Manual de Poda de Espécies Arbóreas Florestais

Manual de Poda de Espécies Arbóreas Florestais

(Parte 1 de 8)

Manual de Poda de

Espécies Arbóreas

Florestais Prof. Dr. Rudi Arno Seitz

Manual editado pela FUPEF – Fundação de Pesquisas Florestais do Paraná – Curitiba 1995

1º Curso em Treinamento sobre Poda em Espécies Arbóreas Florestais e de Arborização Urbana 30 e 31 de outubro e 1º de novembro de 1996 – Piracicaba/SP

Manual de Poda de Espécies Arbóreas Florestais

1. Introdução

2. Aspectos biológicos das árvores, copas e galhos.

Os modelos de crescimento. A morfologia da base dos galhos. Reações à perda de galhos. A compartimentalização. O núcleo nodoso. Relações biométricas.

3. O programa de podas

Conceitos. A idade da árvore para executar as podas. A altura a ser podada. O número de árvores a podar. Seleção das árvores a serem podadas. Quantidade de madeira limpa produzida. Programas de poda.

4. Equipamentos e ferramentas para realizar a poda

O corte dos galhos. Ferramentas manuais para a poda. Equipamentos acessórios. Rendimentos.

5. Certificação de povoamentos podados

Introdução. Procedimentos. Auditoria da amostragem. Avaliação retrospectiva. Características do certificado.

6. Análise econômica da poda Condicionantes para a poda. Cálculo do custo da poda. Cenários.

7. Experiência prática de empresas florestais.

Desrama em espécies florestais na Klabin. Sistemas de desrama em Pinus e Eucalyptus na Duratex - Área Florestal

8. Referências bibliográficas

Agradecimentos

Este Manual é o fruto do trabalho de muitas pessoas, principalmente do grupo anônimo de trabalhadores florestais que auxiliam na instalação e manutenção de áreas de pesquisa. Pesquisas que acompanham o desenvolvimento do crescimento das árvores são valiosíssimas quando mantém uma longa série de observações, durante muitos anos. Desejo aqui expressar meu reconhecimento ao eng. agr. Emilio Einsfeld Filho e a equipe das Fazendas Guamirim-Gateados, que durante os últimos 9 anos tem apoiado os programas de pesquisas que se desenvolvem nos seus povoamentos florestais.

Espero que o Manual sirva de apoio para decisões silviculturais nas empresas florestais do sul do Brasil. Desejo sinceramente que todos os leitores que tenham críticas ou dúvidas, façam chegar a FUPEF suas idéias e ponderações, para então a partir destas contribuições, aperfeiçoar cada vez mais este texto.

R. Seitz

1º Curso em Treinamento sobre Poda em Espécies Arbóreas Florestais e de Arborização Urbana 30 e 31 de outubro e 1º de novembro de 1996 – Piracicaba/SP

Manual de Poda de Espécies Arbóreas Florestais

1. Introdução

O mercado madeireiro do sul do Brasil, até o início da década de 1980 estava bem abastecido de madeira de araucária, de boa qualidade. Não tão bom quanto nas décadas de 40 e 50, mas ainda de qualidade suficiente para satisfazer as maiores demandas. Também a madeira de espécies folhosas, oriundas das florestas naturais, apresentava a qualidade requerida para a construção civil, movelaria, artigos domésticos e uso industrial. Porém a falta de manejo silvicultural destas florestas naturais, impediu a continuidade da produção qualitativa de madeira, e teve como conseqüência a busca de fontes alternativas de matéria prima.

Na década de 70 ocorrera a fase do reflorestamento intensivo com coníferas exóticas, mais produtivas em biomassa, porém fornecendo um produto que inicialmente estava comprometido com a indústria de celulose. A escassez de matéria prima para a serraria levou à utilização da madeira de Pinus spp. em serrarias, lançando no mercado um produto que não havia sido preparado para tal. O defeito mais visível desta madeira é a presença de grandes nós, remanescentes dos galhos que não foram removidos em época oportuna. Estes nós provocam a descontinuidade das fibras da madeira, e para muitos usos, enfraquecem as peças.

Na década de 90 o mercado madeireiro tornou-se exportador de madeira de pinus, e mais do que nunca, a questão da qualidade da madeira tornou-se crucial. Os produtores que haviam praticado uma silvicultura mais intensiva na fase jovem dos povoamentos, passaram a ser recompensado pelos seus esforços, mostrando que com poucos investimentos, no momento certo, podiam ser obtidos elevados retornos financeiros. Porém mais do que o estímulo financeiro, a exigência do mercado internacional e nacional por madeira de alta qualidade, tem motivado os proprietários de florestas e industriais da madeira a investir em uma produção de melhor qualidade.

