Livro - Alimentação de Gado de Leite

Livro - Alimentação de Gado de Leite

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Alimentação de

Gado de LeiteAlimentação de Gado de Leite

Editores: Lúcio Carlos Gonçalves Iran Borges Pedro Dias Sales Ferreira

Alimentos par a Gado de Leite

Lúcio Carlos Gonçalves

Iran Borges Pedro Dias Sales Ferreira

FEPMVZ-Editora

Belo Horizonte 2009

Pedro Dias Sales Ferreira. – Belo Horizonte: FEPMVZ, 2009
412 p. : il

A414 Alimentação de gado de leite / Editores: Lúcio Carlos Gonçalves, Iran Borges, Inclui bibliografia

1. Bovino de leite – Alimentação e rações. 2. Bovino de leite - Nutrição. 3. Nutrição animal. I. Gonçalves, Lúcio Carlos. I. Borges, Iran. II. Ferreira, Pedro Dias Sales.

CDD – 636.214 085 2

A carência de uma obra que reunisse informações acerca da alimentação de gado de leite motivou a elaboração deste livro. São muitas as informações constantes na literatura internacional, no entanto estas se apresentam diluídas em muitos trabalhos científicos e/ ou livros tornando-se necessário reuni-las para facilitar aos interessados o acesso a elas.

Este livro tem como público-alvo produtores rurais, alunos de graduação e pós-graduação e demais técnicos da área de produção de gado de leite.

A obra compila informações sobre regulação da ingestão de alimentos, alimentação de bezerra, de novilha, de vaca de leite mestiça, de vacas de alta produção, bem como informações sobre período de transição, manipulação ruminal, utilização do balanço cátion-aniônico, alimentação em sistemas silvipastoris, minerais e vitaminas para gado de leite, aborda, ainda, nutrição de ruminantes e o meio ambiente, assim como nutrição e reprodução.

Agradecemos especialmente a cada autor pelo afinco e dedicação com que trabalharam para tornar possível a elaboração deste livro

Os Editores

CAPÍTULO 1 REGULAÇÃO DA INGESTÃO DE ALIMENTOS. Ana Luiza da Costa Cruz

Borges, Lúcio Carlos Gonçalves, Silas Primola Gomes 1

CAPÍTULO 2 FORMULAÇÃO DE DIETAS PARA BOVINOS LEITEIROS. Iran Borges 26

CAPÍTULO 3 ALIMENTAÇÃO DE BEZERRAS LEITEIRAS. Sandra Gesteira Coelho,

Lúcio Carlos Gonçalves, Tatiana Coutinho da Costa, Cibele Santos

Ferreira 50

CAPÍTULO 4 ALIMENTAÇÃO DA NOVILHA LEITEIRA. Breno Mourão de Sousa 68

CAPÍTULO 5 ALIMENTAÇÃO DA VACA MESTIÇA. Alexandre Cota Lara, Lúcio

Carlos Gonçalves, Matheus Anchieta Ramirez, Wellyngton Tadeu Vilela

Carvaho 100

CAPÍTULO 6 SISTEMAS DE ALIMENTAÇÃO PARA VACAS DE ALTA PRODUÇÃO.

Ronaldo Braga Reis, Breno Mourão de Sousa, Marcelli Antenor de

Oliveira 128

CAPÍTULO 7 DIETAS PARA VACAS EM PERÍODO DE TRANSIÇÃO. Bolivar Nóbrega de Faria 179

CAPÍTULO 8 MANIPULAÇÃO DA FERMENTAÇÃO RUMINAL. Bolivar Nóbrega de

Faria, Leonardo Andrade Leite 212

CAPÍTULO 9 UTILIZAÇÃO DO BALANÇO CÁTION-ANIÔNICO NA ALIMENTAÇÃO

DE VACAS LEITEIRAS. Gustavo Henrique de Frias Castro, Fernando

Pimont Possas, Lúcio Carlos Gonçalves, Diego Soares Gonçalves Cruz 245

CAPÍTULO 10 ALIMENTAÇÃO DE BOVINOS LEITEIROS EM SISTEMAS

SILVIPASTORIS. Rogério Martins Maurício, Luciano Fernandes Sousa, Alexandre Lima Ferreira, Guilherme Rocha Moreira, Lúcio Carlos Gonçalves 268

CAPÍTULO 1 MINERAIS NA NUTRIÇÃO DE BOVINOS DE LEITE. Gustavo Henrique de Frias Castro, René Galvão Rezende Martins, Lúcio Carlos Gonçalves,

Sandra Gesteira Coelho 304

CAPÍTULO 12 VITAMINAS NA NUTRIÇÃO DE BOVINOS DE LEITE. René Galvão

Rezende Martins, Gustavo Henrique de Frias Castro, Lúcio Carlos

Gonçalves, Pedro Dias Sales Ferreira 339

CAPÍTULO 13 NUTRIÇÃO DE RUMINANTES E O MEIO AMBIENTE. Vinícius R.

