joseph - ratzinger - introdução - ao - cristianismo

joseph - ratzinger - introdução - ao - cristianismo

(Parte 6 de 10)

Aliás, é próprio do entendimento avançar sempre, além da compreensão, até à constatação de que somos totalmente apreendidos. Ora, se entendimento é compreensão da nossa apreensão, isto significa que não estamos em condições de concebê-lo novamente, porquanto nos dá o sentido pelo fato de conceber-nos. Neste sentido é com razão que falamos de mistério, como de uma base que nos prende e sempre nos ultrapassa, que jamais pode ser alcançada ou ultrapassada por nós. Ora, é exatamente na total apreensão pelo ainda não compreendido que se processa a responsabilidade do entendimento, sem a qual a fé seria indigna e se destruiria a si mesma.

7. "Creio em Ti" Apesar de tudo o que se disse, ainda não foi expresso o caráter mais profundo da

16 Neste contexto pode-se apontar para a importante perícope dos At 16,6-10 (O Espírito Santo impede a Paulo de pregar na Ásia; o Espírito de Jesus não lhe permite viajar à Bitínia; e ainda a visão com o chamado da Macedônia: "Vem e ajuda-nos!"). Este misterioso texto deveria representar algo assim como uma primeira tentativa "teológicohistórica" para sublinhar a passagem da mensagem para a Europa, "aos gregos", como obrigação divinamente determinada; Confira-se a respeito E. PETERSON, "Die Kirche", em: Theologische Traktate, Munique, 1951, 409-429.

fé cristã, seu caráter pessoal. A fé cristã é mais do que opção por uma base espiritual do mundo; sua fórmula central não diz: "Creio alguma coisa", mas: "creio em Ti"17. É encontro com o homem Jesus, experimentando nesse encontro o [45] sentido do mundo, como pessoa. Na vida de Jesus que vem do Pai, no imediatismo e na espessura do seu trato orante, – que digo! – contemplador com o Pai, Jesus é testemunha de Deus, através da qual o impalpável se tornou tangível, o distante, próximo. E mais: não se trata apenas de testemunha à qual damos fé sobre o que ela viu em uma existência que realmente concretizou a virada do falso destino ao de primeira plana, rumo à profundeza da verdade inteira; não; Jesus é a presença do próprio eterno neste mundo. Em sua vida, na irrestrição do seu ser para os homens está presente o sentido do mundo; ele doa-se-nos como amor, que também me ama a mim, tomando amável a vida mediante dádiva, tão inconcebível, de um amor não ameaçado por nenhuma transitoriedade, por nenhuma perturbação egoística. O sentido do mundo é o "tu", naturalmente somente aquele "tu" que não é pergunta aberta, mas o fundamento da totalidade que dispensa outro fundamento.

Assim a fé é a descoberta de um "tu" que me carrega e me transmite a promessa de um amor indestrutível dentro de toda a insatisfação e da derradeira incapacidade do humano encontro, um "tu" que não só aspira à eternidade, mas que a concede. A Fé cristã vive do fato de não apenas haver um sentido objetivo, mas de esse sentido conhecer e amar-me: de eu poder entregar-me a ele num gesto de criança que sabe todas as suas perguntas bem abrigadas no "tu" materno. Assim fé, confiança e amor, em última análise, são uma única coisa e todos os conteúdos em torno dos quais gira a fé são meras concretizações da reviravolta que a tudo sustenta, do "creio em Ti" – da descoberta de Deus no rosto do homem Jesus de Nazaré.

Naturalmente isto tudo não dispensa a reflexão, como já vimos. [46] És tu realmente? – tal foi a pergunta nascida em negra hora do coração do Batista, ou seja, do profeta que orientou para Jesus os próprios discípulos e dobrou-se diante dele, como o maior, ao qual só lhe restava prestar serviços de preparador. És tu realmente? O crente sempre tornará a passar por esta treva na qual a contradição da descrença o cerca como sombria e fatal prisão, e a indiferença do mundo, que continua a rodar imperturbável como se nada tivesse acontecido, parecer-lhe-á cruel zombaria de sua esperança. És tu realmente pergunta que se nos impõe, não apenas por causa da honestidade do pensamento e da responsabilidade da inteligência, mas também de dentro da própria lei do amor que quereria conhecer mais e mais àquele ao qual deu o seu "sim", para mais amá-lo. És tu realmente? – todas as considerações deste livro estão subordinadas a esta questão, girando assim em torno da forma fundamental da profissão: "creio em Ti", Jesus de Nazaré, como sentido (Logos) do mundo e da minha vida.

