Diario de Um Adolescente Hipocondriaco - Aidan Macfarlane

Diario de Um Adolescente Hipocondriaco - Aidan Macfarlane

(Parte 4 de 7)

Sofri um acidente de bicicleta e torci os testículos. Tive que levar 60 pontos no saco

Tomei cuidado para não deixar este último relato chegar às mãos do Prof.Jones. Acho que esse cara só estava querendo contar vantagem. Só incluí ele aqui porque é um bom exemplo do que se costuma chamar de uma “conversa para boi dormir”.

Sexta-feira, 8 de fevereiro

Fiquei com o nariz sangrando depois de mais uma sessão de limpeza com o dedo. Foi sangue para todo o lado. Sujei o banheiro todo. Pensei que fosse morrer, outra vez.

Capitulo 3 DE SACO CHEIO Sexta-feira, 15 de fevereiro

Minha mãe e meu pai tiveram uma tremenda briga ontem. Tinha alguma coisa a ver com a gente ir acampar no verão com a vovó. O papai estava dizendo que ela ia teimar em levar a dentadura reserva num saco plástico, e ele não queria ter que pedir para a polícia ir procurar os dentes postiços dela outra vez. Hoje de manhã parecia que já estava tudo bem, mas eles não quiseram contar nada pra gente. Quando perguntei, papai mandou eu parar de ouvir a conversa dos outros escondido. Como se ele tivesse moral para falar alguma coisa. Ele ainda fuma escondido, só que finge que não toca mais no cigarro.

Voltei a ir para a escola de bicicleta, depois de passar três semanas andando de ônibus. Ainda bem que já me livrei do gesso (e dos rabiscos), mas ainda estou preocupado com aquela história dos meus dedos poderem ficar dormentes ou azuis. A minha mão ainda está doendo. Juntou um bando de gente em volta de mim na escola, e a Cilla (eu realmente gosto dessa garota) quis tocar no meu braço. Depois que eu tirei o gesso (que a Cilla se recusou a assinar) ele ficou patético, todo branco.

A aula de francês foi um caos, como sempre. A Dona Slazenger, coitada, não consegue impor o menor respeito. Sam e eu ficamos sentados no fundo da sala, discutindo os nossos planos para ir acampar e andar de bicicleta no verão. Contei para ele a história da vovó. Fui pego falando em aula. Resultado: vai ser meu primeiro castigo amanhã. Vai ver agora as pessoas vão perceber que eu não sou tão C.D.F. assim. Não ganhei nenhum cartão de dia dos namorados ontem. Que chato. Pelo menos eu também não mandei nenhum. O Sam, é claro, recebeu dois.

Terça-feira, 19 de fevereiro

Minha mãe e meu pai se atracaram outra vez ontem à noite. A Sally piorou ainda mais a situação ao comunicar que ia sair e só ia chegar tarde. Mamãe disse que ela tinha que pedir antes, e não só chegar e avisar. Depois perguntou quando é que ela ia estudar para as provas finais. A Sally se retirou, dizendo que todos os amigos dela podiam ir dormir tarde, até nos dias de semana. A gota d’água foi quando ela disse que já tinha idade não só para se casar, mas também para ter um filho. Minha mãe ficou catatônica. Foi aí que eu resolvi fazer uma retirada estratégica para o meu quarto e voltar para o meu diário. Ouvi a Sally chegar cedo e bater a porta da frente de forma significativa. Parece que a mamãe exerce um controle maior sobre a Sally do que sobre Bovril, a nossa gata. Ela passa a noite toda fora, acordando a vizinhança inteira com a sua vida sexual.

Quarta-feira, 20 de fevereiro

Estou preocupado porque acordei com dor de cabeça outra vez. No estado em que eu estava, quase tomei o remédio para dormir da minha mãe pensando que era analgésico e esqueci o livro de matemática em casa. Tinha marcado de me encontrar com o Sam, mas cheguei atrasado. Ele ficou irado. Nós dois chegamos atrasados no colégio. O Sam sumiu com outros amigos dele no recreio, e eu fiquei sem ninguém para conversar. Ainda por cima tive que ficar na escola depois da aula por causa do castigo. Além de ficar de saco cheio de estudar nem tive a chance de me angustiar por causa do dever de casa.

