O Método Quantitativo para Estabelecimento de Sequências Cerâmicas Estudos de Caso

O Método Quantitativo para Estabelecimento de Sequências Cerâmicas Estudos de Caso

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Arqueologia Interpretativa

O Método Quantitativo para Estabelecimento de Sequências Cerâmicas: Estudos de Caso

Fundação Universidade do Tocantins - UNITINS

Governador do Estado do Tocantins Marcelo de Carvalho Miranda

Reitora Jucylene Maria de Castro Santos Borba Dias

Vice-Reitor Livio William Reis de Carvalho

Pró-Reitora de Pesquisa Roberto Antônio Penedo do Amaral

Pró-Reitor de Graduação George França dos Santos

Pró-Reitor de Pós-Graduação e Extensão Paula Karini Dias Ferreira Amorim

Pró Reitora de Administração e Finanças Evandro Borges Arantes

Arqueologia Interpretativa

O Método Quantitativo para Estabelecimento de Sequências Cerâmicas: Estudos de Caso

Porto Nacional, 2009 by 2009

Betty Meggers Organizadora

Marcos Aurélio Camara Zimmermann

Ondemar Ferreira Dias Junior

Betty J. Meggers

Pedro A. Mentz Ribeiro

Jorge A. Rodríguez

Igor Chmyz

Pedro Ignácio Schmitz Eurico Theófilo Miller

Mario Sanoja Irailda Vargas Arenas

Zimmermann[et al] Porto Nacional, UNITINS, 2009.
132P.; IL.
ISBN - 978-85-89102-12-4
1. Arqueologia - teoria. 2. Arqueologia - Método
Quantitativo. 3. Arqueologia Tupi-guarani. 4. Arqueologia e

A772 Arqueologia Interpretativa: O Método Quantitativo para estabelecimento de Sequências Cerâmicas: Estudo de Caso / Organizadora: Betty Meggers; autor: Marcos Aurélio Camara Seriação Cerâmica. I. Meggers, Betty. I. Zimmermann Camara, Marcos Aurélio. I. Título.

CDD 930.1

Print in Brasil

Impresso no Brasil 2009

Comissão de Publicação e Corpo Editorial

Marcos Aurélio Camara Zimmermann

Antônia Custódia Pedreira

Ondemar Ferreira Dias Junior

Editor Responsável

Marcos Aurélio Camara Zimmermann

Revisão

Marcia Bezerra de Almeida

Editoração Eletrônica Heleno Manduca Ayres Leal

Núcleo Tocantinense de Arqueologia - NUTA

Coordenador Geral Marcos Aurélio Camara Zimmermann

Dados de Internacionais de Catalogação na Fonte - CUP Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca da UNITINS, Bibliotecária Rosângela Martins da Silva - CRB2/1019

Apresentação Antonia Custódia Pedreira

Introdução12

Marcos Zimmermann

Ondemar Ferreia Dias

Social apartir de Sequências Seriadas17

Inferindo Comportamento Locacional e Betty J. Meggers

Grande do Sul, Brasil, por Fases da Tradição Tupiguarani35

A Ocupação da Planície Costeira Central do Rio Pedro Augusto Mentz Ribeiro

(Argentina) por Fases de la Tradición Tupiguarani49

La Ocupación (Poblamiento) del Norte de Corrientes Jorge Amílcar Rodriguez

Tradição Aratu/Sapucaí em Minas Gerais, Brasil63

Considerações sobre as Sequências Seriadas da

Igor Chmyz Eliane Maria Sganzerla Jonas Elias Volcov

Rio Paraguai, Mato Grosso do Sul, Brasil86

Populações Ceramistas do Pantanal do Pedro Ignácio Schmitz

A Sequência Seriada da Cerâmica da Fase Bacabal103

Pequisas Arqueológicas no Pantanal do Guaporé: Eurico Theófilo Miller

Antigua Capital de la Província Guyana (Venezulela): 1593-1818118

Seriación Arqueológica y Cronología Relativa de Santo Tomé, Mario Sanoja

Iraida Vargas-Arenas

Apresentação

A Fundação Universidade do Tocantins, através do Núcleo Tocantinense de

Arqueologia, em setembro de 2002, organizou em parceria com a Smithsonian Institution, Washington, D. C., Estados Unidos, o I Seminário Institucional de Estudos do Método Quantitativo para Estabelecimento de Seqüências Culturais e Arqueologia, no Estado do Tocantins.

