Diario de Um Adolescente Hipocondriaco - Aidan Macfarlane

Diario de Um Adolescente Hipocondriaco - Aidan Macfarlane

(Parte 3 de 7)

Capítulo 2 COMO QUEBREI A BARREIRA DA DOR NUMA BICICLETA

Terça-feira, 2 de janeiro

Fiquei arrasado ao descobrir que não estava com nenhuma doença. Desisti de escrever o diário.

Quarta-feira, 30 de janeiro

Sofri um acidente seríssimo. Não posso sair de casa, então é melhor começar a escrever o diário de novo. O sábado passado começou bem. O Sam veio me chamar, e a gente saiu de bicicleta para ir visitar uma amiga nossa, chamada Joana. O Sam tinha um disco que ela queria gravar. Quando a gente chegou lá, os dois fugiram para o andar de cima. Eu fiquei me sentindo um tremendo babaca. Aí o Nick, outro amigo nosso, apareceu e pegou a minha bicicleta. Então, só de brincadeira, peguei a bicicleta do Sam e fui dar uma volta. A minha perna é meio curta, então eu não conseguia andar direito na bicicleta. Quando estava descendo o morro, que é bem inclinado, de repente não consegui mais encontrar o freio. Lá embaixo ficava uma fileira de casas e uma curva fechada para a esquerda. Eu ainda estava tentando encontrar o freio, quando derrapei num pedaço de gelo e caí em cima do meio-fio. Na hora em que estava voando por cima do guidom, ouvi alguma coisa fazer CRAC. Eu já tinha ouvido esse som não fazia muito tempo. Pronto.

Depois disso, eu só me lembro de estar numa ambulância. O motorista e o colega dele estavam rindo e contando piadas. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Meu jeans estava todo rasgado e o meu braço esquerdo estava enfiado num saco plástico cheio de ar. Não conseguia me mexer. Parecia que a minha cabeça ia explodir de dor. As coisas se apagavam e depois voltavam. Eu estava enjoado e fraco. A sirene não estava tocando. O colega do motorista disse que eles só ligavam a sirene numa emergência de verdade, ou quando estavam com pressa para ir fazer uma boquinha!

Finalmente a gente parou e abriram as portas de trás. Mamãe estava lá, chorando, junto com o papai, que estava completamente branco: Ele começou a me xingar e a gritar que o que eu tinha feito era uma idiotice completa. Perguntou se tinha sido de propósito, só para deixar os dois preocupados.

— Por que você não pára para pensar antes de fazer essas coisas?

Os adultos, vou te contar! Minha mãe mandou ele calar a boca. Eu queria sair da ambulância sozinho para mostrar que estava tudo bem. Mas os enfermeiros me seguraram, me enrolaram num cobertor vermelho — como se eu fosse um velhinho de 80 anos — e me levaram numa espécie de cadeira de rodas. Disseram que eu tinha quebrado o braço: o saco plástico cheio de ar era para ele ficar imobilizado para não doer. Mamãe ficou segurando a minha outra mão, enquanto o papai ia se arrastando atrás da gente, resmungando que o Sam ia ficar fulo porque a bicicleta dele estava toda arranhada.

Eles me levaram até um quartinho branco e me jogaram em cima de uma cama dura. Ninguém parecia estar muito preocupado comigo (apesar de eu ter ouvido alguém falar de uma injeção antitetânica lá fora). A mamãe teve que ir atrás de alguém para pedir que me dessem algum remédio para diminuir a dor. Voltou dizendo que a enfermeira tinha pedido desculpas, mas que todo mundo estava muito ocupado. Finalmente apareceu uma enfermeira, que enfiou um termômetro na minha boca e tirou o meu pulso. Ela era tão legal quanto as enfermeiras que apare cem na TV, apesar de não ser tão bonita. Ela me ajudou a tirar a calça. A minha perna estava branca e toda esfolada. Pensei que ela fosse tirar a minha cueca também. Quase tive um ataque do coração.

