joseph - ratzinger - introdução - ao - cristianismo

joseph - ratzinger - introdução - ao - cristianismo

(Parte 3 de 10)

a fé sempre teve algo de ruptura arriscada e de salto, por representar o desafio de aceitar o invisível como realidade e fundamento incondicional. Jamais a fé foi uma atitude conatural conseqüente do declive da existência humana; ela foi sempre uma decisão desafiadora da mesma raiz da existência, postulando sempre uma volta, uma conversão do homem, só possível na escolha.

3. O dilema da Fé no mundo de hoje

Tomada clara a aventura encerrada no seio da fé, é inevitável uma nova consideração, na qual se revela a agudeza [20] especial da dificuldade de crer em relação ao homem de hoje. Ao abismo do "visível" e do "invisível" acrescenta-se, aumentando a dificuldade, o báratro do "outrora" e do "hoje". O paradoxo fundamental, já por si inerente à fé, aguça-se pelo fato de apresentar-se a fé em roupagem de outrora, e até de identificar-se com o passado, com a forma de vida e de existência de outrora. Todas as atualizações, chamem-se "desmitização" intelectualacadêmica ou aggiornamento eclesial-pragmático, em nada mudam a situação. Pelo contrário: tais esforços reforçam a suspeita de apresentar-se aqui, nervosamente, como hodierno, o que, na verdade, é o passado. Essas tentativas de atualização trazem bem à tona da consciência até que ponto é "de ontem" aquilo que nos é apresentado; e a fé, deixando de parecer um salto temerário, semelha-se a um salto desafiador da generosidade do homem, do trampolim da aparente totalidade do mundo visível para o aparente nada do invisível e incompreensível. Parece, antes, uma pretensão, um atrevimento, querer comprometer o hoje com o ontem, evocando-o como perpetuamente válido. E quem desejará fazê-lo em uma época na qual, em lugar da idéia de "tradição" se colocou o conceito de "progresso"?

De passagem, topamos aqui uma característica da moderna conjuntura, não sem importância para o nosso problema. Em passadas constelações espirituais o conceito de "tradição" conotava determinado programa; surgia como elemento protetor em que o homem podia confiar; podendo apelar para a tradição, havia certeza de encontrar-se no lugar certo. Hoje predomina o sentimento diametralmente oposto: tradição é o abandonado, o meramente de ontem; progresso é a promessa explícita do ser, de modo que o homem não se sente em casa dentro da tradição, do passado, mas dentro do progresso e do futuro6. E também sob este ponto de vista há de parecer-lhe [21] ultrapassada uma fé que lhe vem ao encontro com a etiqueta de "tradição", incapaz de abrir-lhe um lugar para existir, a ele que vê no futuro a sua possibilidade e obrigação propriamente ditas. O que quer dizer que o primário escândalo da fé, a distância entre visível e invisível, entre Deus e não-Deus, se acha encoberto e bloqueado pelo escândalo secundário do "outrora" e do "hoje", pela antítese de tradição e progresso, pelo compromisso com o passado que parece estar incluído na fé. O fato de nem o profundo intelectualismo da desmitização, nem o pragmatismo

6 Típica ilustração para essa mentalidade encontra-se, ao meu ver, em um anúncio visto há pouco: "Você não quer comprar tradição mas progresso racional". No mesmo contexto cumpre apontar para a realidade característica de a teologia católica, em sua reflexão sobre a tradição, nos últimos cem anos, tender sempre mais a equiparar tradição e progresso, de reinterpretar a idéia de tradição pelo conceito de progresso, não entendendo mais tradição como o cabedal fixo transmitido desde a origem, mas como a força propulsora do sentido da fé; Cfr. J. RATZINGER, "Tradition", em: LThK X, 293-299; IDEM, "Kommentar zur Offenbarungskonstitution" em: L ThK supl. I, 498 s e 515-528.

