Organização hospitalar

Organização hospitalar

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Professor Gerson de Souza - enf.gerson@hotmail.com

1. HISTÓRICO

O termo Hospital tem sua origem no Latim – hospitale, adjetivo derivado de hospes (hóspede, viajante, estrangeiro), significando aquele que dá o agasalho ou que hospeda. Do primitivo latim, originaram-se os termos hospital e ospedale, aceitos em diversos países. Entretanto, nos primórdios da era cristã, a terminologia mais utilizada relacionava-se com o grego latinizado, salientando-se:Nosodochium: lugar para receber doentes. Ptochotrophium: asilo para pobres.

Poedotrophium: asilo para crianças. Xenotrophium: asilo e refúgio para viajantes estrangeiros. Gynetrophium: asilo para velhos. Hospitum: lugar que recebia enfermos incuráveis ou insanos.

As origens do hospital remontam à idade antiga, mistificada pelas lendas ou mitos dos povos que atribuíam à doença um castigo dos deuses. Os gregos construíram hospital templo que consistia em amplo edifício, segundo o modelo arquitetônico da época, sendo um ambiente místico e de superstições.

A milenar Índia, no reinado do rei Asaka, em

226 a.C., construiu hospitais, segundo registros encontrados numa rocha do país.

Outros registros comprovam a existência de hospitais no Ceilão, em 437 A.C. Todavia, somente a partir da era cristã, o hospital passou a ser caracterizado como entidade assistencial para doentes, pobres e peregrinos, fundamentada nos princípios da proteção e amor ao próximo.

O que caracterizava os primeiros hospitais cristãos era a espiritualidade, a oração e os ofícios de religiosos que dedicavam suas vidas à assistência aos moribundos. Essa feição religiosa das organizações hospitalares acentuou-se entre os séculos XII a XVI, nos mosteiros, onde os frades, monges e outros religiosos utilizavam-se da prática médica fora dos conventos, atendendo os chamados dos enfermos.

A partir do Concílio de Viena, em 1312, o tratamento dos enfermos passou a ser exercido por leigos, competindo aos religiosos o direito da assistência espiritual. Assim, cresceram e se desenvolveram as instituições hospitalares entre os povos que gradativamente foram libertando-se da igreja institucional, apesar da forte influência religiosa, em virtude de sua origem.

No Brasil, o governo federal, através do Decreto n.º

37.773, de 18 de agosto de 1955,publicado no Diário

Oficial da União, em 2 de agosto do mesmo ano, criou uma comissão para elaborar anteprojeto da lei orgânica de assistência médico-hospitalar. Na época, o hospital foi conceituado como uma instituição destinada a internar, para diagnóstico e tratamento, pessoas que necessitam de assistência de médicos e cuidados constantes de enfermagem.

Em 1977, é instituída a Portaria do Ministério da Saúde

Nº 400 que aprova normas e padrões de construções e instalações de serviços de saúde para hospital geral, de pequeno e médio porte. Em 1978, o Programa de

Estudos Avançados em Administração Hospitalar e

Sistemas de Saúde da Fundação Getúlio Vargas de

São Paulo (PROHASA) elaborou um Manual de

Organização e Procedimentos Hospitalares, cujo objetivo era difundir para os estabelecimentos, públicos e privados de pequeno, médio ou grande porte um documento básico que normatiza, simplifica e aperfeiçoa a organização interna dessas instituições.

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Assim, para Mac Eachern, pioneiro da moderna administração hospitalar, o hospital é a representação do direito inalienável que o homem tem de ter saúde e o reconhecimento formal, pela comunidade, de sua responsabilidade de prover meios para mantê-lo são ou restaurar-lhe a saúde perdida.

O Dr. John S Billings, na abertura do Hospital

Johns Hopkins, de Baltimore, definiu o hospital como: [...] “organismo vivo, constituído de diferentes partes, tendo funções diversas, mas todas na devida proporção, relacionados entre si e no conjunto, para produzir os resultados desejados”.

De todas as empresas modernas, nenhuma é mais complexa que o hospital. Como objetivo fundamental, tem ele um simples propósito:

receber o corpo humano quando, por alguma razão, se tornou doente ou ferido, e cuidar dele de modo a restaurá-lo ao normal, ou tão próximo quanto possível ao normal.

O hospital, por sua vez, tem acompanhado o avanço da tecnologia médica e passou a considerar o ser paciente, não mais como matéria-prima para produzir serviços de saúde, mas sob o prisma social e econômico do indivíduo em relação à comunidade. Assim, o hospital é a casa em que o hóspede é pessoa especial, um membro para o qual a comunidade tem deveres, inclusive o de promover a sua completa reintegração social mais do que a recuperação somática, psíquica ou psicossomática.

Funções do Hospital

As funções do hospital evoluíram com sua própria história, deixando de ser um centro de diagnóstico e tratamento da doença, para assumir uma postura mais complexa no seio da comunidade.

