Deus - Existe - Antony - Flew

Deus - Existe - Antony - Flew

(Parte 2 de 7)

Mas como essas obras e seus autores encaixam-se na ampla discussão filosófica que tem havido sobre Deus nas últimas décadas? A resposta é: não se encaixam.

Em primeiro lugar, recusam-se a se ocupar dos reais pontos de debate na questão da existência de Deus. Nenhum deles nem mesmo refere-se aos fundamentos centrais da proposição para uma realidade divina — Dennett usa sete páginas para expor argumentos a favor da existência de Deus, e Harris, nenhuma. Não tratam do assunto das origens da racionalidade entrelaçada no tecido do universo, da vida compreendida como ação autônoma, da consciência, do pensamento conceituai e do ser. Dawkins fala das origens da vida e da consciência como de "acontecimentos únicos", causados por um "inicial golpe de sorte". Wolpert escreve: "Tenho, propositalmente (!), evitado

Dennett, um fisicalista contumaz, uma vez escreveu: "e,

qualquer discussão sobre consciência, que ainda continua sendo pouco compreendida". A respeito da origem da consciência, então, um milagre acontece". Nenhum desses autores apresenta nenhuma idéia a respeito da razão de existir um universo "obediente às leis", que sustenta a vida e é racionalmente acessível.

Em segundo lugar, eles parecem não perceber as idéias falsas e os conceitos confusos que levaram à ascensão e à queda do positivismo lógico. Aqueles que ignoram os erros da história terão de repeti-los em algum momento. E, em terceiro lugar, eles parecem desconhecer completamente a imensa coleção de obras sobre filosofia analítica da religião, ou os novos e sofisticados argumentos gerados no teísmo filosófico.

Seria justo dizer que o "novo ateísmo" é nada menos que uma regressão à filosofia positivista lógica, que foi repudiada até mesmo por seus mais ardentes proponentes. Na verdade, os "novos ateístas", pode-se dizer, nem se elevam até o positivismo lógico. Os positivistas nunca foram ingênuos a ponto de sugerirem que Deus podia ser uma hipótese científica. Afirmavam que o conceito de Deus não tinha significação precisamente porque não era uma hipótese científica. Dawkins, por outro lado, sustenta que "a questão da presença ou ausência de uma superinteligência criadora é inequivocamente científica". Esse é o tipo de comentário do qual dizemos que não é nem mesmo errado! No Apêndice A, procuro mostrar que nosso atual conhecimento de racionalidade, vida, consciência, pensamento e ser vai contra qualquer forma de ateísmo, até mesmo o mais novo.

Mas duas coisas devem ser ditas aqui a respeito de certos comentários de Dawkins, que são relevantes para este livro. Depois de escrever que Bertrand Russell era "um ateísta exageradamente indiferente e por demais ansioso por desiludirse, se a lógica parecesse exigir isso", acrescenta em uma nota de rodapé: "Talvez estejamos vendo algo similar hoje, na tergiversação superdivulgada do filósofo Antony Flew, que anunciou, na velhice, que se converteu à crença em algum tipo de divindade, provocando um frenesi de entusiasmada repetição na Internet. Por outro lado, Russell foi um grande filósofo. Russell ganhou o prêmio Nobel". A pueril petulância da comparação com o "grande filósofo" Russell e a desrespeitosa referência à "velhice" de Flew são comuns nas epístolas de Dawkins aos iluminados. Mas o mais interessante aqui são as palavras que Dawkins escolheu, e pelas quais ele, de modo não muito inteligente, revela a maneira como sua mente funciona.