Um homem entrou e me fez algumas perguntas sobre o acidente, além de outras perguntas idiotas. Ele perguntou, por exemplo, se eu sabia em que dia estávamos e o nome do Primeiro-Ministro. Ele olhou nos meus olhos com uma lanterna, espetou uns alfinetes na minha perna para ver se eu sentia alguma coisa, deu uma pancadinha no meu tornozelo e depois examinou cada centímetro do meu corpo. Depois de algum tempo, criei coragem para perguntar para que servia aquilo tudo. Ele respondeu que era para ver se eu não tinha sofrido algum tipo de dano cerebral — como, por exemplo, uma concussão. Descobri mais tarde que isso é mais ou menos a mesma coisa que machucar o cérebro, mas que depois ele fica bom de novo. As perguntas idiotas eram para ver se o meu cérebro estava funcionando direito.

Parecia que ninguém tinha feito NADA ainda. Aí entrou uma mulher e começou a me examinar outra vez. Fiquei com medo de descobrir até onde ELA ia chegar. Ela explicou que o homem que tinha aparecido antes era um estudante de medicina fazendo estágio, e que ela era a médica de verdade. Ela ia mandar tirar uma radiografia da minha cabeça — porque tinha que ver se algum osso do meu crânio estava quebrado — e do meu braço — porque já sabia que ele estava quebrado. Mais um tempão de espera, sem ninguém aparecer para fazer nada. A essa altura eu já queria estar em casa, deitado na minha cama.

A médica me mostrou as radiografias e disse que eu tinha sorte de não ter quebrado a cabeça e sofrido dano cerebral. Ela também disse que não conseguia entender por que as pessoas não usam capacete quando andam de bicicleta. Segundo ela, a cada ano morrem 300 ciclistas e 30.0 ficam feridos. E, se eu estava pensando em ter uma moto algum dia, ia TER que usar capacete. Mesmo assim, 1.0 motociclistas morrem por ano nas estradas, e 63.0 ficam feridos. Para deixar isso bem claro, ela disse que passava a maior parte do tempo remendando pessoas que tinham sofrido algum tipo de acidente e que a cada ano:

Um em cada 1 condutores de lambreta Um em cada 16 motociclistas Um em cada 56 motoristas de carro eram mortos, ou se envolviam em algum acidente. Acho que nem andar é seguro, pois 1.900 pedestres são mortos por ano, e 60.0 ficam feridos por ano. Isso sem falar em outros tipos de acidente, como afogamentos, que matam 100 crianças por ano, ou acidentes domésticos, que levam 2 milhões de pessoas para o hospital todo ano. SOCORRO!

Perguntei à médica se ela usava capacete quando andava de bicicleta. Ela ficou vermelha e não respondeu. Minha mãe me lançou um daqueles olhares significativos e disse que pelo jeito eu já estava melhor. O meu pai voltou para o trabalho, e a minha mãe ficou comigo enquanto botavam umas ataduras brancas e úmidas em cima do meu braço, que começou a esquentar. Algum tempo depois, as ataduras começaram a ficar duras e lisas, e lá estava eu com um belo gesso branquinho para os meus amigos assinarem. O gesso impede que as pontas do osso quebrado fiquem se mexendo. Assim ele pode se solidificar direito.

Achei que já estava tudo pronto, mas ainda estava faltando uma coisa a vacina antitetânica A sujeira no machucado do meu joelho podia estar contaminada com a bactéria do tétano. Isso pode causar uma contração de todos os músculos do corpo, o que, além de ser muito incômodo, também pode matar. Mamãe disse que eu tinha tomado a vacina quando tinha cinco anos, mas ela só protege contra o tétano durante dez anos. Depois disso, a gente tem que tomar outra vez.

Disseram que talvez eu tivesse que dormir no hospital, só por que eu tinha desmaiado. Primeiro fiquei assustado. Depois comecei a achar que podia ser divertido, ainda mais se os meus amigos viessem me visitar. Eu podia ganhar um monte de presente (já que não pude fazer isso com a doença da hipocondria). Mas parecia que eu estava bem, então acabaram me deixando ir para casa com a minha mãe. Mesmo assim, disseram para ela me trazer de volta se eu começasse a vomitar, tivesse uma dor de cabeça muito forte, visse as coisas em duplo, ou ficasse mole por causa da batida na cabeça. Também me mandaram voltar se os dedos do braço quebrado ficassem dormentes, inchassem, ou ficassem brancos ou azuis. Parecia tudo muito nojento, mas não aconteceu nada, Os últimos quatro dias têm sido muito chatos, e é por isso que eu estou escrevendo.

