joseph - ratzinger - introdução - ao - cristianismo

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(Parte 4 de 10)

Pela sua importância fundamental para o nosso problema, tentemos analisá-lo um pouco mais a fundo. Descartes considera ainda, como certeza real, a certeza racional formal, purificada das incertezas do factível. Contudo, já se notam prenúncios da virada para a época moderna, quando Descartes compreende essa certeza real essencialmente sob o enfoque do modelo da certeza matemática, elevando a matemática à forma básica de todo o pensamento racional11. Enquanto, porém, em Descartes os fatos devem ser postos em parênteses, isto é, abstraídos, se se quer ter certeza, Vico levanta a tese diametralmente oposta. Formalmente, apoiando-se em Aristóteles, declara que o saber real se cifra no saber das causas. Conheço uma coisa, conhecendo-lhe a causa; compreendo o motivado, se souber o motivo. Mas, desse aforisma antigo tira-se e se afirma algo completamente novo: se, para o saber factivo

9 Declaração que, aliás, tem valor em todo o seu sentido somente dentro do pensamento cristão que, com o conceito de creatio ex nihilo, reduz a Deus também a matéria a qual, para a filosofia antiga, permanece como o alógico, o elemento cósmico estranho à divindade, marcando assim, ao mesmo tempo, o limite da inteligibilidade do real. 10 Relativamente ao material histórico veja-se a síntese em K. LÖWITH, Weltgeschichte und Heilsgeschichte, Stuttgart 31953, 109-128, assim como a obra de N. SCHIFFERS, Anfragen der Physik an die Theologie, Düsseldorf, 1968. 1 N. SCHIFFERS, obra citada.

se requer o conhecimento das causas, então podemos saber verdadeiramente somente aquilo que nós mesmos fizemos, pois só nos conhecemos a nós mesmos. O que, por conseguinte, vem a ser que, em lugar da antiga equação "verdade – ser", entra a nova: "verdade – facticidade"; só é reconhecível o feito, isto é, aquilo que nós mesmos fazemos. Tarefa e possibilidade do espírito humano não é refletir sobre o ser, mas sobre o fato, o feito, o mundo peculiar do homem, único objeto que estamos em condições de compreender verdadeiramente. O homem não produziu o cosmos, que, por isto, lhe permanece impenetrável em suas derradeiras profundezas. Só lhe é acessível um saber [29] perfeito, comprovado, no âmbito das ficções matemáticas e da história que representa a esfera do que o homem mesmo fez, sendo por esta razão acessível ao seu conhecimento. No meio do oceano de dúvidas que ameaça a humanidade após a derrocada da velha metafísica, nos alvores do tempo moderno, redescobre-se no fato a terra firme sobre a qual o homem pode tentar uma nova existência. Principia o reinado do "fato", isto é, a volta radical do homem para sua própria obra, como o único elemento que lhe é certo.

Com isto está ligada aquela inversão de todos os valores, que transforma a história em época realmente "nova", em contraposição à antiga. O que antes havia sido desprezado como não científico – a história – resta, ao lado da matemática, como a única ciência verdadeira. O que antes parecia a única tarefa digna de espírito livre, a reflexão sobre o sentido do ser, surge agora como esforço vão e sem saída, ao qual não corresponde nenhuma possibilidade científica autêntica. Assim, matemática e história arvoram-se em disciplinas dominantes, chegando a história a absorver, por assim dizer, o mundo inteiro das ciências, modificando-as fundamentalmente. Filosofia torna-se um problema da história em Hegel, e, de modo outro, em Comte, problema onde o mesmo ser é sufocado como processo histórico; em F. Chr. Baur, teologia torna-se história; seu caminho, a pesquisa rigorosamente histórica que examina os eventos passados, esperando assim alcançar o fundo das questões; Marx repensa historicamente a economia nacional, e até as ciências naturais são afetadas por esta tendência geral para a história: Darwin concebe o sistema dos seres vivos como uma história da vida; em lugar da constância das coisas criadas entra uma doutrina evolucionista, na qual todas as coisas vêm umas das outras, permanecendo relacionadas com as do passado12. Assim [30] o mundo acaba por não mais parecer uma estrutura do ser, mas um processo cuja contínua propagação se identifica com o movimento do mesmo ser. Ou seja: o mundo é cognoscível, é sabível meramente como feito pelo homem. O homem tornou-se incapaz de olhar acima de si, a não ser, novamente, no âmbito do "fato", onde é obrigado a identificar-se com o produto ocasional de evoluções imemoriais. Deste modo surge uma situação muito estranha. No instante em que principia um antropocentrismo radical, o homem nada mais é capaz de reconhecer, além de sua própria obra, vendo-se simultaneamente compelido a aceitar-se a si mesmo como produto ocasional, como simples "fato". E o céu, do qual o homem parecia ter vindo, desaba, ficando-lhe entre as mãos a terra, o pó dos fatos, terra, pó, em que tenta decifrar, com a pá, a laboriosa história do seu devir.

