dissertação vale

dissertação vale

(Parte 1 de 7)

Rodrigo José Brasil Silva

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Comunicação, em 2012. Orientadora: Profa. Dra. Daisi Vogel

Florianópolis 2012

Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor, através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.

1. Jornalismo. 2. Crítica musical3. Identidade

Silva, Rodrigo José Brasil Mediações culturais, identidade nacional e samba na Revista da Música Popular (1954-1956) [dissertação] / Rodrigo José Brasil Silva ; orientadora, Profa. Dra. Daisi Vogel - Florianópolis, SC, 2012. 256 p. ; 21cm Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão. Programa de PósGraduação em Jornalismo. Inclui referências nacional.. 4. Revista da Música Popular.. 5. Jornalismo.. I. Vogel, Profa. Dra. Daisi . I. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Jornalismo. I. Título.

Rodrigo José Brasil Silva

Esta dissertação foi julgada adequada para obtenção do Título de Mstre em

Comunicação e aprovada em sua forma final pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.

Local, 2 de outubro de 2012.

Prof. x, Dr. Coordenador do Curso

A meu Pai, que tudo permeia.

A minha mãe, Teresa Brasil, por cuidar de mim no dia a dia, e para minha família. Para Nina (in memorian).

“Quem inventou o Brasil? / Foi seu Cabral / Foi seu Cabral / No dia 21 de abril / Dois meses depois do Carnaval.” (História do Brasil, Lamartine Babo)

“Certas tribos africanas, quando defrontam um desconhecido, não lhe perguntam quem é nem de onde vem. A frase que os acolhe é ‘o que é que você dança?’ E não sei se assim fazendo não são mais profundos que os civilizados, pois é o ritmo que mais e melhor define um ser, que melhor identifica um povo.” (Trecho de Carmen, por Pedro Bloch, Revista da Música Popular)

"A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil." (Joaquim Nabuco, Minha Formação)

“Mudaram toda sua estrutura / te impuseram outra cultura / e você nem percebeu.” (Nelson Sargento, Agoniza mas não morre)

Esta dissertação procura analisar o modo como a imprensa – mais especificamente a crítica musical desenvolvida pela Revista da Música Popular, publicada entre 1954 e 1956 – contribuiu para a construção de uma identidade nacional para o Brasil a partir do samba. Tendo como referência teórico-metodológica as teorias do imaginário e os estudos culturais, busca-se compreender como o jornalismo intervém na construção do imaginário e na constituição de novas simbologias e identidades culturais. A pesquisa consiste em identificar nos textos da publicação mapas e fragmentos significativos que auxiliem na compreensão dessa grande trama cultural que envolveu a consolidação de uma identidade nacional a partir do samba, verificando a dinâmica da inter-relação que se estabelece entre os diversos atores sociais e vetores de força envolvidos, sejam políticos, econômicos, sociais. Procura-se destacar a importância da mediação da crítica musical nos embates simbólicos que envolveram a legitimação de narrativas para a identidade musical brasileira, atentando para a tensão que se formou entre os valores estéticos e determinantes político-ideológicos. Palavras-chave: 1. Crítica musical. 2. Identidade nacional. 3. Revista da Música Popular. 4. Samba. 5. Jornalismo.

This dissertation aims to analyse the way the press – more specifically the musical criticism developed by the magazine Revista da Música Popular, published between 1954 e 1956 – has contributed to the building of a Brazilian national identity related to the samba. Having as theoretical and methodical references the theories of the imaginary and the cultural studies, it intends to understand how the journalism interferes in the construction of the imaginary and in the constitution of new simbologies and national identities. This research consists in identify in the texts of the magazine maps and meaningful fragments that could help the comprehension of this huge cultural plot about the consolidation of a national identity related to the samba, verifying the dinamic of the inter-relations established between the many social actors and the vectors of influence connected to them. It intends to stress the importance of the mediation of the musical criticism in the symbolic confronts connected to the legitimation of the narratives about a Brazilian musical identity, noticing the tension that forms between the aesthetic values and the political and ideological determinations. Keywords: 1. Musical criticism. 2. National identity. 3. Revista da Música Popular. 4. Samba. 5. Journalism.