"Tergiversar" também significa "virar as costas", ou "apostatar-se", de modo que o principal pecado de Flew foi apostatar-se da fé de seus antecessores. O próprio Dawkins confessa, em outro de seus escritos, que sua visão ateísta do universo é baseada na fé. Quando membros da Edge Foundation perguntaram-lhe: "Aquilo em que você acredita é verdadeiro, mesmo que não possa provar?", a isso Dawkins replicou: "Acredito que toda vida, toda inteligência, toda criatividade e todo desígnio, em qualquer parte do universo, são produtos diretos ou indiretos da seleção natural de Darwin. Acontece que o desígnio chegou mais tarde ao universo, depois de um período de evolução darwiniana. O desígnio não pode preceder a evolução e, assim, não pode ser a base do universo". Na verdade, então, a rejeição de Dawkins a uma suprema Inteligência é uma questão de crença sem prova. E como muitos outros, cujas crenças baseiam-se em fé cega, ele não tolera que discordem delas ou as abandonem.

A respeito da abordagem de Dawkins a uma racionalidade como base do universo, o físico John Barrow observou durante uma discussão entre os dois: "Seu problema com essas idéias, Richard, é que você não é cientista. Você é biólogo". Júlia Vittulo- Martin comenta que, para Barrow, a biologia era pouco mais do que um ramo da história natural. "Biólogos", diz Barrow, "têm uma compreensão limitada, intuitiva do que é complexidade. Estão presos a um conflito herdado do século XIX e interessamse apenas por resultados, por aquilo em que uns superam os outros. Mas resultados não nos dizem quase nada a respeito das leis que governam o universo".

Bertrand Russell parece ser o pai intelectual de Dawkins.

Ele fala de como foi "inspirado, à idade de mais ou menos dezesseis anos", pelo ensaio que Russell escreveu em 1925, No que acredito. Russell era oponente inabalável da religião organizada, e isso fez dele um modelo para Harris e Dawkins que, estilisticamente, copiaram também sua propensão para o sarcasmo, o caricato, a zombaria e o exagero. Mas a rejeição de

Russell a Deus não foi motivada apenas por fatores intelectuais. Em My Father, Bertrand Russell, sua filha, Katharine Tait, escreve que ele não entrava em nenhuma discussão séria sobre a existência de Deus: "Eu não podia nem mesmo falar com ele sobre religião". O desgosto de Russell por esse assunto era, aparentemente, causado pelo tipo de crentes religiosos que ele conhecera. "Gostaria de ter podido convencer meu pai de que eu encontrara o que ele estivera procurando, aquele algo inefável pelo qual, por toda a vida, ele nunca deixou de ansiar. Eu gostaria de ter podido persuadi-lo de que a busca por Deus não precisa ser em vão. Mas era impossível. Ele conhecera um número grande demais de cristãos cegos, sombrios moralistas que tiravam a alegria da vida e perseguiam seus opositores. Nunca seria capaz de ver a verdade que eles escondiam."

Tait, no entanto, acredita que toda a vida de Russell foi uma busca por Deus. "Em algum lugar, no fundo da mente de meu pai, nas profundezas de sua alma, havia um espaço vazio, que um dia fora preenchido por Deus, e ele nunca encontrou alguma coisa que pudesse voltar a preenchê-lo." Ele tinha "a sensação de não ter lugar neste mundo". Em um trecho pungente, Russell uma vez escreveu: "Nada pode penetrar a solidão do coração humano, a não ser a alta intensidade do tipo de amor que os mestres religiosos têm pregado". Teríamos muita dificuldade para encontrar nos escritos de Dawkins qualquer coisa que mesmo remotamente se assemelhasse a essa frase.

Voltando ao assunto da "tergiversação" de Flew, talvez nunca tenha ocorrido a Dawkins que um filósofo, grande ou menos conhecido, jovem ou velho, pudesse mudar de idéia com base em evidências. Ele ficaria desapontado ao descobrir que os filósofos são "por demais ansiosos por desiludirem-se, se a lógica parecer exigir isso", mas que são guiados pela lógica, não pelo medo da tergiversação.