do aggiornamento serem capazes de convencer, sem mais, torna evidente que também a absorção do escândalo fundamental da fé cristã representa algo de muito profundo que não se pode abordar, sem mais nem menos, nem por meio de teorias, nem pela ação. Aliás, em certo sentido, justamente aqui se patenteia o específico do escândalo cristão, a saber, aquilo que se poderia denominar positivismo cristão, a inamovível positividade do crístico. Eis o que tenho em mente: a fé cristã não se ocupa somente com o eterno, como à primeira vista poderia supor-se, com o eterno que se conservasse como algo totalmente diverso, fora do mundo humano e do tempo; ela ocupa-se muito mais com o Deus na história, com Deus como homem. A fé apresenta-se como revelação, ao parecer vencer o abismo entre eterno e temporal, entre visível e invisível, fazendo-nos encontrar Deus como homem, o Eterno como temporal, Deus como um de nós. Aliás, a sua pretensão de ser revelação [2] fundase no fato de ela ter trazido o eterno, por assim dizer, para dentro do nosso mundo: "O que ninguém jamais viu – Ele no-lo explicou, aquele que descansa no peito do Pai" (Jo 1,18) – Cristo tornou-se "exegese" de Deus para os homens, quase estaria eu tentado a afirmar com base no texto bíblico7. Mas contentemo-nos com o vocábulo português; o original autoriza-nos a tomá-lo bem ao pé da letra: Jesus realmente explicou (ou seja, desdobrou, abriu) a Deus, conduzindo-o para fora de si, ou, mais drasticamente, na primeira carta de João: liberou-o à nossa contemplação e palpação, de modo tal que o jamais avistado por alguém agora está ao alcance do nosso tacto histórico8.

À primeira vista parece tratar-se realmente do máximo em revelação, do limite extremo de Deus patentear-se. O salto que até agora conduzia ao infinito parece abreviado a uma ordem de grandeza humana possível, bastando-nos, para tanto, dar uns poucos passos até àquele homem na Palestina, no qual o mesmo Deus se nos revela. Mas estamos aí diante de uma estranha duplicidade, como que dois rostos de Jano: o que parece ser, de entrada, a mais radical revelação e, em certa medida, permanece para sempre sendo não só uma revelação, como a revelação por excelência, no mesmo instante se trai como a treva mais pesada e o mais estranho disfarce. O que Deus parece trazer, em primeira mão, para bem perto de nós, a ponto de podermos palpá-lo como nosso semelhante, seguir-lhe as pegadas e até avaliá-las e medi-las, tudo isto torna-se, em sentido muito profundo, base para a "morte de Deus", que, a partir dali, há de imprimir o seu [23] cunho irrevogável ao desenvolvimento da história e às relações humanas com Deus: Deus ficou tão perto de nós, que o pudemos matar e assim, ao que parece, ele cessa de ser Deus. Por isso, vemo-nos hoje um tanto desconcertados diante dessa "revelação" cristã e, confrontando-a com a religiosidade, sobretudo, da Ásia, lançamos a pergunta: não teria sido muito mais simples crer no eterno-oculto, confiando-se a ele em meditação e anseio? Não teria sido melhor Deus deixar-nos na nossa infinita distância? Não fora mais simples e mais realizável perceber o eternamente incompreensível mistério mediante serena

7 Theou oudeis eoraken popote; monogenes theosexegesato. O verbo exegeomai significa: ser chefe, servir de guia,

de conselheiro, dar exemplo e, em sentido derivado (no texto presente): explicar, interpretar, expor. Cristo seria, então, quem explica, interpreta, expõe aos homens o segredo de Deus. (A. CHASSANG, Nouveau Dictionnaire Grec- Français) (Nota do Tradutor). 8 1Jo 1,1-3.

contemplação, mediante uma fuga de tudo o que é profano, em vez de render-se ao positivismo da fé em uma única figura, confinando a salvação do homem e do mundo, por assim dizer, a algo como a cabecinha de um alfinete, que mais não parece representar esse um e único ponto fortuito? Não será a morte definitiva o fatal destino desse Deus reduzido a um único ponto dentro de um mundo que relativiza intolerantemente o homem e sua história a um ínfimo grãozinho de pó no cosmos, a um ponto que só poderia ser considerado como centro do universo pelo homem na sua ingenuidade dos anos de infância, mas, uma vez ultrapassados estes anos, imporse-ia a coragem de acordar do sono, esfregar os olhos e sacudir para longe de si um sonho louco, por lindo que tenha sido, entrosando-se incondicionalmente no formidável mecanismo para o qual a nossa insignificante vida está destinada, vida que, precisamente assim, deveria encontrar um sentido novo, na aceitação de sua insignificância?

