Diario de Um Adolescente Hipocondriaco - Aidan Macfarlane

Diario de Um Adolescente Hipocondriaco - Aidan Macfarlane

(Parte 2 de 7)

HERÓIS: John Lennon, eu mesmo, o pai do Sam, Adrian Mole, o cara que descobriu a penicilina, mas que não consigo lembrar o nome, e Marilyn Monroe.

O QUE VOU SER QUANDO CRESCER: eu mesmo, um cientista famoso, muito rico, e um tremendo sucesso com as mulheres.

PERSONALIDADE: tímido, desajeitado, um tremendo fracasso com as meninas, cheio de medo da vida, implicante (principalmente com a Susie), fraco nos esportes, e não gosto de tomar banho; por outro lado, gosto de ajudar velhinhas a atravessar a rua, de fazer o dever de casa antes de ver televisão (a não ser quando está passando Match of the Day), de fazer comentários engraçados e de ser original.

MEDOS: pegar AIDS, crescer e ficar desempregado. Constituição Física SEXO: masculino, e cada vez mais.

ALTURA: 1 metro e 63 centímetros, medidos no batente da porta com a fita métrica da mamãe.

PESO: 5 quilos, mas comi muito no jantar. COR DO CABELO: castanho. COR DOS OLHOS: castanhos, para combinar.

CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS: eu inteiro, mas principalmente o sinal marrom na minha bunda.

Minha Mãe NOME: Jane Elspeth Margret. DATA DE NASCIMENTO: junho de 1945, mas não consigo me lembrar do dia.

IDADE: 35, já faz seis anos.

TRABALHO: acumula vários empregos: reformadora da sociedade, cozinheira, faxineira, lavadeira, quebra-galhos da vizinhança, médica da família. Além disso, ela ainda toma conta do meu pai, se preocupa com todos nós.

PESO: gorducha. COR DO CABELO: castanho. COR DO OLHOS: verdes com pintinhas. CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS: a risada, que é igual a de uma hiena doente.

PERSONALIDADE: se mete na minha vida particular o tempo todo; me obriga a ser gentil com umas tias muito chatas; não liga a mínima quando não consigo dormir, e etc., (ela diz que “vai passar”, e pronto) e está sempre perguntando se eu já fiz o dever de casa; mas por outro lado, é carinhosa, presta atenção quando a gente fala, e não fica me enchendo o saco para eu arrumar o quarto, que nem a mãe do Sam.

Meu Pai NOME: Anthony Tobias. DATA DE NASCIMENTO: não sei. IDADE: ninguém sabe. TRABALHO: matar invasores microscópicos na casa das pessoas. Isso se chama dedetização, e é o que eu gostaria de fazer com a Susie. PESO: em expansão. CABELO: recuando — o pouco que sobrou. COR DOS OLHOS: não me lembro. CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS: um bigode horrível.

PERSONALIDADE: é engraçado, um bom mecânico, não consegue parar de fumar escondido, fala de política o tempo todo e sabe um monte de coisas.

Minha Irmã Mais Velha NOME: Baily (e Beatrix — TOP SECRET) DATA DE NASCIMENTO: sempre esqueço.

IDADE: 17 PESO: segredo de Estado COR DO CABELO: muda toda hora. COR DOS OLHOS: azuis. CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS: duas que se sacodem na frente.

PERSONALIDADE: é mais “sabidona” do que eu, mandona, e topa quase tudo por dinheiro (ela está tentando economizar para comprar uma moto)

Minha Irmã Mais Nova NOME: Susie Jane (sortuda — já tinham acabado todos os nomes feios).

DATA DE NASCIMENTO: ela repete para a gente umas seis vezes por dia: 14 de janeiro de 1974.

IDADE: 12 anos e 1 meses. COR DO CABELO: sem graça. COR DOS OLHOS: sem graça também — que nem o resto dela. CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS: nenhuma.

PERSONALIDADE: se preocupa com o que os amigos vão achar da família dela, gosta de fazer compras, não pára de rir, não me obedece, e faz o maior drama quando eu deduro alguma coisa que ela fez, ainda mais se a mamãe estiver por perto.

Meu Irmão Infelizmente minha mãe e meu pai nunca me deram um. Meu Melhor Amigo NOME: Sam Sproggs. SEXO: ele diz que é masculino. IDADE: diz que tem 14, mas na maioria das vezes se comporta como se tivesse 4.

