Bioq.Clinica-Lipidios e Lipoproteinas

Bioq.Clinica-Lipidios e Lipoproteinas

(Parte 2 de 4)

Endógeno Endógeno

Fígado LDL

Intestino Delgado

HDL nascente

Colesterol da dieta

AGL + glicerolAGL + glicerol

Lipídios, lipoproteínas e apoproteínas cessitam a hidrólise dos ácidos graxos do glicerol realizada pela enzima lipase geralmente acomp a- nhada por uma protease. O papel da protease ainda não é conhecido nesta reação, mas permite uma

tripsina é a protease mais usada para este propósito. Todos os métodos descritos a seguir apre- são. Existem vários ensaios para a determinação do glicerol liberado pela hidrólise dos triglicerí- dios. Em um deles, o glicerol livre liberado dos triglicerídios pela lipase reage com o ATP em presença de glicerol quinase para produzir glicerol

catalisada pela piruvato quinase para formar ATP e piruvato. O piruvato é enzimaticamente reduzido em presença de NADH pela lactato desidrogenase, sorvância como resultado do consumo de NADH é monitorado em 340 nm e é proporcional a con- centração dos triglicerídios na amostra.

Outro método enzimático comumente usado emprega a enzima L-a-glicerol fosfato oxidase

Em presença de GPO e O2, o glicerol fosfato é oxidado para produzir diidroxiacetona fosfato e peróxido de hidrogênio. O peróxido reage com um cromogênio com desenvolvimento de cor.

O glicerol 3-fosfato produzido na reação catalisada pela glicerol quinase forma um composto colorido – o formazan – proporcional ao teor de triglicerídios. O glicerol 3-fosfato é inicialmente oxidado pelo NAD+ em reação catalisada pela glicerol 3-fosfato desidrogenase feniltetrazolium pela ação da diaforase para produzir o corante formazan. Um fator importante que afeta a exatidão da medida dos triglicerídios é a presença de glicerol livre endógeno no soro. Na maioria das amostras, o glicerol endógeno contribui com 10 a 20 mg/dL sobre os valores obtidos.

Valores de referência para os triglicerídios (mg/dL)

Desejável: <200 Limítrofes: 200 a 499

Elevado 400 a 10.0 Alto risco >10.0

Bibliografia consultada

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Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações COLESTEROL HDL E LDL exercem importante papel na concentração do colesterol nos tecidos. As HDL também atuam no retorno do colesterol dos tecidos periféricos para o fígado, onde é removido na forma de ácidos biliares em processo denominado “transporte reverso do colesterol”. As HDL tem ação protetora contra a doença arterial coronária. Foi demons- trado que a prevalência da enfermidade coronariana é mu ito maior em indivíduos com níveis redu- zidos de HDL, em relação aos indivíduos com teores elevados. Vários estudos clínicos e epidimiológicos confirmaram a relação inversa e inde- pendente entre a enfermidade coronariana e a

HDL. Devido a impossibilidade da determinação ção (método de referência) realiza-se a medida do colesterol-HDL no plasma e soro. A maioria dos métodos para esta avaliação está baseada na sio, fosfotungstato ou polietileno glicol. O teor de colesterol no sobrenadante é determinado pelos

métodos correntes. Os níveis de colesterol HDL são dependentes do sexo e idade.

Valores “cut off” para o risco coronariano baseado nos níveis do colesterol HDL

Risco coronariano positivo < 35 Risco coronariano negativo > 60 nemia familiar. As drogas incluem ácido nicotí- nico, ciclofenil, cimetidina, estrogênios, etanol, fenitoína, hidrocarbonetos clorados, lovastatina e terbutalina.

Valores reduzidos. Arteriosclerose, colestase, coronariopatia, diabetes mellitus, doença de Tan- gier, doença renal, hepatopatia, hipercolesterole- mia, hiperlipoproteinemia tipo IV, hipertrigliceridemia, hipolipoproteinemia, após infarto do mio- cárdio, fumo, obesidade, sedentarismo, esteróides, androgênios, progestágenos, anabolizantes, tiazí- dicos, bloqueadores b-adrenérgicos, neomicina, anti-hipertensivo, infecções bacterianas e infecções virais.

É possível a avaliação do risco coronariano por meio do sub-fracionamento da HDL através da eletroforese de gel de poliacrilamida, que podem ser identificadas as sub-frações 2a, 2b e 3a (H5,

H4, H3) correspondentes a fração HDL2, que apresentam corelação negativa com o risco coronariano e, as sub-frações 3b 3c (H2,

H1),correspondentes ao HDL3, mais densas e menores, que possuem correlação de alto risco

As lipoproteínas de baixa densidade (LDL) são formadas, principalmente, ou talvez em sua totalidade, na circulação a partir das VLDL e, prova- velmente, da degradação dos quilomícrons. É a partícula lipídica mais aterogênica no sangue, pois o colesterol LDL constitui ao redor de dois terços do colesterol total plasmático. Os níveis elevados de LDL estão diretamente associados no prognóstico de risco de aterosclerose coronariana.