Moreira 363

CAPÍTULO 14 NUTRIÇÃO E REPRODUÇÃO. Helton Mattana Saturnino 395

CAPÍTULO 1

REGULAÇÃO DA INGESTÃO DE ALIMENTOS Ana Luiza da Costa Cruz Borges 1, Lúcio Carlos Gonçalves 2, Silas Primola Gomes 3

O conhecimento da ingestão diária de alimentos pelos animais é o primeiro passo na formulação de uma dieta. A regulação fisiológica da ingestão de alimentos é realizada por duas áreas do hipotálamo, onde se localizam os centros da fome e da saciedade. Estes possuem ações complementares e respondem a sinais advindos do trato digestivo e da corrente circulatória, que são relativos às características da dieta e da interação desta última com o animal e o ambiente.

Em todo programa de alimentação coerente, é necessário medir e prever as quantidades de alimentos que serão ingeridas por dia. Com essas informações, estima-se o consumo das diferentes categorias animais do rebanho, durante diferentes períodos do ano. Novas teorias têm surgido buscando elucidar os mecanismos de regulação da ingestão de alimentos, assim como suas formas de predição. Conhecendo-se os dados de consumo (e as variáveis que nele interferem), tem-se o embasamento técnico essencial para manipulações na formulação e nas alternativas de manejo que contornem eventuais depressões ou aumentos na ingestão de alimentos. Essa flexibilidade, no programa nutricional, é de suma importância para que o técnico atinja os objetivos básicos de seu trabalho, otimizando as exigências nutricionais e minimizando o custo de produção.

1 - MECANISMO FISIOLÓGICO DA REGULAÇÃO DA INGESTÃO DE ALIMENTOS

Antes de se iniciar o estudo do mecanismo fisiológico da regulação da ingestão de alimentos, é importante que alguns conceitos sejam revistos:

- Fome é a sensação manifestada pelo animal que se encontra em déficit energético.

- Saciedade é a sensação manifestada pelo animal quando ele satisfaz suas necessidades energéticas. - Apetite é a disposição de um animal que manifesta o desejo de comer.

Médica Veterinária, DSc. Prof. Associado Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da UFMG, Caixa Postal 567, CEP 30123-970, Belo Horizonte, MG. analuiza@vet.ufmg.br Engenheiro Agrônomo, DSc., Prof. Associado Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da UFMG, Caixa Postal 567, CEP 30123-970, Belo Horizonte, MG. luciocg@vet.ufmg.br Médico Veterinário, DSc.

- Consumo voluntário é o limite máximo do apetite, quando o alimento é fornecido à vontade (ad libitum).

Duas regiões do hipotálamo controlam o comportamento ingestivo dos animais: - hipotálamo lateral, onde se localiza o centro da fome;

- hipotálamo ventromedial, onde se localiza o centro da saciedade.

Esses dois centros possuem ações complementares. Quando o animal demonstra apetite, por exemplo, o centro da fome é ativado e o centro da saciedade é inibido. Por outro lado, à medida que o animal se alimenta, o centro da saciedade vai inibindo o centro da fome. Uma lesão no centro da saciedade provocaria, então, uma sobrealimentação acumulativa, levando à obesidade. As informações que chegam ao hipotálamo chegam de diferentes formas ou sinais. Os principais são os sinais quimiostáticos e os de distensão ou repleção do trato digestivo.

