Deus - Existe - Antony - Flew

Deus - Existe - Antony - Flew

(Parte 3 de 7)

Há dois apêndices neste livro. O primeiro é uma análise do assim chamado novo ateísmo de Richard Dawkins e outros, de autoria de Roy Abraham Varghese. O segundo é um diálogo aberto sobre um assunto de grande interesse para a maioria dos que têm uma fé religiosa: se há qualquer tipo de revelação divina na história da humanidade, com atenção específica ao que se diz sobre Jesus de Nazaré. Com o objetivo de dar uma contribuição ao diálogo, o estudioso N. T. Wright, atual bispo de Durham, gentilmente ofereceu sua análise do fato histórico que serve de base para a fé em Jesus professada pelos teístas cristãos. Na verdade, preciso dizer que o argumento do bispo Wright é, de longe, o melhor dos argumentos que já ouvi a favor da aceitação da fé cristã.

Talvez alguma coisa deva ser dita sobre minha "fama" como ateísta, a que o subtítulo faz referência. Meu primeiro trabalho antiteológico foi o artigo de 1950, Theology and

Falsification. Esse artigo mais tarde foi reimpresso em New Essays in Philosofical Theology (1955), uma antologia que coeditei com Alasdair Maclntyre. New Essays foi uma tentativa de avaliar o impacto do que chamavam de "revolução na filosofia" sobre assuntos teológicos. Minha segunda obra importante foi God and Philosophy, publicada pela primeira vez em 1966 e novamente em 1975, 1984 e 2005. Na introdução da edição de 2005, Paul Kurtz, um dos líderes do ateísmo em nossa época e autor de Humanist Manifesto I, escreveu: "A editora Prometheus Books tem a grande satisfação de apresentar o que agora tornou-se um clássico da filosofia da religião". The Presumption of God foi publicado na Inglaterra em 1976 e nos Estados Unidos em 1984 com o título de God, Freedom and Immortality. Outras obras relevantes foram Hume's Philosophy of Belief, Logic and Language (primeira e segunda séries), An Introduction to Western Phüosophy: Ideas and Arguments from Plato to Sartre, Darwinian Evolution e The Logic of Mortality.

É de fato um paradoxo que meu primeiro argumento em favor do ateísmo tenha sido originalmente apresentado em uma reunião do Socratic Club presidida por um dos maiores defensores do cristianismo do século passado, C. S. Lewis. Outro paradoxo é que meu pai foi um dos autores e pregadores metodistas mais importantes da Inglaterra. E mais, no início da carreira, eu não tinha nenhum especial interesse em me tornar filósofo profissional.

Mas como todas as coisas boas, na verdade todas as coisas, sem exceção, devem ter um fim, acabarei minha introdução aqui. Deixarei que os leitores decidam o que pensar de minhas razões para mudar de idéia na questão de Deus.

1. A Criação de um ateu

Nem sempre fui ateu. Comecei a vida de modo bastante religioso. Fui criado num lar cristão e estudei em uma escola particular cristã. Na verdade, sou filho de um pregador do Evangelho.

Meu pai era produto do Merton College, de Oxford, pastor da igreja metodista criada por Wesley, não da igreja da Inglaterra, que era a estabelecida. Embora ele dedicasse seu coração ao evangelismo e, como diriam os anglicanos, ao trabalho paroquial, a primeira lembrança que tenho dele é como orientador de estudos do Novo Testamento na escola de teologia metodista de Cambridge. Mais tarde, ele sucedeu o diretor dessa escola e foi em Cambridge que se aposentou e faleceu. Além de suas obrigações acadêmicas básicas, meu pai assumiu a tarefa de representar a igreja metodista em várias organizações formadas por diferentes denominações religiosas. Serviu também, durante um ano, como presidente da Conferência Metodista e do Conselho Federal da Igreja Metodista Livre.

Na infância, eu me esforçava para isolar ou identificar qualquer sinal de minhas posteriores convicções ateístas. Na juventude, estudei na Kingswood School em Bath, conhecida informalmente com K. S., que era, e felizmente ainda é, um internato público — uma instituição de um tipo que, em qualquer outro país de língua inglesa, seria descrita, de modo paradoxal, como internato particular, A escola foi criada por John Wesley, fundador da igreja metodista, para a educação de rapazes, filhos de pastores. A escola Queenswood foi fundada um século mais tarde para, de maneira apropriadamente igualitária, educar moças, filhas de pastores metodistas.

Entrei na Kingswood como cristão consciencioso, se não entusiasmado. Nunca pude entender o sentido da adoração e, não sendo nada musical, não gostava, muito menos participava, do cântico de hinos. Nunca li nada da literatura religiosa com o mesmo entusiasmo com que lia livros sobre política, história, ciências ou quase todos os outros assuntos. Ir à capela ou à igreja, recitar orações e praticar outros atos religiosos eram, para mim, quase apenas deveres cansativos. Nunca senti o mais leve desejo de me comunicar com Deus.