Só com esse aguçamento total da questão e com esse enfoque que coloca o escândalo, muito mais profundo, do "positivismo" cristão, ou seja o "estreitamento" de Deus dentro de um único ponto da história à frente do aparentemente secundário escândalo do "outrora" e do "hoje", só assim tocamos o fundo da problemática cristã da fé, tal como hoje deve ser enfrentada. Podemos crer ainda? Não, impõe-se [24] uma pergunta mais radical: temos ainda a liberdade de crer, ou se avoluma diante de nós um dever maior, a saber, o dever de romper com o sonho e de colocar-se dentro da realidade? O cristão de hoje deve perguntar-se assim; não pode contentar-se em constatar que, afinal, é possível ainda encontrar uma interpretação do cristianismo através de uma porção de rodeios e subterfúgios, interpretação que não se choque com nada. Se alhures declara um teólogo que "ressurreição da carne" quer dizer apenas que cada um diariamente deve arregaçar as mangas corajosamente na preparação do futuro, com certeza está afastado o escândalo. Mas terá havido sinceridade numa tal interpretação? Não existe uma falsidade perigosa em tais prestidigitações interpretatórias, em tais malabarismos, com que se tenta manter em pé o cristianismo e defendê-lo? Ou, sentindo-nos compelidos a lançar mão de tais recursos, não estaríamos obrigados a reconhecer que alcançamos o fim da linha? Então, não deveríamos sujeitar-nos simplesmente à realidade concreta, sem lançar cortinas de fumaça? Acentuemo-lo com energia: um cristianismo assim esvaziado de sua realidade através de uma tal interpretação significa falta de sinceridade frente às perguntas dos não-cristãos, cujo "talvez não" afinal deveria nos urgir a nós da mesma maneira como desejamos que eles sejam urgidos pelo "talvez" cristão.

Tentando aceitar assim a pergunta do outro como o ininterrupto questionamento da nossa própria existência, impossível de ser concentrado nas páginas de um tratado para, a seguir, ser posto de lado, teremos o direito de constatar, também aqui, a existência de uma contrapergunta. A tendência hodierna é supor, como realidade propriamente dita, o tangível, o que se pode provar. Mas, é permitido fazer isso? Parece caber aqui uma pergunta mais cuidadosa: O que, na verdade, é "o real"? Será somente o comprovado e o comprovável? Ou não será, quiçá, a averiguação, uma determinada maneira apenas de comportamento frente à realidade, maneira que, de modo algum, [25] pode abranger o todo e que até conduz à adulteração da verdade e da existência humana, sempre que for aceita como critério único da realidade?

Lançando esta pergunta, tornamos ao dilema do "outrora" e do "hoje", aliás, postos agora frente à frente com a problemática específica do nosso "hoje". Tentemos analisá-la com mais clareza em seus elementos essenciais.