1.1 - Sinais quimiostáticos

Os sinais quimiostáticos são referentes a informações químicas ou hormonais enviadas pela corrente sanguínea, relacionadas aos diferentes nutrientes absorvidos pelo trato digestivo, durante as refeições. Esses sinais constituem a base de algumas teorias: - Teoria Glicostática: baseada nos teores de glicose sanguínea;

- Teoria Aminostática: baseada nos aminoácidos circulantes. Alguns aminoácidos são precursores de catecolaminas e da serotonina, que são dois neurotransmissores envolvidos na regulação do consumo;

- Teoria Lipostática: baseada nos lipídeos circulantes que podem agir inibindo o consumo em animais obesos, tais como em vacas recém-paridas;

- Teoria Ionostática: baseada em íons circulantes. O cálcio, por exemplo, parece agir no hipotálamo, mas não se sabe ainda se sua ação é direta ou indireta, pois sabe-se que ele induz à liberação de norepinefrina, um mediador que atua no Sistema Nervoso Central (SNC) aumentando a ingestão de alimentos.

Em ruminantes, a concentração de acetato e de hidrogênio no ambiente do rúmenretículo parece influenciar o consumo, assim como o teor de propionato na veia ruminal ou no fígado. Alguns outros mediadores também têm sido bastante pesquisados mais recentemente.

Um grande número de hormônios está potencialmente envolvido com a manutenção da homeostase corporal e, direta ou indiretamente, relacionado com a ingestão de matéria seca (IMS) nos ruminantes. O hormônio pancreático insulina foi um dos primeiros sinalizadores do status nutricional a ser descrito e, como a leptina, é positivamente correlacionado com o balanço energético de longo prazo. Existem evidências de que a insulina aja como um sinal anorético no SNC. A administração central de insulina ou de um mimético do hormônio diminui o consumo de alimento e o peso corporal, além de alterar a expressão de genes hipotalâmicos que atuam na regulação da ingestão de alimento. A concentração plasmática de insulina depende da sensibilidade periférica ao hormônio que, por sua vez, está relacionada com a reserva corporal e a distribuição da gordura. Porém, diferentemente dos níveis de leptina, que são relativamente insensíveis à ingestão de alimento, a secreção de insulina eleva-se rapidamente após as refeições. Nos ruminantes, a insulina parece ter efeito de longo prazo sobre o consumo e sobre a regulação do peso corporal. Em vacas leiteiras, a insulina parece estar relacionada com a queda na IMS ao final da gestação, mas sem papel significativo na depressão do consumo observada no início da lactação, pois seus níveis circulantes encontram-se relativamente baixos nesta fase.

Sabe-se que existe uma correlação negativa entre os hormônios somatotropina e insulina. Enquanto a somatotropina apresenta um efeito catabólico, estimulando a lipólise, a insulina apresenta um efeito anabólico, aumentando a lipogênese. O papel da somatotropina sobre a IMS parece ser exercido de forma indireta, por meio do seu efeito sobre as reservas corporais, promovendo a liberação de metabólitos na corrente sanguínea, como os ácidos graxos não esterificados.

A leptina, produzida no tecido adiposo, parece estar fortemente envolvida na regulação do consumo e tem sido muito estudada. Os efeitos da leptina existem em diferentes escalas de tempo e estão envolvidos na regulação central e periférica da homeostase corporal, no consumo, na estocagem e no gasto energético, na fertilidade e na resposta a doenças. Os caminhos regulatórios da leptina ligam o status nutricional com a reprodução, com a função imune, com a mamogênese e com a lactogênese. Em ovelhas ovariectomizadas, a administração de leptina humana por três dias diminuiu o consumo voluntário de matéria seca (MS) em aproximadamente 1/3 do consumo anterior à infusão. Os efeitos anorexígenos, porém, são perdidos quando ovinos em crescimento e adultos são subnutridos.

No cérebro, o consumo e a homeostase energética são regulados por uma “rede” de neuropeptídeos orexígenos (anabólicos) e anorexígenos (catabólicos). Os principais orexígenos são o neuropeptídeo Y (NPY), a galanina e as orexinas. Os anorexígenos incluem o hormônio liberador de corticotrofina (CRH) e o hormônio estimulante α- melanócito (α MSH). Recentes evidências sugerem que a leptina exerce sua ação por regulação da síntese e da liberação destas duas classes de neuropeptídeos. O NPY é um dos mais potentes indutores do consumo de alimentos, tendo a sua síntese inibida pela leptina, o mesmo ocorrendo com os demais orexígenos.