17 Cfr. H. FRIES, Glauben-Wissen, Berlin, 1960, sobretudo 89-95; J. MOUROUX, lch glaube an Dich Einsiedeln 1951; C. CIRNE-LIMA, Der personale Glaube, Innsbruck, 1959.

Forma Eclesial da Fé

1. Preliminares à história e à estrutura do Símbolo Apostólico da Fé 1.

[47] Tudo o que se disse até aqui girou em volta da pergunta formal: Que é a fé e onde pode localizar-se no mundo do pensamento moderno, onde pode exercer sua função? Assim forçosamente ficaram em aberto outros problemas mais vastos relacionados com a fé – e o conjunto quiçá se nos tenha apresentado ainda excessivamente pálido e indeciso. As respostas só podem ser encontradas com um olhar direto para a fé cristã em sua feição concreta que a seguir vamos analisar, tomando por guia o assim chamado símbolo apostólico.

Talvez seja útil fornecer alguns dados sobre a origem e estrutura do símbolo, que contribuirão para esclarecer o "por quê" [48] do nosso proceder. A forma básica do nosso símbolo apostólico cristalizou-se no correr do segundo e terceiro século, em nexo com o rito batismal. Trata-se originariamente de uma fórmula nascida na cidade de Roma. Contudo, seu lugar interno de origem é a liturgia, ou mais exatamente, o batismo. O rito batismal fundamentalmente orientava-se pelas palavras de Cristo: "Ide, fazei discípulos a todos os povos e batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28, 19). De acordo com esta ordem, o batizando ouvia três perguntas: "Crês em Deus, Pai todo-poderoso...? Crês em Jesus Cristo, Filho de Deus...? Crês no Espírito Santo...?" 2. A cada uma das perguntas o batizando respondia: "Creio", sendo, de cada vez, mergulhado na água. Portanto, a fórmula mais antiga do símbolo realiza-se em tríplice diálogo e está enquadrada no rito batismal.

Provavelmente ainda no correr do século I, mas sobretudo no século II, a fórmula tríplice, tão simples, e reproduzindo apenas o texto de Mt 28, sofreu um desdobramento em sua parte média, ou seja, na pergunta sobre Cristo. Por tratar-se do que é tipicamente cristão, aproveitou-se a ocasião para fornecer um resumo a respeito da importância de Cristo para o cristão, dentro dos limites daquela pergunta. Igualmente a terceira pergunta, a profissão da fé no Espírito Santo, foi explicitada e desenvolvida como declaração da fé a respeito do presente e do futuro do cristão. No século IV estamos diante de um texto contínuo, libertado do esquema de perguntas e respostas. A circunstância de continuar formulado em grego torna plausível sua origem no século I, pois no século IV a liturgia romana havia passado definitivamente para o latim. Não demora muito e surge uma versão latina. O símbolo

1 Obra decisiva e clássica a respeito é: Das apostolische SymboI de F. KATTENBUSCH, I, 1894; I, 1900 (reeditada sem alterações em 1962, Darmstadt; será citada sempre: KATTENBUSCH). Além disto, é importante J. DE GHELLINCK, Patristique et Moyen-âge I, Paris, 21949; e ainda a visão de conjunto de J. N. D. KELLY, Early Christian Creeds, Londres, 1950; e W. TRILLHAAS, Das apostolische Glaubensbekenntnis, Geschichte, Text, Auslegung, Witten, 1953. Breves resumos e bibliografias ulteriores encontram-se nas patrologias, por exemplo: B. ALTANER – A. STUIBER, Patrologie, Friburgo, 71966, 85 e s; J. QUASTEN, Patrology I, Utrecht, 1962, 23-29; veja-se também J. N. D. KELLY, "Apostolisches Glaubensbekenntnis" em: LThK I, 760 e s. 2 Confira-se, por exemplo, o texto do Sacramentarium Gelasianum (Edição WILSON), 86, citado em KATTENBUSCH I, 485, asim como, sobretudo, o texto da Traditio apostolica de HIPÓLITO (Edição BOTTE) Münster, 21963, 48 e s.

da cidade [49] de Roma impôs-se rapidamente em todo espaço de fala latina, graças à posição especial que coube à Igreja de Roma em todo o Ocidente. O texto passou por uma série de alterações menores; afinal, Carlos Magno apresentou, para uso em seu império inteiro, um texto que – baseando-se no romano – recebera sua forma definitiva na Gália; em Roma, o texto uniformizado foi aceito no século IX. Aproximadamente desde o século V, talvez já do século IV, surge a lenda da origem apostólica desse formulário que muito cedo (provavelmente ainda no correr do século 5) se concretizou na suposição de que cada um dos doze artigos, em que fora dividido, representava a contribuição de um dos doze apóstolos.