Ninguém veio me visitar, a não ser o Sam. Ele veio para reclamar da bicicleta (pelo menos ele se lembrou de perguntar como eu estava). Depois ele contou que uma tal de Jane, da nossa sala, estava dando mole para ele. O papai disse que eu já tinha sofrido o bastante, e que então ele ia pagar o conserto da bicicleta do Sam. Às vezes ele sabe ser super gente fina. A Susie e a Sally também foram muito legais. Já que eu não tenho muitos amigos, acho que ter duas irmãs é melhor do que nada.

Quinta-feira, 31 de janeiro

Acordei cedo para pegar o ônibus. Primeiro dia de volta à escola. Consegui ser o centro das atenções durante cinco segundos, enquanto todo mundo sujava o meu gesso com os seus rabiscos. Tem alguns que eu tenho até vergonha de mostrar em público. Tive que ficar estudando na hora da Educação Física. Não gosto de Educação Física, mas agora que não posso participar da aula, eu estou me sentindo meio de fora. O Prof. Jones (ele é o nosso professor de Educação Física e também trabalha na revista da escola) disse que, já que eu não tinha nada para fazer, eu podia representar a turma na revista e conseguir algumas matérias para o próximo número. Contei o acidente para os meus colegas (enfeitando um pouco as partes que falavam da minha coragem e de como as enfermeiras ficaram taradas por mim). Mas eu não consegui chegar nem na metade da história. Todo mundo achava que tinha um acidente pior do que o meu e queria contar de qualquer jeito. Fiquei de saco cheio e mandei que eles escrevessem sobre os seus problemas para a revista da escola.

Quinta-feira, 7 de fevereiro

meus colegas se metem

Uma semana inteira sem escrever. Fiquei exausto de tentar funcionar com uma mão só, aqui em casa e na escola. As professoras pararam de ter consideração comigo pelo fato de eu estar aleijado. Recebi um monte de histórias para a revista. As coisas em que os

Eu estava brincando de pique perto do armazém com a minha irmã e um amigo, há uns quatro anos. Atravessei a estrada correndo, e um ônibus vermelho enorme me acertou bem na hora em que ele ia parar. A minha irmã foi chamar a minha mãe. Ela veio correndo. Eu não parava de correr em círculos. O médico veio e me levou, junto com a minha mãe, para o hospital. Passei a noite lá. Eu só estava com um pouco de concussão. Fui para casa no dia seguinte.

Uma vez eu quebrei o nariz, bem na base. Eu estava em pé perto do meu irmão. Ele estava sacudindo a cabeça para se secar da chuva. Eu fui e dei de cara com ele, então quebrei o nariz. Eu fiquei com uma tremenda dor de cabeça e com o nariz roxo, do tamanho de uma melancia. Fui para o hospital, e disseram que primeiro iam ter que esperar o nariz desinchar. Aí me levaram para a clínica de otorrino. Ninguém teve pena de mim.

Foi há uns três anos, Eu estava passando o aspirador no corredor. Um pedaço de papel não queria entrar no tubo, então eu fui empurrar com uma faca. O aspirador chupou o meu dedo para dentro, e fiquei todo cortado. Também tive outro acidente, quando tinha uns dez anos. Eu estava sentado em cima da pia do banheiro. De repente ela se soltou da parede e caiu. Eu bati com o olho e fiquei coberto de sangue.

Já sofri pelo menos uns três acidentes, mas nenhum deles foi muito grave. O primeiro foi quando o meu pônei me deu um coice numa apresentação. Eu não me machuquei muito, fiquei só um pouco roxa e dolorida. Depois um outro pônei me mordeu quando eu estava colocando a sela nele. Doeu mais do que quando eu levei o coice, porque cortou a pele e sangrou. O outro acidente foi quando caí e o pônei me arrastou pela estrada. O pônei que eu estava montando era muito pequeno. A gente estava voltando para o pasto, quando de repente apareceram duas meninas correndo pelo caminho. O pônei se assustou e disparou por baixo de um galho. Eu bati no galho e caí. Agarrei as rédeas, e ele me arrastou por uns 100 metros. Fiquei toda machucada de um lado e ainda estou cheia de cicatrizes.