1.2 - Sinais de distenção ou de repleção do trato digestivo

Os sinais de distensão ou de repleção do trato digestivo referem-se a informações nervosas transmitidas por meio de receptores no trato digestivo (osmorreceptores, tensorreceptores...), que dizem respeito às condições de preenchimento do tubo digestivo, particularmente do rúmen-retículo. Em ruminantes, especialmente nas condições de criação brasileiras, este mecanismo normalmente predomina, uma vez que as dietas são baseadas em pastagens ou com grande participação de volumosos, os quais, devido ao alto teor de fibra, possuem um efeito distensor ruminal elevado.

Nos monogástricos, a elevação progressiva da taxa de glicose sanguínea age sobre o centro da saciedade. Esse mecanismo de controle é chamado glicostático. Nos ruminantes, tal informação é dada pelos ácidos graxos voláteis, que são absorvidos pela parede ruminal. A maior parte dos trabalhos tem demonstrado que o acetato parece ser o ácido graxo volátil mais envolvido nesta regulação. Entretanto, pesquisas mais recentes apontam para uma forte participação do propionato. Sabe-se que alguns neurotransmissores também estão envolvidos com o comportamento alimentar dos animais, como a epinefrina e a norepinefrina, que parecem aumentar a ingestão, e a serotonina e o carbacol, que parecem reduzir o consumo. A colecistoquinina também pode atuar na redução do consumo de bovinos, assim como o glucagon, que parece intervir aumentando a ingestão voluntária. Alguns opioides de ação central também parecem atuar no SNC, alterando o consumo.

A homeostase é um "sistema de retroalimentação negativa autorregulada, que serve para manter a constância do ambiente interno". A regulação do consumo de alimentos é um exemplo de mecanismo homeostático (Figura 1).

SISTEMA DETECTOR: - Intestino

- Órgãos

- Pele

- Hipotálamo ventromedial

REPLEÇÃO - Trato Digestivo TEMPERATURA GLICOSE - Utilização

- Nível ÁCIDOS GRAXOS GORDURA AMINOÁCIDOS MINERAIS

Figura 1. Regulação do consumo de alimentos. Fonte: Hafez e Dyer (1969).

2 - CONSUMO DE ALIMENTOS COMO MECANISMO HOMEOSTÁTICO

O equilíbrio energético do organismo é determinado pela diferença entre a ingestão de energia proveniente dos alimentos e as perdas de energia (fezes, urina e calor), mais a energia gasta para mantença, produção de leite, reprodução e movimentação. Um equilíbrio energético positivo provém, então, de um aumento no consumo de energia, superando as perdas e os gastos calóricos. Da mesma forma, um equilíbrio energético negativo é resultado de uma redução no consumo de energia e/ou de um aumento nas perdas e nos gastos de energia.

Dentro de uma margem bastante ampla de concentração energética na ração, os animais são capazes de ajustar a quantidade de alimento ingerido, de forma a manter o aporte de energia. Os ruminantes, à primeira vista, parecem ser uma exceção à norma geral relacionada à homeostase de energia, pois consomem maior quantidade de forragem nova e seca precocemente do que de forragem madura e seca tardiamente. Ao contrário do que se esperava, o conteúdo de energia da primeira é maior, bem como o seu consumo.

O animal possui uma série de receptores ao longo do trato digestivo que enviam sinais ao SNC, constituindo o Sistema Detector. A sinalização advinda dos sentidos da visão, olfação e gustação também tem uma grande importância na regulação do consumo. Alguns pontos-chave devem ser considerados: - receptores no palato inferior e superior: trata-se de um sistema trigeminal, que controla apreensão e deglutição; - circuito neural gustativo: é constituído de uma série de bulbos gustativos, localizados no epitélio dos palatos superior e inferior e na porção mandibular da língua; - interação hipotálamo e núcleo dorsal motor do vago: atua ativando o sistema nervoso parassimpático na preparação do organismo para a digestão.

Em bovinos, embora a IMS seja determinada, principalmente, pela quantidade de alimento fornecido e pela frequência de fornecimento, ela é também influenciada por sinais de feedback de longo prazo para o cérebro. Estes sinais, que reduzem a IMS, incluem um excessivo escore de condição corporal, restrições por enchimento físico (gestação, gordura interna), elevada temperatura ambiente e densidade energética da ração. Tais fatores podem ser manejados visando à maximização da IMS, todavia, muitas vezes, várias semanas ou meses são necessários para ajustar o escore de condição corporal. Os bovinos param de ingerir quando são atingidas suas necessidades energéticas ou o limite de enchimento ruminal.

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