No Oriente permaneceu desconhecido o símbolo romano. Não foi pequena a surpresa dos delegados romanos ao Concílio de Florença (século XV), ao ouvirem que os orientais (gregos) não recitavam o símbolo tido como de origem apostólica. O Oriente jamais elaborou um texto uniforme porque nenhuma de suas Igrejas particulares assumira posição comparável à de Roma no Ocidente – como única "sede apostólica" nesta parte do mundo. Para o Oriente, sempre foi característica a multiplicidade dos símbolos que também se afastam um tanto do símbolo romano quanto à feição teológica. O Credo romano (e ocidental em geral) tem um cunho mais sótero-cristológico. Conserva-se, por assim dizer, no interior do aspecto positivo da história cristã; aceita, sem mais, o fato de Deus ter-se tornado homem para nossa salvação e não tenta olhar para os bastidores da história indagando de suas razões e do seu nexo com o conjunto do ser. O Oriente, pelo contrário, sempre procurou a fé cristã em sua perspectiva cosmo-metafísica, que se revela nos símbolos, sobretudo pelo fato de colocar em relação mútua a cristologia e a criação do mundo, pondo assim um nexo íntimo entre a redenção única e irrepetível, e a criação contínua e total. Mais tarde voltaremos a mostrar como esta visão mais larga, finalmente, começa a revalorizar-se [50] mais acentuadamente na consciência ocidental, sobretudo graças à influencia da obra de Teilhard de Chardin.

2. Limite e importância do texto

O esquema rudimentar da história do símbolo que acabo de dar está a exigir uma reflexão complementar. Pois já um olhar fugaz sobre a gênese do texto, tal como foi apresentado, mostra que neste processo se refletem toda a tensão da história da Igreja do primeiro milênio, o esplendor e a miséria dessa história. Quer me parecer que também isto representa uma expressão que tem nexo com a causa da fé cristã, deixando reconhecer a sua fisionomia espiritual. Sem dúvida, o símbolo exprime primeiramente, por sobre todas as divisões e tensões, o fundo comum da fé no Deus trino. É a resposta ao apelo saído de Jesus de Nazaré: "Fazei discípulos a todos os povos e batizai-os". É reconhecimento dele como proximidade de Deus; dele como verdadeiro futuro do homem. Mas, simultaneamente, já exprime o destino incipiente da ruptura entre Oriente e Ocidente; a posição espiritual que Roma ganhou no Ocidente como sede de tradição apostólica; a tensão que daí surgiu para a Igreja inteira, tudo isto torna-se visível na história do símbolo. Finalmente a forma atual desse texto exprime a uniformização da Igreja ocidental, partindo do terreno político, e assim a tragédia do alheamento político da fé, seu uso como instrumento unificador do império. Ao usar esse texto, que se impôs como "romano", mas, que nessa feição, foi trazido de fora para Roma, encontramos presentes nele as agruras da fé constrangida a afirmar-se em sua independência através do labirinto das finalidades políticas. No espelho dos azares desse texto torna-se patente como a resposta ao apelo da Galiléia se mesclou com a ganga humana ao ingressar na história: misturando-se com os interesses particulares de uma região, com a alheamento dos que foram convidados à mesma [51] fé, com os conchavos dos poderes deste mundo: o salto ousado rumo ao infinito (ou seja: a fé) realiza-se nas miniaturizações humanas; e também aqui, onde o homem arrisca o seu gesto mais grandioso, o salto para além da própria sombra, rumo ao sentido que o sustenta, também aqui não é pura e nobre grandeza, mas revela-o como o ser discorde, grande em sua miséria e, contudo, miserável em sua grandeza. E torna-se visível algo muito central, a saber, que a fé tem nexo com o perdão, que deve ter tal nexo, que a fé deseja orientar o homem vendo nele o ser que só é capaz de encontrar-se recebendo e passando adiante o perdão, o ser necessitado do perdão, mesmo no que tem de melhor e mais puro.

