Deus - Existe - Antony - Flew

Deus - Existe - Antony - Flew

(Parte 6 de 7)

Como tenho dito, as razões pelas quais abracei o ateísmo à idade de quinze anos eram obviamente inadequadas. Foram construídas sobre o que mais tarde descrevi como "duas insistências juvenis": 1) o problema do mal foi a refutação definitiva à existência de um Deus todo-poderoso e amoroso, e 2) a "defesa do livre-arbítrio" não eximia o Criador da responsabilidade pelos evidentes males da criação. Mas desde meu tempo de escola, eu dera muito mais atenção às razões a favor ou contrárias às conclusões ateístas. Meu primeiro passo nessa investigação foi Theology and Falsification.

Esse artigo foi apresentado pela primeira vez no verão de 1950 no Socratic Club, em Oxford, e depois publicado em outubro do mesmo ano em um efêmero jornal da turma de graduação chamado University. A primeira reimpressão apareceu em 1955 em New Essays in Philosophical Theology, que publiquei em conjunto com Alasdair Maclntire e que foi uma substancial coleção de contribuições à filosofia da religião, do ponto de vista da nova filosofia. Na época, o Times Literary Supplement descreveu o livro como "possuidor de uma certa pureza virginal".

O principal objetivo de Theology and Falsification era esclarecer a natureza das afirmações feitas por crentes religiosos. Perguntei: os processos de qualificação que cercam as hipóteses filosóficas são tão numerosos que causam sua morte por mil qualificações? Se fazemos uma afirmação, ela é significativa apenas se exclui certas coisas. Por exemplo, a afirmação de que a Terra é um globo exclui a possibilidade de ela ser plana. E, embora possa parecer plana, essa aparente contradição pode ser explicada pelo grande tamanho do planeta, pela perspectiva da qual a estamos observando, e assim por diante. Então, uma vez que acrescentamos qualificações apropriadas, a afirmação pode ser satisfatoriamente harmonizada com os fenômenos que parecem contradizê-la. Mas se os fenômenos contraditórios e as qualificações associadas continuam a multiplicar-se, a própria afirmação torna-se suspeita.

Se dizemos que Deus nos ama, devemos perguntar quais fenômenos essa afirmação exclui. É óbvio que a existência da dor e do sofrimento emerge como um problema para tal afirmação. Os teístas dizem que, com as qualificações adequadas, pode-se conciliar esses fenômenos com a existência e o amor de Deus. Mas, então, surge outra questão: por que simplesmente não concluímos que Deus não nos ama? Parece que os teístas não permitem que qualquer fenômeno pese contra a afirmação de que Deus nos ama. Isso significaria que nada pesa a favor também. Na verdade, torna-se uma afirmação vazia. Concluí que "uma boa, ousada hipótese pode ter uma morte lenta, por mil qualificações".

Embora minha intenção ao levantar essas questões pareça clara, muitas vezes ouvi a reclamação de que eu estava expondo minhas opiniões sobre a significação — ou, mais freqüentemente, a falta de significação — de toda a linguagem religiosa. Houve também quem dissesse que eu estava apelando explicitamente para o notório princípio da verificação do antigo Círculo de Viena dos positivistas lógicos, de que apenas as afirmações que podiam ser verificadas pelo uso de métodos científicos eram significativas, e me apoiando nele.

Mas o fato é que eu nunca mantive nenhuma tese abrangente sobre a significação ou a falta de significação de toda a linguagem religiosa. Meu principal objetivo em Theology and Falsification era dar um pouco de sabor ao insípido diálogo entre o positivismo lógico e a religião cristã, e estabelecer uma discussão entre a crença e a descrença a respeito de pontos diferentes e mais produtivos. Eu não estava oferecendo uma doutrina sobre toda a crença religiosa ou sobre toda a linguagem religiosa. Não estava dizendo que as afirmações da crença religiosa não tinham significação. Apenas desafiei os crentes religiosos a explicar como suas afirmações deviam ser compreendidas, especialmente à luz de informações conflitantes.

O artigo provocou numerosas reações, algumas das quais apareceram décadas mais tarde, e muitas ajudaram-me a reforçar — e às vezes a corrigir — minhas opiniões. A reação mais radical talvez tenha sido a primeira, de R. M. Hare, que mais tarde ocuparia o posto de professor de filosofia moral em Oxford. Hare sugeriu que as declarações religiosas deviam ser interpretadas não como afirmações, mas como expressões que chamou de "blik"', uma palavra inventada por ele — algo como uma abordagem geral ou uma atitude geral. Blik, de acordo com ele, é simplesmente uma interpretação de nossa experiência cuja veracidade ou falsidade não podem ser provadas. Pelo que sei, Hare nunca desenvolveu essa idéia em forma impressa, mas é uma que não agradaria os crentes religiosos porque nega qualquer base racional para a crença.

