Bioq Clinica - Carboidratos

Bioq Clinica - Carboidratos

(Parte 3 de 4)

O cérebro é totalmente dependente da glicose sangüínea e níveis muito baixos da glicose plas - mática (menos de 20 a 30 mg/dL) provocam dis - funções severas do sistema nervoso central (SNC).

Durante jejum prolongado ou hipoglicemia, os corpos cetônicos são utilizados como fonte de energia. Nestes casos, vários sintomas e sinais são encontrados, tais como: enxaqueca, confusão, letargia e perda de consciência. Estes sinais e sintomas são conhecidos como neuroglicopenia. A restauração da concentração da glicose plasmática, geralmente provoca uma pronta recuperação apesar de uma provável lesão irreversível. O teste oral de tolerância à glicose (TOTG) não é um teste apropriado para avaliar pacientes suspeitos de hipoglicemia.

Paciente. Deve permanecer em jejum por 12-14 horas. Caso seja diabético, não deve usar insulina ou hipoglicemiantes orais antes da coleta.

Amostra. Soro, plasma, LCR e urina. Quando o sangue for colhido sem conservantes e deixado a temperatura ambiente, as enzimas glicolíticas dos eritrócitos, leucócitos, plaquetas e de alguns con- taminantes bacterianos reduzem os níveis de gli- cose na amostra em aproximadamente 5 a 7% por hora (5 a 10 mg/dL). Esta redução torna-se negli-

§ O plasma ou soro for separado em menos de 30 minutos após a coleta.

enzima enolase da glicólise – ou de iodoace- plas ma refrigerado a glicose permanece estável por três dias.

As amostras de LCR estão muitas vezes conta- minadas com bactériais ou outros constituintes celulares e devem ser analisadas imediatamente

Em urinas de 24 h a glicose é preservada pela adição de 5 mL de ácido acético glacial ao frasco coletor antes do início da coleta. O pH final da urina permanece entre 4 e 5, o que inibe a atividade bacteriana. Mesmo com o uso de conser- vante, a urina também deve ser armazenada em refrigerador durante o período de coleta. Amostras de urina mantidas em temperatura ambiente po- dem perder até 40% de seu conteúdo de glicose após 24 horas.

Interferências. Resultados falsamente elevados: paracetamol, ácido acetilsalicílico, ácido ascór- bico, ácido nalidíxico, ácido nicotínico, adrenalina, benzodiazepínicos, cafeína, carbonato de lítio, cimetidina, clonidina, cortisona, dopamina, esteróides anabólicos, estrogênios, etanol, fenitoína, furosemida, levodopa, tiazidas. Resultados falsamente reduzidos: alopurinol, anfetaminas, bloqueadores b-adrenérgicos, clofibrato, fenacitina, fenazopiridina, fenformina, hipoglicemiantes orais, insulina, isoniazida, maconha, nitrazepan e propranolol (em diabéticos).

Métodos. No passado, os métodos empregados para a determinação da glicose baseavam-se na capacidade redutora da mesma. Os oxidantes utilizados eram o cobre ou o íon ferricianeto em meio alcalino reduzidos pela glicose a íon cuproso e íon ferrocianeto, respectivamente. Os métodos mais populares, transformavam os íons cuprosos a óxido cuproso em presença de calor. O desenvol- vimento de cor era conseguido pela redução do fos fomolibdato (Folin-Wu) ou arsenomolibdato

Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações nio. Estes métodos foram abandonados por sua complexidade e sofrerem ação de interferentes.

O-Toluidina. A determinação da glicose pela o-toluidina é a mais específica entre os métodos químicos; entretanto, o seu emprego tornou-se muito restrito depois que esta substância foi classificada como carcinogênica. A o-toluidina é uma amina aromática que condensa com o grupo aldeí- dico da glicose em solução de ácido acético a quente para formar uma mistura em equilíbrio de uma glicosilamina e a correspondente base de

Schiff. Após rearranjos e reações, ocorre o desenvolvimento de cor verde-azulada cuja absorvância é medida em 630 nm. A o-toluidina reage com outras hexoses, como a galactose e a manose. As pentoses, como a xilose, reagem com a o-toluidina para formar cor laranja, com absorvância máxima em 480 nm. O método da o-toluidina sofre interfe-rências da bilirrubina que, em teores elevados, apresenta valores falsamente aumentados de glicose já que pode ser parcialmente convertida no pigmento biliverdina de cor verde. A turvação na solução final como em presença de lipemia, causa resultados falsamente elevados.

Métodos enzimáticos. Empregam enzimas como reativos e são os mais utilizados atualmente em razão da grande especificidade pela glicose.

Eles medem a glicose verdadeira e não os com- postos redutores. São simples e rápidos de executar, além de necessitar pequenos volumes de amostra. Os dois sistemas enzimáticos mais empregados são: glicose oxidase, hexoquinase e glicose desidrogenase.