PERSONALIDADE: adora bicicletas; faz sucesso com as garotas, mas não dá a mínima para elas; tenta ser original, mas não consegue; a mesada dele é maior do que a minha.

Ligações Amorosas

NOME: Cilla Jeffs. SEXO: sim, se ela deixar. IDADE: 14. ENDEREÇO: não vou contar. POR QUE GOSTO DELA: porque sim. Animais De Estimação ESPÉCIE: gata (da Sally), que morreria de fome se a mamãe não desse comida para ela. NOME: Bovril. IDADE: 14 meses de loucura; está perdendo todos os pêlos. Minha Casa

Esquadrias de Metal em volta das janelas como todas as casas num raio de alguns quilômetros. Três quartos e uma caixa de sapato para a Susie. Azulejos cor-de-rosa no banheiro. Carpete na casa toda. O quarto da mamãe vive cheio de pêlos de gato, Papai prometeu acabar de montar os acessórios da cozinha, por isso até hoje ela não ficou pronta.

Meu Quarto

Uma placa pendurada do lado de fora da porta avisando se estou no quarto ou não. Do lado de dentro, tem um esqueleto de papel. Minha cama, com todas as minhas roupas velhas enfiadas embaixo. Um milhão de ursinhos Paddington estampados na colcha. O papel de parede está todo embolotado e foi pintado de amarelo pelo papai. Um poster da Marilyn Monroe segurando a saia em cima da grade de metrô, pendurado por cima de um desenho de avião que eu fiz. Para terminar, livros que vão de Biggles a Asimov espalhados por tudo quanto é canto.

Capítulo 1 COMO DESCOBRI QUE ERA HIPOCONDRÍACO

Quarta-feira, 9 de janeiro

A professora de biologia me deixou preocupado hoje. Ela disse que o nosso coração era uma máquina maravilhosa e eficiente, que bate 80 vezes por minuto. Isso dá três bilhões de batidas numa vida inteira. Calculei que o meu já tinha dado 80 x 60 x 24 x 365 x 14 588.672.0 de batidas (o número não coube na calculadora. Preciso de uma melhor). Fiquei preocupado com o esforço que o meu coração já tinha feito. Tenho certeza que ele não vai agüentar até o fim. Perguntei à D. Smellie se eu podia ter um ataque cardíaco na corrida que a gente ia fazer de tarde. Afinal, o vovô morreu de ataque do coração quando estava correndo atrás de um ônibus no ano passado. Bom, é claro que ele tinha 80 anos, mas eu fiquei morrendo de medo que fosse hereditário. D. Smellie disse para eu parar de ser bobo, O exercício faz bem para o coração e ajuda a evitar ataques cardíacos quando a gente fica mais velho. NÃO fumar também. Ela nunca perde uma oportunidade de dizer como NÃO fumar é ótimo. Segundo ela, a probabilidade de eu ter um ataque cardíaco na minha idade é menor do que uma em um milhão. Mas logo tive um novo motivo para me preocupar: a D. Smellie disse que eu estava tendo um ataque agudo de “hipocondria”. Isso deve ser bem pior. Será que eu vou morrer? Perguntei quais eram os sintomas, mas não adiantou nada. Ela me mandou olhar no dicionário. Acho que vou fazer isso mesmo, se não morrer antes.

Quinta-feira, 10 de janeiro

Ainda estou vivo. Consegui escrever mais um dia no meu diário! No Ano Novo eu tinha resolvido começar no dia 1° de janeiro. Só oito dias de atraso! Foi quando comecei a ler Adrian Mole, e minha mãe parou de implicar comigo, que resolvi escrever esse diário. Não aconteceu nada demais hoje. Só a minha irmã, a Susie, é que ficou torrando a paciência da mamãe para deixar a Kate, além da Mary, vir jantar aqui no aniversário de 13 anos dela. Eu odeio todas elas. São todas umas pentelhas. A Mary é a sexta “melhor amiga” que a Susie arranja essa semana. Domingo elas vão com a mamãe assistir pela quarta vez a um desses filmes sem graça do Walt Disney. É super criança, mas é a única coisa que está passando. Eu vou para a casa do Sam. Ainda não morri de hipocondria. Vai ver não é tão grave quanto eu pensava. Vou perguntar ao pai do Sam. Ele sabe tudo.