Agora tem o privilégio de apresentar para a comunidade científica o presente livro, com o propósito de divulgar o ciclo de palestras conferidas durante o evento, acerca do Método Quantitativo, a partir da contribuição de renomados arqueólogos/ pesquisadores de distintas instituições americanas que, socializaram suas experiências, aplicando e portanto, validando o método de seriação Ford, em seus trabalhos, quando da análise de materiais arqueológicos, especialmente cerâmicos, para compreensão de estruturas sociais pré-históricas variante, na produção da cultura material.

Nossa expectativa é de que, as informações trazidas por cada texto, não somente contribuam para ampliar a visão de muitos, mas façam avançar as discussões sobre o método, tanto no sentido de prover sua magnitude e importância, quanto de alcançar um público maior e interessado na busca de interpretações mais elevadas na pesquisa arqueológica.

Antonia Custódia Pedreira Professora da Fundação Universidade do Tocantins

12 Arqueologia Interpretativa

Em setembro de 2002 o Núcleo Tocantinense de Arqueologia, da Universidade do Tocantins, em cooperação com a Smithsonian Institution, e apoio do Instituto de Arqueologia Brasileira, reuniu em Porto Nacional, naquele Estado, um grupo de arqueólogos experientes no uso do Método Quantitativo para discutir a sua crescente complexidade e novas aplicações. Considerese que desde a publicação da proposta de aplicação pelo autor que lhe deu o nome James Ford, 1962, uma série de novas propostas e perspectivas foi-lhe sendo anexada, proveniente da experiência a que vem sendo submetido desde então, em diversas partes do mundo e, em especial, através dos estudos publicados pela Dra. Betty Meggers. De fato, a atuação desta última é de tal monta que, no nosso caso pessoal, temos nos referido ao mesmo como “Método Ford-Meggers”, tal o avanço e o alargamento do campo interpretativo que tais novas contribuições vêm permitindo.

Daquela Reunião participaram, além dos pesquisadores das instituições promotoras (3), a própria Dra. Meggers (da Smithsonian Institution); o Dr. Pedro Mentz Ribeiro e o Dr. Pedro Ignácio Schmitz, do Rio Grande do Sul; o Dr. Igor Chmyz do Paraná e o Dr. Eurico Theófilo Miller, de Brasília. Do exterior vieram os Drs. Jorge Rodríguez, da Argentina e o Dr. Mario Sanoja da Venezuela. Durante alguns dias, totalmente dedicados ao evento, cada um dos participantes apresentou sua contribuição, foram discutidas as possibilidades interpretativas de cada caso, examinados e comparados exemplares arqueológicos (em especial cerâmicos) e organizado o roteiro da divulgação dos principais resultados. Combinou-se que os artigos, agora divulgados, versariam sobre as novas perspectivas elaboradas a partir da análise de material cerâmico das áreas pesquisadas pelos autores.

Pela leitura dos trabalhos aqui apresentados, o interessado poderá acompanhar o alargamento das perspectivas que agora se torna possível, desde as discussões que abrem a publicação, em que a Dra. Meggers demonstra como inferir comportamentos de ocupação locacional,

de uma província venezuelana

passando pela análise cultural dos povos da Tradição Tupiguarani do litoral gaúcho (Pedro Mentz Ribeiro) ao Norte da Argentina (Jorge Rodríguez). A região do Pantanal foi também abordada e, nela, foram (re)construídas as bases de suas populações ceramistas, no rio Paraguai (Pedro Ignácio Schmitz) e no Guaporé (Eurico Theófilo Miller). Pelos trabalhos de Igor Chmyz, o leitor poderá acompanhar a descrição das características da Tradição Aratu-Sapucaí em Minas Gerais e, com o casal Mario Sonoja & Iraida Vargas, se aprofundar na visão seriada da ocupação colonial

Uma amostra da validade e da profundidade que o método quantitativo permite, conforme comenta a Dra. Betty Megerrs em seu artigo, é que somente através do uso das seqüências seriadas tais objetivos puderam ser atingidos. Neste mesmo texto a autora resume de forma magistral as principais bases metodológicas e discute um breve histórico de sua aplicação no nosso país.