Na primeira discussão sobre o artigo, Basil Mitchell, que mais tarde sucedeu C. S. Lewis na presidência do Socratic Club, disse que havia algo estranho em minha apresentação do caso dos teólogos. Declarações teológicas devem ser asserções e, para haver asserções, é preciso que haja alguma coisa que pese contra sua verdade. Ele salientou que os teólogos não negam isso, que o problema teológico do mal surgiu precisamente porque a existência da dor parece pesar contra a verdade de que Deus ama a humanidade. A resposta deles tem sido a defesa do livre-arbítrio. Mas Mitchell admitiu que os crentes religiosos sempre correm o perigo de converter suas asserções em fórmulas vazias de significado.

No Faith and Logic de Mitchell, o filósofo I. M. Crombie, conhecido por sua obra sobre Platão, tratou o assunto de modo muito mais extenso. Teístas acreditam num mistério além da experiência, disse Crombie, mas acrescentando que detectava traços desse mistério na experiência. Disse ainda que os teístas sustentam que, para expressar sua crença, são obrigados a usar uma linguagem governada por regras paradoxais.

Crombie observou que só é possível compreender as afirmações teológicas quando se faz justiça a três proposições: teístas acreditam que Deus é um ser transcendente, que afirmações sobre Deus aplicam-se a Deus, não ao mundo; teístas acreditam que Deus é transcendente e que, portanto, está além de nossa compreensão; como Deus é um mistério, e como, para ganhar atenção, precisamos falar de modo inteligível, só podemos falar sobre Deus através de imagens. Afirmações teológicas são imagens de verdades divinas que podem ser expressas como parábolas.

Outros, entre os muitos que reagiram a Theology and

Falsification, foram Raeburne Heimbeck e o eclesiástico anglicano Eric Mascall. Em seu Theology and Meaning, Heimbeck, professor emérito de filosofia e estudos religiosos da Universidade Central Washington, declarou que havia três erros importantes em Theology and Falsification. Primeiro, era a suposição de que o significado de qualquer sentença é igual às implicações empíricas do que ela declara. Segundo, ficava erroneamente implícito que pesar contra uma crença é o mesmo que ser incompatível a ela. E, por fim, era a suposição de que as afirmações sobre Deus são, em princípio, inverificáveis. O erro fundamental, em sua opinião, era o de identificar as bases para a crença em uma afirmação com as condições que a tornariam verdadeira ou falsa. Mascall, imitando os seguidores de Wittgenstein, comentou que podemos descobrir se uma afirmação é significativa apenas determinando se as pessoas conseguem compreendê-la no contexto lingüístico e na comunidade em que é usada.

Citei essas opiniões em parte para ilustrar o papel de

Theology and Falsification no estímulo de novos movimentos de pensamento que ajudaram a agitar o lago estagnado do discurso teológico. A discussão continua até hoje. A edição da primavera de 2005 da revista Richmond Journal of Phüosophy publicou mais um artigo que discutia os méritos dos argumentos que apresentei em 1950.

Falei das reações provocadas por Theology and Falsification porque o debate provocado por esse artigo causou um efeito em mim e em minhas idéias filosóficas. Como poderia deixar de ser assim se continuo firme em minha intenção de seguir o argumento até onde ele me levar? Na edição em comemoração ao jubileu de prata do artigo, reconheci a validade de duas acusações feitas por críticos. Basil Mitchell me censurara pelo modo estranho como eu conduzira o caso dos teólogos. Demonstrou que os teólogos não negam que o fato da dor pesa contra a afirmação de que Deus ama a humanidade, e que é isso, precisamente, que gera o problema teológico do mal. Penso que ele está certo nisso. Também reconheci a força da crítica de Heimbeck e disse que estava errado em demolir a distinção entre "pesar contra" e "ser incompatível com". Meu principal argumento apoiava-se diretamente nisso.

Onze anos depois de New Essays, publiquei God and

Philosophy. Foi uma tentativa de apresentar e examinar o caso do teísmo cristão. Não consegui encontrar nenhuma apresentação anterior do caso que fosse amplamente aceita por crentes religiosos contemporâneos como adequada ou convencional. Tentei pedir sugestões a amigos e colegas cristãos, mas descobri que havia pouca ou nenhuma coisa em comum entre as listas de respostas que eles me ofereceram. Então, usando diversas fontes, montei o caso mais forte que consegui, incentivando aqueles que ficassem insatisfeitos a pôr a cabeça para funcionar e produzir algo que eles e seus companheiros crentes achassem mais satisfatório.

God and Philosophy foi publicado pela primeira vez em 1966. Em 1984, foi reeditado como God: A Criticai Enquiry. Uma última edição, com um prefácio do editor, e uma nova e muito insatisfatória introdução minha foi publicada pela Prometheus, em 2005.

Em God and Philosophy, apresentei a idéia de uma argumentação sistemática para o ateísmo. Logo no início, propus que nosso ponto de partida fosse a questão da consistência, aplicabilidade e legitimidade do conceito de Deus. Nos capítulos subseqüentes, abordei tanto os argumentos da teologia natural como as alegações da revelação divina, enquanto analisava as noções de explicação, ordem e propósito. Recorrendo a David Hume e outros com o mesmo pensamento, argumentei que os argumentos cosmológicos e morais a favor da existência de Deus eram inválidos. Também tentei demonstrar que era validamente impossível inferir, de certa experiência religiosa, que seu objeto era um ser divino transcendente.