12 K. LÖWlTH, obra cit., 38. Sobre a virada nos meados do século XIX, veja-se a instrutiva pesquisa de J. DÖRMANN, "War J. B. Bachofen Evolutionist?" em: Anthropos 60 (1965) 1-48.

b) O segundo estádio: virada para o pensamento técnico. Verum quia factum: este axioma que encaminha o homem para a história como sendo morada da verdade, certamente não poderia ser suficiente em si mesmo. Alcançou sua eficiência completa ao ligar-se a um outro motivo que, novamente cem anos depois, Karl Marx formulou em seu axioma clássico: "Até agora os filósofos contemplaram o mundo; agora devem por-se a modificá-lo". Com o que torna a ser completamente reformulada a tarefa da filosofia. Trocada em termos filosóficos tradicionais, esta máxima diria que, em lugar do verum quia factum – é reconhecível, é veraz o que o homem fez e pode contemplar – entra um programa novo: verum quia faciendum – a verdade, da qual dagora em diante se há de tratar, é a facticidade, a capacidade de ser feito. Ou, expresso ainda de outro modo: a verdade que ao homem cumpre manipular, não é nem a verdade do ser, nem, em última análise, a dos seres realizados, feitos, mas a verdade da alteração do mundo, da formação do mundo – uma verdade dirigida para o futuro e para a ação. [31] Verum quia faciendum – quer dizer que o domínio do "fato" foi substituído mais e mais, a partir do meado do século XIX, pelo domínio do factível, do a-serfeito e do passível-de-fazer, com o que a preponderância da história cede lugar à techne, à técnica. Pois, quanto mais o homem avança pela rota nova, concentrando-se no "fato" e nele buscando certeza, tanto mais se vê obrigado a reconhecer que o "fato", ou seja a obra de suas mãos, lhe foge sempre mais das mãos. A comprovação visada pelo historiador, surgida apenas no século XIX como grande triunfo da história contra a especulação, conserva sempre algo de problemático, um momento de reconstrução, de exegese e de equívoco, de modo que arrastou a história, já no começo deste século, para uma crise, tornando duvidoso o historicismo em sua orgulhosa pretensão científica. Revelou-se sempre mais claramente a impossibilidade do "fato" em estado puro, cercado de certeza inabalável, pois também nele se encerram sempre o sentido e sua duplicidade. Tornou-se sempre mais difícil ocultar que não se detinha entre as mãos aquela certeza que inicialmente se havia esperado conseguir da pesquisa dos fatos, dando-se as costas à especulação.

Assim impôs-se forçosamente e gradativamente a convicção de que, em última análise, é acessível ao conhecimento humano somente aquilo que o homem pode reproduzir quantas vezes quiser, através da experiência. Tudo o que ele consegue perceber apenas mediante provas secundárias torna-se passado e, malgrado todas as provas, não é plenamente conhecível. Com isto surge o método das ciências naturais, resultante da matemática (Descartes) e do retorno à facticidade em forma de experiência repetível, como único e seguro portador de certeza. Da fusão do pensamento matemático e dos fatos resulta a nova realidade espiritual, determinada pelas ciências naturais, do homem moderno, o lugar novo que conota retorno [32] à realidade em sua feição de facticidade13. O fato fez sair de dentro de si o factível; o repetível é o comprovável e existe por sua causa. Chega-se ao primado do factível sobre o fato, pois realmente de que servirá ao homem o que meramente existiu? Querendo ser dono do seu presente, o homem não pode encontrar sentido em ser guarda de museu do seu próprio passado.

13 Cfr. H. FREYER, Theorie des gegenwärtigen Zeitalters, Stuttgart, 1958, sobretudo 15-78.

Com o que, como antes a história, agora a técnica cessa de ser um degrau subordinado da evolução espiritual do homem, mesmo conservando ainda certo ar de barbárie dentro de uma consciência orientada expressamente para as ciências naturais. A situação alterou-se substancialmente sob o ponto de vista da situação espiritual em seu conjunto: a técnica deixou de ser uma exilada na câmara das ciências; ou, mais exatamente: a câmara surge aqui como o elemento determinante diante do qual o "senado" não passa de residência de nobres aposentados. Técnica tornou-se poder e possibilidade peculiar do homem. O que, até aí, estava em baixo, passou para cima: simultaneamente torna a deslocar-se a perspectiva: na antiguidade e na Idade Média, o homem estava voltado para o eterno; a seguir, durante o domínio efêmero do historicismo, para o passado; agora, o factível polariza-o para o futuro daquilo que ele mesmo pode criar. Se antes, por exemplo, mediante os resultados do evolucionismo, o homem constatava resignado que, sob a luz do seu passado, não ia além de pó e mero acaso da evolução, sentindo-se desiludido e degradado por um tal conhecimento, isto não mais deve preocupá-lo, pois agora, qualquer que tenha sido a sua origem, tem meios de enfrentar com decisão o futuro, contando com recursos para transformá-lo no que quiser; não lhe é preciso mais parecer impossível transformar-se a si mesmo em um [3] Deus, que se encontra no fim como o factível, o a-ser-feito, e não mais, como logos, como sentido, no início. Aliás, isto tudo já está atuando hoje de maneira concreta em forma de problema antropológico. Mais importante do que o evolucionismo, que já ficou atrás de nós como algo evidente, surge hoje a cibernética, a planificação do homem a ser re-criado (homem novo, homem do futuro), de modo tal que, também sob o ponto de vista teológico, a maleabilidade do homem de acordo com o seu próprio plano, se apresenta como problema mais importante do que a questão do passado humano embora ambas as questões não possam ser separadas e se interdeterminem em seu rumo: a redução do homem a um "fato" é a suposição para compreendê-lo como "factível", a ser guiado, moldado, do seu atual domínio, para um futuro novo. c) A questão do lugar da Fé. Com o segundo passo do espírito moderno, com a volta à facticidade, fracassou, simultaneamente, uma primeira investida da teologia na resposta às realidades novas. Pois a teologia tentou enfrentar a problemática do historicismo, ou seja, a redução da verdade ao fato, construindo a mesma fé como história. E, à primeira vista, poderia sentir-se plenamente satisfeita com sua manobra. Afinal, a fé cristã, em seu conteúdo, está essencialmente vinculada à história; as declarações da Bíblia não têm caráter metafísico, mas factivo. Por isto, a teologia, aparentemente, devia ser substituída pela história, porquanto parecia realmente estar soando a sua hora: e até, quiçá, pudesse contabilizar essa nova evolução como resultado de seu próprio ponto de partida.