Russell, em particular, gostava tanto de tergiversar, que outro célebre filósofo inglês, C. D. Broad, uma vez disse: "Como todos sabemos, o sr. Russell produz um sistema diferente de filosofia a cada período de alguns anos". Há outros exemplos de filósofos que mudaram de idéia com base em evidências. Já observamos que Ayer repudiou o positivismo de sua juventude. Outro filósofo que passou por mudança radical foi J. N. Findlay, que argumentou no livro de Flew, de 1955, New Essays in

Philosophical Theology, que a existência de Deus era uma teoria falsa, mas que depois voltou atrás em sua obra, publicada em 1970, Ascent to the Absolute. Nesse último livro e nos seguintes, Findlay argumenta que razão, mente, inteligência e vontade atingem seu ponto culminante em Deus, o que existe por si mesmo, a quem adoração e incondicional dedicação são devidas.

O argumento da "velhice" que Dawkins usou — se é que se pode chamar a isso de argumento — é uma estranha variação da falácia ad hominem que não tem lugar no discurso civilizado. Pensadores autênticos avaliam argumentos e pesam as evidências sem levar em conta a raça, o sexo ou a idade do proponente.

Outro tema constante no livro de Dawkins, e em algumas obras de outros "novos ateístas", é a alegação de que nenhum cientista que vale o pão que come acredita em Deus. Dawkins, por exemplo, perde-se em explicações das declarações de Einstein a respeito de Deus como referências metafóricas à natureza. O próprio Einstein, diz Dawkins, era, na melhor das hipóteses, ateísta como ele e, na pior, panteísta. Mas essa interpretação de Einstein é obviamente desonesta. Dawkins refere-se apenas a citações que demonstram a aversão de Einstein pela religião organizada e, deliberadamente, deixa de lado não só os comentários de Einstein sobre sua crença em uma "mente superior" e em um "poder de raciocínio superior" em funcionamento nas leis da natureza, como também o fato de ele negar ser panteísta ou ateísta. (Essa distorção deliberada é retificada neste livro.)

Mais recentemente, quando Stephen Hawking visitou

Jerusalém, perguntaram-lhe se ele acreditava na existência de Deus e, de acordo com o que foi divulgado, o famoso físico teórico respondeu: "Acredito na existência de Deus, mas também que essa força divina estabeleceu as leis da natureza e da física e depois disso não teve mais participação no controle do mundo". Claro, muitos outros grandes cientistas dos tempos modernos, como Heisenberg e Planck, acreditavam numa mente divina em termos racionais. Mas isso também foi eliminado da história científica explicada por Dawkins.

O fato é que Dawkins pertence ao mesmo clube peculiar de escritores científicos populares como Carl Sagan e Isaac Asimov, de uma geração anterior. Esses autores populares viam-se não apenas como escritores, mas como sumo sacerdotes. Assim como Dawkins, tomaram para si não só a tarefa de educar o público sobre as descobertas da ciência, como a de decidir o que os fiéis científicos têm permissão para acreditar quando se trata de assuntos metafísicos. Mas vamos esclarecer as coisas. Muitos dos grandes cientistas viam uma conexão direta entre seu trabalho científico e sua afirmação de que existe uma "mente superior", a Mente de Deus. Expliquem isso como quiserem, mas é fato evidente que não se pode deixar que os autores populares, com suas pretensões, continuem disfarçados. Sobre positivismo, Einstein de fato disse: "Não sou positivista. O positivismo afirma que o que não pode ser observado não existe. Essa concepção é cientificamente indefensável, porque é impossível tornar válidas afirmações sobre o que as pessoas podem, ou não podem, observar. Seria preciso dizer que apenas o que observamos existe, o que é obviamente falso".

Se querem desencorajar a crença em Deus, os autores populares devem fornecer argumentos que sustentem suas opiniões ateístas. Os evangelizadores ateístas de hoje nem tentam argumentar em defesa de suas idéias. Em vez disso, voltam seus canhões para as conhecidas crueldades cometidas ao longo da história das principais religiões. Mas os excessos e as atrocidades da religião organizada não têm nenhuma relação com a questão da existência de Deus, assim como a ameaça de proliferação nuclear não tem relação com a questão E = mc2.