O colesterol LDL é determinado pelo emprego de anti-soro policlonal enzimático em partículas de látex, removendo assim as HDL e VLDL da amostra.

Os valores de colesterol-LDL são também obtidos em mg/dL por cálculo pela fórmula de

Friedewald:

Obtém-se bons resultados com a aplicação

Lipídios, lipoproteínas e apoproteínas Valores de referência para o colesterol LDL

Desejável: <130

Limítrofe: 130 a 160 Elevado: >160 mg/dL

Valores aumentados. Anorexia nervosa, diabetes mélito, disglobulinemias, doença de

Cushing, gravidez, hepatopatia, hiperlipoproteinemia do tipo I, insuficiência renal e porfiria. As drogas incluem androgênios, anticoncepcionais orais, catecolaminas, corticosteróides glicogênicos e diuréticos.

Valores reduzidos. Abetalipoproteinemia, arte- riosclerose, doença articular inflamatória, doença pulmonar, estresse, hiperlipoproteinemia tipo I, hipertireoidismo, hipoalbuminemia, mieloma múltiplo e síndrome de Reye. As drogas incluem ácido nicotínico, clofibrato, colestiramina, estro- gênios, neomicina, probucol e tiroxina.

Como um modo de visualizar a influência comb i- nada de fatores de risco de doença coronariana, emprega-se a divisão do colesterol total pelo co-

dos diretamente como índice de risco coronariano:

Colesterol HDL (mg/ dL)

A analogia foi estabelecida ao risco para homens e mulheres de acordo com a tabela:

Risco Homens Mulheres

Metade da média 3,43 3,27 Média 4,97 4,4

2 x média 9,5 7,05 3 x média 23,39 1,04

Para a aplicação da fórmula, o paciente não pode estar padecendo de doenças que alteram os níveis de lipoproteínas plasmáticas (enfermidade hepática, após enfarto do miocárdio etc.)

Também é possível o fracionamento da LDL pela eletroforese em gel de poliacrilamida cujas sub-frações que apresentam correlações positivas com o risco coronariano, especialmente quando predominam as sub-frações L2 e L1 que são de tamanho pequeno e mais densas. Em indivíduos normais predomina a sub-fração LDL3 maior e homogênea.

Esta relação associa o colesterol total, colesterol HDL e triglicerídios (ver cálculo do colesterol

Risco = Colesterol LDL (mg/ dL)

O risco coronariano obtido pela fórmula, para homens e mulheres, é mostrado a seguir:

Risco Homens Mulheres

Metade da média 1,0 1,47 Média 3,5 3,2

2 x Média 6,25 5,03 3 x Média 7,9 6,14

Bibliografia consultada

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Lipídios, lipoproteínas e apoproteínas

s lipoproteínas são partículas esféricas que transportam lipídios apolares (insolúveis em

água) em seu núcleo. Estes complexos são cons - tituídos por quantidades variáveis de colesterol e nas (apoproteínas) sendo solúveis no plasma devido à natureza hidrófila da parte protéica.

A classificação das lipoproteínas está funda- mentada nas propriedades físico-químicas de cada grupo, que diferem entre si na composição lipídica e protéica. As lipoproteínas plasmáticas em humanos normais são:

Quilomícrons. É a principal forma de transporte dos triglicerídios da dieta (exógeno) até os tecidos.

tam triglicerídios de origem endógena desde o fígado e, em menor quantidade, do intestino del- gado para os tecidos.

Lipoproteínas de densidade baixa (LDL, low density lipoproteins). Ricas em colesterol que são

Lipoproteínas de alta densidade (HDL, high density lipoproteins). Provavelmente atuam na ca- ptação do colesterol ao nível celular, e condu-

Tabela 10.1. Classificação, propriedades e composição das lipoproteínas humanas. Parâmetro Quilomícron VLDL LDL HDL

>70 25 - 70 19,6 - 2,7 4 - 10 Mobilidade eletroforética Origem Pré-b b a

A-I 4,2 Traços - 2 B-100 Traços 36,9 98 Traços

C-I, C-I, C-II 6 49,9 Traços 5 - 1 E-I, E-II, E-IV - 13 Traços 1 - 2

D - - - Traços Local de síntese Intestino Intestino, fígado Intravascular Intestino, fígado

Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

Os componentes protéicos das lipoproteínas, as apoproteínas, são uma família complexa de polipeptídios que promovem e controlam o transporte dos lipídios no plasma e sua captação pelos tecidos. São divididas em vários grupos, cujos membros mais importantes são:

ApoA. Sintetizada no fígado e intestino. Está inicialmente presente nos quilomícrons na linfa, mas é rapidamente transferida para as HDL.

