O Modernismo Brasileiro e o Aleijadinho

O Modernismo Brasileiro e o Aleijadinho

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Centro Universitário Newton Paiva Faculdade de Ciências Humanas e Letras

Leopoldo Rocha Ferreira da Silva

O Modernismo brasileiro e o Aleijadinho: a abordagem de Mário de Andrade em torno de um ícone artístico

Belo Horizonte 2007

Centro Universitário Newton Paiva Faculdade Ciências Humanas e Letras

Leopoldo Rocha Ferreira da Silva

O modernismo brasileiro e o Aleijadinho: a abordagem de Mário de Andrade em torno de um ícone artístico

Monografia apresentada à Faculdade de Ciências Humanas e Letras do Centro Universitário Newton Paiva para obtenção do título de Bacharel em História. Orientadora: Prof.ª Adriane Aparecida Vidal Costa

Belo Horizonte 2007

Leopoldo Rocha Ferreira da Silva

O modernismo brasileiro e o Aleijadinho: a abordagem de Mário de Andrade em torno de um ícone artístico

Monografia apresentada à Faculdade de Ciências Humanas e Letras do Centro Universitário Newton Paiva para obtenção do título de Bacharel em História.

Banca Examinadora Membros:

Prof. Dr. Marco Antônio de Souza Prof.ª Mestre Thábata Araújo de Alvarenga

Belo Horizonte 2007

Arte é tudo aquilo que é belo ou expressa beleza.

Arte é tudo aquilo que é admirado, tudo aquilo que é sagrado, tudo aquilo que é imaginado.

As dificuldades são os maiores motivos para alcançar a superação.

Leopoldo Rocha Ferreira da Silva

Agradecimentos

Algumas pessoas foram fundamentais para a construção e a conclusão deste trabalho. Agradeço primeiramente a Professora Mestre Adriane Vidal, minha orientadora na produção deste trabalho. Suas orientações, com críticas e sugestões, foram extremamente importantes para o entendimento e compreensão do tema abordado. Agradeço a todos os mestres e doutores do Centro Universitário Newton Paiva, que me ensinaram e me conduziram aos vários e complexos caminhos do conhecimento histórico.

Agradeço a todos da minha família, base de todo o fruto do meu caráter como pessoa. Agradeço ao meu pai, Luiz Carlos Ferreira da Silva (em memória), protagonista de toda minha base educacional e de qualquer lugar que esteja, sei o quanto se sente orgulhoso. Agradeço ao meu irmão Leonardo Rocha Ferreira da Silva (em memória) que conviveu pouco tempo comigo, mas deixou inspiração para não desistir das conquistas alcançadas. Agradeço a minha mãe Neuza da Rocha Gonzaga, verdadeira mulher da minha vida, que, com seu carinho materno me transmite apoio incondicional e irredutível em todos os momentos da minha vida.

Agradeço aos professores, alunos e funcionários do Colégio Adventista de Belo Horizonte, onde realizei durante dois períodos, os estágios obrigatórios curriculares, e agradeço à direção do Colégio pela oportunidade de realizá-los.

Agradeço aos funcionários da Biblioteca Pública Luiz de Bessa em Belo

Horizonte, aos funcionários da biblioteca do Centro Universitário Newton Paiva, aos funcionários da biblioteca da Faculdade de Letras e da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, sempre atenciosos e dedicados com minha causa acadêmica.

Agradeço a todos os meus amigos que me compreenderam nos momentos ausentes e me confortaram nos momentos presentes. Agradeço a todas as pessoas que contribuíram de maneira direta ou indireta para o sucesso deste trabalho. Agradeço a todas as “forças divinas metafísicas”.