Acompanhando-se assim as pegadas deixadas pela nossa condição humana no texto do "Credo", surge a dúvida: será razoável basear-se em semelhante texto uma introdução ao cristianismo, como programada neste livro? Não seria de temer que, já de entrada, nos encontremos em terreno muito problemático? A pergunta deve ser feita, mas quem tentar responder, há de constatar que o símbolo representa, no essencial, o eco fiel da fé da Igreja antiga, apesar de todas as peripécias de sua formação, fé que, por sua vez, é o núcleo fiel da mensagem do Novo Testamento. As discrepâncias entre Oriente e Ocidente, de que se tratou antes, são diferenças de acentuação teológica e não de fé. Aliás, na tentativa de compreender do que se trata, cumpre-nos cuidar de relacionar o conjunto sempre novo com o Novo Testamento, procurando lê-lo e interpretá-lo a partir de suas intenções.

3. Fé e Dogma

"Crês em Deusem Cristo... no Espírito Santo?" Acrescentemos que ele representa o
entrego aeu afirmo"4. Fé, no sentido de profissão de fé, e em seu sentido original,

E mais uma observação. Ocupando-nos aqui com um texto originariamente relacionado com o rito batismal, encontramos simultaneamente o sentido inicial de "doutrina" e de "profissão de fé" no cristianismo e, com isto, também o sentido [52] do que, posteriormente, foi chamado de "dogma". Vimos que o "Credo" no rito batismal era recitado em forma dialogada, como tríplice resposta às três perguntas: membro positivo da tríplice renúncia que o antecede: "Renuncio a Satanás, ao seu serviço e às suas obras"3. Isto quer dizer que a fé se situa no ato da conversão, na virada do ser, que dá as costas à adoração do visível e factível para voltar-se à adesão ao invisível. A palavra "creio" poderia ser perfeitamente substituída aqui por: "Eu me não conota uma recitação de doutrinas, uma aceitação de teorias sobre questões das quais nada se sabe e, por isto, tanto mais fortemente se afirma algo; fé significa um

3 HIPÓLlTO, obr. cit. 46: Renuntio tibi, Satana, et omni servitio tuo et omnibus operibus tuis. 4 KATTENBUSCH n. 503.

movimento da existência humana inteira. Na linguagem de Heidegger poder-se-ia dizer que ela conota uma "virada" do homem todo, virada que, a partir dali, estrutura sem parar a sua existência. No processo da tríplice renúncia e da tríplice profissão, unidas ao tríplice simbolismo da morte por imersão (afogamento) e do tríplice simbolismo da ressurreição para uma vida nova, a fé se torna expressão concreta daquilo que ela vem a ser: conversão, virada da existência, volta do ser.

No processo da volta ou virada, no qual compreendemos a fé, o "eu" e o "nós", o "eu" e o "tu" se entrosam de modo tal que fornecem um quadro humano completo. Trata-se, por um lado, de um processo muito pessoal, cujo íntimo insubstituível se exterioriza no tríplice "creio" e no "renuncio" que o precede: trata-se de minha existência, que deve converter-se, que deve metamorfosear-se. Mas, ao mesmo tempo, com o elemento muito pessoal, encontramos um elemento mais, que [53] se revela na opção do "eu" como resposta a uma pergunta no jogo entre: "Crês?" e "Creio!" Esta forma primitiva do símbolo, constando primeiramente apenas de perguntas e respostas, parece-me apresentar uma estrutura muito mais exata da fé do que a fórmula simplificada e coletiva elaborada mais tarde. Querendo-se abrir caminho até à essência da fé cristã, será certo considerar esta forma primitiva dialogal como a mais exata elaborada pela própria natureza da fé. Ela é mais objetiva do que o tipo de profissão em plural (nós) formado (em contraposição ao nosso tipo no singular "Eu creio") na África cristã e, a seguir, nos grandes concílios do Oriente5. Nestes últimos aparece um novo tipo de profissão que não mais se radica no nexo sacramental de um acontecimento de conversão realizado eclesialmente, na concretização da virada do ser e assim no próprio lugar originário da fé, mas originase da luta dos bispos reunidos em concílio em prol da pureza doutrinal tornando-se assim claro esse estágio preparatório da futura forma do dogma. Em todo caso, é importante que nesses concílios não eram ainda formuladas sentenças doutrinais, concentrando-se o seu esforço em volta da integridade do "Credo", como esforço ou preocupação pela maneira autêntica da conversão, daquela virada da existência que significa ser cristão.

(Parte 6 de 10)

Comentários