1 INTRODUÇÃO

A música popular brasileira é um manancial de memórias vividas e imaginadas a partir do qual foram construídas narrativas diversas sobre a formação de uma tradição que pudesse caracterizar uma identidade nacional singular para nosso País, em busca de consolidar nossa emancipação política e cultural. Corroborar a invenção de uma “era de ouro” para a música popular brasileira foi o expediente empregado por um grupo de intelectuais e artistas que se reuniu em torno da Revista da Música Popular (1954-1956) com o propósito de proteger nossa cultura de uma suposta ameaça da influência da música estrangeira propagada pelas rádios e gravadoras. Este passado utópico e idílico corresponderia ao período entre 1930 e 1945, no qual a música brasileira manteria uma suposta “pureza”, antes de ser submetida ao processo de modernização que alteraria radicalmente os modos de produção, distribuição e consumo dos bens culturais. Nesta fase, o samba teria adquirido padrões paradigmáticos que serviriam de referência para as gerações futuras, e os músicos teriam tido oportunidade de se profissionalizar. Os críticos da RMP defendiam que a música brasileira “pura” e “autêntica” estava vinculada às raízes do folclore e da cultura popular, e remontaria a um período anterior à difusão de gêneros musicais estrangeiros pelas rádios e pela indústria fonográfica. Segundo o artigo Parabéns para você, por Brasílio Itiberê, uma carta endereçada a Lúcio Rangel, a música folclórica seria a única “pura”, enquanto a música erudita e a música popular estariam em crise1:

Quer que lhe diga com franqueza? O folclore autêntico, nas suas formas originais, é a única coisa pura que há na face da terra. A música erudita engasgou num ‘cul-de-sac’ e se tornou uma exibição circense. Os volantins estão no picadeiro. Há mágicos, homens-cobra, gigantes e mulheres barbadas. Uma hipertrofia auditiva inflaciona a charanga, o esnobismo narcotiza o respeitável público e passa atestado de gênio aos velhos dinossauros.

Imbuídos de uma postura nacionalista semelhante à dos românticos ou dos modernistas, os chamados “folcloristas urbanos”2 fizeram uma verdadeira saga em busca de elementos da cultura popular que pudessem servir de fonte para a legitimação de uma

1 ITIBERÊ, Brasílio. COLEÇÃO RMP, jun. 1956, p. 676.

cultura brasileira “autêntica”, buscando instaurar assim nossa independência cultural e livrar-nos das heranças coloniais e da dependência cultural em relação aos países estrangeiros. A singularidade cultural, antes vislumbrada no exótico e no distante pelo Romantismo (idealização do índio e da natureza, por exemplo), era, naquele contexto, projetada no folclore e na cultura popular, que possuíam traços característicos diferenciadores das manifestações artísticas estrangeiras e eruditas. De acordo com Elizabeth Travassos, “o antigo, o distante e o popular eram todos igualados” em busca de uma “descoberta do povo”, expressão cunhada por Peter Burke para referir-se ao despertar dos intelectuais para a existência de uma outra cultura, guardada pelo povo.3 De acordo com Terry Eagleton, “a origem da ideia de cultura como um modo de vida característico está ligada a um pendor romântico anticolonialista por sociedades ‘exóticas’ subjugadas”. Segundo ele, o modernismo se apropriou do primitivo para fazer uma “vaga crítica da racionalidade do iluminismo”:4

O exotismo ressurgirá no século X nos aspectos primitivistas do modernismo, um primitivismo que segue de mãos dadas com o crescimento da moderna antropologia cultural. Ele aflorará bem mais tarde, dessa vez numa roupagem pós-moderna, numa romantização da cultura popular, que agora assume o papel expressivo, espontâneo e quase utópico que tinham desempenhado anteriormente as culturas “primitivas”.

No início do século X, o empenho por formar uma identidade cultural brasileira autônoma foi um parâmetro preponderante para que os nossos intelectuais distinguissem quais manifestações artísticas mereciam destaque. Conforme aponta Antonio Candido , os critérios valorativos dos críticos das diversas artes estavam diretamente vinculados a esse empenho nacionalista. Em sua pesquisa da cultura popular e do folclore, os folcloristas urbanos realizaram um trabalho importante de pesquisa da cultura popular urbana, em contato direto com suas fontes, rompendo barreiras sociais e colaborando para divulgar artistas até então pouco conhecidos pelo público em geral, em especial

2 O termo parece ter sido cunhado por Enor Paiano, na dissertação O Berimbau e o Som Universal. Lutas Culturais e Indústria Fonográfica nos anos 60, de 1994.

3 TRAVASSOS, Elizabeth. 1997. Os Mandarins Milagrosos: Arte e Etnografia em Mário de Andrade e Béla Bartók. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura /Funarte/Jorge Zahar Editor, p. 1.