Mas a contribuição mais significativa do livro era o capítulo

"Começando do começo". Notei que três questões em particular, com respeito ao conceito de Deus, precisavam ser respondidas:

Como identificar Deus.

Como termos positivos, contrapostos a termos negativos como incorpóreo, podem ser aplicados a Deus.

Como a inconsistência de características definidas de Deus em relação a fatos inegáveis pode ser explicada, isto é, como é possível conciliar os males do universo com a existência de um Deus onipotente.

A segunda e terceira questões sempre haviam sido defendidas por teístas com a teoria da analogia, no que se refere a atributos de Deus, e com o argumento do livre-arbítrio, no que diz respeito ao problema do mal. A primeira questão, porém, nunca tivera explicação suficiente.

Identificação e individualização são uma questão de se selecionar um assunto de discurso constante, reconhecido, sobre o qual haja concordância, mas estava longe de ser óbvio o modo como algo tão singular como o Deus mosaico podia ser identificado como um ser separado de todo o universo "criado". E que sentido haveria na insistente afirmação de que esse Ser permanece sempre único e imutável, e que no entanto continua ativo através do tempo ou — o que causa ainda maior perplexidade — "fora" do tempo? A menos que tenhamos um conceito genuíno, coerente e aplicável, não se pode adequadamente levantar a questão sobre se tal ser existe. Em outras palavras, não podemos começar a discutir as razões para a crença na existência desse tipo específico de Deus enquanto não estabelecermos uma maneira de identificar o Deus que pretendemos discutir. Muito menos podemos compreender como esse indivíduo imutável pôde ser identificado de maneiras diferentes ao longo do tempo. Assim, por exemplo, como poderia "uma pessoa sem corpo — isto é, um espírito —, que está presente em todos os lugares", ser identificado e novamente identificado, desse modo qualificando-se como possível objeto de várias descrições?

Os teístas reagiram a essa linha de pensamento de diversas maneiras. A mais notável reação foi a de Richard Swinburne, meu sucessor na Universidade de Keele e mais tarde professor de filosofia da religião cristã em Oxford, em seu livro The Coherence of Theism. Swinburne arrazoou que o fato de que os únicos "O" que já vimos são "X" não implica que não seja coerente supor que há alguns "O" que não são "X". Disse que ninguém pode argumentar que só porque todos os "aquilo" que conheceu eram "assim", essa igualdade deve ser uma característica essencial de qualquer coisa que for adequadamente classificada como "aquilo". Com respeito à identidade, ele argumentou que a identidade de uma pessoa é algo definitivo e não pode ser analisada em termos de continuidade de corpo, memória ou caráter. J. L. Mackie, filósofo ateu, aceitou a definição de Deus de Swinburne, um espírito que está presente em toda parte, que é todo-poderoso e onisciente, e simplesmente declarou que "de fato não há nenhum problema" no que se refere a identificação e individualização.

O historiador da filosofia, Frederick Copleston, reconheceu o peso do problema que levantei quanto à coerência do conceito de Deus e reagiu com um tipo diferente de resposta. "Não acho", ele disse, "que se possa, de modo justo, exigir da mente humana que ela seja capaz de espetar Deus com um alfinete num mostruário, como se faz com uma borboleta". De acordo com ele:

Deus se torna uma realidade para a mente humana no movimento pessoal de transcendência. Nesse movimento, Deus aparece como uma meta invisível do movimento. E, considerando-se que o Transcendente não pode ser compreendido e escapa, por assim dizer, de nossa teia conceitual, a dúvida inevitavelmente tende a aumentar. Mas, no movimento de transcendência, a dúvida é imediatamente contrabalançada pela afirmação envolvida no próprio movimento. É no contexto desse movimento pessoal do espírito humano que Deus se torna uma realidade para o homem.

O que penso hoje dos argumentos expostos em God and

Philosophy? Numa carta que escrevi em 2004 para a revista Philosophy Now, declarei que agora considero God and Philosophy uma relíquia histórica. Mas, é claro, não podemos seguir o argumento aonde ele nos leva sem dar aos outros a chance de nos mostrar novas perspectivas que não levamos em conta completamente. E minhas atuais opiniões sobre os temas tratados em God and Philosophy são apresentadas na segunda parte deste livro, "Minha descoberta do Divino".

Uma década depois de God and Philosophy, produzi o The

Presumption of Atheism, publicado nos Estados Unidos como God, Freedom and Immortality. Nesse livro, argumentei que uma discussão sobre a existência de Deus devia começar com a declaração do ateísmo, de que a carga da prova deve recair sobre os teístas. Observei que essa nova abordagem põe toda a questão da existência de Deus sob uma perspectiva inteiramente nova, que ajuda a revelar problemas conceituais do teísmo que poderiam, de outra forma, escapar da atenção e das forças ateístas para começarem do começo absoluto. A palavra "Deus", usada pelos teístas, deve receber um significado que torne teoricamente possível a descrição de um ser real. Sustentei que, em conseqüência dessa nova perspectiva, todo o empreendimento do teísmo parece ainda mais precário do que parecia antes.

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