Quinta-feira, 21 de fevereiro

A Sally ficou horas trancada no banheiro se produzindo para sair com o Mike, o último de uma longa série de namorados. Enquanto isso, todo mundo teve que fazer fila na porta. A Susie não pára de reclamar que não tem nenhuma amiga. A Kate arranjou uma nova melhor amiga – o que não é de se estranhar. A Susie gritou comigo porque não passei o açúcar para ela no lanche. Só que ela está gorda demais para comer açúcar. Acabou que a Jane convidou o Sam para ir ao cinema na sexta. O pior é que ele vai. Eu estava achando que ia junto. Acho que ele gosta mais da Jane do que de mim. Por mais que eu tenha vontade, sou tímido demais para convidar a Cilla para sair. Vai ver eu sou gay, porque eu preferia ir com o Sam.

Sexta-feira, 2 de fevereiro

Está caindo o maior dilúvio Fiquei todo encharcado quando estava indo para a escola. A mamãe e a minha professora de Matemática me perguntaram se eu tinha levantado com o pé esquerdo. Estou morto de cansaço. Fiquei com dor de cabeça o dia inteiro e ainda estou irritado com a idéia de não ir ao cinema.

Foi aí que aconteceu a GRANDE briga. Bem no estilo do Clint Eastwood, só que em escala doméstica. Eu derramei um pouquinho de café sem querer. A Susie disse que tinha sido de propósito, só porque era a vez dela tirar a mesa e lavar a louça, e que eu é que ia ter que limpar. Não concordei, já que era a vez DELA limpar. Ela fez uma careta e foi para a cozinha batendo o pé, carregando uma pilha de pratos. Então derramei o café dela. Quando ela voltou, eu disse que ela agora tinha alguma coisa dela mesma para limpar. Ela tentou bater em mim. Agarrei o braço dela e torci. Ela caiu, bateu na mesa, e a garrafa de leite caiu no chão e se quebrou. Foi ai que a mamãe apareceu, pau da vida. Eu disse que a culpa tinha sido da Susie. Mas a Susie, mentindo como sempre, disse que a culpa tinha sido minha. A mamãe atirou um pano de chão para a Susie e uma vassoura para mim, e mandou a gente limpar tudo. Depois ela saiu, com um tremendo mau-humor.

Na mesma hora, a Susie derramou leite no meu tênis novo e sussurrou: — Eu te odeio. — Então eu disse que ela era uma pentelha, e que não era à toa que a Kate não gostava mais dela. Quando eu disse isso, tive a certeza, junto com um medo delicioso, de que ia haver violência. Ela me acertou no braço com o pano de chão encharcado de leite. Então eu gritei e caí (ileso) no chão. Fiquei segurando o braço e acabei me cortando sem querer nos cacos de vidro da garrafa de leite. Nesse instante, a mamãe e o papai apareceram: a mamãe numa porta, muda de raiva, e o papai na outra, recém-saido de mais uma batalha contra os monstros microscópicos, igualmente mudo. A mamãe conseguiu se recobrar primeiro, e gritou: — OS DOIS PARA A CAMA. AGORA! — e aí o papai também conseguiu falar: — Façam o que a sua mãe mandou.

— Mas eu estou sangrando! — gritei, e a Susie reclamou:

— Mas foi tudo culpa dele, por que vocês sempre implicam comigo?

— CAMA! — berrou a mamãe. Então, fazendo questão de derramar sangue pela escada inteira, fui para o quarto e bati a porta. Fiquei deitado escutando a Susie soluçar. Vai ver que ficar “de saco cheio” é contagioso.

Eu tive a impressão que já tinham se passado horas, quando a SaIly veio chamar a gente para jantar. Na mesma hora, a Susie começou a soluçar de novo no quarto. Aí ela berrou: — Não! Me deixe em paz. Todo mundo me odeia! — Então comecei a recitar o mais alto possível, com a minha mais irritante voz de choro:

“Ninguém gosta de mim, todo mundo me odeia, Acho que vou comer uma minhoca. Bem grande e suculenta, Gorda, gostosa e gosmenta, Ela vai se mexer e contorcer na minha língua. Vou arrancar a cabeça com os dentes, Chupar a tripa toda, E jogar a pele fora. Ninguém sabe por que razão Como três minhocas por refeição.”