Eu estava passeando com outra menina perto da linha do trem. Tinha uns meninos que ficaram jogando pedra na gente. Acertaram uma pedra enorme na minha cabeça. Aí me levaram correndo para o hospital. Perdi três litros e meio de sangue e tive que levar 16 pontos: seis internos e dez externos. Tiveram que me dar cinco injeções na cabeça para anestesiar a pele na hora de costurar os pontos. Eu ia ter que passar a noite no hospital. Quando os meus pais vieram me contar, eu comecei a chorar, então os médicos me deixaram ir para casa. A minha irmã estava lá e viu a pedra na minha cabeça. A minha prima, que foi quem arrancou a pedra, disse que dava para ver os ossos do meu crânio. Os médicos e os meus pais pensaram que eu ia morrer, porque se o corte tivesse sido um pouco mais fundo, eu já teria dançado. Agora, sempre que vejo alguém atirando pedras, eu corro para casa. Acho que esse meu medo nunca vai passar. Se alguém bate na minha cabeça, ou toca nela, eu fico doida e bato na pessoa.

A última vez que me machuquei foi há um mês, quando fui patinar no gelo pela primeira vez. Eu já sabia andar de patins de roda, mas os meus amigos me disseram que no gelo era mais difícil, porque você escorrega toda hora. Fui patinar com uns amigos meus, mas quando entrei no gelo fiquei com muito medo. Sempre que tentava sair do lugar, eu escorregava. Depois correu tudo bem, até que um menino atrás de mim me empurrou, e eu cai de encontro á murada do rinque. No que eu caí, botei a mão no chão, e um menino que estava do meu lado patinou em cima dos meus dedos. Eu não parava de chorar, porque estava doendo demais. Os meus amigos me viram e me ajudaram a sair do rinque. Estava jorrando sangue dos meus dedos, a pele estava toda esfolada, e a minha unha estava quebrada e toda roxa. Depois desse acidente, jurei que nunca mais ia patinar — mas acabei mudando de idéia.

A última vez que me machuquei foi quando eletrocutei a mão direita. Aconteceu quando eu fui tentar trocar uma lâmpada. Eu tinha pintado a lâmpada com esmalte vermelho. Fiquei sem poder escrever um mês inteiro por causa da queimadura. Tive que ir para o hospital, porque era uma queimadura de eletricidade, que parece que é bem mais grave que n outras. Tive que fazer uma cirurgia plástica, e tiraram a pele da parte de cima da minha outra mão. Passei três dias no hospital.

Quando eu tinha dez anos, quebrei o vidro da janela com a mão. Um caco de vidro arrancou um pedaço da minha pele. Os meus pais me levaram correndo para o hospital e disseram que eu ia ter que fazer um enxerto de pele. Na época, eu não sabia o que era isso. Preferia que isso não tivesse sido necessário, porque ainda tenho a cicatriz e acho que ela nunca vai desaparecer. É muito feio, porque tiraram a pele da parte lisa do meu braço, e ainda dá para perceber.

Eu estava descendo um morro de bicicleta. Tinha um amigo meu na minha frente, e um carro na frente do meu amigo. De repente a porta do carro se abriu, e o meu amigo bateu nela de frente. Ele saiu voando por cima da porta e bateu com a cabeça quando caiu. Freei bem em cima dele e caí por cima do guidom. Xinguei o motorista do carro feito um doido. Fui aterrizar com uma perna embaixo da bicicleta, e a outra torcida em volta do guidom e do fio do freio. O idiota saiu do carro e disse que o meu amigo estava bem. Eu disse exatamente o que achava dele. O meu amigo se levantou. Ele estava só com um pouquinho de concussão. Peguei a bicicleta dele, levei para casa e depois fui com o meu pai e o pai dele na delegacia. Isso serviu para confirmar a péssima opinião que eu tenho das pessoas que abrem a porta do carro sem olhar direito.

(Parte 3 de 7)

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