ApoB. Está presente no plasma em duas formas:

apoB100 e apoB48. A apoB100 é o componente protéico das LDL e está também presente nos quilomícrons e

VLDL. A apoB48 é somente encontrada nos quilomícrons. A apoB100 é reconhecida por receptores específicos nos tecidos periféricos.

ApoC. Esta família de três proteínas (apoC-I, apoC-I e apoC-I) é sintetizada no fígado e incorporada pelas HDL.

ApoE. É sintetizada no fígado, incorporada ao HDL e transferida, na circulação, para os quilomícrons e

VLDL. É, provavelmente, a principal apoproteína envolvida na captação hepática dos quilomícrons remanescentes; liga-se aos receptores apoB nos tecidos.

Apo(a). Está presente em quantidades equimoleculares a apoB100 nas lipoproteínas A, Lp(a). Tem elevado conteúdo de carboidratos e uma seqüência de aminoáci-

A estrutura das partículas lipoprotéicas é g e- ralmente formada por um núcleo hidrofóbico de ésteres de colesterol e triglicerídios. A camada externa hidrófila é constituída por compostos p o- lares tais como, proteínas solúveis, porção hidrófila dos fosfolipídios e colesterol livre com seu grupo hidroxila (posição 3) direcionado para a periferia do complexo. As concentrações dos lipídios plasmáticos são índices estáticos do metabolismo lipoprotéico utilizados no estudo do risco cardiovascular. O conhecimento dos fatores que determinam os n í- veis lipídicos no sangue é fundamental para a compreensão da patofisiologia das hiperlipopro- teínemias. Estes fatores incluem processos anabólicos como a absorção e síntese, junto a processos catabólicos como a mobilização, degradação e excreção.

Quatro enzimas de relevância em desordens clínicas são descritas:

lecitina para o colesterol, formando o éster de colesterol. No plasma, esta reação ocorre provavelmente nas HDL e pode ser estimulada pela apoA-I.

Lipase lipoprotéica. Está ligada a superfície endotelial dos capilares sangüíneos em vários tecidos extra-hepáticos e atua na hidrólise dos triglicerídios presentes nos quilomícrons e nas VLDL, formando glicerol e ácidos graxos. Sua atividade aumenta após as refeições, parcialmente como resultado da ativação pela apoC-I.

Lipase hepática. Sua atividade é semelhante a da lipase lipoprotéica.

Lipase hormônio-sensível. Presente nas células do tecido adiposo; controla a liberação de ácidos graxos do tecido adiposo para o plasma. É ativada pelas cateco- laminas, hormônio de crescimento e glicocorticóides e é inibida pela glicose e pela insulina.

A descrição abaixo do metabolismo das lipoproteínas e apolipoproteínas é uma visão simplicada que emprega um mínimo de detalhes para atender as finalidades deste trabalho.

Metabolismo dos quilomícrons. Após uma refeição contendo gorduras, os quilomícrons são formados na mucosa intestinal. Os ácidos graxos e o colesterol são reesterificados no retículo endoplasmático para formar triglicerídios e ésteres de colesterol apolares. Estes compostos são “emp acotados” com a apoB48, várias

Lipídios, lipoproteínas e apoproteínas e atingem a circulação sistêmica via ducto torácico. As apoA são transferidas para as HDL e, simultaneamente, adquirem apoC e apoE das HDL. Os quilomícrons assim modificados, interagem com a enzima lipase lipoprotéica resultando na rápida hidrólise de grande parte dos triglicerídios que compõem as partículas. Com a redução do tamanho das partículas, os componentes mais hidrofílicos (apoC, colesterol não-esterificado e fosfolipídios) são transferidos para as HDL. Os quilomícrons remanescentes pobres em triglicerídios, são captados pelo fígado, onde são catabolizados.

Metabolismo das VLDL. Os triglicerídios são continuamente sintetizados no fígado e excretados na forma de VLDL (“endógena”). Em menor extensão a mucosa intestinal também secreta VLDL (“exógena”). A síntese hepática aumenta quando ocorre elevação na síntese dos triglicerídios. Quando inicialmente produzida, as VLDL consistem principalmente de triglicerídios e algum colesterol não- esterificado, com apoB100 e menor quantidade de apoE. A apoC-I é então adquirida, principalmente, das HDL, e os triglicerídios são removidos do “núcleo” das VLDL de maneira análoga, aquela dos quilomícrons. As partículas residuais são conhecidas como “VLDL remanescentes” (ou IDL), que são rapidamente convertidas em LDL ou removidas da circulação pelo fígado.

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