4 EAGLETON, Terry. A idéia de cultura. São Paulo: Editora Unesp, 2005, p. 24.

pela classe média e alta. Sua atuação contribuiu para que manifestações culturais ligadas às nossas raízes, como o samba, fossem valorizadas e ganhassem projeção. Quando a Revista da Música Popular foi lançada, na década de 1950, o samba já estava consagrado como a música brasileira por excelência e um dos símbolos nacionais.5 O gênero musical ganhara projeção ao ser apropriado como ferramenta ideológica pelo Estado Novo (1937-1945) e como produto pela indústria cultural emergente – embora esta só viesse a se mostrar realmente configurada no Brasil após os anos 1960, como aponta Renato Ortiz.6 O desafio que se impunha aos colaboradores da RMP era consolidar uma tradição musical que havia se formado nas décadas anteriores, bem como protegê-la de uma série de ameaças – reais e imaginárias – relacionadas ao próprio processo vertiginoso de modernização e industrialização, que estaria colocando em risco o modelo de produção cultural anterior, vinculado ao folclore e às raízes da cultura popular. Conforme Hermano Vianna, “para muitos folcloristas e defensores da cultura popular, o popular não inclui, nem deve incluir, manifestações de cultura popular industrializada, principalmente aquela produzida desde o início do século nos EUA”.7 O engajamento nacionalista desta geração de intelectuais pode parecer ingênuo e superficial aos estudiosos contemporâneos, pois termos como música “pura” ou “legitimamente brasileira” foram problematizados e atualmente não se sustentam mais. Parece descabido falar em arte “pura” e alheia à influência estrangeira, já que as fronteiras são permeáveis e as culturas sempre estiveram sujeitas à influência umas das outras. Sabemos que mesmo músicos precursores de nossa tradição musical, como Pixinguinha, que iniciaram suas carreiras antes da expansão do rádio e das gravadoras, numa época em que não havia tanta facilidade de circulação da arte, viajaram para o exterior e tiveram oportunidade de travar contato com outras culturas. De fato, os conceitos de “nação” e “tradição musical” nunca foram unívocos; sempre envolveram negociações e embates entre os diversos agentes culturais, que manifestam diferentes visões daquilo que caracterizaria a cultura nacional. De acordo com Benedict

5 Para Marcos Napolitano, “a partir dos anos 1930, o samba deixou de ser apenas um evento da cultura popular afro-brasileira ou um gênero musical entre outros e passou a ‘significar’ a própria idéia de brasilidade” (2007, p. 23). (...) “Ao final do Estado Novo, em que pese a permanência de um olhar desqualificante por parte dos segmentos mais elitistas, o samba estava virtualmente consagrado como o gênero nacional por excelência, tinha seu lugar no rádio e era assumido como música nacional-popular. (2007, p. 57).

6 ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1994. 7 VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar - Ed. UFRJ, 1995, p. 84.

Anderson8, uma identidade nacional sempre envolve uma construção do imaginário – uma nação é imaginada no sentido de que é limitada, soberana, e existe uma suposta comunhão entre seus membros. Assim, a cultura torna-se um instrumento para criar um sentimento de coesão nacional. O autor defende que países são comunidades imaginadas, construídas a partir de uma partilha comum e coletiva de sentimentos e ideias que fazem paralelo com estratégias de unificação usadas pela religião e pelas dinastias. Compreende-se que as nações não possuem uma existência objetiva, mas são construções subjetivas, portanto imaginadas, relacionadas a um momento histórico e a uma série de interesses. Os Estados modernos foram constituídos por determinações políticas, históricas, sociais, geográficas, mas, sobretudo, pela mobilização de diversos atores sociais para desenvolver uma representação cultural e simbólica forte e abrangente, com poder para gerar um sentimento de identidade e um vínculo de lealdade. O samba jamais existiu como algo acabado, mas sofreu modificações no decorrer do tempo, resultantes de um longo processo de formação que envolveu a interação de culturas e gêneros musicais diversos. De fato, jamais houve um samba autêntico, um produto acabado, pois o gênero musical estava numa fase de formação e desenvolvimento (o que é, aliás, um processo contínuo). Conforme Renato Ortiz, no Brasil do começo do século 20, gêneros musicais populares, como o samba, ainda estavam em processo de criação e transformação – diferentemente do que ocorreu na Europa, onde a música folclórica estava consolidada e era descaracterizada pela indústria cultural. Segundo o autor:9

O folclorista europeu lutava para preservar nos museus a beleza morta de uma cultura popular em desaparecimento. Nosso dilema era outro. A tradição existente, valorizada pela compreensão romântica, era simultaneamente rica e ameaçadora. Sua riqueza consistia em apontar para uma dimensão distinta da racionalidade das sociedades industriais. Mas como o sonho latino-americano encontrava-se ancorado na ideia de modernização, o tradicional se descobre como traço perturbador da ordem almejada. A cultura popular é portanto

8 ANDERSON, Benedict R. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 32.

9 ORTIZ, Renato. Cultura brasileira & identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 2.

força e obstáculo. Força porque o elemento definidor da identidade passa necessariamente por ela; obstáculo, pois sua presença nos afasta do ideal imaginado.

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