E então, Deus existe? O que dizer dos argumentos de velhos e novos ateístas? Que relação a ciência moderna tem com esse assunto? Por notável coincidência, neste momento da história intelectual, quando o antigo positivismo voltou à moda, o mesmo pensador que ajudou a destroná-lo, meio século atrás, volta ao campo de batalha das idéias para responder a essas perguntas.

Desde que minha "conversão" ao deísmo foi anunciada, sempre me pedem para falar dos fatores que me levaram a mudar de idéia. Em alguns artigos e nesta nova introdução à edição de 2005 de meu livro God and Philosophy, chamei atenção para obras recentes que são importantes para a atual discussão sobre Deus, mas não me estendi em novos comentários sobre minhas opiniões. E agora fui persuadido a apresentar aqui o que pode ser chamado de meu testamento final. Em resumo, como diz o título, agora acredito que existe um Deus!

O subtítulo, As provas incontestáveis de um filósofo que não acreditava em nada, não foi invenção minha. Mas eu o emprego com satisfação, porque a invenção e o uso de títulos arriscados, mas atraentes, são para os Flew algo como uma tradição familiar. Meu pai, que era teólogo, uma vez publicou uma coletânea de ensaios de sua autoria e de alguns de seus exalunos e deu a essa polêmica brochura o título paradoxal, embora perfeitamente apropriado e informativo, de The Catholicity of Protestantism. No que diz respeito à forma e apresentação, se não à doutrina, segui seu exemplo e publiquei artigos a que dei títulos como Do-gooders Doing No Good? e Is PascaVs Wager the Only Safe Bet?.

Preciso deixar uma coisa bem clara. Quando a notícia de que eu havia mudado de idéia sobre Deus foi divulgada pela mídia e a ubíqua Internet, alguns comentaristas foram rápidos em dizer que minha "conversão" tinha algo que ver com minha idade avançada. Dizem que o medo torna a mente mais densa, e esses críticos concluíram que foi a probabilidade de uma próxima entrada na vida após a morte que provocou minha conversão. É óbvio que essas pessoas não conheciam meus escritos sobre a inexistência de uma vida após a morte, nem minha atual opinião sobre o assunto. Durante mais de cinqüenta anos, neguei não só a existência de Deus, como também a de uma vida após a morte. Minhas Palestras Gifford, na Universidade de St. Andrews, publicadas como The Logic of

Mortality, representam o clímax desse processo de pensamento. Essa é uma área a respeito da qual não mudei de idéia. Na falta de uma revelação especial, uma possibilidade bem-representada neste livro pela contribuição de N. T. Wright, não me vejo "sobrevivendo" à morte. Que fique registrado, então, que quero que cessem todos esses rumores que me mostram fazendo a aposta de Pascal.

Devo ainda salientar que esta não é a primeira vez que "mudo de idéia" sobre um assunto fundamental. Entre outras coisas, os leitores que conhecem minha vigorosa defesa de mercados livres podem ficar surpresos ao saber que já fui marxista. Entro em detalhes sobre esse assunto no segundo capítulo deste livro. Além disso, mais de duas décadas atrás, rejeitei minha antiga opinião de que todas as escolhas humanas são determinadas exclusivamente por causas físicas.

Como este livro trata do motivo de eu ter mudado de idéia quanto à existência de Deus, é apenas lógico que as pessoas perguntem em que eu acreditava antes da "mudança" e por quê. Os primeiros três capítulos tentam responder a essa pergunta, e os últimos sete descrevem minha descoberta do Divino. Na preparação desses sete últimos capítulos, fui grandemente ajudado pelas discussões que tive com o professor Richard Swinburne e o professor Brian Leftow, o antigo e o atual ocupantes da cadeira Nolloth em Oxford.

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