Deus - Existe - Antony - Flew

Deus - Existe - Antony - Flew

(Parte 4 de 7)

Foi só muitos anos mais tarde que, lendo o cativante livro de Mabbott, Oxford Memories, soube que ele e Ryle eram amigos desde quando haviam se conhecido em Oxford. Se eu estivesse em uma escola diferente e se um orientador diferente me perguntasse qual dos três supervisores profissionais preferia, eu certamente teria escolhido Henry Price por causa do interesse que nós dois tínhamos pelo que agora é chamado de parapsicologia, mas que naquele tempo ainda chamavam de pesquisa psíquica. Em conseqüência, meu primeiro livro recebeu o título de A New Approach to Psychical Research, e Price e eu nos tornamos conferencistas sobre pesquisa psíquica. Estou certo, porém, de que eu não teria ganhado o prêmio universitário de filosofia, num ano que foi excepcionalmente duro, se meu orientador nos estudos de pós-graduação fosse Henry Price, porque passaríamos tempo demais conversando sobre os interesses que tínhamos em comum.

Depois de devotar o ano acadêmico de 1948 aos estudos para conseguir meu diploma de pós-graduação em filosofia, sob a orientação de Ryle, foi que ganhei o prêmio mencionado acima, o John Locke de filosofia mental. Fui então indicado para ser o que seria chamado de professor estagiário em qualquer outra escola da Oxford que não a Christ Church, cujo vocabulário dizia que eu me tornara um aluno estagiário.

Durante o ano em que lecionei na Oxford, a doutrina do conhecido filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, cuja abordagem da filosofia influenciaria a minha, entrou em Oxford. Os princípios dessa doutrina, todavia, que ele mais tarde publicou em seus O livro azul, O livro castanho e Lectures on Mathematics, chegaram na forma de transcrições de palestras datilografadas, acompanhadas de cartas de Wittgenstein, informando para quem elas deviam, ou não, ser mostradas. Um colega e eu tivemos a idéia de, sem quebrar a promessa feita a Wittgenstein, produzir cópias de todas as suas palestras disponíveis em Oxford, de modo que todos que quisessem pudessem lê-las.

Essa finalidade útil — uso aqui o vocabulário dos filósofos morais daquele período — foi alcançada porque, primeiro, perguntamos a todos os que sabíamos que estavam filosofando ativamente em Oxford, se eles tinham cópias das palestras de Wittgenstein e, em caso positivo, quais eram. Naquele tempo, muito antes das fotocopiadoras, descobrimos e contratamos um datilografo para fazer cópias suficientes para atender à demanda. (Mal sabíamos que a circulação dessas cópias apenas entre membros de um grupo exclusivo que jurou manter segredo levaria os de fora a comentar que Wittgenstein, indubitavelmente um filósofo genial, comportava-se como um charlatão, fingindo ser um gênio!)

Fôra durante uma visita de Wittgenstein a Cambridge que

Ryle o conhecera. Uma amizade se desenvolvera entre eles e, em 1930 ou 1931, Ryle persuadira Wittgenstein a acompanhá-lo a pé em uma excursão pela região dos lagos ingleses. Ryle nunca publicou nenhum relato dessa excursão, nem do que aprendera com Wittgenstein, ou a respeito dele. Mas foi a partir dessa viagem que Ryle começou a servir de intermediário entre Wittgenstein e o que os filósofos chamam de "mundo exterior".

A necessidade dessa mediação revela-se no registro de uma conversa entre Wittgenstein, que era judeu, e suas irmãs, logo depois que os soldados de Hitler tomaram a Áustria. Ele disse às irmãs que, devido à estreita conexão deles com as "mais importantes famílias" do antigo regime, nem ele, nem elas estavam em perigo. Quando, mais tarde, tornei-me professor de filosofia, relutei em contar a meus alunos que Wittgenstein, a quem eu e muitos de meus colegas considerávamos um gênio filosófico, se iludia demais quando se tratava de questões práticas.