Sábado, 12 de janeiro

Essa história de hipocondria está começando a me deixar preocupado. Ontem fui na biblioteca, na hora do almoço. Tinha acabado de pegar o dicionário quando o quatro-olhos do Slogs, o C.D.F. da escola, veio perguntar que palavra eu estava procurando. Não queria que ele descobrisse que eu estava com uma doença medonha.., podia ser contagiosa, e ai ninguém ia querer chegar perto de mim. Então procurei a palavra “ERÓGENO”. O cedê teimou que sabia o que ela queria dizer, mas ficou todo vermelho por trás dos óculos fundo-de-garrafa quando li em voz alta a definição do dicionário (para deleite dos tarados analfabetos ali presentes, e para ver qual seria a reação da O. Bel uma professora de música de 62 anos de idade, que estava cochilando em cima de umas partituras): “área do corpo que provoca excitação sexual, como por exemplo os mamilos, o lóbulo da orelha e a parte de dentro das coxas”.

Ajudei meu pai a consertar o carro hoje. Queria que a gente tivesse um GoIf GTI, que nem o pai do Sam, ao invés dessa pilha de ferrugem de décima mão, que chamam de Ford Escort Estate. Bom, pelo menos é melhor do que ter uma droga de um Volvo Estate, que nem o pai do Randy Jo. Só que o nosso carro não pega quando faz frio. O barulho que ele faz é como se estivesse morrendo de câncer no pulmão. Parece o papai tossindo de manhã quando exagera e fuma 40 cigarros num dia só. A gente tinha que botar o carro para funcionar para ir almoçar na casa da tia Pam no dia seguinte. Queria que o papai mandasse a porcaria desse carro para o ferro velho de uma vez, ao invés de ficar tentando consertar.

Depois fui me encontrar com o Sam. Fui ver o time dele jogar futebol. Minha mãe me fez botar quinhentos casacos (“Para você não pegar um resfriado, meu filho”). Parecia que eu estava indo para uma expedição na Antártica. Eu estava ridículo e muito pouco aerodinâmico, mesmo para os padrões da minha bicicleta velha. O Sam tem uma Reynolds 531 — uma bicicleta de garfo reforçado, câmbio Capagnolo, pneus tubulares, banco de competição Edco, para não falar nos freios Weinmann 605— que ele não me empresta de jeito nenhum. Diz que eu ia acabar quebrando. Não me importo muito com isso. Só que a mãe dele deixa ele sair com o uniforme de corrida preto do “Tour de France”. E eu fico me sentindo um babacão. O time do Sam ganhou, mas o goleiro quebrou a perna, e não vai poder jogar no resto da temporada. Deu para ouvir o barulho do osso quebrando lá da arquibancada. Fui embora antes que soltassem os animais do time visitante (não sei por que chamam essa cambada de torcida). Além de ser um covarde, eu detesto violência. Fui para casa pedalando a toda velocidade, para fazer o meu coração bater direito (calculo que estou perto da marca dos 600 milhões de batidas agora). Mas depois fui mais devagar, senão a hipocondria podia piorar.

Sam veio lanchar aqui em casa e derramou geléia no sofá novo da sala. Teve que lamber toda a sujeira, com pêlo de gato e tudo. O Sam adora vir lanchar aqui. Na casa dele nunca deixam ele comer pão, batata frita, bacon com ovos, molho de tomate, biscoito de chocolate e nem tomar Coca-Cola. Talvez mamãe não seja tão ruim assim, afinal. Ou vai ver estou com hipocondria porque não me alimento direito. A Susie fica um saco quando o Sam está por perto. Ela fica puxando papo com ele e não pára de se exibir. Tenta até falar de futebol e de bicicleta, como se entendesse alguma coisa do assunto. Antes ela detestava os meus amigos, mas agora não larga do pé deles. Será que é isso o que os médicos chamam de “PUBERDADE”? Ela não podia ficar só com as meninas? Não que eu quisesse ter uma irmã lésbica, mas eu também só ando com o Sam, e nem por isso a gente é gay.

Tive a maior briga com a minha mãe por causa da TV. Perdi, para variar. Foi a mesma coisa de sempre: a TV força a vista, deixa os olhos vermelhos, deixa você de mau humor, dá dor de cabeça, faz você ficar mais violento, transforma você num maníaco sexual (eu disse a ela que já era tarado, o que não ajudou muito). E por aí vai: eu não durmo o bastante, só vejo besteira, e já tinha assistido o jogo de futebol em Match of the Day. Não recebi o menor apoio da Susie, já que o problema era futebol. Aposto que ela teria me dado mais força se o Sam estivesse por perto. Papai também não me deu nenhum apoio—aquele traidor— porque foi o time dele que perdeu. Ainda estou preocupado com A DOENÇA.