Atualmente, lhe são confiadas funções básicas, de acordo com a Comissão de Peritos em Assistência Médica da Organização Mundial de Saúde. Em reunião realizada em Genebra, no período de 18 a 23 de junho de 1956, a comissão definiu hospital como sendo:

“Uma parte integral de uma organização médica e social, cuja função é prover completa assistência de saúde à população, curativa e preventiva, e cujos serviços de ambulatório atingem até a família e seu meio ambiente. É também, um centro de ensino por excelência, bem como à pesquisa biossocial”.

A citada comissão também discutiu as funções do hospital geral e sentiu que este não poderia limitar suas atividades à esfera restaurativa, devendo, tanto quanto possível, organizar-se no sentido de atender as necessidades preventivas, de ensino e de pesquisa. As funções do hospital padronizadas pela comissão foram:PreventivaSupervisão da gravidez normal e nascimento da criança. Supervisão do crescimento normal da criança. Controle das doenças transmissíveis. Educação sanitária.

RestaurativaDiagnóstico, ambulatório e internação. Tratamento da doença:

curativa e paliativa, envolvendo os procedimentos médicos, cirúrgicos e especiais. Reabilitação: física, mental e social. Cuidados de emergência: acidentes e doenças (mal súbito).

Ensino* Formação de técnicos de nível médio e graduação médica/paramédica.

* Pós-graduação: especialização a praticantes em geral.

* Interessados em medicina social. Outras profissões correlatas.

PesquisaAspectos sociais, psicológicos e físicos da saúde e da doença.

Práticas hospitalares, técnicas e administrativas.

Classificação dos Hospitais

A classificação hospitalar supõe uma série de requisitos que tem por objetivo medir o desempenho em termos de serviços prestados, com base em padrões preestabelecidos pelo Ministério da Saúde, cuja finalidade é estimular a melhoria do atendimento prestado ao paciente, elevando o padrão das instituições.

Para a classificação dos hospitais, utilizam-se como parâmetros de avaliação, os instrumentos elaborados pela coordenação de assistência médica do Ministério da Saúde, com base nos critérios baixados pelo Conselho Nacional de Classificação Hospitalar.

A classificação dos hospitais obedece a uma série de critérios. É impossível relacionar todos os critérios neste trabalho. Pode-se, porém, apresentar alguns aspectos adotados, seguindo o exposto no Anteprojeto da Lei Orgânica de Assistência Hospitalar, de 1964, que define assistência hospitalar como aquela que tem por base o hospital e a instituição para-hospitalar e que concorre para a criação de completo estado de bem-estar físico, mental e social do indivíduo. Portanto, a assistência hospitalar pode ser classificada da seguinte forma: Geral: é aquela prestada por hospitais gerais (que atendem a muitas enfermidades). Especializada: é aquela prestada por hospitais especializados, como por exemplo, tuberculose, doenças mentais, câncer, etc.

Outras formas de classificação indicadas pelo anteprojeto da Lei Orgânica referida aos hospitais são:

a) Nível de competência (nível de serviços médicos): * Hospital primário: profilaxia, prevenção, clínica básica.

* Hospital secundário: básico, sem recursos avançados.

* Hospital terciário: nível tecnológico desenvolvido. À medida que aumenta o nível de serviços médicos, aumentam o nível de capacitação dos recursos humanos e a sofisticação tecnológica dos equipamentos.

b) Hospital oficial: o provimento cabe direta ou indiretamente à administração pública, podendo ser:

• Administração central: o hospital é mantido por órgãos da administração centralizada federal, estadual e municipal.

• Administração descentralizada ou paraestatal: o hospital é mantido por órgãos da administração descentralizada federal, estadual ou municipal, pelas sociedades de economia mista ou por fundação.

Hospital particular: mantido por instituições particulares ou pessoa jurídica de direito privado. Pode ser: Hospital lucrativo: objetiva o lucro da empresa compensando o emprego do capital com distribuição de dividendos.

Hospital não lucrativo: não objetiva o lucro, não remunera os administradores (as pessoas jurídicas), não distribui benefícios a qualquer título. Apenas aplica integralmente os recursos na manutenção, que tenha idênticos objetivos sociais.

Hospital filantrópico: é o hospital particular não lucrativo que, de acordo com o Decreto n.º 1840, de 20 de julho de 1973, proporciona assistência gratuita a um quinto do total de seus serviços. Apresenta ainda o seguinte: “não concebe remuneração, gratificação, vantagem ou benefício de qualquer espécie e a qualquer título, a dirigentes superiores, diretores, sócio, irmãos ou outras pessoas, salvo aquelas com as quais mantém vínculos legais de empregador.

Hospital beneficente: é o hospital particular não lucrativo, cuja finalidade é prestar assistência hospitalar a um grupo específico de pessoas a respectivos dependentes que contribuem como associados, cujos atos de constituição especifiquem sua clientela. Não é permitida a distribuição de dividendos, devendo seus recursos financeiros ser aplicados em benefício da própria instituição.