Vi Wittgenstein em ação, pessoalmente, pelo menos uma vez. Isso foi no meu tempo de estudante de graduação, quando ele visitou a Jowett Society. O tema da palestra era "Cogito, ergo sum", inspirado obviamente pela famosa afirmação do filósofo francês René Descartes, "Penso, logo existo". O salão estava lotado. A platéia não perdia uma única palavra do grande homem. Mas, agora, só o que me lembro de seus comentários é que eles não tinham nenhuma relação com o tema que fora anunciado. Então, quando Wittgenstein acabou de falar, o professor emérito, H. A. Prichard, levantou-se. Com evidente exasperação, perguntou o que "herr Wittgenstein" — parece que o doutor em Cambridge não era reconhecido em Oxford! — "pensava a respeito de Cogito ergo sum". Wittgenstein respondeu, batendo na testa com o dedo indicador da mão direita: "Cogito ergo sum. Uma frase muito peculiar". Naquele momento pensei, e ainda penso, que a réplica mais adequada à resposta de Wittgenstein seria a adaptação de uma legenda em um dos desenhos humorísticos de James Thurber em Men, Women and Dogs: "Talvez você não tenha charme, Lily, mas é enigmática".

Durante meu tempo como estudante de pós-graduação sob a orientação de Gilbert Ryle, descobri que ele tinha por princípio sempre responder de modo direto, frente a frente com a outra pessoa, a qualquer objeção feita a suas opiniões filosóficas. Suponho, embora ele nunca tenha me dito isso — e pelo que sei, a ninguém mais — que ele obedecia à ordem que Platão, em A República, atribuiu a Sócrates: "Devemos seguir o argumento até onde ele nos levar". Entre outras coisas, esse princípio requer que cada objeção seja feita diretamente de uma pessoa a outra, e deve também ser debatida diretamente entre as duas. É um princípio que eu próprio tentei seguir durante toda minha vida longa e amplamente polêmica.

Esse princípio socrático inspirava o Socratic Club, um grupo que era, realmente, o centro do que ainda havia de vida intelectual em Oxford no tempo da guerra. O clube era um fórum onde aconteciam acalorados debates entre ateístas e cristãos, e eu participava regularmente das reuniões. De 1942 a 1954, seu presidente foi o famoso escritor cristão, C. S. Lewis. Os membros do clube reuniam-se toda segunda-feira à noite durante os meses de aulas no Junior Commom Room do St. Hilda College. Em seu prefácio à primeira edição do Socratic Digest, Lewis citou a exortação de Sócrates para "seguirmos o argumento aonde ele nos levar". Observou que aquela "arena especialmente devotada ao conflito entre cristãos e descrentes era uma novidade".

Muitos dos maiores ateístas em Oxford entraram em conflito com Lewis e seus companheiros cristãos. O mais famoso encontro foi um debate em fevereiro de 1948, entre Lewis e Elizabeth Anscombe, que levou Lewis a revisar o terceiro capítulo de seu livro Milagres. Eu ainda lembro que, no fim do debate, saí do clube com alguns amigos e fomos andando logo atrás de Elizabeth Anscombe e seu grupo. Ela e seus amigos estavam exultantes. Logo à frente deles, C. S. Lewis andava rapidamente, como se tivesse pressa de refugiar-se em seus aposentos no Magdalen College, logo além da ponte que estávamos todos atravessando.

Embora muitos tenham achado que Lewis ficara permanentemente desencorajado pelo resultado desse debate, a própria Elizabeth pensava de modo diferente. "A reunião do Socratic Club, na qual li meu artigo", ela escreveu mais tarde, "foi descrita, por vários dos amigos dele, como uma experiência horrível e chocante que o perturbou imensamente. Mas nem o dr. Havard — que convidou Lewis e a mim para um jantar, algumas semanas depois —, nem o professor Jack Bennett lembravam-se de ter notado tal perturbação. Estou inclinada a interpretar os curiosos comentários feitos por alguns dos amigos de Lewis como um exemplo interessante do fenômeno chamado projeção".