Resumo

O presente trabalho tem como objetivo analisar como Mário de Andrade interpretou a mestiçagem cultural como possibilidade para a construção da identidade nacional brasileira. A principal fonte deste trabalho é o ensaio de Mário de Andrade, O Aleijadinho escrito em 1928, inicialmente publicado em O jornal em uma edição especial sobre Minas Gerais. Posteriormente, o ensaio foi recolhido no livro O Aleijadinho e Álvares de Azevedo (1935). Em 1965, foi compilado na coletânea Aspectos das Artes Plásticas no Brasil.

Palavras-chave: mestiçagem, identidade nacional, modernismo, Mário de Andrade, Aleijadinho

Abstract

The present work has as objective to analyze as Mário de Andrade interpreted the cultural mestization as possibility of the construction of the Brazilian national identity. The main documentary source of this work is the assay of Mário de Andrade written in 1928 on Aleijadinho published in The Newspaper periodical in a special edition on Minas Gerais. Later, the assay was collected in the book the Aleijadinho and Álvares de Azevedo (1935). In 1965, it was compiled in the collection Aspects of the Plastic Arts in Brazil.

Key-words: mestization, national identity, Modernismo, Mário de Andrade, Aleijadinho

Introduçãop. 08
Capítulo l - Mário de Andrade: a crítica à desvalorização dos mestiçosp.15
Capítulo I - Mário de Andrade e a formação da identidade nacionalp. 29
Considerações Finaisp. 45
Fontesp. 47

Introdução

Na década de 1920, o modernismo brasileiro introduziu uma série de medidas que visaram resgatar e valorizar aspectos nacionais em vários segmentos, principalmente artísticos. O barroco mineiro tornou-se uma oportunidade para demonstrar a riqueza artística brasileira e suas raízes. Aleijadinho, mineiro das raízes do Brasil no século XVIII, tornou-se super valorizado pelos modernistas na década de 20, momento, que corresponde aos interesses dos modernistas pelas culturas populares. Este trabalho visa examinar como Mário de Andrade identificou no trabalho do Aleijadinho uma arte mestiça com condições para definir e formar elementos da nacionalidade brasileira.

O barroco mineiro teve como um dos seus principais artistas Aleijadinho, nascido em 1730, filho de português com uma escrava africana, suas características foram genuinamente mestiças, tanto biológicas, quanto culturais. Consequentemente a arte de Aleijadinho, expressada no barroco mineiro, teve fortes características da sua condição de mestiço.

O movimento modernista valorizou as raízes artísticas brasileiras como maneira de resgatar os elementos necessários para formar uma consciência nacional. Mário de Andrade passa a se interessar pelas culturas populares no Brasil, principalmente pelas artes plásticas, música, literatura, que reforçavam o construto ideológico de uma identidade nacional. Questiona-se então, o que motivou Mário de Andrade, na década de vinte, a valorizar a mestiçagem cultural, especificamente a arte de Aleijadinho?

Segundo Guiomar de Grammont, “a imagem de Aleijadinho foi reinventada para adequar-se aos objetivos políticos de cada época”1. Assim sendo, importa-nos saber por que Mário de Andrade, ancorado na figura de Aleijadinho, construiu, especificamente a partir da imagem do artista mineiro e de sua arte, uma idéia de que a mestiçagem era fruto natural das relações entre misturas de várias culturas presentes no período colonial brasileiro. Para Mario de

1 GRAMMONT, Guiomar de. O Aleijadinho e o Aeroplano: o paraíso barroco e a construção do herói colonial. Universidade de São Paulo. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, 2002, p. 17.

Andrade essa mistura de culturas, ainda presente no início do século X, seria a identidade do Brasil? Por que ele, a partir do modernismo brasileiro, valorizava a mestiçagem cultural acreditando que a arte do Aleijadinho era uma arte mestiça? O Manifesto Antropófago, escrito por Oswald de Andrade em 1928, sintetizou o movimento que lançou um novo olhar para as artes e a cultura brasileira no final da década de 1920. Até então, a nossa herança cultural era considerada apenas a européia em função das ações dos portugueses. Nesse sentido, a herança cultural indígena e africana eram ignoradas, assim como a mestiçagem cultural. O objetivo do trabalho é fazer uma análise do ensaio escrito por Mário de Andrade, em 1928, sobre o Aleijadinho, identificando as motivações que o levou a valorizar a arte mestiça.