Tempo de permanência do paciente: Hospital de crônicos: é aquele que se destina a prestar assistência a pacientes, cujo quadro clínico se tenha estabilizado. Hospital de longa permanência: é aquele cuja permanência é prolongada por moléstia grave ou de prognóstico negativo, tendo geralmente uma média de sessenta dias. É o caso dos hospitais de psiquiatria, tisiologia e outros com características semelhantes. Hospital de agudos ou de curta permanência: é aquele cuja permanência em média não ultrapassa a trinta dias. É o caso das situações médicas de emergência ou moléstias agudas.

Grupo etário: Hospital infantil: destina-se assistir pacientes com idade de até doze anos, podendo essa faixa etária máxima variar em alguns hospitais. Hospital geriátrico: destina-se a assistir pacientes idosos. Hospital de adultos: destina-se a assistir o paciente adulto.

Faculdade do exercício profissional médico:

Hospital de corpo clínico aberto: permite a qualquer médico a internação e a assistência a seus pacientes. Hospital de corpo clínico fechado: só permite o exercício da medicina àqueles médicos que compõem seu corpo clínico.

Edificação: Hospital pavilhonar: é o hospital cujos serviços se apresentam distribuído por edificações isoladas de pequeno porte, podendo ou não estar interligadas. Hospital multibloco: é o hospital cujos serviços encontram-se distribuídos por edificações de médio ou grande porte, que podem ou não estar interligadas.

Tamanho em relação ao número de leitos:

Hospital de pequeno porte: entre 25 a 49 leitos. Hospital de médio porte: entre 50 a 149 leitos. Hospital de grande porte: entre 150 a

500 leitos. Hospital de porte especial ou extra: mais de 500 leitos.

Capacidade e localização: Hospital Unidade

Integrada de Saúde ou Unidade Mista: essas unidades fora construídas para servir de ponto avançado em zonas de escassa densidade demográfica. Devem atender a uma faixa

centralizando e integrando as atividades de saúde, basicamente em clínicas médico-pediátricas, obstétricas e cirúrgicas, todas normalmente em caráter de urgência. As

Unidades Mistas, além de realizar internação, executam programas de saúde pública, contendo serviços de ambulatório, laboratório e de odontologia.

Hospital local ou de comunidade: é um hospital destinado a população igual ou superior a 20.0 habitantes, constando de unidade de internação nas áreas de clínica médica, pediátrica, obstétrica, cirúrgica em geral e pediátrica, ginecologia e obstetrícia, otorrinolaringologia, oftalmologia e traumatologia.

Hospital de base: é um hospital geral que possui entre 300 a 500 leitos. Destina-se a funcionar como centro coordenador de integração dos serviços médico-hospitalares de uma determinada área ou região, prestando assistência médico-cirúrgica e especializado e servindo de apoio aos hospitais distritais ou regionais. Além disso, o hospital de base complementa a ação dos hospitais com os quais mantém intercâmbio, formando, treinando e aperfeiçoando o pessoal hospitalar, profissional e não profissional, cooperando com a unidade sanitária no campo da saúde pública.

Hospital de ensino: é um hospital geral com a característica e função do hospital de base, destinada à formação de estudantes na área de saúde. Tem suas atividades assistenciais ajustadas ao ensino e ao treinamento, sob a responsabilidade do corpo docente da instituição. Normalmente sua capacidade é de 400 a 500 leitos. Seus objetivos principais são:

① Formação profissional;

② Pesquisa clínica e social;

③ Treinamento de graduados (aperfeiçoamento e especialização). Preparo do pessoal paramédico;

④Desenvolvimento da medicina comunitária; ⑤Preparo de pessoal paramédico.

A organização hospitalar apresenta muita semelhança com a de uma empresa de produção industrial. Essa semelhança diz respeito à estrutura formal, principalmente a administrativa que se completa com uma complexa divisão de funções, com pessoal de profissões diferentes, agrupados e estruturados, de forma a haver distribuição de trabalho e responsabilidade, constituindo-se num conjunto de atividades, gerenciada pelo administrador.

O hospital segundo Teixeira: “É uma organização que tem características próprias que o diferenciam de outras instituições; muitas áreas funcionais que são interdependentes e se interrelacionam, necessitando de um funcionamento eficiente de todos os seus componentes de maneira a compor um todo e, não um somatório de partes desagregadas”.

O hospital é uma instituição de complexa estrutura organizacional, mas acima de tudo humanitária, burocrática e altamente hierarquizada ou autoritária, mas com uma extrema divisão de trabalho, que reparte em parcelas de densidades diferentes as suas responsabilidades.

Seu objetivo principal é proporcionar cuidado adequado aos pacientes, aplicando os recursos disponíveis em tecnologia e em atividade humana. O trabalho no hospital apresenta objetivo definido.

Por isso, é visto como um sistema humano de serviço, tornando o trabalho individualizado devido à dinâmica gerada no seu planejamento. Dessa forma, depende muito de sua interação com as pessoas que cuidam dos pacientes, porque, apesar de o produto do hospital ser o paciente, o mesmo não pode ser considerado um objeto ou matéria – prima.

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