Era que propagava o fim da era de Peixes e início da era de Aquários; a ameaça do bug do milênio, onde o sistema de informatização provavelmente entraria em colapso; os simpatizantes de seitas apocalípticas que apregoavam o final do mundo. Enfim, muita expectativa e indefinições permeavam a mente de muita gente. No seio evangélico, aqui no Brasil surge uma novidade, que de forma profética anunciava a chegada de um novo tempo para conquistas. A igreja não seria mais a mesma. Iria crescer em proporções extraordinárias e as pessoas seriam totalmente transformadas. Esse era o tom do discurso do G12, movimento que chegou com a promessa de em pouco tempo de transformar no maior aglomerado de evangélicos do pais.

Mas não demorou muito tempo e as igrejas tradicionais e pentecostais clássicas, alinharam sua artilharia pesada e disparam a valer contra as intenções do G12. Discussões e mútuas acusações se arrastaram por longo tempo. No centro de tudo isso, o povo, que não conseguia acompanhar a velocidade das teses acusatórias e os argumentos da defesa. Surge então, o medo. Um sentimento contrário à fé. Medo de estar aderindo a um movimento sem base bíblica. Medo de estar combatendo uma nova proposta de Deus. Dúvida e Medo se alternaram no ambiente evangélico. Foi um período negro. Nos diversos púlpitos quase não havia tempo para o objetivo fim, que é pregar a palavra de Deus. O que se via eram os discursos de defesa e ataque ao G12.

3.3 – Contornando os muros da resistência

O movimento do G12, assim que se viu literalmente atacado, teve de recuar em sua estratégia e se rearticular para então conquistar espaço. A liderança do G12 não contava com tamanha resistência. As acusações a respeito de que nos encontros secretos se fazia terapia para cura interior, bem como a regressão, onde os participantes eram “sugestionados” a se verem novamente como fetos no interior da barriga da mãe, para então, a partir dali, vir se restaurando até chegar no presente, se alastraram como um vento forte pelo território brasileiro. Muitos que tinham adotado o sistema de governo dos Doze, retrocederam, ou então, somente declaravam ser igreja em células. A sigla G12 recebeu a pecha de seita herética.

Recuar foi uma estratégia necessária e a liderança do G12, então adotou uma postura light e passou a divulgar que tudo aquilo não passava de um mal entendido. No novo discurso, o G12 pregou a unidade, a honra, e disse ser uma estratégia para a frutificação rápida e eficaz da igreja de evangelismo agora sistematizado e, com metas a serem alcançadas. A liderança se encontrava motivada a cumprir o ide do Senhor, usando como estratégia as células e os pequenos grupos de oração e estudo da bíblia.

3.4 - O modelo se estabelece

Realizadas estas adequações, o movimento prosseguiu de forma mais cautelosa e foi amealhando adeptos nas diversas congregações. Com o rompimento de Renê Terra Nova com o pastor colombiano César Castellanos, o movimento ganhou uma cara mais abrasileirada e surgiu o M12, uma cópia do G12 que se espalhou por todos os recantos do pais. Hoje estabelecido, o movimento já não encontra muita resistência e alguns críticos do passado passaram a condição de colaboradores.

4. O GOVERNO DOS DOZE

O que é o Governo dos Doze? Segundo a Visão das Igrejas em Células no modelo dos 12, esse governo é um modelo de administração eclesiástica que sempre esteve no coração de Deus e o número doze simboliza autoridade. Advogam que Jesus não escolheu onze e nem treze discípulos; selecionou doze para continuarem na propagação de sua visão ao mundo. É uma questão de fé sobrenatural e estratégia que traz a seguinteinterpretação dada pelos lideres do Movimento, que aponta que o segredo está nos doze:

É um modelo de liderança revolucionário que consiste em que o cabeça de um ministério selecione doze pessoas para ver reproduzido nelas, tanto em sua vida quanto em seu caráter e a autoridade de Cristo, afim de desenvolver a visão da igreja, facilitando assim a multiplicação. Estas doze pessoas selecionam outras doze e, estas, outras doze, para fazer com elas o mesmo que o líder fez em suas vidas”. 14

4.1ConhecendooModelo

No governo dos doze o modelo se fundamenta em um processo de relacionamento entre o líder e seus discípulos e vice-versa. Esse foi o princípio estabelecido por Jesus em relação aos seus discípulos. Desde a escolha, permaneceu sempre com eles no objetivo de conhecê-los e formá-los e também para que os seus discípulos O conhecessem plenamente. Ai está a unidade apregoada pelo G12.