Lewis foi, certamente, o mais eficiente defensor do cristianismo da segunda metade do século X. Quando a BBC, recentemente, perguntou-me se eu refutara completamente a defesa cristã de Lewis, respondi: "Não. Eu apenas não acreditava que havia razão suficiente para acreditar nela. Mas, é claro, quando mais tarde comecei a pensar em coisas teológicas, pareceu-me que a defesa da revelação cristã é muito forte para quem acredita em revelação".

Durante meu último semestre em Oxford, a publicação do livro de A. J. Ayer, Linguagem, verdade e lógica convencera muitos membros do Socratic Club de que a heresia do positivismo lógico — afirmação de que todas as proposições religiosas não têm significação cognitivo — precisava ser refutada. O primeiro e único artigo que li no Socratic Club, Theology and Falsification, provou o que eu, na época, considerava refutação suficiente. Eu acreditava que alcançara total vitória e que não havia mais espaço para discussão.

Foi também em Oxford que conheci Annis Donnison, que seria minha esposa. Fomos apresentados pela irmã dela numa reunião social do Labor Club. Depois de ser apresentado a

Annis*, não prestei atenção a mais ninguém naquela noite. No fim da reunião, combinei com Annis de nos encontrarmos novamente, e aquela foi a primeira vez que marquei um encontro com uma moça. Minha condição social, naquele tempo, era muito diferente da dela. Eu estava lecionando na Christ Church, uma instituição só para homens, e ela era uma estudante de primeiro ano da Sommerville, uma escola para mulheres que, como todas as instituições femininas da Oxford, simplesmente expulsava uma aluna que "cometesse casamento".

Minha futura sogra ficou compreensivelmente preocupada pelo fato de a filha namorar um homem que, além de estar academicamente mais adiantado, era bem mais velho. Então, falou com o filho, e ele lhe disse que eu "estava apaixonado, ou algo assim" e que ficaria arrasado se fosse impedido de continuar o namoro. Eu sempre achei que meu cunhado apenas queria que sua irmã mais jovem tivesse a liberdade de conduzir a própria vida, porque sabia que ela era sensata e que não tomaria nenhuma decisão precipitada.

Embora eu já houvesse abandonado a fé de meus pais metodistas há muito tempo, pensei no que aprendera com eles. Nunca sequer tentei seduzir Annis antes do casamento, acreditando que tal comportamento é sempre moralmente errado. Do mesmo modo, sendo filho de professor, nunca pensei em induzir minha namorada a casar-se comigo antes de se formar.

Deixei oficialmente de ser professor não efetivado na Christ

Church, em Oxford, no final de setembro de 1950, e comecei a trabalhar como professor de filosofia moral na Universidade de

* Antony Flew e Annis Donnison casaram-se em 28 de junho de 1952. (N. da T.)

Aberdeen, na Escócia, no primeiro dia de outubro daquele mesmo ano.

Nos anos que passei em Aberdeen, participei de várias entrevistas e três ou quatro discussões radiofônicas, patrocinadas pelo programa recém-iniciado e militante da cultura, o Third Programme da BBC, além de servir de sujeito em várias experiências psicológicas. Em Aberdeen, as grandes atrações eram a amabilidade de quase todas as pessoas com quem travávamos conhecimento, a força e a variedade do movimento da educação adulta, o próprio fato de estarmos numa cidade da Escócia, algo novo para nós, e de podermos andar ao longo da costa e pelas montanhas Cairngorms. Penso que nunca deixamos de nos juntar aos membros do Cairngorm Club em suas excursões mensais a essas montanhas.

No verão de 1954, fui de Aberdeen para a Inglaterra — fazendo antes uma viagem à América do Norte —, para me tornar professor de filosofia na University College of North Staffordshire, que mais tarde tornou-se a Universidade de Keele. Nos dezessete anos em que estive lá, a Keele foi, no Reino Unido, a instituição que mais se aproximava das escolas de artes liberais dos Estados Unidos, como a Oberlin e a Swarthmore. Muito rapidamente, devotei-me à Keele, só me afastando quando ela começou, devagar, mas inexoravelmente, a perder sua distinção.

