Deus - Existe - Antony - Flew

Deus - Existe - Antony - Flew

(Parte 7 de 7)

A assunção do ateísmo pode ser justificada pela exigência de uma base, da qual não se pode escapar. Precisamos de uma boa base para acreditarmos que existe um Deus. Se não tivermos essa base, não existe razão suficiente para acreditarmos em Deus, e a única posição razoável que podemos assumir é a de agnósticos ou ateístas negativos — quero dizer "a-teístas", esse "a" funcionando como em "atípico" e "amoral".

Devo salientar aqui o que essa "assunção" não era. Não era a assunção escandalosamente perversa de que a conclusão precisava ser provada, mas sim um princípio processual de decidir sobre qual das partes a carga da prova deveria recair, algo como a assunção de inocência que sustenta a lei inglesa.

Argumentei que em qualquer defesa apologética sistemática o proponente da hipótese de um Deus deve começar, como faria qualquer proponente de uma hipótese existencial, explicando o conceito de Deus a ser usado e, então, informando como é para o objeto correspondente ser identificado. Apenas quando, e se, essas duas tarefas preliminares forem satisfatoriamente cumpridas será sensato começar a distribuir as evidências com que se pretende mostrar que o conceito é apropriado.

Esse argumento suscitou muitas e variadas reações.

Escrevendo como agnóstico, o filósofo inglês Anthony Kenny sustentou que pode haver uma assunção para o agnosticismo, mas não para o ateísmo, positivo ou negativo. Observou que mostrar que sabemos alguma coisa exige mais esforço do que mostrar que não sabemos — isso inclui até o argumento de que o conceito de Deus não é coerente. Mas, ele disse, isso não livra os agnósticos do problema. Um candidato que está fazendo um exame deve ser capaz de justificar a declaração de que não sabe a resposta para uma das perguntas, mas isso não faz com que ele passe no exame.

Kai Nielsen, um ateísta e meu ex-colega de profissão, citou uma crítica que alegava que a postura moralmente superior é para permanecer completamente descomprometida até que razões adequadas sejam produzidas. Então, continuou, disse que eu deveria demonstrar que crentes e céticos têm em comum um conceito de racionalidade com os critérios requeridos para a avaliação dos méritos de suas afirmações divergentes. Acrescentou que sempre haveria "um grande ponto de interrogação marcando minha assunção do ateísmo" se eu não produzisse um conceito de racionalidade universalmente aceito.

O maior desafio ao argumento veio dos Estados Unidos. O logicista modal, Alvin Plantinga, introduziu a idéia de que o teísmo é uma crença básica. Afirmou que a crença em Deus é igual à crença em outras verdades básicas, tais como a crença em outras mentes ou na percepção — ver uma árvore —, ou na lembrança — crença no passado. Em todos esses exemplos, confiamos em nossas faculdades cognitivas, embora não possamos provar a verdade da crença em questão. Do mesmo modo, há pessoas que tomam certas proposições — por exemplo, a existência do mundo —, como básicas, enquanto outras as tomam como derivativas dessas proposições básicas. Os crentes, argumenta-se, tomam a existência de Deus como uma proposição básica.

O filósofo tomista, Ralph Mclnerny, argumentou que acreditar em Deus é natural para os seres humanos por causa da ordem, da disposição e do caráter obediente a leis dos acontecimentos naturais. Tanto é natural, ele prosseguiu, que a idéia de Deus é quase inata, o que me parece um argumento prima facie contra o ateísmo. Então, enquanto Plantinga argumentava que os teístas não tinham de arcar com a carga da prova, Mclnerny insistia em que a carga da prova devia recair sobre os ateístas!

Devo observar aqui que, diferentemente de meus outros argumentos antiteológicos, o argumento a favor da assunção do ateísmo pode ser aceito pelos teístas. Fornecidas as bases adequadas para a crença em Deus, os teístas não cometem nenhum pecado filosófico pelo fato de crerem. A assunção do ateísmo é, na melhor das hipóteses, um ponto de partida metodológico, não uma conclusão ontológica.

Como filósofo profissional, mudei de idéia sobre tópicos polêmicos mais de uma vez. Isso não deve surpreender, naturalmente, considerando-se que sempre acreditei na possibilidade de haver progresso na filosofia e no princípio que me manda seguir o argumento até onde ele possa me levar.

Enquanto lecionava na Universidade Keele, em 1961, escrevi um livro a respeito da Investigação sobre o entendimento humano de Hume, a que dei o título de Hume's Philosophy of Belief. Até então, essa Investigação de Hume, que era geralmente chamada de "primeira", para diferenciá-la de outra dele, a Investigação sobre os princípios da moral, fora tratada como mera miscelânea de ensaios que eram produtos de reflexões tardias. É, hoje, considerada a maior obra de Hume. A respeito de meu livro sobre Hume, Gilbert Ryle disse: "Tenho grande admiração pelo livro, que demonstra sabedoria e paixão. Quase um recorde". E John Passmore comentou: "Qualquer nova discussão sobre o secularismo de Hume terá de começar com Flew".

(Parte 7 de 7)

Comentários