A investigação e o estudo proposto estão diretamente ligados à arte de

Aleijadinho e de como o modernismo, particularmente Mário de Andrade, valorizou e interpretou essa arte, utilizando-a como exaltação da figura do mulato e da mestiçagem cultural para construção da identidade nacional. Assim, buscamos compreender porque Mário de Andrade valorizou o trabalho de Aleijadinho e sua arte mestiça. Discutimos as relações entre mestiçagem cultural e modernismo brasileiro, baseando-se em Mário de Andrade a partir da questão da valorização do que é nacional. Demonstramos que Mário de Andrade preocupou-se em discutir a formação de uma identidade nacional no Brasil a partir de elementos culturais mestiços, principalmente por meio da arte de Aleijadinho.

Entendemos por mestiçagem cultural todas as misturas culturais de qualquer caráter: religioso, cultural, lingüístico e artístico. As diversas formas de manifestações culturais integradas entre si, formam a mestiçagem, uma grande mistura de povos e culturas que se relacionam e interagem para formar uma sociedade e diferenciar-se das demais2.

O século XVI foi o início das grandes expedições marítimas para a conquista de novas terras em busca de especiarias e riquezas. Grandes embarcações provenientes de países da Europa saíram do continente rumo a traçar novas rotas comercias. A expansão européia em busca de novos territórios

2 GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 23.

foi intensa neste período, e, consequentemente, as misturas de diversas culturas e etnias seriam inevitáveis. A Espanha, França, Inglaterra e Portugal são as grandes potências que partem em busca de novas terras para colonizá-las. A colonização de novos territórios resulta em um processo de misturas de povos e culturas, um processo de elementos opostos, distintos e com tradições e manifestações culturais, que colocadas em prática, tendem a interagirem-se. A mestiçagem pode ser considerada como uma extensão da globalização no campo cultural. Também pode ser considerada uma forma de resistência do nativo, que ao ser colonizado no território conquistado, defende suas tradições culturais e manifestações3. A mestiçagem cultural é a criação de uma nova forma de se manifestar. Os mestiços são povos resultantes das misturas entre conquistadores e conquistados: negros, brancos e indígenas. Suas características, tanto biológicas quanto culturais, diferenciam-se do modelo cultural imposto pela Europa.

No Brasil, através do nacionalismo cultural, o princípio de construção de uma identidade nacional foi presente no movimento modernista, nos traços que definem a identidade de um povo, seja por parte da cultura, costumes, etnias e etc. Mário de Andrade mostra no seu ensaio, O Aleijadinho, que Antônio Francisco Lisboa, foi desvalorizado por ser mulato sem lugar na sociedade. Aleijadinho foi apenas reconhecido como artista de valor, mas não como um indivíduo sociável, e quase não foi homenageado no seu tempo. Os modernistas compreendem o momento da década de 1920 como um momento propício para mudanças, a fim de resgatar e valorizar aspectos da cultura brasileira através de elementos que sejam brasileiros, isto é, elementos da mestiçagem cultural, e não identificam somente a cultura européia como à verdadeira cultura brasileira4.