Depois de passar o ano acadêmico de 1970-1971 como professor visitante nos Estados Unidos, demiti-me da que então já se tornara a Universidade de Keele. Meu sucessor foi Richard Swinburne. Em janeiro de 1972, mudei-me para a Universidade de Calgary em Alberta, Canadá. Minha intenção era a de me estabelecer ali. No entanto, em maio de 1973, depois de apenas três semestres em Calgary, transferi-me para a Universidade de Reading, onde fiquei até o final de 1982.

Antes de requerer e conseguir a aposentadoria antecipada da Reading, eu havia sido contratado para lecionar um semestre por ano na Universidade York, em Toronto, durante os restantes seis anos de minha normal vida acadêmica. Na metade desse período, porém, demiti-me de York a fim de aceitar um convite do Social Philosophy and Policy Center da Universidade Estadual Bowling Green, em Ohio, para servir, durante os três anos seguintes, como Distinguished Research Fellow (Ilustre Colega Pesquisador). Após esse tempo, o convite foi estendido para mais três anos. Depois, então, eu finalmente me aposentei e voltei para Reading, onde resido até hoje.

Esse resumo do que foi minha carreira não esclarece por que me tornei filósofo. Dado meu interesse por filosofia na Kingswood, pode parecer que eu havia decidido ser filósofo profissional muito antes de ir para Oxford. Mas, na verdade, naquele tempo eu mal sabia que existiam tais criaturas. Mesmo nos meses que passei em Oxford, antes de ser convocado pela RAF, meu contato com a filosofia não passava das reuniões do Socratic Club. O que mais me interessava, além de meus estudos, era a política. Esse interesse ainda continuou depois de janeiro de 1946, quando filosofia passou a ser uma das matérias de meu curso.

Só comecei a ver a remota possibilidade de uma carreira em filosofia alguns meses antes de meus exames finais, em dezembro de 1947. Se meu medo de ser colocado na Segunda Classe se concretizasse, eu teria estudado para fazer os exames uma segunda vez, tendo psicologia como área de concentração, na nova escola de filosofia, psicologia e fisiologia. Mas, como isso não aconteceu, comecei a trabalhar no igualmente novo curso de pós-graduação em filosofia, sob a orientação de Gilbert Ryle. Foi só nas últimas semanas de 1949, depois de ser indicado para um estágio na Christ Church, que estabeleci o curso de minha carreira — e queimei as pontes atrás de mim —, recusando uma oferta para trabalhar na Administrative Class of the Home Civil Service (Divisão Administrativa do Serviço Civil Nacional), uma escolha da qual me arrependi até que recebi a oferta da Universidade de Aberdeen.

Nos próximos dois capítulos, tento explicar com detalhes o caso que construí, ao longo dos anos, contra a existência de Deus. Começo por discorrer sobre meio século de argumentos ateístas que juntei e desenvolvi e, então, no terceiro capítulo, descrevo as várias reviravoltas em minha filosofia, que podem ser acompanhadas por meio de meus freqüentes debates sobre o assunto do ateísmo.

Espero que, com isso tudo, fique evidente, como eu disse tantas vezes no passado, que meu interesse pela religião nunca foi nada mais do que prudente, moral ou simplesmente curioso. Digo prudente porque, se existe um Deus, ou deuses, que se envolvem nos assuntos humanos, seria uma imprudência louca não tentar, ao máximo possível, ficar ao lado direito deles. Digo que meu interesse é moral porque devo me dar por feliz por ter encontrado aquilo a que Matthew Arnold uma vez se referiu como "o Eterno, não nós, leva à retidão". E digo que é um interesse curioso porque qualquer pessoa com tendência científica deve querer descobrir tudo o que é possível saber sobre determinado assunto. Mesmo assim, pode ser que ninguém se surpreenda mais do eu me surpreendi quando notei que, depois de tantos anos de exploração do Divino, eu abandonara a negação para dedicar-me à descoberta.

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