Neste manual pretendemos reunir as informações mais atualizadas relacionadas com a poda de espécies arbóreas florestais, uma vez que não só Pinus spp. deve ser podado, como será demonstrado no capítulo 2. Praticamente todas as espécies arbóreas necessitam de podas para a produção de madeira sem nós ou formar um tronco reto, o que também será discutido no capítulo 2. No capítulo 3 serão apresentados os fundamentos da elaboração de um programa de podas, já que este varia de local para local, de espécie para espécie, de objetivo para objetivo, etc. As ferramentas utilizadas na poda serão apresentadas no capítulo 4, e a análise econômica da poda será avaliada no capítulo 6.

Uma nova prática com relação à poda será apresentada no capítulo 5. Esta prática atualmente inexiste no Brasil, porém com a maior importância que a poda está tendo, deverá logo ser institucionalizada. Trata-se do "Certificado de Povoamentos Podados", um documento emitido por instituições independentes, idôneas, atestando as características do povoamento no momento da poda. Este documento embasará futuras negociações, atestando a qualidade da madeira, evitando os testes de serraria ou laminação, atualmente muito comuns.

Várias empresas florestais já fizeram da poda um tratamento silvicultural de rotina nos povoamentos plantados. Após consulta prévia, escolhemos duas para apresentarem neste Manual suas rotinas e experiências. Assim sendo, no capítulo 7 contribuíram as

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Manual de Poda de Espécies Arbóreas Florestais equipes técnicas das empresas DURATEX e KLABIN FABRICADORA DE PAPEL E CELULOSE S.A. para uma discussão prática dos problemas associados à poda.

O texto deste manual é baseado em pesquisas realizadas no Brasil e no exterior, procurando-se sempre uma linguagem simples e clara. O uso (e abuso) de gráficos, visa uma melhor compreensão dos fundamentos da poda, permitindo ao leitor adaptar a sua situação especial sem maiores dificuldades, facilitando, portanto suas decisões. A montagem não encadernada objetiva sua contínua atualização, permitindo a adição de informações mais atualizadas quando disponíveis.

2. Aspectos biológicos das árvores, copas e galhos. 2.1 Os modelos de crescimento

A estrutura de uma árvore, suas raízes, o tronco, galhos e folhas, não é produto de processos aleatórios. Todas as características de porte, forma da copa, disposição de folhas e flores, já estão pré definidas nas sementes antes da germinação do embrião. É o genótipo do indivíduo, que poderá ou não se expressar completamente na fase adulta, de acordo com as condições do meio e do ambiente no qual esta nova árvore crescerá.

Estas características estruturais são comuns aos indivíduos de uma mesma espécie, recebendo o nome de modelo arquitetônico da espécie. Em trabalho minucioso, HALLÉ, OLDEMAN e TOMLINSON (1978) analisaram os modelos arquitetônicos de muitas espécies arbóreas tropicais, e mostraram que há diferenças marcantes entre as espécies neste aspecto. O conhecimento das características de arquitetura de copas de cada espécie é fundamental para o seu correto manejo silvicultural, pois dependerá do modelo arquitetônico a produção de um tronco reto sem ramificações com maior ou menor facilidade.

Para entender os modelos arquitetônicos básicos, é necessário conhecer os elementos fundamentais desta arquitetura, cuja combinação levará, portanto às mais diversas formas de copas. O meristema apical (gema terminal) pode ter vida indefinida ou definida. No primeiro caso, a gema terminal crescendo indefinidamente em altura, origina troncos verticais retos (ortotrópicos, monopodiais). Os exemplos mais comuns são a Araucária angustifolia (continua crescendo em altura mesmo com 200 anos de idade) e as espécies do gênero Pinus. Quando o meristema apical tem vida limitada, este crescimento linear em altura não é contínuo. Normalmente o meristema vegetativo se transforma em meristema sexual (inflorescências terminais). Desenvolvem-se então os meristemas secundários nas axilas das folhas. Quando estes meristemas têm crescimento ortotrópico (vertical), o crescimento em altura se processa pela superposição de módulos de crescimento, dando origem a troncos retos mas simpodiais (ex. ipês - Tabebuia spp.).

Quando o crescimento do meristema apical é plagiotrópico, ou seja, cresce horizontalmente, a produção de um tronco depende essencialmente do ambiente em que a árvore se encontra. Havendo espaço para a expansão da copa, não ocorrerá a formação de um tronco único muito longo (p.ex. timbaúva - Enterolobium contortisiliquum). Para que haja a formação de um tronco, deve haver uma pressão lateral (sombreamento) que inibirá o crescimento plagiotrópico. A formação do tronco dependerá no entanto também da superposição de módulos de crescimento.

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Figura 2-1 – Modelos de crescimento em espécies arbóreas florestais. a – eixo principal ortotrópico, monopodial (Araucária angustifolia) b – eixo principal ortotrópico, simpodial (Tabebuia Alba); c – eixos plagiotrópicos (Amburana cearensis).

A diferenciação dos modelos arquitetônicos entre as espécies atende a uma necessidade ecológica. A arquitetura da copa representa uma estratégia de ocupação do espaço no ambiente florestal, para melhor utilizar os recursos naturais escassos (água, luz, nutrientes), de acordo com características fisiológicas intrínsecas de cada espécie. Compreendendo isto, poderemos adequar as práticas silviculturais às características arquitetônicas de cada espécie, a fim de obter os objetivos propostos (= troncos retos), com um mínimo de custos.