A Sally gritou para eu calar a boca. Quando parei, ouvi ela dizer, para minha surpresa: — Não, ninguém te odeia. Nós todos te amamos muito, até o Pete. — Quanta mentira.

O jantar correu no mais profundo silêncio. Não tive ânimo nem coragem para recusar o feijão com carne moída — apesar de não estar com a menor fome. O papai contou algumas das suas piadas sem graça, que fizeram ainda menos sucesso em meio ao clima de tensão reinante. Depois do jantar, vim direto escrever isso. Às vezes, escrever sobre as coisas faz com que elas melhorem.

Dez horas da noite. Pensei que já tivesse fechado o diário por hoje, mas não consigo dormir. O papai e a mamãe estão gritando um com o outro e o meu corte está ardendo. Parece que a discussão começou de novo com a história da vovó ir passar as férias com a gente, mas o campo de batalha se expandiu depressa. A briga ficou ainda mais sangrenta e sem sentido do que a minha luta com a Susie.

dente depois de usar e, pior de tudo, a gente estava ficando igual a elae por aí vai.

Parece que o papai nunca ajudava a mamãe a tomar conta da gente, nunca ajudava a cozinhar, a lavar a louça e a limpar a casa, sempre esquecia o aniversário dela e também o dia dos namorados, nunca dava comida para a gata, nunca limpava o banheiro depois de usar, costumava passar a noite inteira com dor de cabeça, nunca limpava os pés antes de entrar, sempre deixava peças do carro cheias de óleo em cima do sofá da sala, e sempre satisfazia as nossas necessidades materiais, sem nunca levar em consideração as dela. Meu pai, na hora em que a minha mãe parava para tomar fôlego, dizia que ela sempre deixava o carro sem gasolina, era ilógica, não valorizava o fato dele ir fazer compras com ela, sempre misturava as páginas do jornal, nunca tampava a pasta de

De repente fiquei totalmente deprimido e muito preocupado. Será que isso quer dizer que os meus pais vão se separar? A culpa ia ser minha. Fui eu — sou forçado a admitir — que comecei tudo, quando estava de saco cheio. Se meu pai e a minha mãe se separassem, não ia valer a pena continuar vivendo. Eu não estava mais cansado. Tinha que falar com alguém, qualquer um, sobre isso. Fui escondido até o quarto da Susie, mas ela não estava lá. Então fui no quarto da SaIly, e lá estavam as duas deitadas na cama, conversando. Desabei no chão com um suspiro, quando percebi o silêncio que tinha se instalado lá embaixo de repente.

A Sally falou baixinho: — Não fica preocupado. A culpa não é sua, nem da Susie. Os adultos costumam brigar muito. Não sei como é que vocês nunca ouviram o papai e a mamãe discutindo antes. O monopólio das brigas não é de vocês, sabe? Uma briga de vez em quando é uma coisa normal, e não significa necessariamente que as pessoas não se gostem. Você tem que conhecer e compreender alguém muito bem para poder amar, ajudar, e também poder magoar essa pessoa! O Mike e eu temos umas brigas horríveis, às vezes. Na maior parte do tempo pelos motivos mais idiotas. Mas acho que isso é melhor do que ficar bloqueando tudo, que nem o tio Bob e a tia Pam fazem há mais de 25 anos. Não há nada como uma boa briga para aliviar um pouco a barra. Esperem só até amanhã para ver. — Tentei explicar à SaIly como eu estava me sentindo mal. Parece que ela estava entendendo o que eu queria dizer. Ela até botou um band-aid no meu machucado.

Sábado, 23 de fevereiro

Já acordei achando que o dia ia ser melhor. E foi mesmo. Primeiro, o papai fez o café! A mamãe achou isso o máximo. Ele até beijou a mamãe na nossa frente. Ela disse que eu estava com cara de cansado. Eu quis fazer uma brincadeira e disse, meio sem jeito, que não tinha conseguido dormir direito por causa do barulho.

—Ah — mamãe respondeu—, espero que vocês não tenham escutado o nosso pequeno “debate” ontem à noite.