Domingo, 13 de janeiro

A mamãe me obrigou a levantar ao meio-dia. Ainda estou irado com ela por causa da TV. Não dá para entender meus pais. Primeiro eles dizem que preciso dormir mais, depois reclamam quando eu acordo tarde. O problema é que eles não conseguem se resolver.

Fiquei enjoado quando a gente estava indo para a casa da tia Pam. A Susie ficou lendo a viagem inteira. Como é que ELA consegue fazer isso sem ficar enjoada? Não é justo. Mamãe não deixou eu me sentar no banco da frente, e ninguém queria abrir a janela por causa do frio. Isso até eu avisar que ia vomitar.

A casa da tia Pam tem um cheiro horrível: cocô de cachorro misturado com mijo de gato, o bafo de cerveja do tio Bob e o perfume enjoativo da tia Pam. o pior é que ela ainda aparece cheia de pó-de-arroz e faz questão de me dar um beijo. Que nojo! Devia ter uma lei contra a gente ser obrigado a beijar os nossos parentes depois dos 12 anos. Que doença será que a gente pega através do beijo e de cheiros ruins? Sempre detestei o tio Bob. Agora sei porquê. A primeira coisa que ele me disse foi:

— Estou vendo que você já está de bigode, rapazinho. — Até parece que os pelinhos crescendo em cima da minha boca podem ser chamados de bigode. Além disso, eu estava fazendo um esforço enorme para NÃO reparar neles. Susie e mamãe não paravam de rir. Para piorar a situação, eu ainda fiquei todo vermelho, já basta eu estar com hipocondria. Não precisam também ficar mostrando os meus outros defeitos. Perguntei à Susie se ela tinha algum amigo com hipocondria. Ela disse que sim, um monte, e quando a gente fica assim, a gente vira um hipocondríaco. Maldita sabidona. Ela é pior do que eu. Não tive coragem de admitir que não sabia o que isso queria dizer. Então fui visitar o Sam. O pai dele é médico e faz experiências com animais sobre uma coisa chamada “imunologia”. Será que na minha idade ele lia muito sobre doença? Eu tinha alguma esperança de que ele pudesse tirar as minhas dúvidas sobre “hipocondria”. A impressão que eu tenho é que ele sabe tudo. Mas ele estava numa conferência. O Sam diz que é isso o que ele faz sempre que precisa descansar. As amigas da Susie foram jantar lá em casa depois do cinema, para comemorar o aniversário dela. Ainda bem que eu não estava. A Kate convidou a Susie para passar o próximo feriado na casa dela. Que bom.

Segunda-feira, 14 de janeiro

GRANDE DIA. Cheguei cedo na escola. Deixei todo mundo espantado, inclusive eu mesmo. Cheguei bem na hora em que o Whitton, o zelador, estava abrindo o portão. Ele ficou muito surpreso de me ver naquela hora. Geralmente ele me pega entrando escondido por trás do galpão das bicicletas, depois do sinal já ter tocado. Costumo dar de cara com um monte de alunos do segundo grau fumando lá. Eu disse ao Whitton que tinha que fazer uma pesquisa na biblioteca. Quando peguei o dicionário, estava com as mãos suando. Comecei a procurar. “HIDROFOBIA — aversão à água, principalmente como um sintoma da raiva.” Socorro! Isso era outra coisa que eu tinha. Eu não gosto de tomar banho. “HIPNOSE — estado mental semelhante ao sono, em que o indivíduo age apenas por influência externa.” Comecei a achar que tinha tudo o que estava no dicionário. ‘HIPOCONDRIA — preocupação excessiva com a própria saúde.” Pô, então era só isso. Eu sou só uma pessoa que tem uma preocupação excessiva com a própria saúde. Não tenho nenhuma doença terrível. Que alivio! Bom, na verdade eu tenho que admitir que sou MESMO meio hipocondríaco. Porque, pensando bem, fiquei meio decepcionado porque não estava com nenhuma doença grave. Eu já estava me vendo deitado no hospital, com toda a minha família, os meus amigos e uma pilha de chocolates e uvas na cabeceira da cama: minha mãe atormentada de angústia por não ter me deixado ver televisão, meu pai prometendo que ia parar de fumar, e o Sam arrependido de não ter me deixado andar na bicicleta dele. Agora entendo como um hipocondríaco pode ser feliz.

(Parte 2 de 7)

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