Portanto, a análise do modelo arquitetônico de cada espécie definirá as estratégias para a produção de fustes de boa qualidade. Determinadas espécies arbóreas, as de modelos arquitetônicos onde predomina a plagiotropia, exigem condições ambientais próprias para a produção de um fuste reto. Não será a poda que permitirá isoladamente esta produção. No entanto nas espécies de crescimento ortotrópico, a poda irá aprimorar o modelo arquitetônico, valorizando o fuste.

2.2 A morfologia da base dos galhos

A poda representa a retirada de galhos, ou porções de um organismo vivo, a árvore.

Para que esta ação seja o menos traumática possível, devemos atentar para algumas características importantes dos galhos e suas características dinâmicas em relação ao resto do conjunto. A análise da morfologia da base dos galhos permite avaliar a atividade metabólica dos galhos, facilitando a decisão de cortar ou não determinado galho.

Os elementos básicos da base do galho são: - a crista de casca: acúmulo de casca na parte superior do galho, na inserção no tronco. Devido ao crescimento em diâmetro do tronco e do galho, adquire forma de meialua, com as pontas voltadas para baixo (na Alemanha, em Fagus sylvatica é denominada de "barba de chinês"). - o colar: é a porção inferior do galho, na inserção no tronco. Quando é pouco perceptível, com clara e harmônica passagem do tronco para o galho, este está em franca atividade assimilatória, contribuindo para o acúmulo de biomassa. Quando o colar se destaca do tronco, sendo claramente visível, o galho está em processo de rejeição, embora ainda possa ter folhas verdes e brotações novas. Este entumescimento do colar é conseqüência do aumento de metabolismo na região e dos mecanismos de defesa para

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Manual de Poda de Espécies Arbóreas Florestais compartimentalizar a lesão que fatalmente ocorrerá com a morte do galho e sua quebra. Como regra geral, as espécies que possuem mecanismos de defesa ativos, como as coníferas, não produzem um colar proeminente. Já na maioria das dicotiledôneas, este mecanismo é bastante notado. - a fossa basal: é o colar negativo, ou seja, uma depressão no tronco abaixo da base do galho. Quando presente indica uma falta de fluxo de seiva elaborada do galho para o tronco, mesmo com folhas vivas realizando fotossíntese. O galho já não contribui mais nada com o crescimento, podendo ser eliminado sem problemas.

Figura 2-2A – Morfologia da base do galho e linha de corte na poda de galhos.

2.3. Reações à perda de galhos

A perda de galhos no ambiente natural é motivada ou por rejeição, devido à ineficiência assimilatória, ou por acidente, sendo o vento a causa principal destes acidentes. A maioria das espécies arbóreas possui mecanismos para reagir a estes traumas, sendo a rejeição dos galhos o fato mais comum. Neste caso, reações químicas nas células do tronco e da base do galho criam barreiras que visam impedir o avanço dos organismos degradadores da casca e lenho (fungos e bactérias) dos galhos para o lenho do tronco.

Fungo Espécie florestal Material atacado

Trametes pini Pinus sylvestris

Abies Alba Lenho do galho

Altermaria tenuis Pinus sylvestris

Abies Alba Lenho e casca do galho

Stereum frustulosum Polyporus sulphureus Bispora betulina

Quercus robur Lenho e alburno do galho

Tabela 2-1 – Fungos que degradam a madeira de galhos de espécies florestais na Alemanha (de v.AUFSESS, 1975).

Cabe destacar que existe uma relação estreita entre a espécie florestal e os fungos degradadores de madeira dos galhos. No processo natural, após a morte do galho por ineficiência, este é colonizado por fungos, bactérias e insetos, que causam sua degradação.

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Após o enfraquecimento do lenho, poderá ser facilmente quebrado, desde que as condições ideais ocorram: aumento do peso com uma chuva, impacto de outro galho caindo, ação do vento, etc. Em condições de abrigo (povoamentos densos) e ambientes secos (desfavoráveis ao desenvolvimento dos fungos), os galhos podem permanecer secos conectados aos troncos por muitos anos. Ou mesmo a quebra pode não ocorrer rente ao tronco, faltando posteriormente agentes que quebrem o toco restante. Este será incorporado ao lenho.

freqüentemente em Eucalyptus sp

Quando os galhos perdem sua função cedo, não tendo atingido ainda dimensões grandes, nem os troncos são muito grossos, o crescimento radial do tronco engloba os tocos remanescentes dos galhos. Mais tarde, quando o tronco tiver atingido dia metros maiores, desaparecem quaisquer vestígios de galhos. Este processo é denominado de desrama natural. Quando as taxas de crescimento radial são elevadas, esta incorporação dos tocos se dá rapidamente, ou contribui para reter galhos secos já quebrados na base, o que ocorre

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