A gente riu. Eu ainda acrescentei que na próxima vez que eu e a Susie fizéssemos um “debate’, eles podiam fazer o favor de não interferir. Papai disse para eu parar de ser besta. O Sam passou lá em casa ,mais tarde. Ele reclamou que a Jane levou duas amigas para o cinema. As meninas se sentaram todas juntas e ainda queriam que ele comprasse sorvete para elas no final. Ele desistiu das meninas e ficou para o jantar.

Segunda-feira, 25 de fevereiro

Domingo não aconteceu nada demais. Hoje na escola tinha um grupo de colegas meus discutindo sobre os pais. Os pais do Mat são divorciados. Eles tinham brigas horríveis e atiravam coisas um no outro. Quando o pai dele finalmente foi embora, ninguém contou a verdade para ele. A mãe dele só disse que o pai tinha saído de férias. Isso me deixou meio assustado, mas essa situação parecia bem pior do que a dos meus pais. O Mat disse que apesar dele ainda querer que o pai e mãe estivessem juntos, as coisas estavam mais calmas agora. Quando cheguei em casa, a Sally tinha deixado uma revista em cima da minha cama. Tinha um artigo de um psicanalista infantil sobre a depressão nos adolescentes.

Às vezes é difícil perceber a diferença entre o mau-humor e a de depressão. Há uma tendência das duas coisas se misturarem. Algumas pessoas acham que estar deprimido é a mesma coisa que estar muito, muito chateado. No entanto, todos nós nos sentimos chateados às vezes e, de vez em quando, até mesmo deprimidos. Felizmente, são poucos os que sofrem de depressão aguda. Muitas das coisas que nos deixam de mau humor podem parecer bem piores, ou até mesmo insuportáveis, se já estamos deprimidos

A seguir uma lista de algumas coisas que podem fazer com que você se sinta assim: — falta de confiança em si mesmo.

— perda, separação ou rejeição; por exemplo, morte ou rejeição de um ente querido, de um namorado ou namorada.

— separação ou divórcio dos pais.

— conflitos familiares.

— sensação de incapacidade para enfrentar problemas.

— pais deprimidos.

— doença grave.

— alcoolismo ou uso de drogas.

— problemas de relacionamento com amigos.

— expectativas exageradas por parte dos pais.

— problemas de trabalho.

Se vários desses problemas ocorrerem juntos, você pode ter a sensação de que é impossível lidar com isso, ou até mesmo chegar a pensar que não vale a pena continuar vivendo. Se isso acontecer, você pode procurar ajuda e tratamento. É muito melhor tentar falar com alguém, ao invés de deixar tudo trancado dentro de você. O melhor é procurar uma pessoa com quem VOCÊ tenha facilidade de conversar. Pode ser o seu melhor amigo, a sua mãe, o seu pai, um irmão ou uma irmã, um professor, um médico, um padre ou pastor, uma tia, um amigo qualquer.

Às vezes é difícil saber com certeza quando o mau humor se transforma em depressão, mas estas pistas talvez possam ajudar:

— sensação de total falta de esperança e desamparo.

— sensação de que o futuro vai ser sempre ruim.

— sensação de que a mais simples tarefa é impossível de ser realizada.

— uma autocrítica exagerada que permanece por um longo período de tempo, dando a impressão de que nada do que você faz fica bom.

— sensação de cansaço que se arrasta por vários dias ou semanas.

— uma insônia que se repete durante noites a fio, ou acordar cedo, quando isso não é do seu costume.

— dores de cabeça freqüentes e/ou dores de barriga sem motivo aparente.

— perda de apetite acompanhada de perda de peso, ou então um apetite compulsivo.

— sensação de estar isolado das pessoas à sua volta, incluindo família e amigos. - sensação de que o trabalho está exigindo um esforço cada vez maior. — vontade de deixar de ir à escola, ou fugir de casa.

Nenhuma dessas coisas isoladamente (nem a sua presença durante algumas horas, ou um dia) significa que você está seriamente deprimido. No entanto, se uma ou mais delas o incomodarem durante várias semanas, você pode estar deprimido, e deve procurar ajuda. Não é bom ficar deprimido. A depressão é como uma doença, e deve ser tratada.

(Parte 4 de 7)

Comentários