3 GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 45. 4 O Brasil na década de 20, embora ainda assentado em bases agroexportadoras, em linhas gerais acenava para processos de transformação econômico-social bastante contundentes. Após o advento da República, o país assiste a um processo de desenvolvimento industrial e crescimento da produção cafeeira, situados especialmente no Estado de São Paulo. Relaciona-se a isso o fato de a abolição ter colocado no mercado grande contingente de mão-de-obra livre, o que significava não só o aumento da oferta de mão-de-obra para a indústria, como também o aumento do mercado consumidor. Politicamente, vivíamos sob o "jogo" da Política dos Governadores, cujas tendências regionalistas distorciam o projeto inicial de fazer do Brasil uma República Federativa. O predomínio dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, consubstanciado numa política viciada de troca de favores entre as oligarquias estatais, não só negava os ideais republicanos e federalistas, como também excluía a população em geral do processo político. Colocava-se a questão aos

O modernismo brasileiro foi, antes de tudo, a tentativa de romper com certos laços europeus de identificação cultural, atualizando a produção cultural nacional aos novos tempos. A cultura brasileira não seria imposta pelos nossos antigos colonizadores, mas seria uma mistura de culturas, ou seja, uma cultura mestiça, como a arte do Aleijadinho. O movimento modernista passa a defender a modernização da vida cultural brasileira por meio da afirmação de traços culturais locais. A “normalização do mestiço” seria a entrada do Brasil no concerto das nações cultas, ou seja, para Mário de Andrade o Brasil seria um concorrente no contexto cultural, a partir do momento em que o país, valorizasse suas manifestações culturais, através da arte, da música, dos hábitos, e de suas raízes5. O pensamento intelectual modernista pretendia romper com o passado luso e sua tradicional cultura eurocêntrica para resgatar a cultura mestiça e suas diversas manifestações6.

A construção da identidade nacional para o modernismo significava o rompimento com o passado luso, para construir uma nova sociedade, da qual os próprios brasileiros reconhecessem nela sua identidade, sem a necessidade do “estrangeiro” reconhecer primeiro o que é nosso7. A tarefa principal a que Mário de Andrade se dedicou, foi tentar identificar os traços genuinamente nacionais da cultura brasileira, o maior desafio era encontrar os elementos definidores dessa nacionalidade. Para ele, Aleijadinho foi um grande exemplo para descrever e demonstrar os elementos nacionais por ser mestiço e gênio artístico do seu período. Aleijadinho mais do que artista, foi um mulato filho de português com uma intelectuais de fazer valer na sua produção o reconhecimento do país enquanto nação, não só frente à cobiça externa, mas, fundamentalmente, frente ao movimento regionalista interno. O depoimento de Tristão de Ataíde (1981) alude com profundidade a essa angústia, vivida durante a década de 20. Na política, o debate dava-se entre o caudilhismo e o cesarismo; na literatura, entre regionalismo e cosmopolitismo, quando a nossa originalidade residia exatamente no fato de sermos diversos e, portanto, caracterizados por ambos os movimentos em nada excludentes. Data dessa época uma série de estudos - entre eles os de Oliveira Vianna e Alberto Torres - cujo eixo central era a busca da identidade nacional, através da reverificação do passado, da revisitação de todo o período colonial, da reinterpretação da mistura de raças que constituiu o povo brasileiro. 5 Normalização do mestiço: entrada do mestiço como membro pertencente à sociedade. ANDRADE, Mário de. Aspectos das artes plásticas no Brasil. São Paulo: 1965 p. 16. 6 OLIVEIRA, Lúcia Lippi; A questão nacional na Primeira República. São Paulo: USP, 1990, p. 189. 7 Idem, p. 190.

escrava e, por isso, foi a demonstração da autenticidade da nacionalidade brasileira.

O modernismo tem a característica de tornar-se ou submeter-se o que é velho, e na década de 1920 o modernismo submeteu um mulato artista para exemplificar a principal característica da identidade do Brasil, a mestiçagem cultural. Caberia aos intelectuais ao longo da década de 1920, a missão de revelar a nacionalidade e organizá-la de acordo com os parâmetros científicos. A idéia de fato mobiliza os intelectuais de uma geração a buscar a compreensão da identidade múltipla da nacionalidade. Essa imagem do intelectual corresponderia a do nacional, definido como primitivo e mestiço, e é nesse viés que Mário de Andrade desenvolveu uma pesquisa etnográfica das nossas diversas tradições culturais8.

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