A unidade de pensamentos, de sentimentos e de compromisso é a característica que reflete a solidez de uma equipe. A vitória para uma equipe de futebol está fundamentada na coesão de critérios e ações entre todos os jogadores e seu técnico na hora de enfrentar o time oposto. Jesus disse: 'Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruro; porque sem mim nada podeis fazer ' (Jo. 15.5). Da mesma forma na Visão celular, os discípulos não podem fazer nada se não estão em contato com seu líder, nem o líder poderá alcançar as metas propostas, se não conta com o apoio da equipe”. 15

Outra característica do Governo dos Doze é a motivação. Apontam o fato do Senhor Jesus ter mantido em seu ministério uma motivação permanente e inspirava assim os seus discípulos para que com boa vontade, atitude correta e diligência, cumprissem o desejo de seu coração. O G12 na visão de seu fundador, César Castellanos, destaca assim, o aspecto da motivação:

A influência que dá sentido à verdadeira liderança implica em animar o indivíduo, motivá-lo, estimulá-lo à inovação, desafiá-lo a descobrir e aproveitar seus dons e talentos e, sobretudo, formá-lo até que esteja capacitado a influenciar outros. O apóstolo Paulo disse: 'Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo'. (1 Co. 11.1). Ao falar de influência faz-se também referência à habilidade de ter seguidores. Ninguém pode dizer que é líder se não tem quem o siga. Pelo contrário, quem pensa que dirige e não tem ninguém seguindo-o, somente está dando um passeio”. 16

Nas igrejas em células no modelo dos doze, a liderança é ponto importantíssimo. Sem uma liderança eficaz, o projeto não alavanca, cai. Cada célula é um celeiro de formação de líderes. Esses líderes, após passarem pelo processo de capacitação, serão os futuros pastores das futuras células. É um ciclo constante, assim como no corpo animal, onde as células se reproduzem, na visão espiritual do modelo dos doze, as células também têm de multiplicaram-se e isso dá o crescimento da igreja. Existe também as redes, com suas diversas abrangências: jovens, mulheres, homens, juniores (adolescentes), crianças, e casais, com seus encontros e festividades.

Nas células, o líder (pastor de célula) tem as atribuições de um ministro e, lidera a célula como tal, inclusive com a coleta de ofertas e dízimos durante o culto. Os novos integrantes de uma célula (novos convertidos) passam por um processo de discipulado. É a geração de uma nova vida para Cristo. O discipulador (pessoa já consolidada e discipulada) através de encontros semanais, instrui numa série de lições, os primeiros passos de fé ao neófito. Após essa etapa, o discípulo está preparado para ir ao Encontro Tremendo, uma espécie de retiro espiritual de três dias, onde são ministradas várias palestras, com dinâmicas grupal ou individual e terapias onde são trabalhadas a cura interior. É o passar pelo Peniel, alusão ao trecho bíblico onde Jacó, encontra e luta com um anjo. Na visão do G12, todos devem passar pelo Peniel e deixar lá o Jacó (velho homem) e sair de lá como Israel de Deus (um novo homem, transformado pelo Senhor), um verdadeiro príncipe.

Essa pessoa (que passou pelo Encontro Tremendo) ficará então fiel a uma célula e aprenderá com seu líder o caminho da liderança, para num espaço de tempo, constituir também a sua própria célula. Para a Visão do G12, todos são chamados para a liderança. É uma escalada a ser cumprida.

4.2 – O braço assistencial do modelo dos doze

O modelo de igrejas em células no governo do doze, também trabalha com a construção de relacionamentos que interajam com o comunidade que os cerca. Projetos assistenciais dos mais diversos aspectos são levados a cabo pelo G12. O trabalho social, atravessa as fronteiras das favelas e alcança a população menos favorecida. Junto aos viciados em drogas ou bebidas, há também uma atenção especial.