Esperança depressa abafada e desiludida pela destronização crescente da história, substituída pela técnica. Em seu lugar vai-se firmando um outro pensamento – os teólogos sentem-se tentados a colocar a fé, não mais no plano do fato, mas do factível, explicando-a como instrumento de mudanças [34] do mundo mediante uma

"teologia política"14. Creio que assim se repete, na situação atual, o que a reflexão teológica já empreendera, unilateralmente, em relação ao historicismo. Percebe-se que o mundo moderno é determinado pela perspectiva do factível e responde-se, transferindo a fé para o mesmo plano. Não tenho em mente apontar meramente como irracionais ambas estas tentativas, para não correr o risco de cometer injustiça. Revela-se, antes, em um e outro caso, substancialmente, o que havia sido omitido, mais ou menos, em outras constelações. Com efeito, a fé cristã tem nexo com o "fato", movimenta-se de modo específico na esfera da história, e não foi por acaso que historicismo e história cresceram no âmbito da fé cristã. Indubitavelmente a fé também tem relação com a evolução do mundo, com a formação do mundo, com a pretensão contra a inércia das instituições humanas e contra os que delas se aproveitam. Também seria difícil considerar acaso o fato de ter-se desenvolvido a compreensão do mundo como facticidade no âmbito da tradição judaico-cristã e de suas inspirações até mesmo em Marx, muito embora imaginada e formulada em antítese ao cristianismo. Em todo caso é indiscutível que, em ambos os casos, transparece um pouco da verdadeira mentalidade da fé cristã, antes excessivamente oculta. A fé cristã tem nexo decisivo com as correntes essenciais do tempo moderno. Com efeito o atual momento histórico apresenta a chance de poder compreender de modo todo novo a estrutura da fé, colocada entre o fato e o factível. "É tarefa da teologia aceitar esse convite e essa possibilidade para descobrir e preencher os vazios deixados pelos tempos idos. [35] Mas, ninguém deve deixar-se arrastar a julgamentos precipitados, como também a correr o risco de curtos circuitos. Onde as duas tentativas citadas se tornam exclusivas, relegando a fé, totalmente, para a esfera do "fato" ou da "facticidade", ali desaparece sob o entulho o significado último, o sentido último de um homem que diz: "Credo" – eu creio. Pois, ao declarar-se crente, o homem não elabora um programa de modificação ativa do mundo, nem adere simplesmente a uma corrente de eventos históricos. Tentando ilustrar o meu pensamento, diria que o fenômeno da fé não pertence à relação "saber – fazer", típica para a constatação da mentalidade factível, mas a uma outra relação muito diversa "estar – compreender". Parece-me que assim se tornam visíveis duas mentalidades e duas possibilidades da existência humana, que não se acham sem nexo mútuo e que, contudo, devem ser distinguidas.

5. Fé como "estar" e "compreender"

Ao contrapor o par de conceitos "estar – compreender" àquele outro "saber – fazer", aludo a uma expressão bíblica fundamental, intraduzível, sobre a fé, cujo profundo jogo de palavras Lutero tentara reproduzir na fórmula: "Se não crerdes, não ficareis"; mais literalmente poder-se-ia traduzir: "Se não crerdes (se não vos agarrardes a Jahvé), não tereis apoio algum" (Is 7,9). A única raiz 'mn abrange uma multiplicidade de sentidos cuja interdependência e diferenciação perfaz a

14 Sintomática, neste sentido, é a obra de H. Cox, já citada, bem como a "teologia da revolução" hoje em moda; cfr. T. RENDORFF – H E. TÖDT, Theologie der Revolution. Analysen und Materialien, Frankfurt 1968. Tendência igual também em J. MOLTMANN, Theologie der Hoffnung, Munique 1964, 51966 e em J. B. METZ, Zur Theologie der Welt, Mogúncia-Munique, 1968.

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