Glicose oxidase. É altamente específica para a

b-glicose. Em presença do oxigênio, a enzima converte a b-glicose a ácido glicônico e peróxido de oxigênio. Em uma segunda reação, a enzima peroxidase decompõe o peróxido de hidrogênio em água e oxigênio. Este último oxida – em pre- sença da peroxidase – um cromogênio aceptor de oxigênio (como o o-dianosidina) para formar um produto colorido lido fotometricamente. Elevadas concentrações de ácido úrico, bilirrubina ou ácido ascórbico inibem a segunda reação por competição

A concentração de glicose também é determinada por polarografia. Este método emprega um eletrôdo de O2 e glicose oxidase produzindo ácido glicônico e peróxido de hidrogênio a partir da glicose. A catalase desdobra o peróxido de hidro- gênio. A quantidade de O2 consumido é medida pelo eletrôdo de O2 e está diretamente relacionada aos teores de glicose nas amostras.

O método de glicose oxidase foi adaptado para uma grande gama de instrumentos automatizados. No sistema de reativo seco DT Vitros a glicose oxidase está presente em um filme de múltiplas camadas associado a um indicador similar ao empregado pelo método de Trinder. A intensidade da rênica do filme por espectrofotometria de reflexão.

Hexoquinase. O emprego da hexoquinase apre- senta algumas vantagens sobre a glicose oxidase e é adotada em alguns países como o método de referência para a determinação de glicose. Este método consiste de duas reações acopladas: (a) a glicose é fosforilada pelo ATP pela ação da hexo- vertida pela glicose 6-fosfato desidrogenase, na presença de NADP+, em 6-fosfogliconolactona e

NADPH. O NADPH formado é proporcional à quantidade de glicose na amo stra e é medido em 340 nm. Apesar da hexoquinase também fosforilar outras hexoses, esses carboidratos não estão pre- sentes em concentrações suficientemente altas nas amostras para interferir. A hemólise interfere com o sistema hexoquinase pois os eritrócitos contém

Glicose desidrogenase. A glicose desidro-ge- nase catalisa a redução de NAD+, produzindo gliconolactona e NADH que pode ser monitorado em

340 nm. Sofre interferências da D-xilose e da manose, que raramente são encontradas em teores significativos.

Carboidratos

Em adultos, os eritrócitos normais contém hemo-

cromatográficos, foram detectadas sub-frações da hemoglobina A, identificadas como HbA1a, HbA1b e HbA1c e, coletivamente, denominadas hemoglo- hemoglobinas glicosiladas ou

glico -hemoglobinas

). A fração HbA1c constitui, aproximadamente 80% da HbA. As hemoglobinas glicadas são obtidas pela adição espontânea de glicose ao grupo amino livre das proteínas hemoglobínicas por reações não-enzimáticas. Os conte- údos destas sub-frações aumentam com a idade dos eritrócitos. O estudo destas hemoglobinas é realizado, principalmente, pela medida da sub-fração HbAlc em pacientes com diabetes mellitus. Esta avalia- ção indica o controle metabólico do paciente nas 8 a 10 semanas precedentes ao teste, enquanto a glicose sangüínea reflete o controle somente das

24 horas anteriores. A HbA1c é monitorada a cada três ou quatro meses em diabéticos estáveis e, em cada um ou dois meses, em diabéticos com pobre controle glicêmico. Grávidas diabéticas (especi- almente do tipo 1) são avaliadas uma a duas vezes ao mês para um controle mais efetivo. A terapêutica insulínica é ajustada nos pacientes diabéticos se a hemoglobina glicada ultrapassar 10%. Na monitoração de diabéticos, variações de 2% entre duas avaliações, é considerada clinicamente signi- ficante e indicativa de um melhor ou pior controle mento de pacientes diabéticos portadores de h e- moglobinopatias, pois a presença de variantes da hemoglobina provocam redução da meia-vida das hemáciais e, portanto, do tempo de exposição da hemoglobina às variações dos teores de glicose circulante, diminuindo o percentual de hemoglo- bina glicada. Nestes casos é recomendado o acompanhamento destes pacientes pela dosagem da fructosamina.

Paciente. Não necessita jejum para a coleta.

Amostra. Sangue total colhido em tubo contendo EDTA, oxalato de potássio-fluoreto de sódio. O sangue pode ser armazenado em refrigerador por uma semana. Amostras heparinizadas devem ser

Métodos. A hemoglobina glicada é determinada por três categorias de métodos baseados no modo como os componentes glicados e não-glicados são

Microcolunas. A HbAlc é determinada, fundamentalmente, por cromatografia por afinidade.