Aproveitando esta oportunidade, talvez seja hora de desfazer alguns enganos que cercam o método, falhas de conhecimento que, vez por outra, têm sido colocadas como verdades por alguns críticos.

A primeira delas se refere à afirmação de que o método está ultrapassado, pois, afinal, há mais de 40 anos vem sendo utilizado.

Na verdade, são mais de 40 anos de constante experienciação e aperfeiçoamento, e não só no Brasil ou nas Américas. Tal método vem sendo posto em prática em muitas outras partes do mundo, como no Egito, por exemplo.

E não é só isso: para que alguma coisa seja ultrapassada, é necessário que algo melhor, mais prático, ou mais seguro, passe à sua frente, permitindo melhores análises ou conclusões mais seguras. Pelo que temos visto, outros métodos (o “Clusters”, por exemplo) se bem utilizados, podem ser úteis para complementá-lo em alguns aspectos, até mesmo refinando algumas das suas conclusões. Mas longe estão de permitir substituí-lo, pois funcionam bem, repetimos, se aplicados sobre seqüências

Introdução

Marcos Zimmermann (1) Ondemar Dias (2)

Arqueologia Interpretativa 13 estabelecidas adredemente por ele. E, é claro, surgindo algo melhor, sem dúvida poderemos acoplá-lo e experienciar os resultados, pois a metodologia utilizada tem, entre suas vantagens, aquela de permitir constante renovação na experiência. E o mais interessante é que muitos dos que condenam seu emprego, jamais sequer o experimentaram (algumas vezes, inclusive, sobretudo jovens iniciantes, que confessam repetir o que ouviram dos seus mestres), como se tal fosse um comportamento científico válido.

Mas, enquanto isto, sem dúvida, ele se amplia, evolui e é ainda insuperável como método interpretativo.

Segundo engano. Também não são poucos os que afirmam ser o método quantitativo um método de análise e, além disso, exclusivo para cerâmica:

Duplo erro. O método é, sobretudo, uma prática quantitativa que só pode ser aplicada sobre material previamente analisado. O problema é que ele exige uma análise acurada e profunda do material arqueológico (qualquer material, em conjunto ou isoladamente) desde que devidamente esmiuçado em todas as características capazes de serem observadas e quantificadas em laboratório. Sendo possível medir algum material, ou até mesmo estruturas ou eventos, sobre ele se pode aplicar o mesmo sistema interpretativo.

A cerâmica, como no caso deste livro, é a preferida para ser submetida ao método, pois ele, antes de tudo, mede mudanças, diferenciações ao longo do tempo e do espaço, e nela tais configurações se caracterizam tanto com maior rapidez, quanto mais claramente. Mas no complexo de qualquer sítio, todo o material que a acompanha no acervo se presta da mesma forma para interpretação. Aliás, não é de hoje que se sabe disso. No próprio livro de James Ford (1962), ele demonstra sua praticabilidade sobre tumbas de cemitério, entre outras aplicações. Eliana Carvalho o utilizou comparando diferenças percentuais culturais entre camadas ocupacionais do sítio Corondó (1984) Lília Machado (1984) em relação às variações dos padrões de sepultamento do mesmo sítio (em ambos os trabalhos, a cerâmica constituiu uma pequeníssima parcela do material analisado). Recentemente um de nós (Dias Junior, 2003) o utilizou demonstrando as variações culturais entre categorias de material colonial diferenciado em sítios históricos de Itaboraí. Em síntese, se pode utilizálo sobre qualquer categoria ou classe de material, evento ou documento passíveis de serem classificados.

O terceiro engano mais comum diz respeito à sua atrelagem à corrente Histórico Culturalista ou à Neoevolucionista. Na verdade, como em arqueologia só se pode trabalhar sobre evidências materializadas no acervo recuperado (mesmo em se tratando de idéias ou pensamentos), sem dúvida que os princípios conceituais estabelecidos há mais de cem anos para identificação e classificação prática do material seguem válidos. Isto, independentemente do fato de terem sido altamente desenvolvidos pela primeira corrente, ainda que com objetivos classificatórios e toda uma ideologia profundamente diferente da atual. Mas tal fato não é exclusivo do método em questão. Como se pode analisar ou classificar qualquer material arqueológico sem aplicar tais princípios e abstrações, como o “tipo”, a “classe”, a “categoria”, ou outro qualquer padrão taxonômico? Mesmo que disfarçados sob outras terminologias ou técnicas analíticas? Mudar o nome, às vezes, é confundido com “mudança de conceito” e, pior, como “novidade”...