4. Limite da moderna compreensão da realidade e topografia da Fé

Graças aos conhecimentos históricos de que hoje dispomos, estamos em condições de abarcar o caminho do espírito humano, até onde alcança o olhar; com o que podemos constatar que, nos vários períodos da evolução do espírito, houve diversas maneiras de colocar-se frente à realidade, por exemplo, a mentalidade mágica ou a metafísica ou, finalmente, hoje em dia, a científica (tendo por parâmetros as ciências naturais). Cada uma dessas tendências humanas básicas tem relação com a fé, de um ou de outro modo, e cada uma delas também, à sua maneira, lhe causa estorvos. Nenhuma delas se cobre com a fé, mas também nenhuma se conserva neutra frente à fé; cada uma delas é capaz de servir a fé ou de lhe causar percalços. Para a hodierna mentalidade fundamentalmente científica que plasma, sem ser perguntada, o sentimento existencial de todos e a nós todos nos marca o lugar dentro da realidade, é característica a limitação aos fenômenos, àquilo que aparece e ao que deve ser manipulado. Já desistimos de procurar o que são as coisas em si; de mergulhar na essência do próprio ser; parece-nos infrutífera uma tal empresa; o fundo do ser apresenta-se-nos inatingível. Acomoda-nos à nossa perspectiva, ao visível no sentido mais amplo do termo, àquilo que cabe debaixo dos nossos instrumentos de medir e de pesar. A metodologia da ciência natural baseia-se nessa delimitação ao fenômeno. É o que parece bastar-nos. Sentimo-nos aptos a manejar [26] tais meios, criando para nós um mundo em que possamos viver como homens. Com isso desenvolveu-se, paulatinamente, no pensamento e no viver modernos, um conceito novo de verdade e realidade, que domina como hipótese do nosso pensamento e da nossa expressão, em geral sem que o percebamos, conceito, porém, que só poderá ser dominado, se for, por sua vez, exposto ao exame da consciência. Aqui se torna patente a função do pensamento não científico-natural, a saber, a função de analisar o aceito ou imposto sem consideração, e de colocar, frente à consciência, a problemática humana de uma tal orientação. a) O primeiro estádio: origem do historicismo. Tentemos densenvolver, como se chegou à mentalidade acima descrita. Constataremos, se vejo bem, dois estágios de mudança espiritual. O primeiro, preparado por Descartes, recebeu forma em Kant e já anteriormente, em formulação um tanto diversa, no filósofo italiano Giambattista Vico (1688-1744) que, provavelmente, foi o primeiro a apresentar um conceito completamente novo de verdade e de conhecimento, tornando-se o ousado antecessor da típica fórmula do espírito moderno, quanto ao problema da verdade e da realidade. À equação escolástica Verum est ens – o ente é a verdade – Vico contrapôs a sua fórmula: Verum quia factum. O que significa: reconhecível como verdadeiro só pode ser aquilo que nós mesmos fazemos. Essa fórmula parece-me representar o fim da velha metafísica e o início do espírito especificamente moderno. A revolução do pensamento moderno contra todo o passado está presente aqui com uma precisão inimitável. Para a Antiguidade e a Idade Média o próprio ente é verdadeiro, isto é, reconhecível, porque Deus, o puro intelecto, o criou; e criou-o, pensando-o. Pensar e fazer são uma única coisa para o Espírito Criador, o Creator Spiritus. Seu pensar é um criar. As coisas existem porque são pensadas. Por isso, para a Antiguidade e a Idade Média, todo ser é um ser-pensado, um pensamento do Espírito absoluto. E [27] vice-versa: porque todo ser é pensamento, todo ser é sentido, Logos, verdade9. Portanto o pensamento humano é um "pensar-depois", uma reflexão sobre o pensamento que é o próprio Ente. Mas, o homem pode pensar na esteira do Logos, do sentido do ser, porque o seu próprio logos, sua própria razão é logos do único Logos, pensamento do pensamento primitivo e original, do Espírito Criador que dispõe o ser até o fundo de suas raízes.

Em contraste com isto, a obra do homem é considerada pela antiguidade e pela

Idade Média como ocasional e contingente. O ser é pensamento, portanto é pensável, objeto do pensamento e da ciência que aspira à sabedoria. A obra humana, pelo contrário, é uma mistura de logos e de falta de lógica que, além disto, com o passar do tempo, recai no passado. Não admite uma compreensão completa, por faltar-lhe algo do presente, base da intuição, e algo do logos, ou seja, do sentido duradouro. Por esta razão, o impulso científico antigo e medieval estava convencido de que o saber sobre as coisas humanas não passava de techne, de técnica, de capacidade artesanal, jamais podendo alcançar o nível de uma ciência real. Por esta razão as artes, na universidade medieval, figuravam como preliminar à ciência propriamente dita, isto é, àquela ciência que reflete sobre o ser, ponto de vista este ainda firmemente defendido por Descartes, ao negar à história o caráter de ciência. O historiador convencido de conhecer a história romana antiga, afinal de contas saberia menos a respeito dela do que qualquer cozinheiro romano, e saber latim não conota mais do que o saber de qualquer doméstica de Cícero. Exatamente cem anos mais tarde Vico inverterá as normas da verdade medieval, ainda [28] claramente expressas por Descartes, abrindo assim a porta à virada fundamental do espírito moderno. Começa agora aquela atitude que traz consigo a idade "científica" – em cuja esteira ainda nos encontramos10.

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