Existe algumas parcerias entre entidades mantidas pelas Igrejas em Células (Ongs) e o Poder Público, o que possibilita o funcionamento de creches, escolas, asilos, projetos educacionais e esportivos. Mas, a bem da verdade, na maioria dos casos a manutenção desses projetos não recebe custeio do Estado e são geridos exclusivamente pela igreja e a comunidade evangélica.

Esse braço assistencial da igreja em células tem o objetivo de gerar projetos para melhorar a qualidade de vida dos segmentos mais carentes da população, objeto de suas ações. Exercita a solidariedade educativa quando cria programas de resgate da dignidade humana. É trabalhado parcerias com instituições e empresas que denotem consciência da responsabilidade social na contribuição para redução das desigualdades.

O movimento G12 acredita assim, através de ações de política de caráter social, contribuir para a consolidação da nação evangélica, o Reino do Deus Todo Poderoso. Há o entendimento que essa postura traga insatisfação a alguns segmentos, todavia, a lição de Thomas Hobbes, no seu Leviatã, aponta justamente para essa questão da insatisfação de muitos quanto a interferência do sagrado na administração das coisas do mundo. O entendimento do movimento do G12, aparelha-se ao de Hobbes, quando afirma que queiram ou não, gostem ou desaprovem, o Deus dos Céus, aquele que se assenta sobre os querubins é o Rei de toda a Terra e por isso todas as geografias devem ser conquistadas, pela Igreja, a fiel representante desse reino.

Deus é rei, que a terra se alegre, escreve o salmista. E também, Deus é rei, muito embora as nações não o queiram; e é aquele que está assentado sobre os querubins, muito embora a terra seja movida. Quer os homens queiram, quer não, têm de estar sempre sujeitos ao divino poder. Negando a existência, ou a providência de Deus, os homens podem perder seu alívio, mas não libertar-se de seu jugo. Mas chamar reino de Deus a este poder de Deus, que se estende não somente aos homens mas também aos animais e plantas e corpos inanimados, é apenas um uso metafórico da palavra. Pois só governa propriamente quem governa seus súditos com a palavra e com a promessa de recompensa àqueles que lhe obedecem, e com ameaça de punição aqueles que não lhe obedecem. Portanto, os súditos do reino de Deus não são os corpos inanimados e nem as criaturas irracionais, porque não compreendem seus preceitos; nem os ateus, nem aqueles que não acreditam que Deus se preocupe com as ações da humanidade, porque não reconhece nenhuma palavra como sendo sua, nem têm esperanças em suas recompensas, nem receio de suas ameaças. Aqueles, portanto, que acreditam haver um Deus que governa o mundo e que deu preceitos e propôs recompensas e punições para a humanidade, são os súditos de Deus; todo o resto deve ser compreendido como seus inimigos”. 17

O contato entre a Igreja em células e a comunidade é franco e proveitoso. A igreja nessa modalidade de integração com o povo daquele território usa estratégias que são aplicadas na gestão de pessoas, como as observadas:

O cliente é fonte de informação gratuita. Nesse sentido, ele possui muitas informações disponíveis pelos meios atuais de comunicação. Assim, se você relegar a oportunidade de ouvi-lo, perderá uma chance de vender seus produtos, 'Basicamente, seus clientes vão dizer tudo o que você precisa saber para dirigir um negócio de sucesso. É apenas uma questão de ouvir o que eles dizem. Ouvir perguntas, os comentários, as objeções e, se você tiver sorte o suficiente, as queixas que eles fazem'”. 18

O G12 exercita seu braço de trabalho social, pois entende ser isso o filão que o credencia como igreja fora das quatro paredes. A célula funciona como o portal desse assistencialismo, pois os frequentadores das células, nos locais de maior pobreza, se sentem a vontade para serem auxiliados em suas dificuldades diversas. O ambiente da célula promove maior proximidade e está isento dos formalismos, e portanto, propicia a interatividade igreja/povo.

(Parte 3 de 4)

Comentários