Neste método, a amostra é aplicada a uma coluna trocadora de íons e os subcomponentes glicados eluídos com um tampão de baixa força iônica. As hemoglobinas restantes são, então, eluídas com tampão de alta força iônica. As frações são quanti- ficadas em espectrofotometria (em 415 nm). Este método é afetado por variações na temperatura, mas apresenta boa precisão. As variantes da he- moglobina como HbF, HbS ou HbC desenvolvem interferência mínima.

Eletroforese. A separação eletroforética da interagir com grupos carregados negativamente.

Valores de referência: estão entre 5 a 8% da

HbA total em indivíduos normais e variam entre 8 a 30% em pacientes com diabetes, dependendo do grau de controle de glicemia.

Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

É o nome genérico de proteínas cetoaminas. É análoga a hemoglobina glicada e com meia-vida ao redor de 2 a 3 semanas, o que a torna de grande utilidade no monitoramento a curto prazo como um índice de controle glicêmico do diabético, particularmente em pacientes portadores de hemo- globinopatias, por não sofrer interferências de

variantes das hemoglobinas. O ácido ascórbico exerce interferência positiva sobre o teste.

O teste é sensível à variações nos teores das proteínas séricas, isto é, pacientes exclusivamente nutridos por via parenteral apresentam nítidas variações na concentração da fructosamina, apesar de glicemia normal estável. Há um aumento de 1,3% da fructosamina plasmática para cada 0,3 g/dL de aumento nos teores de proteinemia. Esta- dos hipoproteinêmicos (albumina sérica <3,0 g/dL) podem produzir resultados falsamente bai- xos para os níveis de fructosamina sérica.

Valores de referência: 1,8 a 2,8 mmol/L.

O glicogênio é sintetizado e armazenado principalmente no fígado e músculo. As doenças do armazenamento são erros inatos raros do metabolismo dos carboidratos provocados pela deficiência ou redução na atividade de

Uma das características deste grupo de doenças é a anormalidade no armazenamento do glicogênio, geralmente em quantidades aumentadas e, as vezes, com estrutura anormal. Pode ocorrer também hipoglicemia, alterações dos lipídios sangüíneos, hiperuricemia e acidose láctica.

A mais comum das doenças do armazenamento do glicogênio é a Cori tipo IV, devido a deficiência da fosforilase quinase. Glicogênio com estrutura normal acumula, fundamentalmente, no fígado e músculo. A doença de von Gierke (Cori tipo I) é provocada pela deficiência de glicose 6-fosfatase; o glicogênio acumulado no fígado, rins e intestino também apresenta estrutura normal. Pode também desenvolver hipoglicemia profunda.

O fígado é o principal local de conversão da galactose em glicose. Três defeitos genéticos que alteram o galactose 4-epimerase. Estes defeitos causam o aumento da galactose sérica e urinária. A galactosemia é uma doença rara (2 para cada

100.0 nascimentos). O defeito mais comum e mais severo é motivado pela deficiência UDP- glicose:galactose 1-fosfato uridiltransferase, que se manifesta no período neonatal ou primeira infância por vômitos acompanhados de hipoglicemia. A deficiência de galactoquinase não se manifesta clinicamente no período neonatal e pode não ser diagnosticada até o desenvolvimento de catarata. Crianças com testes positivos para substâncias redutoras na urina devem ser submetidas à análise destes compostos na urina por cromatografia. Caso forem identificadas, a galactose e a galactose 1-fosfato devem ser medidas no soro. A confirmação do diagnóstico é obtida pela medida das atividades de enzimas eritrocitárias.

Várias condições promovem glicosúria pela presença de substâncias diferentes da glicose na urina.

Intolerância hereditária à frutose. O fígado é o principal sítio de conversão da frutose em glicose. A contendo frutose, geralmente a sacarose. A idade do aparecimento da anormalidade depende do tipo de alimentação e da severidade do defeito. A maioria dos pacientes desenvolvem uma forte aversão à sacarose. O teste de tolerância à frutose é empregado nesta investigação. Pacientes com esta deficiência mostram pronunciada e prolongada redução dos teores de glicose e fosfato após a administração de frutose. Também apresentam frutosúria. A cromatografia urinária confirma a presença de frutose.

Carboidratos

Frutosúria essencial. É uma condição benigna originada pela deficiência de frutoquinase.

Pentosúria essencial. É um erro inato benigno do metabolismo no qual o açúcar L-xilulose é excretado em excesso na urina. Isto se deve a um defeito na NADP- ligada xilitol desidrogenase, uma das enzimas da via de oxidação do ácido glicurônico.

Lactosúria. Não apresenta significância patológica. Encontra-se muitas vezes nos últimos estágios da gravidez e durante a lactação após o parto. Muitas vezes é necessário distinguir a lactosúria da glicosúria.

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