O método permite medir as variações, as mudanças e as derivas culturais que incidem sobre o acervo material de qualquer comunidade estudada ao longo do tempo e do espaço. Sua interpretação posterior pode ser praticada por adeptos de qualquer das correntes em voga. Ele mostra as mudanças, cabe ao analista procurar explicá-las segundo sua ótica. E nos parece que ninguém duvida que uma das características marcantes da cultura humana é a sua mudança ao longo do tempo e de acordo com o lugar ou o meio ambiente em que se processa (desconhecer esta assertiva é ignorar a História).

Um quarto engano se relaciona a falsa idéia de que ele se prende a sociedades de complexidade material equivalente aos bandos ou tribos e, em alguns casos extremos, a determinados povos da floresta tropical. Erro crasso, desde que todo e qualquer tipo ou padrão de sociedade arqueológica (ou mesmo histórica) que produza artefatos vem sendo submetida às suas interpretações por este mundo afora. Repetimos que isto é possível porque se trata da aplicação de um sistema complexo de regras quantitativas ou percentuais que se aplica sobre material submetido à aprofundada análise de laboratório, suficientemente representada por populações de exemplares culturais mensuráveis em unidades identificadoras.

No entanto, é verdade que ele se aplicado sobre material pobremente analisado ou descrito, e representado por um número insuficiente de exemplares, rende pouco

14 Arqueologia Interpretativa ou quase nada. Mas está por existir algum outro sistema que possa superar a preguiça do analista ou a pobreza de exemplares recuperados por um trabalho apressado, mal feito ou incompleto.

É verdade também que ele exige do pesquisador uma atuação atenta na coleta do material em campo com a sua clara identificação espaço-temporal. Esta deve ser bem demarcada em setores ou áreas territoriais amplamente dispostas sobre o sítio e claramente definidas no espaço. Exige também a exumação da totalidade de exemplares de todas as classes disponíveis de material em suas posições estratigráficas, nos segmentos territoriais selecionados para abordagem. E coletas superficiais de setores amplos, divididos por áreas, complementarmente àquelas. O objetivo a ser alcançado é a conformação de coleções suficientemente completas para melhor significarem a produção cultural da sociedade estudada. Só assim permite que o analista alcance a desejada exatidão interpretativa ao nível de micro variações ao correr do tempo e ao longo do espaço.

Em outras palavras, todo um complexo comportamental de abordagem que assegure um profundo e acurado trabalho de análise deste material em laboratório.

Mas tal análise não é o método, nem pode ser com ele confundida. Ela pode ser oriunda de qualquer sistema consagrado pelo uso (novo ou antigo) e proposto pelos pesquisadores das mais variadas especializações, seja de cerâmica, lítico, ósseo, malacológico, bioarqueologia, antropologia física, estruturas arquitetônicas, etc. Desde que, no entanto, garanta a existência de coleções com igual representatividade.

Entenda-se, outrossim, que os autores dos artigos aqui expostos, valeram-se todos do sistema cautelar acima caracterizado, preocupados em recolher amostras dos sítios analisados segundo uma metodologia de campo semelhante e por escolha livre. Ainda que existam pequenas variações em tais procedimentos, eles se equivalem na segurança da obtenção dos dados e no aprofundamento do sistema de análise laboratorial da cerâmica.

Isto porque todos compartilham da perspectiva que o trabalho do arqueólogo é uma construção; ele produz os documentos primários que serão devidamente interpretados por ele mesmo ou por outros. Sabem, portanto, que erros, falhas, observações malfeitas ou incompletas no campo, descuidos na documentação e cadastramento ou, ainda, análises insuficientes de laboratório conduzem obrigatoriamente a construções também falhas, incompletas ou viciadas. Daí a associação do método interpretativo a toda uma sistemática de coleta e de análise, já sacramentada pelo uso, mas, ainda assim, aberta a novas experiências. Todas as etapas, portanto, intimamente vinculadas.

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