Por que tive, desde que posso me lembrar, desinteresse pelas questões e práticas religiosas que formavam o mundo de meu pai, não sei dizer. Não me lembro, simplesmente, de ter sentido qualquer interesse ou entusiasmo por elas. Penso também que nunca senti a mente enlevada, nem "meu coração estranhamente aquecido", para usar a famosa frase de Wesley, no estudo dos ensinamentos cristãos ou na prática da adoração. Se minha juvenil falta de entusiasmo pela religião era uma causa, ou um efeito — ou ambos —, quem poderá dizer? Mas posso dizer que, qualquer fé que eu pudesse ter quando entrei na escola Kingswood, se acabara quando saí de lá.

Disseram-me que o Barna Group, uma importante organização crista de censo demográfico, concluiu, através de seus levantamentos, que aquilo em que acreditamos quando temos treze anos será no que acreditaremos ao morrer. Seja essa conclusão correta ou não, sei que as crenças que formei no início da adolescência permaneceram comigo pela maior parte de minha vida adulta.

Não me lembro precisamente de como e quando a mudança começou. Mas com certeza, como acontece com qualquer pessoa que pensa, múltiplos fatores combinaram-se para criar minhas convicções. Um desses fatores foi o que Immanuel Kant definiu como "uma ânsia da mente não imprópria à sabedoria" e que, acredito, eu tinha em comum com meu pai. Tanto ele como eu estávamos dispostos a seguir o caminho da "sabedoria" como Kant a descreveu: "É a sabedoria que tem o mérito de selecionar, entre os inumeráveis problemas que se apresentam, aqueles cuja solução é importante para a huma- nidade". As convicções cristãs de meu pai persuadiram-no de que não podia haver nada mais "importante para a humanidade" do que a explicação, a propagação e a implantação dos ensinamentos do Novo Testamento, sejam eles realmente quais forem. Minha jornada intelectual levou-me em uma direção diferente, claro, mas que não foi menos marcada pela ânsia da mente que ele e eu compartilhávamos.

Também me lembro de que meu pai, em mais de uma ocasião, me disse que um estudioso da Bíblia, quando em dúvida sobre determinado conceito do Velho Testamento, não tenta encontrar uma resposta apenas refletindo sobre ele, mas que coleta o maior número possível de dados dentro do contexto, usando os exemplos contemporâneos disponíveis desse conceito. Essa abordagem explicada por ele formou, de muitas maneiras, a base de minhas primeiras explorações intelectuais — e de uma que ainda não abandonei — porque aprendi a coletar e examinar, dentro de um contexto, todas as informações importantes sobre certo assunto. Pode ser irônico, mas foi o ambiente familiar em que fui criado que, talvez, instilou em mim o entusiasmo pela investigação crítica que um dia me levaria a rejeitar a fé de meu pai.

Eu disse, em alguns de meus últimos escritos ateístas, que cheguei à conclusão de que Deus não existe, rápido demais, facilmente demais e por razões que, mais tarde, me pareceram erradas. Reconsiderei longamente e repetidas vezes essa conclusão negativa, mas depois, por quase setenta anos, nunca encontrei base suficiente para garantir qualquer mudança fundamental. Uma das razões para minha conversão ao ateísmo foi o problema do mal.

Todos os anos, no verão, meu pai levava minha mãe e a mim para uma viagem de férias ao estrangeiro. Embora isso não fosse possível para alguém que ganhava salário de pastor, para meu pai era, porque ele passava o início do verão trabalhando na banca examinadora para o certificado de escola superior e era pago por isso. Outra vantagem era que nossas viagens ficavam mais baratas porque meu pai era fluente em alemão por ter estudado teologia durante dois anos na Universidade de

Marburg antes da Primeira Guerra e, assim, levava-nos sempre à Alemanha — e por uma ou duas vezes levou-nos à França — sem precisar gastar dinheiro com um agente de viagens. Por várias vezes, foi escolhido para representar o metodismo em conferências teológicas internacionais e sempre levou minha mãe e a mim, seu único filho, como convidados não participantes.

Fui fortemente influenciado por essas viagens a outros países nos anos antes da Segunda Guerra Mundial e me lembro claramente das faixas e cartazes exibidos fora dos limites de vilas, avisando: "Não queremos judeus aqui". Lembro que vi, na entrada de uma biblioteca pública, cartazes que diziam: "O regulamento desta instituição proíbe o empréstimo de livros a judeus". Uma noite assisti ao desfile de dez mil soldados, usando uniformes marrons, que atravessavam a Bavária. Nossas viagens expuseram-me a esquadrões da Waffen-S, com seus homens vestidos de preto e exibindo no quepe uma caveira sobre dois ossos cruzados.

Tais experiências desenharam o cenário de minha juventude e, para mim, assim como para muitos outros, apresentaram um desafio inevitável a respeito da existência de um todo-poderoso Deus de amor. Não sei avaliar até que ponto elas influenciaram meu pensamento, mas, no mínimo, despertaram em mim a percepção que me acompanhou durante toda a vida do mal duplo do anti-semitismo e do totalitarismo.

Crescer, como eu cresci, nas décadas de 1930 e 1940, num lar metodista era estar em Cambridge mas não ser de Cambridge. Para começar, a teologia não era, naquele tempo, aceita ali como a "rainha das ciências", como acontecia em outras instituições. Uma escola para a formação de ministros religiosos não tinha nenhuma relevância. Como resultado, nunca me identifiquei com Cambridge, embora meu pai se sentisse muito à vontade ali. Seja como for, a partir de 1936, quando fui para o internato, eu quase nunca ia a Cambridge durante o período de aulas.

Na minha época, Kingswood era um lugar extremamente animado, dirigido por um homem que merecia ser considerado um excelente diretor de escola. No ano anterior a minha ida para lá, Kingswood colocara mais alunos em cursos de Oxford e Cambridge do que qualquer outra escola. Além disso, nossa vivacidade juvenil não era confinada à sala de aula e ao laboratório.

Ninguém deveria se surpreender pelo fato de que, naquele ambiente agitado, eu começasse a questionar a fé de meus antepassados, uma fé a que nunca me sentira emocionalmente ligado. À época em que cheguei à sexta série superior em K. S. — equivalente à décima segunda série nos Estados Unidos e último ano do Ensino Médio no Brasil — eu discutia com colegas mais adiantados, argumentando que a idéia de um Deus onipotente, e ao mesmo tempo perfeitamente bom, era incompatível com o mal e as imperfeições do mundo. O habitual sermão de domingo nunca continha nenhuma referência à vida futura, fosse no céu, fosse no inferno. Quando o diretor A. B. Sackett era o pregador, o que não acontecia com freqüência, sua mensagem era sempre de exaltação às maravilhas da natureza. De qualquer modo, quando completei quinze anos, eu rejeitara a tese de que o universo fora criado por um Deus todo-poderoso, de infinita bondade.

Alguém pode perguntar se nunca pensei em consultar meu pai pastor sobre minhas dúvidas a respeito da existência de Deus. Nunca. Pelo bem da paz doméstica e, principalmente para poupar meu pai, tentei, o mais que pude, esconder da família minha conversão irreligiosa. Pelo que sei, consegui fazer isso durante muitos anos.

Mas em janeiro de 1946, quando eu ia completar vinte e três anos, espalhou-se a notícia — e chegou até meus pais — de que eu me tornara ateu, que não acreditava em uma vida após a morte e que era pouco provável que voltasse atrás. Tão completa e firme foi minha mudança que, em minha casa, concluíram que qualquer discussão sobre o assunto seria em vão. No entanto, hoje, mais de meio século depois, sei que meu pai ficaria imensamente feliz por eu ter a opinião que tenho agora sobre a existência de Deus, até porque ele veria nisso uma grande ajuda à causa da igreja cristã.

Aos dezoito anos, fui da Kingswood para a Universidade de

Oxford, onde cheguei no trimestre de inverno — de janeiro a março — de 1942. A Segunda Guerra Mundial ia em meio e, num dos primeiros dias como estudante de graduação, passei por um exame de saúde e oficialmente recrutado pela RAF — Real Força Aérea. Naqueles tempos de guerra, quase todos os estudantes fisicamente saudáveis passavam um dia da semana numa organização de serviço. No meu caso, essa organização era o esquadrão aéreo da Universidade de Oxford.

Esse serviço militar, prestado em regime de meio período durante um ano e período integral dali por diante, não era combatente. Incluía aprender um pouco de japonês, na escola de estudos orientais, e africano, da Universidade de Londres e, depois, interceptar e decifrar sinais da força aérea japonesa no parque Bletchley. Após a rendição do Japão, trabalhei, enquanto esperava pela desmobilização, como tradutor de sinais interceptados do recentemente criado exército de ocupação francês no que naquele tempo era a Alemanha Ocidental.

Quando retornei ao estudo em tempo integral na

Universidade de Oxford, no início de janeiro de 1946, onde faria meus exames finais no verão de 1947, encontrei tudo muito diferente. Oxford parecia uma instituição muito mais interessante do que aquela que eu deixara quase três anos antes. Havia uma maior variedade de opções, tanto para carreiras de tempo de paz, como militares. Eu estava me preparando para os exames finais na Honors School of Literae Humaniores, e algumas das aulas sobre a história da Grécia clássica eram dadas por veteranos de guerra que haviam sido ativos no auxílio à resistência grega, tanto em Creta como no continente, o que tornava as aulas mais românticas e estimulantes para a platéia de estudantes de graduação.

No verão de 1947, então, fiz meus exames finais. Para minha surpresa e alegria, fui agraciado com um "First" — a expressão no Reino Unido para "primeira classe", que designa o aluno que passa nos exames de graduação com louvor. Voltei, então, para John Mabbott, meu orientador em St. John's College. Disse a ele que desistira de minha meta anterior de trabalhar para conseguir um segundo diploma de graduação na então recentemente criada escola de filosofia e psicologia. Agora, eu pretendia começar a trabalhar para obter um diploma de pósgraduação em filosofia.

Mabbott conseguiu que eu me matriculasse no curso de pós-graduação em filosofia sob a supervisão de Gilbert Ryle, que, então, era o professor de filosofia metafísica da Universidade de Oxford. Ryle, no segundo semestre do ano letivo de 1947-1948, era o mais antigo dos três catedráticos de filosofia.

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